Computando seu voto...
Carregando resultado
Este blog é atualizado às segundas, quartas e sextas.
Visitas
| | |
Lidando com a morte
Um leitor enviou uma correspondência muito instigante a respeito de uma discórdia que ele e a mulher têm. Na opinião dele, não há problema em levar a filha, que tem seis anos, para conhecer um cemitério, já que ela manifestou a curiosidade. Já a mãe acha que essa experiência pode acontecer mais tarde.
Faz muito sentido, na atualidade, a resistência dessa mãe. Temos feito de tudo para retirar a morte de cena, principalmente para as crianças. O fato é que fazemos de conta que morrer não é o nosso destino. O interessante é que não evitamos outros tipos de angústia para as crianças com a convicção de que são questões pertinentes só aos adultos. Não vivemos perguntando a elas: "O que você quer ser quando crescer?" Não afirmamos que, se elas não se dedicarem ao estudo, terão dificuldades na vida? Não fazemos de tudo para que aprendam a se cuidar -ensinando a higiene dos dentes, por exemplo- para garantir saúde e qualidade de vida mais adiante?
Ora, o que fazemos ao dizer essas coisas a não ser anunciar para a criança que o futuro a espera? Pois a morte faz parte desse futuro, próximo ou não. Amanhã ou depois, a criança se defrontará com ela, seja pela perda de alguém conhecido, seja no medo da própria morte. O maior problema é que a idéia de morte nos revela sentimentos dolorosos e não queremos que as crianças sofram com isso. Aliás, não queremos, nós mesmos, passar por dissabores nos lembrando de nossa finitude e de nossas perdas.
A questão é que nossos medos e negações se convertem em pesadelos na vida das crianças. Por isso, pais e mães interferem nas leituras da escola por acreditarem que algumas histórias causam noites mal dormidas, medo e angústia. Mas é a vida que provoca tudo isso, e não é possível escolher viver apenas parte dela. Como somos pressionados a garantir a nossa felicidade e a dos filhos, fazemos de tudo para evitar sentimentos dolorosos, para nós e para eles. Não é à toa que vivemos na era das "pílulas mágicas" e a elas recorremos sempre que somos acometidos por dor ou mal-estar.
O que pode acontecer a uma criança se ela for colocada diante da morte? Não sabemos, e nosso problema é pensar que sabemos, fazer previsões e planejar proteção. E é desse modo que arrancamos das crianças muitas possibilidades vitais. Uma delas é a de que tenham oportunidade de pôr em palavras o que sentem e pensam; outra, a de experimentarem certas emoções e se mobilizarem para fazer frente a elas.
Ao visitar um cemitério ou mesmo ao participar de um velório, a criança pode entrar em contato com emoções diversas: dor, desespero, serenidade, tristeza, revolta, saudades, amor, solidariedade, compaixão. E é bom lembrar que todas elas fazem parte da vida.
Cemitério é um lugar que estimula lembranças, que conta histórias, que lembra o passado e o futuro. Por isso, pode ser, sim, lugar para criança. O mais importante, ao acompanhá-la nessa aventura, é disponibilidade para, de fato, ouvir o que ela tem a perguntar e a dizer, estar disposto a enfrentar o imprevisível na relação com ela.
Escrito por Rosely Sayão às 23h17

Oportunidades para educar
Vi uma cena que achei maravilhosa na rua. Um pai estava andando com a filha, de mais ou menos seis anos, bem à minha frente. Ela acabara de sair da escola porque o pai carregava a mochila dela. Por sinal, parecia bem pesada para a idade da garota. Bem, ao passarem em frente de um ambulante que vendia doce, a garota empacou. Queria uma cocada de qualquer maneira.
O pai, bem paciente e tranqüilo, respondeu que não. Aí, a garota armou um pequeno show: fez beicinho, choramingou, bateu os pés e disse que não queria ir para casa andando.
O pai teve uma reação maravilhosa. Perguntou à filha:
- Por que você está fazendo isso?
- Porque eu quero uma cocada.
-Isso eu já sei e você também já sabe que agora não vai dar. Então, por que fazer o que você está fazendo? Você pode muito bem só ficar chateada; na sua idade isso já chega, não? Eu dei um bom motivo para você entender porque você não vai comer doce agora: está perto da hora do jantar. Você acha que esse seu comportamento me dá um bom motivo para você comer o doce?
Falou, pegou na mão da menina e saiu andando com ela com a mesma serenidade de antes. Esse pai aproveitou muito bem a oportunidade que teve e pode até não saber, mas com sua atitude e com o diálogo simples que estabeleceu com a filha passou boas e importantes lições a ela.
Ele ensinou que passar vontade chateia, mas não faz mal; ensinou também que alguns comportamentos não têm relação alguma com o que se busca, por isso são desnecessários; e; finalmente, passou a idéia de que é possível escolher como se comportar.
Está certo que esse pai passará pelo menos mais uns 10 anos ensinando a mesma coisa para a filha, mas ele está num bom caminho para fazer isso. O futuro agradece atitudes como a desse pai e as de muitos internautas que deixam aqui seus depoimentos.
Escrito por Rosely Sayão às 14h06

Pais amigos
Alguns pais – talvez muitos, hoje em dia – fazem de tudo para se tornarem amigos dos filhos. Uma internauta observou esse fenômeno e pediu um post a esse respeito.
Creio que desde a década de 70 que essa mania de os pais serem amigos de seus filhos já existe. No início, era pequeno o grupo de pais que ousava ter essa postura. As razões foram bem interessantes: filhos de pais distantes do mundo dos filhos e autoritários em seu modo de ser, estavam dispostos agora a recriar a relação com seus filhos, dando um toque de intimidade e proximidade a essa relação.
Mas, como bem sabemos, de boas intenções o inferno está cheio, não é mesmo? O que parecia ser uma boa promessa transformou-se em um grande problema. Por quê?
Porque, ao mesmo tempo em que esses pais tentavam ser diferentes, o mundo adulto foi invadido pela idéia da juventude eterna. Os adultos foram profundamente influenciados por esse traço da cultura e passaram a assumir um perfil jovem de ser na própria vida.
Isso atrapalhou bastante a idéia desses pais que tentavam ser mais próximos dos filhos. Eu ouso dizer que o que eles queriam, na verdade, seria se colocarem como pais amigos mas, como passaram a se comportar como jovens, a idéia de pai acabou suprimida e ficou só a de amigo, companheiro, parceiro.
O problema é que essa atitude leva crianças e jovens – estes, principalmente – a uma solidão assustadora: a solidão provocada pela ausência dos pais.
Ser mãe amiga ou pai amigo pode significar a criação de um vínculo que expresse um real interesse pela vida dos filhos: querer ouvir o que eles pensam da vida, valorizar o que é importante para eles, procurar saber de suas angústias e dificuldades, acompanhar suas aventuras e desventuras escolares com paciência e generosidade, encorajá-los quando se defrontam com suas fraquezas, exigir sem pressionar, bancar com firmeza a teimosia e a rebeldia deles e encarar as bobagens que eles curtem com tranqüilidade e humor.
Já quando os pais resolvem ser amigos do filho, isso pode se revelar em relação de cumplicidade, em troca de intimidade, em conselhos do tipo “se eu fosse você...”, em ausência de orientação, em curtição conjunta. E isso não costuma terminar bem.
Para quem quer pensar um pouco mais a esse respeito, indico um filme: “A lula e a baleia”. Aliás, aproveito para informar que todos os filmes que menciono aqui já estão disponíveis nas locadoras, ok?
Escrito por Rosely Sayão às 12h04

Educação e desenvolvimento cultural
Na semana passada, estive na Sala São Paulo para assistir a um concerto de música clássica. Faço isso sempre que posso porque ouvir boa música, envolver-se com as emoções que ela transmite e deixar a sensibilidade aflorar é, realmente, uma injeção de ânimo que ajuda a enfrentar a vida tão dura que temos.
Sempre que lá compareço, procuro com atenção a presença de crianças e de adolescentes. Nada. Uma noite, no ano passado, me entusiasmei ao ver uma mulher com seu filho de uns nove anos, mais ou menos. Eu me aproximei para tentar conversar com essa mãe e saber dos motivos dela para tomar a decisão de levar o filho a tal programa. Ao chegar perto do grupo em que ela conversava e ouvir algumas palavras, desisti de minha intenção: eles falavam outra língua e deu para perceber que mãe e filho eram estrangeiros.
Depois de um ano de busca de crianças e adolescentes nesse tipo de espetáculo, decidi escrever a esse respeito. Sabem a impressão que tenho? Que, aqui no Brasil, música clássica é proibida para menores de 20 anos.
Por que não arriscamos apresentar às crianças e aos adolescentes a música clássica? Fiz essa pergunta para algumas mães que costumam sair com seus filhos. A maioria respondeu que nunca havia considerado essa possibilidade, talvez por esquecimento. Algumas disseram que esse tipo de programa deve ser chato para crianças. Uma outra disse que o filho não agüentaria ficar em silêncio e parado durante a apresentação. A mãe de dois adolescentes – entre 14 e 16 anos – respondeu que, nessa idade, eles já têm suas preferências musicais e que ela não tinha o direito de influenciar nisso e obrigá-los a ouvir o que não gostam.
Por que será que temos esse constrangimento com os mais novos? Afinal, entrar em uma sala e ouvir, do começo ao fim, uma apresentação desse tipo só pode acrescentar coisas boas a eles: ajuda a focar a atenção em uma única coisa e a se concentrar, inspira novas emoções, estimula a diversificação do gosto, isso sem falar que oferece possibilidade de escolha a eles.
Creio que subestimamos nossas crianças e jovens: eles poderiam, sim, desenvolver gosto por música erudita. Nós é que não acreditamos nisso. E, desse jeito, deixamos que o gosto deles seja influenciado apenas pelo mercado, não é verdade?
Mas eles bem que merecem conhecer coisa melhor do que unicamente a ofertada por esse mercado, cujo único interesse é puramente comercial. Quem deve ter interesse em formar pessoas com gosto e senso estético crítico somos nós, os educadores. Vamos fazer a nossa parte no que diz respeito ao desenvolvimento cultural dos mais novos, vamos?
Escrito por Rosely Sayão às 09h39
|