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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher, de 56 a 65 anos, Portuguese

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Oportunidades para educar

Vi uma cena que achei maravilhosa na rua. Um pai estava andando com a filha, de mais ou menos seis anos, bem à minha frente. Ela acabara de sair da escola porque o pai carregava a mochila dela. Por sinal, parecia bem pesada para a idade da garota. Bem, ao passarem em frente de um ambulante que vendia doce, a garota empacou. Queria uma cocada de qualquer maneira.

O pai, bem paciente e tranqüilo, respondeu que não. Aí, a garota armou um pequeno show: fez beicinho, choramingou, bateu os pés e disse que não queria ir para casa andando.

O pai teve uma reação maravilhosa. Perguntou à filha:

- Por que você está fazendo isso?

- Porque eu quero uma cocada.

-Isso eu já sei e você também já sabe que agora não vai dar. Então, por que fazer o que você está fazendo? Você pode muito bem só ficar chateada; na sua idade isso já chega, não? Eu dei um bom motivo para você entender porque você não vai comer doce agora: está perto da hora do jantar. Você acha que esse seu comportamento me dá um bom motivo para você comer o doce?

Falou, pegou na mão da menina e saiu andando com ela com a mesma serenidade de antes. Esse pai aproveitou muito bem a oportunidade que teve e pode até não saber, mas com sua atitude e com o diálogo simples que estabeleceu com a filha passou boas e importantes lições a ela.

Ele ensinou que passar vontade chateia, mas não faz mal; ensinou também que alguns comportamentos não têm relação alguma com o que se busca, por isso são desnecessários; e; finalmente, passou a idéia de que é possível escolher como se comportar.

Está certo que esse pai passará pelo menos mais uns 10 anos ensinando a mesma coisa para a filha, mas ele está num bom caminho para fazer isso. O futuro agradece atitudes como a desse pai e as de muitos internautas que deixam aqui seus depoimentos.

Escrito por Rosely Sayão às 14h06
Pais amigos

Alguns pais – talvez muitos, hoje em dia – fazem de tudo para se tornarem amigos dos filhos. Uma internauta observou esse fenômeno e pediu um post a esse respeito.

Creio que desde a década de 70 que essa mania de os pais serem amigos de seus filhos já existe. No início, era pequeno o grupo de pais que ousava ter essa postura. As razões foram bem interessantes: filhos de pais distantes do mundo dos filhos e autoritários em seu modo de ser, estavam dispostos agora a recriar a relação com seus filhos, dando um toque de intimidade e proximidade a essa relação.

Mas, como bem sabemos, de boas intenções o inferno está cheio, não é mesmo? O que parecia ser uma boa promessa transformou-se em um grande problema. Por quê?

Porque, ao mesmo tempo em que esses pais tentavam ser diferentes, o mundo adulto foi invadido pela idéia da juventude eterna. Os adultos foram profundamente influenciados por esse traço da cultura e passaram a assumir um perfil jovem de ser na própria vida. 

Isso atrapalhou bastante a idéia desses pais que tentavam ser mais próximos dos filhos. Eu ouso dizer que o que eles queriam, na verdade, seria se colocarem como pais amigos mas, como passaram a se comportar como jovens, a idéia de pai acabou suprimida e ficou só a de amigo, companheiro, parceiro.

O problema é que essa atitude leva crianças e jovens – estes, principalmente – a uma solidão assustadora: a solidão provocada pela ausência dos pais.

Ser mãe amiga ou pai amigo pode significar a criação de um vínculo que expresse um real interesse pela vida dos filhos: querer ouvir o que eles pensam da vida, valorizar o que é importante para eles, procurar saber de suas angústias e dificuldades, acompanhar suas aventuras e desventuras escolares com paciência e generosidade, encorajá-los quando se defrontam com suas fraquezas, exigir sem pressionar, bancar com firmeza a teimosia e a rebeldia deles e encarar as bobagens que eles curtem com tranqüilidade e humor.

Já quando os pais resolvem ser amigos do filho, isso pode se revelar em relação de cumplicidade, em troca de intimidade, em conselhos do tipo “se eu fosse você...”, em ausência de orientação, em curtição conjunta. E isso não costuma terminar bem.

Para quem quer pensar um pouco mais a esse respeito, indico um filme: “A lula e a baleia”. Aliás, aproveito para informar que todos os filmes que menciono aqui já estão disponíveis nas locadoras, ok?

Escrito por Rosely Sayão às 12h04
Educação e desenvolvimento cultural

Na semana passada, estive na Sala São Paulo para assistir a um concerto de música clássica. Faço isso sempre que posso porque ouvir boa música, envolver-se com as emoções que ela transmite e deixar a sensibilidade aflorar é, realmente, uma injeção de ânimo que ajuda a enfrentar a vida tão dura que temos.

Sempre que lá compareço, procuro com atenção a presença de crianças e de adolescentes. Nada. Uma noite, no ano passado, me entusiasmei ao ver uma mulher com seu filho de uns nove anos, mais ou menos. Eu me aproximei para tentar conversar com essa mãe e saber dos motivos dela para tomar a decisão de levar o filho a tal programa. Ao chegar perto do grupo em que ela conversava e ouvir algumas palavras, desisti de minha intenção: eles falavam outra língua e deu para perceber que mãe e filho eram estrangeiros.

Depois de um ano de busca de crianças e adolescentes nesse tipo de espetáculo, decidi escrever a esse respeito. Sabem a impressão que tenho? Que, aqui no Brasil, música clássica é proibida para menores de 20 anos.

Por que não arriscamos apresentar às crianças e aos adolescentes a música clássica? Fiz essa pergunta para algumas mães que costumam sair com seus filhos. A maioria respondeu que nunca havia considerado essa possibilidade, talvez por esquecimento. Algumas disseram que esse tipo de programa deve ser chato para crianças. Uma outra disse que o filho não agüentaria ficar em silêncio e parado durante a apresentação.  A mãe de dois adolescentes – entre 14 e 16 anos – respondeu que, nessa idade, eles já têm suas preferências musicais e que ela não tinha o direito de influenciar nisso e obrigá-los a ouvir o que não gostam.

Por que será que temos esse constrangimento com os mais novos? Afinal, entrar em uma sala e ouvir, do começo ao fim, uma apresentação desse tipo só pode acrescentar coisas boas a eles: ajuda a focar a atenção em uma única coisa e a se concentrar, inspira novas emoções, estimula a diversificação do gosto, isso sem falar que oferece possibilidade de escolha a eles.

Creio que subestimamos nossas crianças e jovens: eles poderiam, sim, desenvolver gosto por música erudita. Nós é que não acreditamos nisso. E, desse jeito, deixamos que o gosto deles seja influenciado apenas pelo mercado, não é verdade?

Mas eles bem que merecem conhecer coisa melhor do que unicamente a ofertada por esse mercado, cujo único interesse é puramente comercial. Quem deve ter interesse em formar pessoas com gosto e senso estético crítico somos nós, os educadores. Vamos fazer a nossa parte no que diz respeito ao desenvolvimento cultural dos mais novos, vamos?

Escrito por Rosely Sayão às 09h39

Mulher e Família

A década de 1950 deixou um legado interessante: a idéia de que a configuração familiar prevalente naquela época é o melhor retrato de uma família saudavelmente organizada. Estruturada, como se diz.

O modelo teve seu apogeu naquela década e nunca mais -até hoje, pelo menos- conseguiu resgatar tal prestígio, a não ser no imaginário de nossa sociedade. Que modelo é esse? Um homem e uma mulher se uniam pelo casamento e juntos ficavam até que a morte dissolvesse a relação. Dessa união, nasciam vários filhos, que permaneciam com os pais até conseguirem autonomia de vida.

O sustento da família era garantido pelo homem. A mulher podia trabalhar, mas preferencialmente em regime de tempo parcial. Afinal, a função mais importante da vida dela era prover a família. Ao homem, cabia abastecer a parte material. À mulher, a parte estrutural (educativa, emocional, social etc.). A mulher era o esteio da família em tudo, menos na questão financeira. Tal dedicação tinha seu fruto: a garantia de permanência de seu lugar e, portanto, de sua segurança. Uma boa troca?

Na época, parecia que sim. As mulheres não hesitavam em sacrificar seus anseios pessoais para constituir uma família. E, vamos reconhecer: os ônus não eram pequenos.

As mulheres não esperavam encontrar no casamento realização sexual nem afetiva, por exemplo. E isso significava a anulação dessas possibilidades. O casamento durava até que a morte os separasse, lembram-se? Infidelidade? Essa palavra só tinha uma outra que a acompanhava: masculina. Na verdade, os homens também não esperavam encontrar tais condições no casamento. Mas a busca por satisfação sexual sempre lhes foi assegurada.

Carreira profissional era um sonho que não fazia parte das aspirações da maioria das mulheres. Independência financeira, então, nem pensar! Ter filhos era uma questão ainda sem controle. Quem disse que uma mulher poderia se sentir realizada como mãe quando já tivesse dois filhos, por exemplo? Não, os métodos de controle da natalidade ainda eram muito incipientes. Mas uma coisa é certa: até então, ser mãe não era ainda um papel com excessivas exigências. Bastava ser paciente para fazer o que fosse preciso: cuidar de sua prole até que ela pudesse se cuidar.

Pensando bem, por que é que as mulheres temiam tanto "ficar para titia"? Pela insegurança do seu lugar fora de uma relação estável e socialmente aceita com um homem como era o casamento. Os anos dourados foram, para a mulher, uma camisa-de-força banhada em ouro -brilhante, mas falsa.

Mal os anos 50 terminaram, tudo passou a mudar para as mulheres. Partes dessas mudanças podem ser creditadas à própria luta delas, em movimentos organizados ou não. Partes delas ocorreriam independentemente dessa luta. Afinal, a organização social, cultural, política e econômica mudou de modo globalizado, os costumes e os comportamentos foram democratizados.
A partir dos anos 60, a mulher pôde controlar a natalidade de forma eficaz e adaptar o sonho de ser mãe ao tamanho de suas possibilidades, pôde buscar o prazer sexual mais livremente, pôde se relacionar amorosamente com poder de escolha, pôde decidir se queria ou não casar e constituir família. E o casamento deixou de ser para sempre, já que o divórcio permitia novas chances.

Pois é: a bela quase adormecida acordou, seduzida pelo beijo que trazia novas promessas. Ser dona-de-casa, mãe e esposa não era mais sua única possibilidade na busca por reconhecimento pessoal e social. A mulher ganhara ou conquistara, não faz diferença, mais liberdade: podia escolher também ser profissional em qualquer ramo do conhecimento.

Além disso, ela pôde dirigir para si mesma boa parte da energia que ia quase toda à família: ela passou a querer se cuidar, a não deixar seu corpo entregue aos caprichos da natureza. Aqui, cabe uma nota: não podemos esquecer que as ideologias do consumo, da busca da felicidade e da manutenção da juventude colaram na mulher nesse período e, portanto, suas decisões sofreram -e sofrem - suas influências.

Nesses novos tempos, a mulher experimenta e arrisca. E uma das conseqüências imediatas dessa transformação é a mudança da cara da família. O novo comportamento remexe com a família toda. Na busca -quase desesperada- de fazer valer seus direitos, ela casa, busca fazer carreira profissional, apaixona-se, descasa, casa novamente, tem filhos antes, durante e/ou após um casamento ou até mesmo fora dele. Como resultado, a configuração familiar e o modo de se relacionar se multiplicam.

Sem dúvida, a contribuição da mulher para tantas alterações na família é decisiva. Não sei se foi a mais importante, mas foi crucial. Por quê?

Em primeiro lugar, porque, ao deixar de ser submissa aos padrões do papel anteriormente estabelecido para ela, a mulher passa a ter condições de priorizar seus anseios. O que era oportunidade se transformou em problema. Priorizar significa escolher, renunciar. E quem disse que a bela que acabara de acordar de um sono de renúncias queria voltar a renunciar? Não! Depois de tantas privações, a mulher tentou abraçar tudo: casamento, filhos, carreira, amor, tesão etc. E mais: a tudo quis se dedicar com quase perfeição. De bela quase adormecida a mulher bela e superpoderosa. Uma boa troca? Pelo jeito, ainda não.

Nunca as conversas das mulheres -com os outros ou consigo mesmas- foram tão povoadas por palavras como culpa, desencanto, solidão, depressão, angústia, insatisfação. Será que trocamos a camisa-de-força dourada por uma invisível? Afinal, a mulher deixou de ser submissa ao pai, ao marido e aos padrões sociais e passou a ser escrava de suas paixões, de seus impulsos e caprichos e das múltiplas pressões.

Na relação com a família, uma inversão: quem já foi para ela seu principal esteio agora procura nela seu sustentáculo. Isso quer dizer que a família vai bem, obrigada, por mais que digam o contrário. E a mulher, como vai? Bem obrigada... Por enquanto.

Escrito por Rosely Sayão às 16h16
As emoções do vínculo entre pai e filhos

Um pai fez um comentário muito interessante a respeito da relação dele com os filhos. Ele tem um casal, hoje com sete e 10 anos. A história que originou o comentário que fez é bem saborosa.

Quando eles eram pequenos, combinou com os dois um piquenique no fim de semana, num terreno que acabara de comprar e que só tinha um quarto de despejo com ferramentas, um fogareiro e poucos utensílios de cozinha e um banheiro bem simples.   Ah: e uma horta, que ele cultivava com carinho. Passariam o domingo lá porque a mãe tinha de fazer uma viagem rápida para ver seu pai.

A empregada da família preparou um belo lanche e lá foram eles, animadíssimos com a aventura. Detalhe importante: levaram junto o cachorro de estimação, de porte grande, por sinal. O problema começou quando lá chegaram e chovia demais: não estava no programa. Bem, entre uma coisa e outra, um incidente: o cachorro descobre o lanche e o come todo. E ai? A chuva era intensa e o pai achou que não dava para encarar a estrada de terra nessas condições; as crianças, que estavam com fome e sem espaço para brincar, começaram a reclamar.

Nesse momento o pai lembrou-se que, da última vez que estivera lá, deixara um pacote de miojo no armário. Foi até a horta, pegou uma cenoura e um pouco de cheiro-verde, e fez o que chamou de “miojo no copo”. Pois até hoje as crianças guardam essa lembrança com carinho e, de vez em quando, pedem ao pai que faça o tal “miojo no copo”.

O comentário do pai: “Fiz tantas coisas que considero maiores que essa, e eles nem se lembram mais. Mas, do miojo no copo, eles não esquecem.”

Aí está: nunca saberemos o que, de fato, vai marcar a memória afetiva dos filhos. Mas, uma coisa é certa: o que mais importa a eles não é o que os pais fazem e o que eles dão, mas como eles fazem e como dão. A disponibilidade e a entrega dos pais – ou a ausência delas – é sentida, percebida por eles.

É bem provável que, nesse dia, esse pai estivesse de tal maneira absorto na relação com os filhos e com a situação que acabou por criar – sem mesmo saber – um momento intenso entre eles. O “miojo no copo” é apenas um símbolo que serve para as crianças reviverem aquela emoção.

Bonita história, não é?

Escrito por Rosely Sayão às 16h50
Páginas Imorais da Vida

Adorei ler o que a Sylvia postou a respeito de assistir a filmes e a programas de televisão com os sobrinhos e seus amigos e conversar com eles a respeito. Essa é uma excelente maneira de transmitir valores, de ensinar aos mais novos como se argumenta com solidez e coerência, de mostrar capacidade de análise crítica e de colaborar para o aprimoramento do gosto. Gosto se educa!

Fiz essa introdução para comentar o capítulo de ontem da novela Páginas da Vida. Assisti e fiquei perplexa ao perceber um conceito transmitido: o de que a moral vale até o ponto em que pode afetar a pessoa. Daí em diante vale só na teoria, não é mais valor a ser praticado.

Isso ocorreu em um diálogo entre os personagens interpretados por Tarcísio Meira e o de José Mayer. Pelo que entendi, um roubou o outro e a filha do lesado atirou no primeiro, que era marido dela. Aí, no diálogo aparece o que cometeu o desfalque chantageando o pai da tresloucada e este cedendo à pressão já que, caso não cedesse, poderia ter o próprio nome, ou o da filha, na “lama”, como disse ele.

Que moral é essa? A que temos praticado cotidianamente em nossas vidas e que temos ensinado aos mais novos, que observam muito bem os nossos atos. Apesar de ser bem difícil de admitir, é assim que temos nos comportado.

Não queremos que ninguém estacione o carro em frente à saída de nossa garagem, mas não hesitamos em parar “só dois minutinhos” na frente da garagem dos outros para deixar o filho na escola; não queremos que atirem em nós, mas armamos os seguranças de nosso bairro, de nossa casa, de nossa empresa; não queremos pisar em cocô de cachorro nas ruas, mas levamos nossos animais de estimação passearem para que façam suas necessidades e não recolhemos. Esses são apenas alguns exemplos banais, mas há atitudes que tomamos muito mais sérias.

O problema é que as leis existem para proteger a todos e não apenas a alguns. E, quando transgredimos uma lei ou cometemos uma contravenção, colaboramos para a quebra dessa rede de proteção e cometemos atos imorais.

Essa novela mostrou muito bem esse comportamento incoerente nos personagens centrais da trama. A personagem de Regina Duarte, tão boazinha, tão moralizante com os outros, pactua com uma mentira, por exemplo, e assim mostra falta de moralidade pessoal. Afinal, que valor tem a moral para mim se eu mesma não a pratico?

Tais comportamentos, bem atrelados à ideologia do individualismo, não podem resultar em um futuro melhor para nossos filhos. E queremos que eles tenham essa possibilidade, não queremos?
 

Escrito por Rosely Sayão às 17h20

A luta contra o envelhecimento

Uma nota e uma reportagem que li nos últimos dias me chamaram muito a atenção. Numa nota pequena, soube que uma mulher com menos de 40 anos morreu após passar por uma intervenção cirúrgica estética. Essas tragédias ocorrem cada vez mais porque, entre outros motivos, o número desse tipo de cirurgia cresce assustadoramente. Mas o que me chamou a atenção não foi esse fato em si, e sim uma situação coadjuvante: a mulher estava em tratamento de síndrome do pânico, de acordo com informações.

Creio que isso quer dizer que ela teve de superar enormes dificuldades pessoais para se submeter a essa cirurgia. Outra reportagem que me fez pensar, principalmente se associada à primeira, foi a respeito da opinião de atrizes que não são jovens sobre a plástica como recurso também para manter as chances no mercado de trabalho.

De novo, uma frase do texto se destacou. Uma atriz contou que a primeira pergunta feita por telefone por diretores em fase de formação de elenco é: "Você está bonita?" Não é coincidência que os personagens dessas reportagens sejam todos do gênero feminino. Mas esse reinado está com os dias contados. Não é mais apenas a mulher que está submetida a um padrão rígido de modelo de corpo: a anorexia tem atingido cada vez mais os homens. Quero abordar, entretanto, outra questão hoje: a recusa da aparência da velhice.

Vivemos um absurdo. O avanço das ciências tem contribuído para o aumento da longevidade e, como resultado, a população está envelhecendo. O problema é que envelhecemos, mas não podemos mostrar nossa velhice. Aí está nossa maior contradição: queremos viver mais, sim, mas envelhecer tem sido intolerável. Nossos cabelos brancos precisam ser coloridos, nossas rugas, atenuadas, nossa flacidez, tratada e a gordura localizada, extraída. Precisamos manter energia, vigor e agilidade. Tudo isso custe o que custar, em todos os sentidos.

Quem ganha com essa idéia de vida? O mercado, claro, que vende de tudo para dissimular os sinais da degradação do corpo: cosméticos de todos os tipos, técnicas de dermatologia, nutrição especializada, cirurgias plásticas, pílulas dos mais variados tipos etc. O conceito de saúde na velhice passou a ser associado à idéia de juventude. E o mais cruel: compramos também a idéia de que só envelhece quem quer, ou seja, só fica velho quem não investe pesadamente nesse aparato todo para aparentar jovialidade. Quem não se compromete com esse estilo está condenado ao ostracismo. Assim, a responsabilidade -melhor dizendo, a culpa- pelo envelhecimento, pela decadência física inevitável, pelos sinais do tempo é pessoal. Que ilusão!

Enquanto vivemos com essa ilusão, construímos uma sociedade que não aceita o velho, que não se modifica para reconhecer essa fase da vida. Nosso espaço público não acolhe os velhos; ao contrário, os exclui. No Brasil, não temos ainda o hábito de confiná-los em asilos. Aqui, eles têm sido confinados em suas próprias casas. E tem sido esse o conceito de velhice que temos transmitido às crianças e aos jovens. Não será bom parar para pensar no que isso pode dar?

Escrito por Rosely Sayão às 18h40