Não há mais vergonha
"Sorria, você está sendo filmado." Há tempos, quando começamos com essa prática social de colocar câmeras em locais públicos, esse aviso tinha um sentido bem pertinente. A advertência, além de prevenir os mais incautos de que eles não estavam protegidos do olhar de julgamento do outro, fazia um apelo que ainda tinha sentido naquela época que, por sinal, é bem recente. A interpelação contida no cartaz -em caráter imperativo- buscava fisgar o amor-próprio de cada um que o lesse para que, assim, pudesse mostrar o melhor de si aos outros que o observassem. Afinal, ninguém queria ser flagrado em atitude considerada constrangedora e que pudesse provocar vergonha. Sim: havia vergonha, recato, decoro. Lembro, por exemplo, que no livro "Na Sala com Danuza" -publicado no início dos anos 90-, um trecho dizia que determinado ato não deveria ser praticado nem mesmo na solidão de um banheiro escuro.
Bem, os tempos mudaram. As placas com o citado aviso se multiplicaram e as câmeras também, como um sinal visível de que vivemos numa sociedade do controle. Entretanto, elas registram também o descontrole das pessoas e a desorganização do espaço social compartilhado.
Uma cena gravada e apresentada na semana passada em todos os canais de TV e sites com vídeos mostrou o prefeito de São Paulo tendo um chilique porque um cidadão protestava contra um ato de seu governo. O homem, ao ser alvo da ira do prefeito, caiu no choro. A cena, explorada à exaustão, foi patética: dois adultos se comportando como crianças em pleno espaço público, portanto sob o olhar de julgamento de todos.
Está certo que todos os adultos mantêm uma parcela de infância que precisa ser superada diariamente, e essa é a tarefa árdua do exercício de maturidade. Mas parece que atualmente essa nossa cota infantil, ao invés de ser superada, tem sido cultivada com esmero. Além disso, o julgamento do outro não mais nos incomoda nem importa. Não nos envergonhamos mais de nossos descuidos, nada mais parece nos constranger. O aviso "Sorria, você está sendo filmado" ganhou, portanto, um tom irônico.
Adolescentes são tentados a fazer caretas e gestos obscenos quando sabem que alguém os observa. À frente de uma câmera, então, eles se superam e perdem qualquer pudor. É uma maneira de dizer "Eu sou assim, o que você tem com isso?". É um modo de enfrentar com insolência o mundo adulto, do qual acabaram de escapar e para o qual se encaminham.
Pois parece que é dessa maneira que os adultos têm se comportado publicamente. Não nos importamos mais -aliás, parece que nos orgulhamos disso- de expor nossas piores qualidades e características aos outros. O roxo, uma cor que já foi associada à vergonha na expressão "roxo de vergonha", passou recentemente para nossa história como cor que simboliza o orgulho que temos de nossas atitudes irrefletidas e muitas vezes violentas -quando um presidente exclamou em um discurso que "tinha aquilo roxo". Uma publicidade veiculada pela TV, ao mostrar tudo o que se pode fazer com o dedo indicador, mostra uma criança com o dedo no nariz enquanto o narrador diz "limpar o salão".
É isso: parece que já não queremos mais mostrar o que temos de melhor aos outros e sim o que temos de pior. Isso mostra um grande desprezo pelos outros, não? Basta assistir a algumas cenas do programa "BBB" para fazer essa constatação. Mas não nos iludamos: isso não ocorre apenas nesse programa, mas no cotidiano de nossa vida pública.
Será que concluímos que o que nos une e o que nos equipara na convivência pública são nossas mazelas?






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