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Desilusões fazem parte do aprendizado

Todos queremos que as crianças sejam educadas de uma forma mais democrática e para que sejam mais felizes, não é verdade? E é justamente por conta desses anseios -legítimos, por sinal- que acabamos por construir uma grande contradição.

"Como vou educar meus filhos se a educação que tive -e até mesmo o contrário dela - não funciona mais com as crianças de hoje?" Essa foi a pergunta enviada por uma leitora que, provavelmente, devia ter passado por maus pedaços naquele dia, pois a pergunta soava, no contexto de sua mensagem, muito mais como um desabafo. A questão posta por ela é extremamente pertinente.Não é fato que as transformações do mundo têm ocorrido em velocidade tão incrível que, mesmo uma jovem mãe -ou pai- identifica grandes diferenças entre o mundo de sua infância e/ou adolescência e o atual, que aí está para receber seus filhos?

Tantas mudanças deixaram os pais órfãos de concepções educacionais, já que a referência principal deles é a educação que receberam. É claro que, em geral, os pais de hoje pretendem praticar com seus filhos um tipo de educação diferente daquele que seus pais praticaram com eles. Mas, de qualquer modo, a referência continua sendo aquela mesma. Entretanto, como bem observou a nossa leitora, a educação que recebemos não serve mais de referência, já que o contexto, principalmente o sociocultural, mudou bastante.

Em meio a tantas mudanças, é claro que a relação educativa dos adultos com as crianças se transforma bastante, pressionada por dois fortes ícones da cultura atual: a democracia e a felicidade. Todos queremos que as crianças sejam educadas de uma forma mais democrática e para que sejam mais felizes, não é verdade? E é justamente por conta desses anseios -legítimos, por sinal- que acabamos por construir uma grande contradição.

Na busca de uma relação mais democrática com os filhos, os pais não se sentem à vontade para exigir obediência; entretanto, como educar uma criança pequena sem que ela obedeça? A saída encontrada foi a de conversar com os filhos a fim de explicar os motivos desta ou daquela (quase) imposição. Os pais certamente se identificarão com alguns exemplos. Vamos lá.

Que tal sugerir a uma criança pequena, de menos de seis anos, que durma em seu quarto sozinha? Quando bem pequena, ela até aceita, mas, assim que descobre que a noite é cheia de fantasmas e monstros sempre prontos a aparecer, assim que ela se vê sem a mãe, recusa a condição. E cada uma, à sua maneira, acha um jeito de manifestar seu desagrado. O que fazem os pais? Sentam-se, conversam, explicam, tentam de tudo. Como nada costuma funcionar, aceitam o filho na própria cama ou dormem no quarto dele até que adormeça. Quando o filho chora desesperadamente porque a mãe ou o pai vão sair, lá vão os pais falar da necessidade do trabalho, de como isso traz benefícios a ele, coisa e tal. E ele pára de chorar pelo menos na despedida? Qual o quê! Apesar de as conversas, como única ação por parte dos pais, não funcionarem, uma coisa é certa: acabamos elevando a criança ao mundo adulto com tantas explicações e conversas em que ela, convenhamos, não está interessada, tampouco entende ainda.

Já, na busca de filhos mais felizes, um fenômeno bem interessante ocorre: os pais tentam, de todas as maneiras, poupar os filhos de todos os sofrimentos possíveis e imaginados. O filho queixa-se de que o colega da escola não brincou com ele? Lá vai a mãe pedir à professora que cuide dessa questão. O bichinho de estimação morreu? Os pais ocultam o fato da criança. A tia não se lembrou de dar presente ao sobrinho no aniversário? Os pais não titubeiam: conversam com ela para que repare sua ausência etc. Essas atitudes, por mais bem-intencionadas que sejam, atrapalham o crescimento da criança, fazem com que ela fique mais tempo na infância.

E aí está a contradição: de um lado, tiramos a criança de sua condição infantil e exigimos dela que seja responsável por obedecer sem ser exigida, ou seja, por adesão e, por outro, impedimos que as dores do crescimento, que são realmente sofridas, a impulsionem para a frente, a levem a buscar modos de enfrentar as vicissitudes da vida. A confusão é nossa, mas, na verdade, são os mais novos que pagam essa conta.

*Texto publicado na Folha de São Paulo em 14/10/2004

Escrito por Rosely Sayão às 10h32