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Remanejamento de classe no início das aulas
Hoje, proponho uma conversa considerada delicada por muitos pais: a mudança de turma que muitos alunos enfrentam no início do ano letivo. Da escola de educação infantil ao ensino médio, nas escolas privadas e nas públicas, esse é um fato corriqueiro. Os motivos que justificam essas mudanças são os mais diversos: turmas que se juntam por diminuição de alunos, turmas que se separam por multiplicação de séries, separação de grupos ou de duplas consideradas explosivas ou impermeáveis etc. A questão é que muitos alunos resistem a essa mudança ora porque foram separados de colegas queridos, ora porque caíram na mesma turma em que estuda um antigo desafeto etc. Aí, eles reclamam em casa, fazem a maior pressão, e alguns pais tomam as dores de seus filhos como suas e procuram negociar com a escola a troca de classe do filho. Eu entendo o que esses pais sentem e pensam. Eles acreditam que a vida escolar por si só já é árdua e, por isso, o filho não deveria ser atrapalhado por questões secundárias. Outros acreditam que a presença de um colega rejeitado ou a ausência de um querido no cotidiano escolar é desgastante e prejudica o desempenho no aprendizado. Outros, ainda, temem que a adaptação do filho demore muito a ocorrer ou, então, que nem ocorrerá. Por isso tudo e outros motivos mais, os pais iniciam uma pequena batalha com a escola para conseguir a mudança. As estratégias que os pais usam são as mais variadas possíveis: alguns pedem com jeitinho doce, outros já chegam ameaçando, outros já avisam que responsabilizarão a escola por qualquer problema que ocorra com o filho, e por aí vai. No fundo, o que os pais buscam ao agir assim é o bem do filho, não é? Mas, quero avisar a esses pais que há um equívoco nessa questão. Os filhos não vão à escola apenas para aprender o conhecimento sistematizado. Vão também para aprender a viver no mundo público. Na escola, o aluno precisa aprender a trabalhar e a estudar junto com colegas que ele não escolhe. O encontro de colegas na escola é um encontro totalmente aleatório. Não é assim a vida pública? Além disso, toda escola tem suas regras e é bom saber que elas não existem para atrapalhar a vida dos alunos e/ou de suas famílias, tampouco facilitar. A finalidade delas é permitir que a instituição viva em função do coletivo, e esse é um aprendizado fundamental para crianças e adolescentes: aprender a deixar de ser o centro do mundo e a abdicar de seus interesses egocêntricos para conseguir enxergar o mundo também com os olhos dos outros. Isso é que é educação para a cidadania. Os pais que insistem na troca de classe de seus filhos negam a estes tal aprendizado e os consideram sem aptidão para viver a vida como ela é. E as escolas que sucumbem a tais pedidos não têm consciência da importância desse aprendizado. Afinal, é preciso lembrar que a escola é responsável por realizar uma iniciação fundamental na vida dos mais novos: ela faz a transição das crianças e dos jovens da família para o mundo, como bem diz Hannah Arendt. Os pais precisam estimular os filhos a enfrentarem as vicissitudes da vida: dar apoio quando as dificuldades são grandes, incentivo frente às adversidades e, principalmente, confiar na capacidade de os filhos resolverem os problemas que enfrentam, mesmo e inclusive quando eles próprios não confiam. Isso é educar.
Escrito por Rosely Sayão às 12h18

O período de adaptação na escola de educação infantil
Estou de volta, depois de um revigorante período de férias. Puxa, eu estava precisando muito desse tempo. Como presto trabalho para diferentes empresas e escolas – profissional liberal não tem um patrão, tem muitos! – fiquei uns cinco anos sem conseguir tirar férias de tudo ao mesmo tempo. Consegui desta vez, e foi uma maravilha. O tempo acaba por se tornar pequeno pra tanta coisa que a gente quer fazer nesse período, não é mesmo? Reunir-se com a família, ver amigos, viajar um pouco, organizar a casa... essas coisas todas eu havia planejado fazer. Mas, não deu tempo. Paciência: irei fazendo o que faltou aos poucos. Agora, é hora de voltar com nossos encontros. Nesta semana e na próxima, muitas crianças pequenas irão, pela primeira vez na vida, enfrentar uma grande aventura: ir para a escola. As escolas de educação infantil em geral tratam esse período com muita atenção porque sabem que é um momento delicado na vida da família. Por quais motivos? Em primeiro lugar, não é fácil entregar o filho nas mãos de gente estranha, não é verdade? Em segundo, porque toda separação é dolorosa. Em terceiro, porque as mães sabem que criança pequena não sabe se defender sozinha e não consegue ainda identificar o que sente, manifestar o que quer etc. Por isso, na hora de deixar o filho na escola pela primeira vez, as mães sofrem. Mas, algumas exageram na expressão de seu sofrimento e isso atrapalha a grande aventura do filho. Para tornar esse período menos árduo e sofrido para as mães e mais produtivo para as crianças, tenho algumas dicas. Vamos lá. É preciso confiar na escola que você vai deixar seu filho. Para tanto, converse muito com o pessoal que lá trabalha. Não guarde dúvida alguma: pergunte aos professores e diretores tudo o que você precisa saber para ficar tranqüila enquanto seu filho estiver lá. Mas, não deixe para fazer isso no primeiro dia de aula. Nesse dia, os professores precisam se dedicar integralmente aos alunos, não podem dar atenção aos pais. Se a escola organiza um período de adaptação, procure seguir rigorosamente as instruções que eles dão. Se pedirem para não entrar nas salas, não entre. Mesmo que você ouça seu filho chorando. Espere o pessoal da escola agir. Afinal, lá você é convidada, ok? E também não interprete o choro de seu filho como desgosto com a professora, falta de atenção dela ou briga com colegas. A criança chora nesses dias porque enfrenta um mundo desconhecido até então para ela. Finalmente, seja firme com seu filho. Se ele gritar, agarrar em você, espernear, peça ajuda ao pessoal para ajudá-lo a separar-se de você, diga baixinho, no ouvido dele, algumas palavras de encorajamento e de carinho, mas encaminhe-o para a professora. Sem essa firmeza – coragem, você dá conta disso! – seu filho irá sentir que você não quer separar-se dele, que você não acredita que ele seja capaz de ficar sem você, e então a resistência e o sofrimento dele serão muito maiores. Ajuda muito saber que chorar não prejudica a criança e que, caso os profissionais da escola percebam que seu filho precisa, de fato, da sua presença, eles a chamarão. Desejo coragem e boa sorte às mães e aos pais que enfrentarão, nos próximos dias, essa experiência.
Escrito por Rosely Sayão às 16h47

Educando o gosto dos mais novos
A educação do gosto também é tarefa da família e da escola; se não assumirmos isso, os mais novos só apreciarão o que a mídia ou a indústria da moda determinam. Os pais têm reclamado bastante dos interesses e das preferências que os filhos demonstram ter a respeito dos mais variados itens da vida, e os professores fazem coro com essa reclamação. É, o gosto das crianças e dos jovens anda bem esquisito. Muitas das músicas que eles ouvem à exaustão, decoram e cantam, acompanhados de gestos que os infantilizam ou expressam vulgaridades, nós julgamos de mau gosto. E as roupas? Extravagantes e ousadas, ora julgamos pequenas e justas demais, ora enormes e largas em excesso. Maquiagens excêntricas, corpos tatuados, linguajar escrito e falado que transgride a nossa língua têm sido causa de estranhamento e críticas de nossa parte.
Creditamos tudo isso que vemos e não gostamos às influências externas: a televisão, a internet, as revistas que eles costumam consultar, os livros de gosto duvidoso que fazem sucesso entre eles, os amigos cujos pais não se envolvem com a vida dos filhos e que com tudo concordam, o poder da indústria da moda e o da fonográfica etc. Por tudo isso - admitimos nós-, eles não se interessam e não gostam de coisas que achamos que dariam um sabor mais apurado às suas vidas.
O curioso é que damos como certo e intenso o poder de todos esses veículos sobre a vida das gerações mais novas e, no entanto, não nos convencemos de que nós, que com eles convivemos diariamente e que temos a responsabilidade primeira de educá-los, possamos ter poder igual ou maior. Essa é mais uma faceta da deserção de nosso papel em relação aos mais novos e, portanto, em relação ao futuro. Mais uma constatação de como temos minimizado os possíveis efeitos de nossa ação educativa sobre as novas gerações. Afinal, temos ou não a capacidade de influenciar decisivamente os gostos e os interesses dos mais novos?
Claro que temos. É preciso assumir que a educação abrange também o cultivo pelo gosto mais sofisticado das mais variadas manifestações artísticas e culturais, a apreciação estética e o desenvolvimento da sensibilidade em concordância com os valores da civilização. E não se trata de valorizar mais ou menos determinadas produções, e sim de fornecer subsídios para que eles desenvolvam sua capacidade crítica. Já faz tempo que pais e professores passaram a ansiar por práticas educativas menos autoritárias e mais envolvidas com quem é educado. Mas essa aspiração tem sido fonte de muitos equívocos, e um deles é dar espaço para que os mais novos façam suas próprias escolhas e tenham suas próprias opiniões. Só que quem tem acesso apenas às possibilidades dominantes acaba por ficar sem escolha.
É assim que temos deixado as crianças e os jovens: sem escolha. Como podem eles escolher entre este ou aquele tipo de música, de dança, de roupa ou de linguagem, por exemplo, se são exaustivamente bombardeados por apenas um estilo dessas criações? Como chegam eles a afirmações do tipo "eu gosto disso" ou "eu não gosto daquilo"? Temos permitido que eles tenham seu gosto limitado a um determinado padrão dominante. As escolhas que eles têm feito são, na realidade, as escolhas que fazemos para eles. Mas será que assumimos a responsabilidade por essas nossas escolhas? Parece que não, já que lamentamos boa parte delas. Então, está na hora de honrar nossas obrigações. A educação do gosto não é apenas tarefa da família e da escola, mas também é delas. Se não assumirmos com decisão e firmeza essa parcela da prática educativa, permitiremos que os nossos filhos e alunos apreciem apenas o que os programas de TV e de rádio, a publicidade e a indústria da moda determinam.
Os educadores têm um grande diferencial em relação aos que têm educado sozinhos o gosto dos mais novos: enquanto os primeiros atuam em favor da liberdade e do futuro, os segundos agem apenas movidos por interesses próprios. E, então, quem dá mais?
*Texto publicado na Folha de São Paulo em 30/03/2006
Escrito por Rosely Sayão às 13h46

O limite entre o público e o privado
Qual a fronteira entre relações autoritorárias e relações mais democráticas, considerando-se a tarefa educativa dos pais? O que importa apenas à intimidade das pessoas e o que cabe levar ao convívio social? E mais: o que, da privacidade da vida dos pais, é interessante compartilhar com os filhos - e vice-versa - e o que seria mais adequado ser levado apenas às pessoas de mesma geração, como amigos ou companheira (o), por exemplo? Hoje, a fronteira entre vida privada e vida pública está tão confusa que fica bem difícil responder sem titubear a essas questões. E é bom lembrar que a educação que damos a filhos e alunos é marcada por essas questões.
Quem é que já não observou casais de jovens - novos, por sinal - em um relacionamento que caberia bem melhor em local privado por ser considerado íntimo? E, em geral, a reação que temos ao testemunhar esse tipo de cena é a de moralizar o comportamento dos jovens. É fácil dizer ou pensar, nessa hora, que eles não sabem respeitar o público, que não têm vergonha etc.
Adulto adora moralizar o comportamento dos jovens e nem sempre se dá conta de que o que eles fazem foi a eles ensinado por nós, de um jeito ou de outro. Por exemplo: qual a diferença entre assistir a um beijo mais ousado e sensual entre dois adolescentes que agem assim em pleno espaço público e ouvir, em situação semelhante, uma briga de casal que se desenrola pelo celular? Aliás, quem é que já não teve de compartilhar conversas íntimas em situações desse tipo? E o mais interessante é que o constrangimento fica mais por conta de quem ouve do que de quem vive a cena, não é verdade?
Bem, mas como tem sido bem difícil aos adultos construir e delimitar a privacidade, do mesmo modo tem sido difícil saber como e o que ensinar aos filhos a esse respeito.Vou usar uma situação vivida por uma mãe com seu filho de nove anos para nossa reflexão. Ao assistir a uma cena de intimidade de um casal em uma novela, o filho perguntou se ela e o pai faziam coisas desse tipo. Mesmo sentindo-se pouco à vontade para um diálogo desse tipo com o garoto, ela levou a conversa adiante. Disse que sim, eles faziam coisas desse tipo e outras - e devo dizer que, numa tentativa de preservar o filho e o casal, referiu-se apenas a comportamentos que ela chamou de "básicos", seja lá o que tenha significado isso para ela, naquele momento. A reação do garoto foi de perplexidade: "Mas quando é que vocês fazem isso se eu nunca vi?". A mãe continuou a explicação informando ao filho que era no quarto do casal, à noite, que eles compartilhavam cenas de intimidade.
A intenção dessa mãe foi muito boa: ela quis, exatamente, dar uma lição de privacidade, passar a idéia para o filho de que tem coisas que não se fazem na frente dos outros, já que interessam apenas aos envolvidos. Entretanto, uma boa intenção nem sempre toma a forma de uma boa ação. O que a mãe conseguiu, agindo como agiu, foi expor a intimidade dela e do marido ao filho, mesmo que com palavras. Ela não se deu conta - justamente pela confusão que vivemos - que intimidade não se restringe ao que se vê, mas ao que se ouve também. Ela não se deu conta que há um limite entre a vida do casal e a dos filhos que deve ser preservado, mesmo que com custo.
Essa mãe não conseguiu imaginar que outra atitude poderia ter tido frente à indagação do filho. Quando a interpelei lembrando que ela poderia ter respondido ao filho que esse assunto não era da conta dele, ela reagiu com veemência dizendo que não queria, de modo algum, ser uma mãe autoritária. E aí nos defrontamos com outra confusão típica de nossos dias.Afinal, qual a fronteira entre relações autoritárias e relações mais democráticas, considerando-se a tarefa educativa dos pais?
Ainda aproveitando o exemplo de hoje, podemos vislumbrar uma pista. Pais autoritários não permitiriam ao filho que abordasse o assunto "sexo" com eles. Pais mais democráticos aceitam, sim, dialogar a esse respeito, mas numa abordagem sociocultural e não da intimidade da vida de cada um. E é bom lembrar que o inverso também tem acontecido: muitos pais extrapolam seu papel e sua tarefa educativa quando esmiuçam a vida íntima dos filhos. E nem adianta usar o argumento da necessidade de orientação: é perfeitamente possível orientar os filhos sem ter de saber detalhes da vida sexual ou amorosa deles.
Texto publicado na Folha de São Paulo em 02/12/2004
Escrito por Rosely Sayão às 14h20
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