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Educar contraria os mais novos

Uma mãe me perguntou por que não é possível educar bem e criar os filhos e ter uma resposta boa deles, ou seja: ela gostaria que os filhos gostassem das atitudes que ela precisa tomar em relação a eles. Do mesmo modo, um grupo de professores me colocou uma questão bem semelhante. Eles disseram que ser professor é difícil já que os alunos estão quase sempre em desacordo com as atitudes que tomam. Por esse motivo, queriam saber como ser um bom professor para convencer os alunos a fazerem suas obrigações e a se comportarem de modo adequado de bom grado.

Acontece que os educadores são porta-vozes de algumas más notícias para filhos e alunos: a de que eles não são o centro do mundo, a de que conviver com um grupo limita o modo de viver e de estar no mundo, a de que não é possível fazer apenas o que se gosta e que muitas vezes é preciso esperar para conseguir o que se almeja ou sonha. Além disso, pais e professores também anunciam que é preciso batalhar para conseguir o que se quer, que para estudar é preciso concentração e perseverança, que a maioria das coisas que se busca exigem muito esforço e dedicação, que escolher supõe renunciar, que é preciso encarar frustrações etc. Enfim: os pais e os professores são uma espécie de estraga-prazeres na vida de seus filhos e de seus alunos. Claro que o papel do educador não é somente esse, mas inclui esse já que ele representa a cultura e a civilização para as novas gerações.

Tem sido difícil arcar com essa parte do papel nos tempos atuais talvez porque o adulto não esteja tão convencido assim de que esse caminho seja inevitável. Afinal, nosso modo de viver atual é uma busca incessante de prazer, felicidade e bem-estar, não é verdade?

Acontece que pais e professores que evitam contrariar filhos e alunos o quanto podem sempre terminam por esbarrar nas consequências que essa conduta provoca: torna-se cada vez mais difícil conviver com filhos e alunos, as birras e as transgressões vão ao limite, os deveres mínimos não são cumpridos.

É por isso que pais e professores em geral não são reconhecidos pelos mais novos enquanto educam. O reconhecimento em geral só chega depois que eles já terminaram sua tarefa educativa, ou seja, quando filhos e alunos atingem a maturidade. Vamos reconhecer: para bancar esse lugar de educador é preciso ter muita generosidade e disponibilidade.

Escrito por Rosely Sayão às 11h11
TV e fuso horário

Uma matéria do Daniel Castro na Folha de hoje diz que as novas regras de classificação indicativa da programação de TV foram publicadas ontem no Diário Oficial da União.

Há muita discussão a respeito dessa nova portaria: alguns acreditam que se trata de censura, outros não. Mas, hoje, quero comentar apenas um detalhe dessa questão: a que trata da obrigatoriedade do respeito aos fusos horários do país.

Acreditem: as TVs são contra essa medida. Por quê? Ora, porque, para as emissoras, isso dá muito trabalho, gasto e, provavelmente, prejuízo. Para entender melhor a situação, vamos a um exemplo: uma afiliada de qualquer uma das emissoras que está localizada num estado que não segue o mesmo fuso de Brasília precisará gravar a programação para exibi-la depois, no horário local adequado. Mas que coisa, não?

Atualmente, o horário que vale para a exibição da programação é o de Brasília. Assim - como exemplifica Daniel Castro na matéria citada - a Globo exibe, no Acre, a novela das oito às 18h locais no período em que vigora o horário de verão.

Não é um absurdo essa discussão? O horário considerado livre vai até 20h o que, vamos reconhecer, é bem sensato. Qualquer criança está acordada e assiste à programação nesse horário. Pois sem o respeito ao fuso, a criançada de alguns estados fica totalmente exposta à programação considerada inadequada para o horário em pleno final da tarde! E o que determina que um programa seja livre ou impróprio para menores de 12, 14, 16 anos? O grau de sexo e violência apresentados, claro.

Essa posição das emissoras de TV me causa enjôo por serem hipócritas. Em nome da luta pela “proteção da criança” e da sociedade exploram a discussão a respeito da maioridade penal quando ocorre um crime bárbaro - como o que matou um garoto de seis anos em que estaria envolvido um adolescente  - e, ao mesmo tempo, não querem proteger as crianças de alguns estados de uma programação inadequada para elas. Algumas contradições são insuportáveis, não são?

Escrito por Rosely Sayão às 13h28
Geração Multitarefa
Outro dia, um garoto de 12 anos me contava suas peripécias na escola até então. Um fato marcou a memória dele: três anos atrás, considerou o ato de uma professora muito injusto em relação a ele. A história era a seguinte: a professora passou uma tarefa para ser realizada em grupo. Ele e os colegas fizeram o trabalho, mas a professora, na avaliação, disse que ele não havia participado e, portanto, não receberia a mesma nota que os colegas. Mas ele afirmou, com veemência, que sua participação havia sido a mesma.

Essa lembrança dele – não importa se verídica ou não em relação à realidade – era rica em detalhes. Quando perguntei a respeito, ele lembrou-se do nome dos colegas – que já não vê mais porque foi transferido de escola -, o nome da professora e a matéria. Quando perguntei a respeito do assunto do trabalho, ele não se lembrou de modo algum.

Achei muito interessante o fato e lembrei-me dele quando li nos jornais sobre o resultado das avaliações nacionais de alunos do ensino médio e da oitava série. Por que será que o aprendizado tem piorado tanto nos últimos anos? Não é uma grande contradição o fato de isso ocorrer justamente quando temos os estudos mais avançados a respeito do ensino e da aprendizagem, quando temos os métodos mais novos para usar na escola, quando temos todos os recursos, enfim, para que o resultado fosse bem diferente?

Certamente não há um único motivo para essa piora e sim um conjunto deles. Mas, hoje, quero falar sobre uma hipótese que tenho.

Desde que o mundo passou a mudar, as pessoas mudaram muito também. Ninguém tem dúvidas de que as crianças do mundo de hoje não são parecidas com as que nasceram há 20, 30 anos, certo? Hoje, desde o nascimento as crianças são hiperestimuladas.

O quarto do bebê é cheio de penduricalhos com movimento, sons e cores; a criança pequena tem sempre uma quantidade enorme de brinquedos à disposição; a criança maior tem tv, computador – com vários programas abetos ao mesmo tempo – videogame etc. O jovem tem tudo isso e ainda é capaz de passar por três festas na mesma noite!

O resultado disso é que temos criado uma geração que aprendeu a dispersar sua atenção. No livro “Carta a um jovem professor”, o autor Philippe Meirieu construiu uma imagem que eu adorei. Ele diz que as novas gerações internalizaram o controle remoto da tv. “Diante dela (tv) a pessoa dá uma olhada nos programas, passa de canal em canal, atende ao telefone, belisca um pedaço de queijo, briga com seu irmão ou irmã, pega a novela que está começando, ao mesmo tempo em que tenta saber o resultado do jogo que continua.”.

Mas, na escola é preciso que seja diferente para um aprendizado significativo. A criança deverá aprender a conter seus impulsos e a concentrar sua atenção. E isso, hoje, precisa ser ensinado pelos professores e pais. Sem esse ensinamento, que precisa de dedicação, exigência e disponibilidade, o aprendizado será falso e efêmero. Não basta exigir isso da criança ou do jovem: é preciso dar a eles condições para que aprenda a desenvolver essa capacidade.

E é esse aprendizado que poderá ajudar os mais novos, que são pessoas dispersas e submetidas a seus caprichos, a se tornarem adultos maduros, concentrados e responsáveis.
Escrito por Rosely Sayão às 12h40
Ensinar aos filhos como receber colegas em casa é educativo
Em tempos em que deixamos de ter referências socialmente compartilhadas para muitas coisas, a prática da educação familiar tornou-se bem diferente nas famílias. Cada uma delas, ao educar seus filhos, prioriza determinados valores e renuncia a outros, dá mais importância a determinadas facetas da vida e menos a outras e assim por diante. Esse novo modo de vida social - que nos deu muita liberdade, é bom salientar – tem provocado um fenômeno bem interessante.

Quando um colega de escola vai à casa de outro, seja para brincar ou para fazer um trabalho escolar juntos, as mães que recebem têm ficado de cabelo em pé frente aos comportamentos do pequeno visitante. Além disso, não sabem se devem ou não permitir que seus filhos – orientados a se comportarem de modo bem diferente na casa dos outros - convivam com essas crianças. Vou relatar alguns episódios que algumas mães me contaram.

Uma delas, no período de férias, recebeu a visita de uma amiga com o filho de mais ou menos 10 anos. Na hora da refeição, o garoto não aceitou nenhuma comida preparada porque disse que não gostava. A anfitriã, preocupada, ofereceu alternativas que poderia preparar especialmente para ele, mas o garoto continuou a recusar. Finalmente, quando ela perguntou por que ele não iria comer, obteve uma resposta surpreendente: “Porque a comida desta casa é uma merda”.

Outra mãe contou que a filha e uma amiga ficaram no quarto para realizar um trabalho. Em determinado momento, quando foi até lá para checar as coisas, encontrou a colega da filha dançando sobre a cama com tênis, coisa que ela não permite que a filha faça. Outra, ainda, ao pedir que o colega do filho tirasse o prato da mesa e o colocasse na pia após tomar o lanche, ouviu o garoto dizer que não faria isso porque em casa não tinha de fazer.

Esses são apenas alguns exemplos que mostram como a diversidade da educação familiar tem provocado comportamentos muito diferentes. Por conta desse fenômeno, os pais precisam saber que devem responsabilizar o filho pelos cuidados com a casa frente aos amigos.

Quando seu filho for receber alguém em casa, é bom orientá-lo sobre como fazer isso. Ele precisa entender, aos poucos, que a casa da família tem suas próprias normas de funcionamento e que cada integrante da família tem o dever de fazer com que elas sejam respeitadas por seus convidados. No caso de crianças, é bom também deixar claro que, caso ela não consiga dar conta sozinho dessa responsabilidade frente ao colega, que deve pedir ajuda dos adultos presentes em casa.

Quando os pais dão esse tipo de orientação aos filhos e cobram que eles a coloquem em prática, não precisam privá-los da convivência com crianças com costumes diferentes e os ensinam, também, a respeitar as diferenças e fazer com que elas sejam respeitadas.

Essa é mais uma maneira de construir, com os filhos, a relação de pertencimento familiar, além, é claro, de ensinar a eles que devem defender seu lar – como antes chamávamos nossas casas. Esse é um tipo de educação em valores importante para cada família, não importa os costumes de viver que ela tenha em casa.
Escrito por Rosely Sayão às 15h02
Exigir é respeitar
Uma internauta de 16 anos enviou uma mensagem para a caixa postal do blog que me deixou bastante sensibilizada. Disse ela: “Pude perceber (apesar de não ser leitora assídua de seu blog) que você se importa muito com a questão educacional e o tipo de orientação que os pais dão, seja quanto ao comportamento ou à educação escolar. A questão é: o que fazer quando não se teve exigência deles?” Nosso tema de hoje será, portanto, a exigência.

Costumo dizer que exigir é um sinal de respeito. Mas, é preciso entender melhor o que significa esse exigir e, para tanto, vou citar alguns exemplos. Os pais de uma criança com menos de seis anos podem exigir – impor – que ela durma em sua cama ou em seu quarto. Por que exigir, neste caso, significa respeitar? Porque se a criança já tem condições para fazer isso, permitir que ela não faça significa impedir que ela realize seu potencial.

Os pais de uma criança entre 7 e 9 anos podem exigir – determinar – que ele arrume a cama após o despertar e/ou deixe as roupas sempre guardadas em seus lugares. Nessa idade, a criança tem capacidade para se organizar seguindo um modelo determinado; permitir que ele não coloque essa capacidade em prática significa deixá-la aprisionada em aspectos infantis que já superou.

Um adolescente tem condições de começar a conter seus impulsos e, sempre que se descontrolar, deve ser interpelado pelos pais para que se contenha. Quando os pais não exigem isso dele, permitem que se torne um joguete de seus próprios caprichos.

Do mesmo modo, o jovem tem também capacidade para se concentrar em uma tarefa ou atividade, e nisso deve ser exigido. A exigência é a medida que irá permitir que ele desenvolva a concentração.

Quando o filho não aprendeu a criar reações frente às exigências externas para responder a elas e conhecer seu potencial, o caminho para transformar-se em um adulto responsável, maduro e focado será muito mais árduo. Parece ser esse o caso de nossa jovem internauta. Entretanto, apesar de árduo, esse caminho não é impossível.

Para tanto será necessário criar suas próprias exigências e se comprometer com elas. Aos 16 anos já é possível fazer isso sozinha ou com ajuda solidária de adultos que participam e se implicam com sua vida como professores, tios, avós, amigos da família, por exemplo. Até mesmo os pais podem ser sensibilizados pelo pedido de ajuda do filho. Por isso, nada de desistir ou de ter uma boa desculpa para não crescer.

PS 1: os melhores professores são os mais exigentes.
PS 2: vamos explorar mais esse tema em breve.
Escrito por Rosely Sayão às 15h42