Votos pela educação no Ano Novo

Ano Novo é sempre época de promessas, desejos e votos. Em relação à educação, temos muitos votos para este ano. Fiz um levantamento das expectativas dos leitores que, durante o ano passado, escreveram comentando, refletindo, criticando e analisando a educação praticada nos nossos dias. E, claro, compartilho desses votos e acrescento alguns. Vamos lá.

Aqui estão nossos votos para que pais e professores sejam potentes no exercício da função educativa. Educar é incompatível com a sensação de não ter o que fazer, de não saber que atitude tomar, de não ter forças para continuar. Podemos ter dúvidas, claro, podemos interrogar e questionar nossas próprias atitudes. Mas não podemos abdicar da função. E isso exige potência, mesmo em situações difíceis, tão comuns na vida de educadores.

Aqui estão nossos votos para que pais e professores saibam exigir dos filhos e alunos o melhor que eles possam fazer. Não se trata de pressionar para que eles façam muitas coisas, que tenham sempre a agenda tomada, que sejam melhores que os outros. Trata-se de cobrar ativamente _não apenas no discurso_ que eles se esforcem, se dediquem, se empenhem em suas atividades, que sejam o melhor que podem ser. Crianças e jovens têm muito potencial, mas nem sempre são estimulados a realizá-lo. É comum os mais novos desistirem facilmente perante atividades que exijam concentração e tempo para serem realizadas. Entretanto, se devidamente exigidos, eles são capazes de responder e, depois, se orgulhar do que fizeram. Mesmo reclamando.

Aqui estão nossos votos para que pais e educadores acreditem que filhos e alunos são capazes de enfrentar as vicissitudes da vida. A realidade da vida nem sempre é justa, fácil e fonte de felicidade. O cotidiano é cheio de pequenas _e, algumas vezes, grandes- frustrações, decepções e injustiças. Educar é apresentar, na prática, a vida aos mais novos e permitir que eles percebam que é possível sobreviver a esses sofrimentos e a essas provações. Protegê-los e preservá-los da vida não é um ato educativo. Ensinar a indignação é apostar que eles possam melhorar o mundo que construímos até então.

Aqui estão nossos votos para que pais e professores consigam superar o pensamento individual e saibam ensinar alunos e filhos a se comprometerem com o bem comum. Chega de direcionar o filho apenas para um futuro pessoal confortável e os alunos para o êxito no vestibular e/ou
o mercado de trabalho. O compromisso com o coletivo nos dá esperança de um mundo melhor, mas nos dá também responsabilidades.

Aqui estão nossos votos para que os pais deixem de atuar como professores particulares dos filhos e para que os professores deixem de agir como se fossem pais postiços de seus alunos. Em casa, crianças precisam de pais; na escola, de professores.

Aqui estão nossos votos para que as escolas deixem de considerar os pais de seus alunos como clientes e consumidores, e isso não se restringe às escolas particulares. Tal atitude é um desrespeito aos alunos, às famílias e ao futuro da humanidade. Basta de alegar que a escola não pode mudar porque os pais não aceitam as mudanças.

Aqui estão nossos votos para que as escolas se inovem, se adaptem aos novos tempos e à realidade do alunado. Persistir no modelo que já se mostra superado, que produz mais problemas do que educação, é abdicar da responsabilidade e da ética de quem se dedica à educação.

Aqui estão nossos votos para que todos os pais lutem por uma melhor escola pública. Mesmo quem tem filhos em escolas particulares deve se comprometer com essa luta. A maioria dos alunos brasileiros freqüenta escola pública, o que significa que a maioria dos futuros cidadãos terá sido por elas formados.O futuro dos filhos de todos depende, em parte, de como a escola pública exerce seu papel.

Finalmente, aqui estão nossos votos para que os secretários de educação que acabaram de assumir seus postos tenham consciência da responsabilidade de seus cargos e saibam honrar ética e politicamente seus papéis.

*Texto publicado na Folha de São Paulo em 06/01/2005