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Política na escola

Uma professora que trabalha com crianças com menos de seis anos contou-me que, de vez em quando, fica espantada e preocupada ao observar como fica o espaço da escola logo após as crianças tomarem o lanche. "É muito grande a quantidade de lixo produzido", disse ela. Como cidadã que tenta ser uma consumidora consciente, ela fica aflita ao perceber a quantidade de embalagens acumuladas que vão ao lixo após o recreio. Isso sem falar nos alimentos que são desperdiçados.

Parece que muitos pais não sabem a medida da fome do filho ou, então, têm esperanças de que ele coma mais na escola do que em casa, por isso enviam um lanche enorme que a criança não consegue dar conta. Isso é desperdício, e fartura não é sinônimo de esbanjamento.
Neste início de ano, muitas mães assumiram a tarefa de preparar o lanche que os filhos levarão à escola. Pois é bom saber que, nesse trabalho aparentemente simples, muita coisa importante está em jogo: a educação alimentar da criança, os cuidados com sua nutrição e, também, a educação para o consumo responsável.

Após as reportagens a respeito do aquecimento global e de suas conseqüências, todos devem ter se preocupado, por pouco que seja, com a questão, principalmente os que têm filhos e netos. Alguns já tomaram, inclusive, pequenas mas importantes decisões. Uma conhecida contou que vai passar a usar apenas álcool como combustível para o carro, por exemplo. Outra disse que irá tentar montar um esquema de rodízio com outros pais para levar os filhos até a escola, e uma terceira vai passar a se ocupar com os filhos no uso de energia e de água.

Atitudes como essas mostram aos mais novos o quanto estamos -ou não- implicados com o futuro, deles e do mundo. Mas é preciso bem mais do que isso para que eles possam se tornar cidadãos conscientes e consumidores responsáveis. É preciso que esse tema faça parte do processo educativo, das conversas em família, da programação escolar.

Muitas escolas já fazem coleta de lixo seletiva. Essa é uma atitude que pode funcionar como uma estratégia educativa. Para tanto, precisa fazer parte de um projeto mais amplo, com ações e discussões integradas. Não adianta a escola ter os recipientes coloridos para separar o lixo e não conversar com os alunos a respeito da produção de lixo e do desperdício de comida na hora do lanche, por exemplo. E isso acontece. É que a coleta seletiva de lixo, para muitas escolas, não passa de estratégia de marketing ou de ação politicamente correta.
 
A produção excessiva de lixo e o desperdício não são apenas temas ligados à ecologia. É a noção de respeito e de amor à vida que está em jogo. Como seres humanos, temos a obrigação de agir de modo a não prejudicar o ambiente, entre outros motivos porque nossos filhos permanecerão por aqui depois de nós. Do mesmo modo, temos o dever de ensinar a eles que os recursos naturais não são inesgotáveis e que as atitudes de descaso em relação aos danos que ocorrem à natureza são irresponsáveis já que não somos capazes de substituir o que é destruído.

Os cidadãos e consumidores que se tornam conscientes em relação a essa questão não conseguirão, apenas com seu estilo de vida, transformar a atitude inconseqüente de governos e de grandes empresas que agem de maneira quase suicida. Mas essa consciência dá acesso a atitudes políticas que, em conjunto, adquirem considerável força de pressão.

É assim que se exercita a cidadania, é assim que se faz política.

Escrito por Rosely Sayão às 18h09
Big Brother Particular
Rhoanita, 17 anos, mora em Caxias, cidade do interior do Maranhão. Conheceu seu namorado Lucas, 19, pela internet. Eles são dois jovens que vivem plugados na rede, como muitos que conhecemos: usam MSN, têm página no Orkut, fotolog etc. Pois bem: um belo dia, a garota leu, na página do namorado, um recado de uma outra garota que a deixou muito enciumada. Não se controlou, teve um ataque com o namorado e, o que era um romance doce, se acabou.

Acabou nada. A garota, criativa, montou uma estratégia virtual. Criou um vídeo meloso e colocou no YouTube, criou tópicos em várias comunidades de relacionamento e passou a pedir que as pessoas tentassem influenciar o ex e que pedissem para o garoto reatar o namoro. Pronto: a garota acabara de criar seu “Big Brother” particular.

O resultado foi imediato: Lucas passou a receber uma enxurrada de recados em sua página, mensagens pelo MSN e telefonemas pedindo que ele voltasse com a garota. Depois de entender o que estava acontecendo, o ex ficou enternecido e voltou a namorar Rhoanita. Quem sabe, viverão felizes nesse espaço virtual por um tempo.

Em época de BBB, basta dar uma passeada por blogs dedicados ao programa para perceber o quanto esses jovens estão se mobilizando para tentar interferir em resultados de paredão etc. Encontramos fãs, detratores, xingamentos e endeusamentos de todos os tipos. Os jovens, pelo jeito, querem participar, querem decidir a vida dos participantes e do programa, querem opinar. E eles agem: entopem as caixas eletrônicas da emissora, telefonam, fazem corrente pedindo apoio a seu participante favorito, contestam, imploram, ficam revoltados, ameaçam.

Fiquei pensando se essa energia toda dirigida ao objetivo de tentar influenciar e/ou mudar a vida dos outros – do casal de namorados do Maranhão e dos participantes do BBB, por exemplo – não revela uma sensação de impotência para mudar nossa vida social e os rumos da vida pessoal de cada um dos nossos jovens.

Vejam: eles se organizam, gastam horas preciosas da vida dedicadas à causa, batalham pela adesão dos outros, argumentam, agem de modo apaixonado. Já pensaram se fizessem tudo isso na política – não me refiro à partidária -, o que não seriam capazes de realizar?

Minha pergunta é: o que estamos fazendo de errado para que eles invistam tanta energia assim nos “Big Brothers” da vida e pouca - quase nenhuma - em benefício do bem comum? Por que é que eles têm escolhido causas como essas?

Vai ver, eles não contam com interlocutores disponíveis que possam ouvir o que têm a dizer e que os ajudem a dirigir uma parte dessa energia em coisas que possam beneficiá-los também. Por falar nisso, e a escola? Como será que anda essa história de educação para a cidadania, hein?
Escrito por Rosely Sayão às 12h49
O exercício do pensamento é estimulante para o cérebro

Li um texto hoje no Estadão muito interessante a respeito de uma pesquisa que verificou a mudança na estrutura cerebral pela influência do pensamento.

O experimento foi o seguinte: a um grupo de voluntários foi solicitado que praticassem, por duas horas/dia durante cinco dias, uma seqüência de notas frente ao piano. Apenas a mão direita deveria ser usada e a seqüência exigia o uso dos cinco dedos. O objetivo era seguir o ritmo dado pelo metrônomo e não errar nenhuma nota. Após os cinco dias de treinamento, os voluntários conseguiram dedilhar a seqüência sem erros e a área do cérebro correspondente ao uso da mão direita foi medida. Foi constatado um aumento de tamanho dela, enquanto a área da mão esquerda, não utilizada, permaneceu na mesma.

A segunda parte do experimento é que foi interessante. Dessa vez, o grupo de voluntários deveria sentar-se frente ao piano, deixar a mão direita repousada sobre a perna e apenas pensar que estavam dedilhando a seqüência com a mão direita. E não é que foi constatado, após os cinco dias de treino, o mesmo aumento da região cerebral? A conclusão dos cientistas foi a de que pensar intensa e repetidamente produz alterações na área do cérebro.

Nesse nosso mundo hiperativo, resta muito pouco tempo e oportunidade para crianças e jovens pensarem, não é verdade? A escola enche seus alunos de atividades, os pais lotam a agenda dos filhos  e estes, quando estão em casa, passam um tempão frente à televisão, no computador e jogando videogame. Pensar mesmo que é bom, quase nada.

Por outro lado, essa moda de estar sempre em atividade pegou tanto que, quando os pais percebem que o filho anda quieto, pensativo, arisco com os colegas, logo acham que pode estar com problemas. Será que não está justamente pensando em sua vida, em suas dificuldades e, portanto, desenvolvendo-se, crescendo?

Os pais que querem ajudar o filho na sua formação deveriam considerar atividades que estimulam o pensamento, a concentração e a dedicação. Tocar um instrumento, aprender a jogar um jogo de estratégia pensada e variada – como xadrez, por exemplo -, ler e contar o que leu, aprender a tirar fotos etc, são alguns exemplos de atividades que estimulam o pensamento, ajudam a concentrar a atenção e incentivam a imaginação criadora.

Por falar em fotos, vocês já assistiram ao documentário “Nascidos em Bordéis”? Vale muito a pena.

Escrito por Rosely Sayão às 16h42

Não há mais vergonha

"Sorria, você está sendo filmado." Há tempos, quando começamos com essa prática social de colocar câmeras em locais públicos, esse aviso tinha um sentido bem pertinente. A advertência, além de prevenir os mais incautos de que eles não estavam protegidos do olhar de julgamento do outro, fazia um apelo que ainda tinha sentido naquela época que, por sinal, é bem recente. A interpelação contida no cartaz -em caráter imperativo- buscava fisgar o amor-próprio de cada um que o lesse para que, assim, pudesse mostrar o melhor de si aos outros que o observassem. Afinal, ninguém queria ser flagrado em atitude considerada constrangedora e que pudesse provocar vergonha. Sim: havia vergonha, recato, decoro. Lembro, por exemplo, que no livro "Na Sala com Danuza" -publicado no início dos anos 90-, um trecho dizia que determinado ato não deveria ser praticado nem mesmo na solidão de um banheiro escuro.

Bem, os tempos mudaram. As placas com o citado aviso se multiplicaram e as câmeras também, como um sinal visível de que vivemos numa sociedade do controle. Entretanto, elas registram também o descontrole das pessoas e a desorganização do espaço social compartilhado.

Uma cena gravada e apresentada na semana passada em todos os canais de TV e sites com vídeos mostrou o prefeito de São Paulo tendo um chilique porque um cidadão protestava contra um ato de seu governo. O homem, ao ser alvo da ira do prefeito, caiu no choro. A cena, explorada à exaustão, foi patética: dois adultos se comportando como crianças em pleno espaço público, portanto sob o olhar de julgamento de todos.

Está certo que todos os adultos mantêm uma parcela de infância que precisa ser superada diariamente, e essa é a tarefa árdua do exercício de maturidade. Mas parece que atualmente essa nossa cota infantil, ao invés de ser superada, tem sido cultivada com esmero. Além disso, o julgamento do outro não mais nos incomoda nem importa. Não nos envergonhamos mais de nossos descuidos, nada mais parece nos constranger. O aviso "Sorria, você está sendo filmado" ganhou, portanto, um tom irônico.

Adolescentes são tentados a fazer caretas e gestos obscenos quando sabem que alguém os observa. À frente de uma câmera, então, eles se superam e perdem qualquer pudor. É uma maneira de dizer "Eu sou assim, o que você tem com isso?". É um modo de enfrentar com insolência o mundo adulto, do qual acabaram de escapar e para o qual se encaminham.

Pois parece que é dessa maneira que os adultos têm se comportado publicamente. Não nos importamos mais -aliás, parece que nos orgulhamos disso- de expor nossas piores qualidades e características aos outros. O roxo, uma cor que já foi associada à vergonha na expressão "roxo de vergonha", passou recentemente para nossa história como cor que simboliza o orgulho que temos de nossas atitudes irrefletidas e muitas vezes violentas -quando um presidente exclamou em um discurso que "tinha aquilo roxo". Uma publicidade veiculada pela TV, ao mostrar tudo o que se pode fazer com o dedo indicador, mostra uma criança com o dedo no nariz enquanto o narrador diz "limpar o salão".

É isso: parece que já não queremos mais mostrar o que temos de melhor aos outros e sim o que temos de pior. Isso mostra um grande desprezo pelos outros, não? Basta assistir a algumas cenas do programa "BBB" para fazer essa constatação. Mas não nos iludamos: isso não ocorre apenas nesse programa, mas no cotidiano de nossa vida pública.

Será que concluímos que o que nos une e o que nos equipara na convivência pública são nossas mazelas?

 

Escrito por Rosely Sayão às 20h09