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Em busca do bom senso

Na base de nossos conceitos e preconceitos educativos, tanto leigos quanto profissionais, existem algumas idéias a respeito do que significa ser uma criança ou um adolescente neste tempo que nos levam a cometer insanidades e a esquecer totalmente o bom senso. Acreditamos, por exemplo, que crianças sabem querer e que elas têm esse direito. Mas não temos a mínima idéia de como essa concepção é capaz de criar equívocos. Vejamos: se uma criança quer dormir na cama dos pais, estes, por mais que digam que não aceitam, no contato com o filho dizem, de maneira clara, que esse querer é legítimo. Assim, milhares de crianças são privadas, todas as noites, de um sono reparador e, principalmente, de construir seu lugar em relação aos pais.

Outro exemplo é a criança pequena que só come em determinadas situações. Conheço crianças que almoçam passeando de elevador com a babá. Novamente, os pais não se dão conta de que eles autorizam -e até estimulam- tais situações. O que dizer, então, da idéia de que criança tem direito a ter respostas convincentes para tudo? São poucos os adultos que admitem responder ao filho que ele deve fazer determinada coisa simplesmente porque é necessário. A resposta dada tempos atrás, "porque sim", é agora identificada como autoritária e considerada similar à "porque é preciso". Por isso, pais e professores não consideram legítimo conduzir os mais novos a fazer coisas simplesmente porque é preciso. Eles buscam encontrar razões lógicas e, muitas vezes, se enrolam nessa empreitada. Já vi uma professora tentar convencer um aluno a escrever da esquerda para a direita sem sucesso porque a criança queria saber o porquê e a mestra não tinha uma boa resposta a dar.

E essa história de "autonomia" da criança? Temos levado isso tão a sério -ou melhor, de modo tão leviano- que abandonamos filhos e alunos em situações de endoidecer qualquer um deles. E a loucura na relação de adultos com crianças só aumenta porque, por outro lado, negamos alguns direitos básicos que elas têm em nome da proteção, em busca de evitar que sofram ou enfrentem frustrações e, principalmente, em nome da preparação delas para o futuro.

A criança tem o direito fundamental de brincar, certo ou errado? Assinalamos a segunda alternativa. Pais e professores simplesmente não permitem que a criança brinque. São eles que, agora, dirigem as brincadeiras e roubam a oportunidade de a criança criar seu jeito de brincar e de aprender a se virar sozinha em relação a essa atividade tão importante na vida dela, aliás, uma das únicas na qual deveria ter autonomia.

E o direito a participar das conversas que dizem respeito à própria criança, como sua saúde, seu comportamento, sua aprendizagem, seu castigo? Ah, isso não é coisa de criança! Ainda há médicos pediatras que pedem que a criança se retire depois do exame clínico para conversar só com o adulto; professores, diariamente, fazem observações de seus alunos aos pais destes na ausência das crianças. Em resumo: permitimos que elas falem bobagens quando não devem e impedimos que participem ativamente das conversas que efetivamente lhes dizem respeito.
Seria muito bem-vinda uma pedagogia baseada apenas no bom senso, não? Ou será que já perdemos isso?

 

Escrito por Rosely Sayão às 23h25
Declarações de amor aos filhos

Ano passado eu estava, por acaso, em frente de uma escola de educação infantil justamente no horário da chegada das crianças. Aproveitei a ocasião e fiquei observando. Vi de tudo, mas o que vem ao caso hoje foi um rápido diálogo travado entre a mãe e seu filho de pouco menos de cinco anos. Ao levar o garoto até a entrada a mãe o abraçou e beijou algumas vezes e, já saindo, olhou para trás e disse: “Filho, eu te amo!”. O garoto olhou para mãe e respondeu “Eu já sei, mãe, eu já sei, você já falou”.  Lembrei do fato ao começar a pensar e estudar a respeito do tema lançado aqui: o costume de mães chamarem seus filhos de meu amor etc.

De fato, as declarações explícitas de amor das mães aos filhos têm sido cada vez mais freqüentes. Mas, isso não é causa de nada e sim já um efeito de algumas mudanças. Vamos pensar a respeito desse contexto.

Todos os estudiosos afirmam, com razão, que vivemos uma época de laços afetivos muito frágeis. Sempre que um adulto inicia um relacionamento amoroso, em vez de entrar numa zona de segurança – o que já ocorreu décadas atrás – inaugura um período de extrema insegurança em sua vida. A fragilidade dos laços coloca sempre como iminente a quebra dele. Assim, hoje uma das únicas relações que permanece até que a morte os separe é a de pais e filhos. Nem mesmo as relações fraternas têm resistido solidamente no nosso tempo.

Essa situação provoca conseqüências e, uma delas, é que os pais – mães, principalmente – têm jogado todas as fichas na relação amorosa que têm com seus filhos, notadamente enquanto eles são pequenos, ou seja, estão sob controle dos pais, cujo amor é possessivo. Detalhe: todo amor tem essa característica, expressa de modos diferentes. Isso se expressa quando dizemos, por exemplo, “MEU amor”, “MEU filho”, “MEU querido” etc.

 Agora, vamos pensar no lado da criança. Ela precisa ser amada já que é o amor dos pais sua garantia de vida. A criança ama porque é amada, mas o amor dos pais se expressa mais por sua presença do que por suas declarações. A garantia de amor que a criança busca para saber que não será abandonada é a presença dos pais – mãe, principalmente – em sua vida. Presença que não precisa ser, necessariamente, física.

Para terminar o texto de hoje, uma provocação para reflexão: justamente quando assistimos a esse costume, cada vez mais forte, de pais explicitando seu amor aos filhos, ao mesmo tempo testemunhamos, também com freqüência crescente, pais esquecendo os filhos nos carros, atrasando bastante para buscar as crianças na escola e assim por diante.

Esses fenômenos, aproximados, dão o que pensar, não?

Escrito por Rosely Sayão às 10h16

Trânsito e cidadania

O comportamento no trânsito, de motoristas e de pedestres, anda deplorável. A todo momento, cenas lamentáveis ocorrem: motoristas insultam e ameaçam outros motoristas ou pedestres e usam o carro como se fosse uma arma. Parece uma guerra. E o problema não é só nosso: recentemente, a França realizou o "dia da cortesia no trânsito", em que manter o sangue frio em todas as circunstâncias, sobretudo nos engarrafamentos, e respeitar pedestres, crianças e ciclistas foram orientações dos "dez mandamentos da cortesia ao volante", divulgados nesse dia.

Um dos motivos desse caos é que as pessoas não entendem que o espaço que usam com seus veículos é público. Ao entrar em um carro, propriedade privada, a fronteira entre o público e o privado, que já anda tênue, parece se dissipar. Ao dirigir ou andar nas ruas, as pessoas agem como se cada uma estivesse unicamente por si: ignoram os outros ou se sentem atrapalhadas por eles. As regras e os sinais de trânsito, que existem para ordenar esse espaço público, são desrespeitados repetidamente. Há movimento intenso no entorno da escola e o filho está atrasado? Poucos pais vacilam na decisão de parar em local proibido ou em fila dupla. Poucos hesitam em fazer um retorno proibido para encurtar o caminho ou mesmo em dirigir em velocidade maior do que a permitida para chegar mais rápido.

Até parece que os sinais de trânsito são meros caprichos de um grupo desconhecido de pessoas. Ninguém mais parece entender que as leis de trânsito -aliás, como todas- existem para proteger os cidadãos, e não para agredi-los ou restringir suas vidas. Mas a questão é que o direito de cada um no caso do trânsito -a segurança- só é garantido quando ele próprio respeita as leis. Pelo jeito, o carro deixou de ser um veículo de transporte cujo objetivo é levar as pessoas de um local a outro. Virou sinônimo de poder ou de status. Uma pesquisa britânica mostrou que dois em cada três homens trocariam suas namoradas pelo carro de seus sonhos, vejam só!

A idéia de cidadania ganhou tom pejorativo por causa do individualismo, e isso pode ser constatado principalmente no trânsito. Cidadania supõe se responsabilizar pelo coletivo e, sobretudo no trânsito, o que vemos são atitudes de confronto e de competição. Creio que não é exagero afirmar que vivemos tempos de barbárie nessa questão: cada um por si, e vale tudo para atingir a meta pessoal.

Quando os adultos se comportam assim, ignoram também que colocam os mais novos em risco. São os jovens as maiores vítimas de acidentes de trânsito ou de brigas por desentendimentos com outros motoristas, pedestres ou motociclistas. Isso sem falar nas lições de incivilidade e de grosseria que são passadas a eles. E os velhos? Eles que não se atrevam a dirigir ou a andar pelas ruas. Afinal, lugar de velho e de criança não é mais na rua. Não é isso o que temos cultivado? Precisamos continuamente lembrar -e praticar- que, no trânsito, o respeito às leis e os bons modos permitem maior qualidade de vida a todos nós.

Escrito por Rosely Sayão às 00h35

Sobre rankings escolares

Qual a utilidade de um ranking de escolas? Seja fundamentado no número de alunos que passam no vestibular de determinadas faculdades ou no resultado obtido no Enem, hoje temos várias listas de classificação que destacam nos primeiros lugares algumas escolas e jogam lá para o meio ou para o final da fila tantas outras. Tais listas não têm utilidade alguma e dizem muito pouco – quase nada, para falar a verdade – sobre o valor de uma escola ou de seu modo de funcionar. Mesmo assim, elas são usadas para avaliar a qualidade de ensino praticado, seja a instituição pública ou privada.

Uma conseqüência importante que essas listas provocam, tanto para as escolas que se classificam no topo da lista quanto para as demais, tem a ver primeiramente com elas mesmas. As que se situam no topo das listas acreditam que o resultado obtido é a prova de que estão no caminho certo e que, portanto, não precisam rever seus métodos tampouco suas práticas. As demais ficam pressionadas a atingir resultados melhores e passam a procurar caminhos que lhes permitam atingir tal meta.  Ora, o trabalho que uma escola realiza não pode ser reduzido ao êxito escolar de seus alunos avaliado dessa maneira.

É que a instituição escolar não funciona como uma empresa, que precisa ser eficiente a qualquer custo. Como uma estrutura social importante, ela tem finalidades bem mais preciosas que não podem ser medidas de imediato, mas só uma ou duas décadas após o aluno sair da escola. É que, além da transmissão do saber – que exige disciplina, método, precisão e rigor, por exemplo, e isso também precisa ser ensinado – a escola tem o objetivo de ensinar o exercício da cidadania e promover a construção da autonomia. E é preciso lembrar que essas atribuições não são feitas separadamente, de modo algum!

Formar o futuro cidadão supõe ensinar e praticar valores coletivos e democráticos, ensinar a viver em grupos heterogêneos, a conviver com a diversidade, a superar preconceitos e estereótipos, a não restringir a vida social apenas a grupos de interesses convenientes, a buscar o bem comum e, principalmente, a usar o saber adquirido e atualizado constantemente em benefício de todos e não apenas próprio ou de poucos. É por isso que só sabemos o efeito que uma escola provocou quando seus alunos efetivamente se tornam cidadãos.

Desse modo, pouco importa as escolas de ensino fundamental e médio que freqüentaram os alunos que entraram em determinadas faculdades, por exemplo. Isso mostra apenas que algumas escolas instruem bem seus alunos em relação a determinadas disciplinas do conhecimento e execução de tipos de provas de avaliação. Mas, e as outras atribuições?

Queremos saber algo mais significativo a respeito do trabalho de uma escola? Vamos procurar saber em que trabalham e como anda a vida profissional dos alunos que lá se formaram uma década atrás, por exemplo. Será que trabalham apenas em busca de uma vida pessoal confortável, ou querem mais do que isso? Quando vemos uma atuação indigna de um político, seria interessante saber qual escola ele freqüentou no início da vida, não é mesmo? Afinal, é na escola que se aprende a viver politicamente e é na maturidade que a formação adquirida na escola ganha oportunidade de se expressar com consistência. Mas, não nos esqueçamos da liberdade na vida adulta: por melhor que tenha sido a formação escolar básica de uma pessoa, ao ganhar autonomia ela faz suas próprias escolhas.

O fato é que são raras as escolas de ensino fundamental e médio que têm dado conta de suas três importantes funções com seus alunos e não há ranking algum que consiga ocultar esse fato e essa questão é um problema de todos nós e não apenas de quem tem filhos em idade escolar ou trabalha em escola. Afinal, nosso futuro terá as marcas desse tipo de formação.

Escrito por Rosely Sayão às 01h03
Nenhum a menos

Tem sido muito difícil, neste admirável mundo novo, conviver com as diferenças, ter tolerância, debater idéias. O individualismo nos levou ao ponto de não suportarmos saber que há pessoas que têm idéias que divergem das nossas. O outro, símbolo das diferenças, é visto sempre como uma ameaça.

Foi o que ocorreu aqui no blog e costuma ocorrer em todos – sempre acontece, mas o alvo preferencial costuma ser o autor por expor suas idéias. Assim tem sido a vida, tanto a real quanto a virtual: cheia de grosserias, de agressividade e de intolerâncias e vazia de solidariedade, de justiça e de respeito.

Se esse nosso estilo de viver e de conviver no espaço público trouxesse conseqüências apenas para nós, adultos, o problema seria só nosso. Mas, a questão é que esse nosso modo de viver afeta muito os mais novos e compromete o futuro deles. E o nosso, na velhice. E, como estamos aqui para refletir sobre a educação, é nosso dever fazer isso com responsabilidade e coerência.

O título deste post é de um filme que recomendo que assistam. Ele conta a saga de uma professora substituta de uma escola, uma garota com apenas 13 anos, que faz de tudo, tudo mesmo, para ter todos – TODOS – seus alunos na escola. Inspirador o filme neste momento da nossa vida pública: enquanto aceitarmos ou estimularmos a exclusão de qualquer um por qualquer motivo de algum aspecto da vida pública, a existência de todos fica comprometida.

PS: Adorei quando a Sylvia escreveu que considera o blog como sua casa. Aqui é um espaço de reflexão democrática, seja ela qual for, portanto há lugar para todos. E só eu tenho a obrigação de expor idéias fundamentadas solidamente em teorias e pesquisas.  Quanto ao hábito de chamar os filhos de meu amor etc, farei em breve um texto a respeito.

PS2: Sylvia: peço que você reconsidere sua despedida, pode ser?

Escrito por Rosely Sayão às 21h38