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Páginas Imorais da Vida
Adorei ler o que a Sylvia postou a respeito de assistir a filmes e a programas de televisão com os sobrinhos e seus amigos e conversar com eles a respeito. Essa é uma excelente maneira de transmitir valores, de ensinar aos mais novos como se argumenta com solidez e coerência, de mostrar capacidade de análise crítica e de colaborar para o aprimoramento do gosto. Gosto se educa!
Fiz essa introdução para comentar o capítulo de ontem da novela Páginas da Vida. Assisti e fiquei perplexa ao perceber um conceito transmitido: o de que a moral vale até o ponto em que pode afetar a pessoa. Daí em diante vale só na teoria, não é mais valor a ser praticado.
Isso ocorreu em um diálogo entre os personagens interpretados por Tarcísio Meira e o de José Mayer. Pelo que entendi, um roubou o outro e a filha do lesado atirou no primeiro, que era marido dela. Aí, no diálogo aparece o que cometeu o desfalque chantageando o pai da tresloucada e este cedendo à pressão já que, caso não cedesse, poderia ter o próprio nome, ou o da filha, na “lama”, como disse ele.
Que moral é essa? A que temos praticado cotidianamente em nossas vidas e que temos ensinado aos mais novos, que observam muito bem os nossos atos. Apesar de ser bem difícil de admitir, é assim que temos nos comportado.
Não queremos que ninguém estacione o carro em frente à saída de nossa garagem, mas não hesitamos em parar “só dois minutinhos” na frente da garagem dos outros para deixar o filho na escola; não queremos que atirem em nós, mas armamos os seguranças de nosso bairro, de nossa casa, de nossa empresa; não queremos pisar em cocô de cachorro nas ruas, mas levamos nossos animais de estimação passearem para que façam suas necessidades e não recolhemos. Esses são apenas alguns exemplos banais, mas há atitudes que tomamos muito mais sérias.
O problema é que as leis existem para proteger a todos e não apenas a alguns. E, quando transgredimos uma lei ou cometemos uma contravenção, colaboramos para a quebra dessa rede de proteção e cometemos atos imorais.
Essa novela mostrou muito bem esse comportamento incoerente nos personagens centrais da trama. A personagem de Regina Duarte, tão boazinha, tão moralizante com os outros, pactua com uma mentira, por exemplo, e assim mostra falta de moralidade pessoal. Afinal, que valor tem a moral para mim se eu mesma não a pratico?
Tais comportamentos, bem atrelados à ideologia do individualismo, não podem resultar em um futuro melhor para nossos filhos. E queremos que eles tenham essa possibilidade, não queremos?
Escrito por Rosely Sayão às 17h20

A luta contra o envelhecimento
Uma nota e uma reportagem que li nos últimos dias me chamaram muito a atenção. Numa nota pequena, soube que uma mulher com menos de 40 anos morreu após passar por uma intervenção cirúrgica estética. Essas tragédias ocorrem cada vez mais porque, entre outros motivos, o número desse tipo de cirurgia cresce assustadoramente. Mas o que me chamou a atenção não foi esse fato em si, e sim uma situação coadjuvante: a mulher estava em tratamento de síndrome do pânico, de acordo com informações.
Creio que isso quer dizer que ela teve de superar enormes dificuldades pessoais para se submeter a essa cirurgia. Outra reportagem que me fez pensar, principalmente se associada à primeira, foi a respeito da opinião de atrizes que não são jovens sobre a plástica como recurso também para manter as chances no mercado de trabalho.
De novo, uma frase do texto se destacou. Uma atriz contou que a primeira pergunta feita por telefone por diretores em fase de formação de elenco é: "Você está bonita?" Não é coincidência que os personagens dessas reportagens sejam todos do gênero feminino. Mas esse reinado está com os dias contados. Não é mais apenas a mulher que está submetida a um padrão rígido de modelo de corpo: a anorexia tem atingido cada vez mais os homens. Quero abordar, entretanto, outra questão hoje: a recusa da aparência da velhice.
Vivemos um absurdo. O avanço das ciências tem contribuído para o aumento da longevidade e, como resultado, a população está envelhecendo. O problema é que envelhecemos, mas não podemos mostrar nossa velhice. Aí está nossa maior contradição: queremos viver mais, sim, mas envelhecer tem sido intolerável. Nossos cabelos brancos precisam ser coloridos, nossas rugas, atenuadas, nossa flacidez, tratada e a gordura localizada, extraída. Precisamos manter energia, vigor e agilidade. Tudo isso custe o que custar, em todos os sentidos.
Quem ganha com essa idéia de vida? O mercado, claro, que vende de tudo para dissimular os sinais da degradação do corpo: cosméticos de todos os tipos, técnicas de dermatologia, nutrição especializada, cirurgias plásticas, pílulas dos mais variados tipos etc. O conceito de saúde na velhice passou a ser associado à idéia de juventude. E o mais cruel: compramos também a idéia de que só envelhece quem quer, ou seja, só fica velho quem não investe pesadamente nesse aparato todo para aparentar jovialidade. Quem não se compromete com esse estilo está condenado ao ostracismo. Assim, a responsabilidade -melhor dizendo, a culpa- pelo envelhecimento, pela decadência física inevitável, pelos sinais do tempo é pessoal. Que ilusão!
Enquanto vivemos com essa ilusão, construímos uma sociedade que não aceita o velho, que não se modifica para reconhecer essa fase da vida. Nosso espaço público não acolhe os velhos; ao contrário, os exclui. No Brasil, não temos ainda o hábito de confiná-los em asilos. Aqui, eles têm sido confinados em suas próprias casas. E tem sido esse o conceito de velhice que temos transmitido às crianças e aos jovens. Não será bom parar para pensar no que isso pode dar?
Escrito por Rosely Sayão às 18h40

Política na escola
Uma professora que trabalha com crianças com menos de seis anos contou-me que, de vez em quando, fica espantada e preocupada ao observar como fica o espaço da escola logo após as crianças tomarem o lanche. "É muito grande a quantidade de lixo produzido", disse ela. Como cidadã que tenta ser uma consumidora consciente, ela fica aflita ao perceber a quantidade de embalagens acumuladas que vão ao lixo após o recreio. Isso sem falar nos alimentos que são desperdiçados.
Parece que muitos pais não sabem a medida da fome do filho ou, então, têm esperanças de que ele coma mais na escola do que em casa, por isso enviam um lanche enorme que a criança não consegue dar conta. Isso é desperdício, e fartura não é sinônimo de esbanjamento. Neste início de ano, muitas mães assumiram a tarefa de preparar o lanche que os filhos levarão à escola. Pois é bom saber que, nesse trabalho aparentemente simples, muita coisa importante está em jogo: a educação alimentar da criança, os cuidados com sua nutrição e, também, a educação para o consumo responsável.
Após as reportagens a respeito do aquecimento global e de suas conseqüências, todos devem ter se preocupado, por pouco que seja, com a questão, principalmente os que têm filhos e netos. Alguns já tomaram, inclusive, pequenas mas importantes decisões. Uma conhecida contou que vai passar a usar apenas álcool como combustível para o carro, por exemplo. Outra disse que irá tentar montar um esquema de rodízio com outros pais para levar os filhos até a escola, e uma terceira vai passar a se ocupar com os filhos no uso de energia e de água.
Atitudes como essas mostram aos mais novos o quanto estamos -ou não- implicados com o futuro, deles e do mundo. Mas é preciso bem mais do que isso para que eles possam se tornar cidadãos conscientes e consumidores responsáveis. É preciso que esse tema faça parte do processo educativo, das conversas em família, da programação escolar.
Muitas escolas já fazem coleta de lixo seletiva. Essa é uma atitude que pode funcionar como uma estratégia educativa. Para tanto, precisa fazer parte de um projeto mais amplo, com ações e discussões integradas. Não adianta a escola ter os recipientes coloridos para separar o lixo e não conversar com os alunos a respeito da produção de lixo e do desperdício de comida na hora do lanche, por exemplo. E isso acontece. É que a coleta seletiva de lixo, para muitas escolas, não passa de estratégia de marketing ou de ação politicamente correta. A produção excessiva de lixo e o desperdício não são apenas temas ligados à ecologia. É a noção de respeito e de amor à vida que está em jogo. Como seres humanos, temos a obrigação de agir de modo a não prejudicar o ambiente, entre outros motivos porque nossos filhos permanecerão por aqui depois de nós. Do mesmo modo, temos o dever de ensinar a eles que os recursos naturais não são inesgotáveis e que as atitudes de descaso em relação aos danos que ocorrem à natureza são irresponsáveis já que não somos capazes de substituir o que é destruído.
Os cidadãos e consumidores que se tornam conscientes em relação a essa questão não conseguirão, apenas com seu estilo de vida, transformar a atitude inconseqüente de governos e de grandes empresas que agem de maneira quase suicida. Mas essa consciência dá acesso a atitudes políticas que, em conjunto, adquirem considerável força de pressão.
É assim que se exercita a cidadania, é assim que se faz política.
Escrito por Rosely Sayão às 18h09

Big Brother Particular
Rhoanita, 17 anos, mora em Caxias, cidade do interior do Maranhão. Conheceu seu namorado Lucas, 19, pela internet. Eles são dois jovens que vivem plugados na rede, como muitos que conhecemos: usam MSN, têm página no Orkut, fotolog etc. Pois bem: um belo dia, a garota leu, na página do namorado, um recado de uma outra garota que a deixou muito enciumada. Não se controlou, teve um ataque com o namorado e, o que era um romance doce, se acabou. Acabou nada. A garota, criativa, montou uma estratégia virtual. Criou um vídeo meloso e colocou no YouTube, criou tópicos em várias comunidades de relacionamento e passou a pedir que as pessoas tentassem influenciar o ex e que pedissem para o garoto reatar o namoro. Pronto: a garota acabara de criar seu “Big Brother” particular. O resultado foi imediato: Lucas passou a receber uma enxurrada de recados em sua página, mensagens pelo MSN e telefonemas pedindo que ele voltasse com a garota. Depois de entender o que estava acontecendo, o ex ficou enternecido e voltou a namorar Rhoanita. Quem sabe, viverão felizes nesse espaço virtual por um tempo. Em época de BBB, basta dar uma passeada por blogs dedicados ao programa para perceber o quanto esses jovens estão se mobilizando para tentar interferir em resultados de paredão etc. Encontramos fãs, detratores, xingamentos e endeusamentos de todos os tipos. Os jovens, pelo jeito, querem participar, querem decidir a vida dos participantes e do programa, querem opinar. E eles agem: entopem as caixas eletrônicas da emissora, telefonam, fazem corrente pedindo apoio a seu participante favorito, contestam, imploram, ficam revoltados, ameaçam. Fiquei pensando se essa energia toda dirigida ao objetivo de tentar influenciar e/ou mudar a vida dos outros – do casal de namorados do Maranhão e dos participantes do BBB, por exemplo – não revela uma sensação de impotência para mudar nossa vida social e os rumos da vida pessoal de cada um dos nossos jovens. Vejam: eles se organizam, gastam horas preciosas da vida dedicadas à causa, batalham pela adesão dos outros, argumentam, agem de modo apaixonado. Já pensaram se fizessem tudo isso na política – não me refiro à partidária -, o que não seriam capazes de realizar? Minha pergunta é: o que estamos fazendo de errado para que eles invistam tanta energia assim nos “Big Brothers” da vida e pouca - quase nenhuma - em benefício do bem comum? Por que é que eles têm escolhido causas como essas? Vai ver, eles não contam com interlocutores disponíveis que possam ouvir o que têm a dizer e que os ajudem a dirigir uma parte dessa energia em coisas que possam beneficiá-los também. Por falar nisso, e a escola? Como será que anda essa história de educação para a cidadania, hein?
Escrito por Rosely Sayão às 12h49
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