Educando o gosto dos mais novos

A educação do gosto também é tarefa da família e da escola; se não assumirmos isso, os mais novos só apreciarão o que a mídia ou a indústria da moda determinam. Os pais têm reclamado bastante dos interesses e das preferências que os filhos demonstram ter a respeito dos mais variados itens da vida, e os professores fazem coro com essa reclamação. É, o gosto das crianças e dos jovens anda bem esquisito.
Muitas das músicas que eles ouvem à exaustão, decoram e cantam, acompanhados de gestos que os infantilizam ou expressam vulgaridades, nós julgamos de mau gosto. E as roupas? Extravagantes e ousadas, ora julgamos pequenas e justas demais, ora enormes e largas em excesso. Maquiagens excêntricas, corpos tatuados, linguajar escrito e falado que transgride a nossa língua têm sido causa de estranhamento e críticas de nossa parte.

Creditamos tudo isso que vemos e não gostamos às influências externas: a televisão, a internet, as revistas que eles costumam consultar, os livros de gosto duvidoso que fazem sucesso entre eles, os amigos cujos pais não se envolvem com a vida dos filhos e que com tudo concordam, o poder da indústria da moda e o da fonográfica etc. Por tudo isso - admitimos nós-, eles não se interessam e não gostam de coisas que achamos que dariam um sabor mais apurado às suas vidas.

O curioso é que damos como certo e intenso o poder de todos esses veículos sobre a vida das gerações mais novas e, no entanto, não nos convencemos de que nós, que com eles convivemos diariamente e que temos a responsabilidade primeira de educá-los, possamos ter poder igual ou maior. Essa é mais uma faceta da deserção de nosso papel em relação aos mais novos e, portanto, em relação ao futuro. Mais uma constatação de como temos minimizado os possíveis efeitos de nossa ação educativa sobre as novas gerações. Afinal, temos ou não a capacidade de influenciar decisivamente os gostos e os interesses dos mais novos?

Claro que temos. É preciso assumir que a educação abrange também o cultivo pelo gosto mais sofisticado das mais variadas manifestações artísticas e culturais, a apreciação estética e o desenvolvimento da sensibilidade em concordância com os valores da civilização. E não se trata de valorizar mais ou menos determinadas produções, e sim de fornecer subsídios para que eles desenvolvam sua capacidade crítica.
Já faz tempo que pais e professores passaram a ansiar por práticas educativas menos autoritárias e mais envolvidas com quem é educado. Mas essa aspiração tem sido fonte de muitos equívocos, e um deles é dar espaço para que os mais novos façam suas próprias escolhas e tenham suas próprias opiniões. Só que quem tem acesso apenas às possibilidades dominantes acaba por ficar sem escolha.

É assim que temos deixado as crianças e os jovens: sem escolha. Como podem eles escolher entre este ou aquele tipo de música, de dança, de roupa ou de linguagem, por exemplo, se são exaustivamente bombardeados por apenas um estilo dessas criações? Como chegam eles a afirmações do tipo "eu gosto disso" ou "eu não gosto daquilo"? Temos permitido que eles tenham seu gosto limitado a um determinado padrão dominante. As escolhas que eles têm feito são, na realidade, as escolhas que fazemos para eles.
Mas será que assumimos a responsabilidade por essas nossas escolhas? Parece que não, já que lamentamos boa parte delas. Então, está na hora de honrar nossas obrigações. A educação do gosto não é apenas tarefa da família e da escola, mas também é delas. Se não assumirmos com decisão e firmeza essa parcela da prática educativa, permitiremos que os nossos filhos e alunos apreciem apenas o que os programas de TV e de rádio, a publicidade e a indústria da moda determinam.

Os educadores têm um grande diferencial em relação aos que têm educado sozinhos o gosto dos mais novos: enquanto os primeiros atuam em favor da liberdade e do futuro, os segundos agem apenas movidos por interesses próprios. E, então, quem dá mais?

*Texto publicado na Folha de São Paulo em 30/03/2006