A responsabilidade dos pais

O mundo tem tornado cada vez mais complexo o relacionamento dos pais com os filhos adolescentes e, conseqüentemente, com a educação deles. No período de transição pelo qual passamos, em que o início e o fim da adolescência não são mais facilmente identificados, os pais ficaram sem referências sólidas sobre essa passagem para a vida adulta. Paralelamente, temos outro fenômeno que diz respeito aos adultos. Devido ao nosso contexto cultural, cada vez mais os adultos focam sua vida nos próprios interesses e menos na tarefa de educar os filhos.

A reportagem "Jovens acusam seguranças de agredi-los em festa na Daslu", que saiu na Folha de domingo, ilustra de modo exemplar a conversa de hoje. Em resumo: 1.200 pessoas foram convidadas para uma festa de debutante, entre elas cerca de 800 jovens. Na festa, o ambiente destinado aos adultos era protegido por seguranças, já que lá serviam-se bebidas alcoólicas.
Por um motivo até agora desconhecido, perto das 3h um grupo de seguranças levava para fora da festa um adolescente e, nesse momento, seus amigos vieram em seu socorro. Resultado: cerca de 50 jovens se chocaram com 30 seguranças.

A questão, agora, é atribuir a responsabilidade pelo ocorrido: seria da firma que promoveu o evento, da organizadora da cerimônia, dos jovens intrusos na festa, das rixas entre alunos de colégios diferentes ou da empresa contratada para a segurança da festa?

Duas questões chamaram minha atenção, e a primeira foi justamente essa. Em nenhum momento, os convidados adultos foram considerados responsáveis. E muitos deles deveriam ser pais dos jovens que se divertiam no outro ambiente.Essa imagem de adultos presentes no mesmo espaço que seus filhos, mas sem nenhuma implicação com eles, tem sido muito comum. Cada vez mais, os pais transferem para outras pessoas -em geral, algum trabalhador contratado- a responsabilidade pelos filhos, porque só assim conseguem se dedicar a eles mesmos. E isso desde muito cedo.

As babás são as primeiras trabalhadoras que recebem esse encargo dos pais. Quem já não teve a oportunidade de observar famílias passeando no fim de semana com os filhos e suas respectivas babás? Um olhar atento constata que a família, na verdade, não se relaciona como um grupo. São os pais de um lado e os filhos de outro. Mas, como estes precisam dos adultos, são as babás que cumprem esse papel.Em festas infantis, são os animadores que assumem esse lugar, já que os pais costumam ficar conversando entre si. A caminho da escola, são empregadas e motoristas os responsáveis. E foi assim que funcionou a festa descrita na reportagem.

A segunda questão que me chamou a atenção foi a forte imagem de um local reservado aos adultos na festa, protegido por seguranças. A justificativa foi a da bebida alcoólica servida. Coloco em dúvida tal fato. Na verdade, os adultos ficam mais à vontade quando estão só entre seus pares porque não querem ocupar o difícil lugar de vetar aos mais novos aquilo de que eles ainda não podem participar. A bebida alcoólica é só um desses elementos.

Fui, recentemente, a uma festa de casamento em que velhos, adultos, adolescentes e crianças se relacionaram, conversaram e se divertiram no mesmo espaço. Bebida alcoólica foi servida e vetada aos mais novos, sem drama algum. Sim, é possível que a convivência entre várias gerações seja agradável e educativa. Mas, para tanto, o adulto deve estar disponível e não abdicar de seu lugar em relação aos mais novos. E mais novos não são só os próprios filhos, é bom lembrar.

* Publicado originalmente no Folha Equilíbrio