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Educação para a cidadania

Uma professora contou um fato muito interessante. Dias antes do Dia da Consciência Negra, um aluno de sua turma, formada por crianças com idade entre oito e nove anos, fez uma pergunta: "O que é Dia da Consciência Negra?". Um colega respondeu de pronto, antes que a professora desse a explicação: "É o dia em que você só tem pensamentos ruins". Depois da explicação da professora, um outro aluno fez outra pergunta igualmente interessante. Ele queria saber se só nesse dia as pessoas deveriam ter essa consciência.

Vivemos em uma sociedade bastante intolerante com as diferenças, notadamente a racial e a social. Em tempos em que o discurso exalta a diversidade como rica e as relações sociais democráticas como ideal a ser buscado, a prática se mostra muito diferente, principalmente em relação à educação.

Vamos considerar, de início, uma razão muito usada pelos pais para justificar concessões feitas aos filhos. Quando eles demandam algo que os pais relutam em aceitar, o argumento mais eficaz é justamente o mal-estar que a diferença provoca.Assim, quando o filho diz "todo mundo vai" ou "todos os meus colegas têm", os pais se sentem acuados. Afinal, não querem que o filho seja diferente dos colegas nem isolado do grupo.

Da mesma maneira, os pais procuram que o círculo de relacionamento dos filhos seja composto por pessoas parecidas com eles: que freqüentem a mesma escola, que vivam em famílias com o mesmo nível socioeconômico, que tenham a idade e a aparência similares etc. Foi por isso, entre outros motivos, que a classe média retirou seus filhos das escolas públicas e optou pelas privadas.

Que resultados conseguimos com atitudes desse tipo? Vejamos um deles. Na raiz de muitas atitudes de intimidação entre colegas -o fenômeno chamado de "bullying"-, estão presentes a intolerância em relação à diferença e o preconceito. Crianças e jovens que se destacam no grupo por apresentarem uma característica ou um comportamento diferente são, em geral, os candidatos preferenciais do "bullying".

Mas não é apenas na família que se ensina a rejeitar a diferença em vez de ensinar a conviver com ela. A escola não tem colaborado como deveria e poderia para desenvolver o respeito às diferenças. Em seu discurso, a instituição escolar expressa a intenção de oferecer o aprendizado, desde a educação infantil, do respeito à diferença, da subordinação dos interesses pessoais ao interesse geral, da cooperação e da solidariedade. Isso é o que se chama educação para a cidadania. E na prática, o que a escola faz?

Muito pouco, podemos constatar. Em geral, ela acirra a competição em vez de promover a cooperação, seleciona e julga as diferenças, não proporciona discussões interdisciplinares cotidianas a respeito dos vários tipos de preconceito presentes em nossa sociedade e no próprio espaço escolar. Além disso, confunde direitos com privilégios e não valoriza as virtudes democráticas, entre tantas outras questões.

A educação que busca a convivência respeitosa com a diferença é, certamente, um processo muito lento, o que não combina com o anseio educativo atual que busca resultados imediatos. Por isso, é preciso que os educadores estejam atentos para manter seus ensinamentos com consistência e regularidade e, ao mesmo tempo, que criem sempre novas estratégias para tal educação.

Neste ano tivemos, em São Paulo, uma passeata no Dia da Consciência Negra. No próximo ano, as escolas que educam para a cidadania poderiam, por exemplo, estimular a participação de seus alunos nessa manifestação. Tal atividade seria muito mais pertinente ao trabalho da escola do que os passeios que ela promove para a diversão de seus alunos.

Texto publicado originalmente no Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 16h55

Adultos não precisam explicar tudo para os filhos

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Categoria: Vídeos
Escrito por Rosely Sayão às 16h37
O uso da chupeta e a retirada dela

A mãe de uma garotinha de pouco mais de três anos tem dúvidas a respeito do uso da chupeta pelas crianças. Quem tem filhos com menos de cinco, seis anos, em geral não escapa dessa questão. São poucas as crianças que não recebem a chupeta dos pais quando bebês: no Brasil, em torno de 70% das crianças pequenas têm ou tiveram esse hábito. É que o uso da chupeta produz efeitos na criança que os pais gostam muito porque estes acalmam a ansiedade. Dos pais e, principalmente, das mães.

O fato é que, chega uma hora em que a mãe acha que o filho precisa deixar tal hábito. Aí começam as dúvidas como, por exemplo, a respeito da idade para que isso ocorra. Não há uma resposta certa para isso, mas o bom senso nos faz pensar que, após os dois a nos, a criança já apresenta potencial para superar essa fase da relação com a chupeta. Por que essa idade?

É que a partir dos dois anos, a criança se ocupará de outra questão importante que é o início do aprendizado do controle esfincteriano. Isso tem um sentido: o de que deixou de ser bebê. Por isso, pode viver bem sem a chupeta, centrada no ato de sugar tão importante para o bebê.
O problema é que nem sempre é esse o motivo dos pais quererem que o filho renuncie à chupeta. Em geral, é a preocupação com a futura dentição. Isso complica o processo para os pais e para a criança porque não há tanta convicção de que, de fato, o filho não precisa mais usar tal recurso. Os pais querem que ele deixe a chupeta, mas ficam penalizados porque sabem que o filho sofrerá sem ela. Assim, o filho resiste mais do que, normalmente, resistiria. Quando os pais têm a convicção de que o filho realmente pode viver bem sem a chupeta, eles apresentam mais firmeza de atitude e, assim, a resistência do filho é menor.

Perto do Natal, quero falar de um costume muito usado pelos pais: a proposta, ao filho, de que ele troque a chupeta, com o Papai-Noel, pelos presentes que receberá. Não considero essa uma boa estratégia. Primeiro, porque é um negócio que nem sempre poderá ser bancado pela criança. Segundo, porque isso não acrescenta crescimento à ela.

Uma boa maneira de retirar a chupeta é a que se faz por etapas. Aliás, todo processo educativo é assim realizado. Tira-se um período do dia, depois outro e, finalmente, o período mais difícil, que é o da noite, na hora de a criança dormir. Desse modo, o processo ajuda a criança a se acostumar aos poucos com a falta da chupeta, e isso facilita a criação de novas possibilidades para enfrentar os momentos em que precisava da chupeta. O resultado desse processo costuma ser muito mais efetivo, apesar de ser mais demorado e de exigir mais da mãe do que da criança.

Aos pais que têm filhos com mais de dois anos que usam chupeta: não se alarmem. Essa idade é apenas uma referência, portanto não significa que o uso além dessa fase cause danos irreversíveis, ok? Basta respirar fundo e se convencer do crescimento do filho e, então, iniciar o processo de retirar o uso.

Escrito por Rosely Sayão às 12h17
Negociação de conflitos na adolescência

Pode não parecer, mas alguns adolescentes odeiam o período de férias. Uma garota contou-me os motivos dessa repulsa com um tempo que, em geral, é tão esperado pelos jovens. Os pais se separaram quando ela tinha em torno de seis anos. Filha única, teve a sorte de ter o pai sempre por perto, o que nem sempre acontece. Só que ele teve de ir morar em outra cidade, por questões profissionais, e assim passaram a se ver bem menos. Por isso, o casal decidiu que, daí em diante, ela passaria as férias com ele. E ela adorou,  até entrar na adolescência.

O problema é que, nessa fase da vida, eles adoram as férias justamente porque é o período em que ficam à vontade para curtir a vida livremente com os amigos: ir ao cinema a qualquer dia e hora, reunir os amigos em casa para jogar videogame, paquerar ou assistir a filmes comendo pipoca, contar piadas, jogar conversa fora, fazer bagunça com a turma, fazer festas ou falar horas ao telefone mesmo sem ter assunto algum.

Mas, para essa garota, férias passaram a significar compromisso de viajar para estar com o pai, ou seja, se ausentar de tudo isso. Ela tentou escapar: discutiu, brigou, fez greve de fome e tudo o mais que achou ter o direito. E depois de tudo, é claro que se arrependeu. Desistiu da batalha porque percebeu que não teria êxito, mas principalmente porque ouviu o pai reclamar que ela gostava mais dos amigos do que dele.

Quem tem razão nessa história? Os pais, que decidiram valorizar o relacionamento com a filha, ou ela, que passou a desejar ter vida própria? Quem acha que tem a resposta certa na ponta da língua é melhor parar para pensar um pouco mais. A situação não é de fácil solução para nenhuma das partes. Mas, mesmo assim, dá para negociar.

Os pais precisam respeitar o fato de que, quando chega a adolescência, a turma preferida dos filhos muda e isso faz parte da vida e do crescimento. Mas, o afeto não muda. É fazendo amigos que os adolescentes começam a testar a independência emocional, a experimentar a autonomia, a aprender a criar vínculos estáveis por conta própria. E isso é fundamental para o futuro deles. Os pais não podem resistir a esse movimento do filho que busca o afastamento da família. Por outro lado, eles continuam precisando – e muito! – da referência familiar.

Se todos morassem na mesma cidade seria bem mais fácil encontrar uma solução, se bem que mesmo assim poderiam surgir dificuldades. Mas, no caso dessa garota, será preciso um pouco mais de tolerância dos pais para que possam chegar a um acordo que considere todos os envolvidos. OS pais precisam aprender a ouvir mais os filhos nessa etapa da vida.

Talvez, o ideal não seja bater pé firme na decisão em busca da manutenção da coerência e os valores dos pais, mas negociar a vida prática sem abrir mão deles. Quem sabe, os pais possam permitir que ela volte um pouco antes de as férias terminarem ou que vá um pouco depois de começarem, de modo a dar espaço para que ela viva um pouco mais a própria vida.  Assim, é possível considerar e respeitar a vida dela e, ao mesmo tempo, os valores dos pais. Afinal, os filhos são educados e preparados para viverem sozinhos logo mais, não é isso?

Escrito por Rosely Sayão às 17h06