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Criança não tem querer
Não é interessante como criamos mitos muito fortes nesta nossa época a respeito da educação e do conceito de criança que nos impedem, muitas vezes, até de refletir? Quando falei que criança não tem querer, muita gente reagiu a essa frase por considerá-la autoritária. Ocorre que essa não é uma opinião minha: é uma informação que passei/lembrei aos internautas. Mas, vamos entender melhor esse conceito.
Quando nasce um bebê, ele não reconhece o que se passa com ele e tem um único recurso para se comunicar com o mundo: o choro. Ele chora porque sente mal estar, de origem física ou não. Quando o bebê sente fome, sede, frio, calor, dor, por exemplo, ele não tem condições de entender o que se passa com ele, apenas sente desconforto e comunica, chorando, que algo não vai bem. Aí, vem a mãe – ou quem a substitui – e experimenta oferecer leite, por exemplo. Se for fome o que incomoda o bebê, o mal estar acaba e ele passa a fazer, aos poucos, tal associação: frente a determinado mal estar, chora porque sabe que a mãe pode resolver isso.
Ocorre que apenas as necessidades têm alvo certo na busca de satisfação. Quando ele tem fome é alimento que ele precisa, se tem sede é o líquido que o satisfaz, se tem frio é o agasalho. Os problemas começam quando ele chora porque sente falta de algo que não tem nada a ver com as necessidades. Aí, qualquer objeto pode satisfazer ou, ao contrário, nenhum objeto consegue dar satisfação.
Quem tem filho pequeno certamente já passou pela situação de enfrentar um querer do filho que não encontra alvo certo. Ele pede chocolate, dá uma mordidinha e desiste; pede sorvete, bala, salgadinho etc. e nada o acalma porque ele quer algo que não sabe o que é. Provavelmente ele quer amor, por isso nada resolve a demanda dele. Se a mãe, em vez de oferecer tudo o que ele pede lhe dá um beijo, por exemplo, ele pode se aquietar um pouco e parar de pedir coisas.
E é assim que os pais criam o querer na criança. Se ele quer algo que não pode e os pais vetam isso a ele, logo ele deixa de querer, mas não sem antes insistir bastante. É por isso que a frase “criança não tem querer, o querer dela é construído pelos pais e pelo meio em que vive” é corretíssima e nada autoritária. Diz respeito a uma condição humana, apenas isso. São os pais que ensinam a criança a querer, sabendo ou não quando e como fazem isso. No mundo adulto, é o mercado que ensina a querer, isso se os adultos se deixarem convencer, é claro. Se hoje a maioria dos adultos acha que “precisa” ter telefone celular, por exemplo, é porque o mercado foi eficaz em construir esse querer.
Quanto ao querer da criança, mesmo quando ela sabe - identifica - o que quer, ela não sabe se o que quer faz bem ou mal a ela. Cabe aos pais fazer essa avaliação e permitir o que faz bem e impedir o que consideram que não é bom. A avaliação é sempre dos adultos. Há algo de autoritário nisso? Não: autoritário é deixar a criança escrava de seus impulsos, sem saber lidar com eles, supondo que ela sabe querer.
Escrito por Rosely Sayão às 21h04

A “seriação” na escola de Educação Infantil
A mãe de duas garotinhas que freqüentam uma escola de educação infantil está preocupada com uma das filhas, a que tem quase quatro anos. É que a escola que a garota freqüenta considerou que ela ainda não tinha maturidade para acompanhar a mesma turma do ano passado e, em vez de freqüentar agora o que eles chamam de Jardim I, foi mantida no Maternal.
A mãe ficou ansiosa com a decisão da escola. Pergunta-se se a filha tem algum problema no desenvolvimento, se não irá sofrer por ter repetido o ano, se o fato de fazer aniversário em agosto e, por isso, ser a mais nova da turma, pode ser o fator responsável pela situação etc.
Fico perplexa com determinadas atitudes dessas escolas. E olha que falamos de escolas de ponta, ou seja, privadas e “altamente qualificadas” em seu trabalho. Será que perdemos inclusive o bom senso profissional para trabalhar com crianças pequenas?
As escolas de educação infantil criaram um problema para nossas crianças e seus pais. A seqüência que eles construíram, baseada em idades, agora se transformou em progressão curricular! Assim, uma criança só passa do maternal ao jardim I, e assim por diante, se tiver maturidade, se tiver acompanhado a turma, se tiver aprendido e apreendido determinadas regras e conteúdos, por exemplo É, vai ver – como comentou um pai que conheço – a matéria “Massinha I” é pré-requisito para a “Massinha II” e a criança que não passar na primeira não pode frequentar a segunda!
Ora, essa “seriação” das escolas de educação infantil apenas segue o modelo da escola de ensino fundamental, e isso com prejuízos para as crianças. Antes dos cinco anos, elas não precisam ser separadas por idade. A convivência de uma criança de dois anos com uma de quatro, por exemplo, é saudável, educativa e rica para ambas. Elas aprendem uma com a outra, inclusive, a ter atitudes de cuidados, respeito ao outro e solidariedade. E, vamos convir, até os cinco eles aprendem brincando e, de preferência, sem muito direcionamento da parte dos adultos nessas brincadeiras.
Temos vários modelos de escolas de educação infantil, reconhecidos internacionalmente, que não fazem mais essa separação há muito tempo. Os resultados são maravilhosos. Por que será que continuamos, aqui, a funcionar com esse modelo tão ultrapassado, careta, limitado e quadrado? Será que é isso que os pais querem para seus filhos?
Escrito por Rosely Sayão às 12h03

O mal da impaciência severa
Pelo jeito, o mundo enfrenta mais um problema sério entre tantos outros de semelhante gravidade: a impaciência severa. Dei um longo passeio pela internet e visitei muitos blogs de crianças com mais de nove anos e de adolescentes.
Em seus diários virtuais, eles contam dramas, mostram seus poemas, relatam os primeiros passos da vida amorosa e sexual e, acima de tudo, desabafam sobre os seus conflitos. Estes são os mais variados possíveis: o namorado que não telefonou no horário combinado, o professor que cometeu alguma injustiça, a reclamação sobre a amiga inseparável que passou a preferir a companhia de outra colega, isso sem falar nas fofocas sobre festas. Em meio à diversidade de estilos, tanto de texto quanto de vida, há um desabafo campeão de citações: os conflitos com os pais.
Entre as reclamação, uma se destaca: a falta de paciência dos pais. Às vezes, eles se queixam de que os pais não a têm para conversar com eles ou para ouvir o que têm a dizer a respeito de um assunto importante ou de uma bobagem qualquer. Entretanto, na maioria dos casos, as reclamações são da falta de paciência com fatos que fazem parte cotidianamente da vida de pais e filhos e que dizem respeito, por exemplo, ao horário de acordar ou de tomar banho, ao esquecimento da lição de casa, à presença de roupas sujas espalhadas pelo chão etc.
Claro que, quase sempre, os pais têm razão nas reclamações. Não é essa a questão. O que chateia os rebentos é a falta de paciência frente às suas pequenas e diárias infrações. E como eles detectam isso? Na irritação dos gestos, nos gritos, nos castigos pesados e até na indiferença dos pais.
E, por falar em indiferença, agora virou moda muitos pais explicarem o motivo da ausência na vida dos filhos adolescentes: é que "entregaram a Deus" a árdua tarefa. Passo um aviso importante: Deus anda muito ocupado para educar tantos filhos abandonados.
Mas não são só os pais que apresentam os sintomas da impaciência severa. Jovens e adultos também mostram sinais de que foram acometidos pelo mal. Falta paciência para assistir à aula na universidade, para preencher o formulário de declaração do imposto de renda, para persistir até o fim em uma tarefa, para visitar a sogra, entre tantos outros exemplos.
Há pessoas que lamentam sofrer de impaciência severa e anseiam pelo dia em que possam persistir em algo. Mas não fazem esforço algum para atingir tal objetivo! Acham que paciência cai do céu. É que a idéia de que paciência é uma virtude que precisa ser cultivada permanentemente, com perseverança, desapareceu. Escolhemos ficar com o conceito de que paciência é um dom que poucos recebem.
Quem tem filhos tem de ter paciência por pelo menos uns 16, 18 anos. E não adianta espernear, reclamar, fazer promessa, ameaçar: sem a santa paciência dos pais fica muito mais difícil conviver com os filhos, já que estes demandam tutela. É por isso que pais precisam repetir mais de mil vezes, se for o caso, que roupa suja deve ser depositada no local adequado, que é preciso tomar banho todos os dias etc.
Escrito por Rosely Sayão às 14h50

Chocolate à vontade para as crianças?
Criança, em geral, adora chocolate e doces. E, neste final de semana, elas provavelmente irão ganhar uma quantidade enorme dessas iguarias. É que os pais, os tios, os amigos próximos e até a escola, às vezes, querem fazer esse mimo para a criança. Afinal, é uma delícia dar presentes para elas, não é mesmo?
Como sabemos, as crianças não têm ainda condição de administrar suas vontades. E, quando elas se vêem frente a tantos doces e chocolates, elas começam a comer e não conseguem parar na hora certa. Por isso, são os pais que precisam fazer isso por elas. E isso não tem sido fácil já que o índice de crianças acima do peso tem aumentado e preocupado os profissionais da saúde pelas conseqüências que provoca.
Criança não tem querer: o querer dela se constrói a partir do querer dos pais – principalmente - e do ambiente em que ela vive. Se dermos uma quantidade enorme de doces para uma criança, ela passa a querer comer tudo o que tem à mão; se dermos uma quantidade pequena, ela come e, se gosta, pede mais. Só que, frente à firmeza da atitude dos pais, ela consegue ficar satisfeita com o que comeu e joga seu querer mais para depois. Isso é que é o mais importante: aprender a controlar a satisfação e a dosar em vez de buscar a saciedade completa.
Mas, e quando a criança ganha aquele montão de ovos de páscoa? Simples: os pais podem guardar – afinal, deixar aquela tentação toda com a criança e exigir que ela coma só um pouco por dia é tortura – e liberar certa quantidade a cada dia, de acordo com o que acham que é satisfatório.
Procurei ouvir médicos e nutricionistas a respeito da quantidade aceitável de chocolate para crianças. Há quase – quase! – um consenso: acima dos cinco anos, 100 gr diários de chocolate é o suficiente. Acima disso, pode – uma possibilidade – prejudicar. Abaixo dos cinco anos, eles não se pronunciam...
Mas, o importante em termos educativos, é a atitude de os pais assumirem a responsabilidade de dosar para o filho o querer dele, correto? Cada família deve tomar sua decisão a respeito da quantidade ideal ou aceitável de chocolate nestes dias.
Uma ótima Páscoa a todos que a comemoram.
Beijos a todos.
Escrito por Rosely Sayão às 16h16

Filhos restringem a liberdade dos pais
Gosto de trabalhar com o conceito de liberdade como escolha. Ser livre é poder escolher entre fazer uma coisa ou não fazer, ser livre é poder decidir entre várias opções ou, pelo menos, entre duas. Quem não tem escolha não é livre já que só tem um caminho a trilhar, certo?
Pois uma coisa que é preciso pensar quando se tem filhos é que, depois deles, os pais perdem muito de sua liberdade. Essa perda é temporária, mas ocorre. É que a responsabilidade com os filhos limita algumas escolhas. Falo isso porque outro dia, ao ir jantar com amigos depois de um trabalho à noite – ou seja, jantamos depois das 23 hs – cruzamos no restaurante com duas mesas com casais e seus filhos pequenos, com menos se seis anos.
Aliás, tem sido cada vez mais comum encontrarmos crianças acompanhando seus pais em locais e horários próprios para adultos. O exemplo que dei é apenas um entre tantos. Já vi crianças com menos de um mês com a mãe no shopping, já encontrei pai praticando esporte radical com o filho, que chorava desesperadamente enquanto esperava o pai voltar da cachoeira, já vi pais com seus amigos bebericando e conversando no bar, no início da madrugada, com os filhos junto.
Nessas horas, penso que os adultos querem ter tudo ao mesmo tempo: querem filhos, querem aproveitar tudo da vida, querem fazer carreira, querem, querem, querem. Na verdade, não querem abrir mão da liberdade, não é isso?
Mas, tornar-se mãe ou pai já é uma escolha: as pessoas podem decidir ter ou não ter filhos. O problema é que, cada vez que fazemos uma escolha, precisamos arcar com os ônus dela. Assim é com os filhos. Noites mal dormidas, preocupações constantes, mudanças de horários e prioridades, por exemplo, são conseqüências da decisão de ter filhos. E é preciso arcar com elas.
Não dá para casar e manter a vida de solteiro, assim como não dá para ter filhos e viver como se não os tivesse. Os pais precisam fazer pequenas renúncias, cotidianamente, quando têm filhos. E com tranqüilidade. Isso, mais do que qualquer outra coisa, mostra aos próprios filhos a importância deles na vida dos pais. E é assim que a convivência entre pais e filhos melhora e a educação também.
Escrito por Rosely Sayão às 10h53
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