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Criança hiperestressada
Subiu o índice de utilização de calmantes pelo brasileiro. Isso significa que o adulto anda estressado, não é? E as crianças, como andam? Fiquei perplexa com o resultado de uma pesquisa a respeito do equilíbrio emocional de crianças e adolescentes patrocinada pelo canal Nickelodeon. Foram ouvidas 2800 crianças e adolescentes entre 8 e 15 anos, da classe A e C em quatorze países. A notícia está na revista Veja: as crianças brasileiras são as mais estressadas do mundo.
Um resultado espantoso, não é verdade? Como é que pode crianças brasileiras serem mais estressadas que as japonesas, que as americanas, que as sul-africanas, que as mexicanas e que as chinesas, entre outras? Tem o nosso dedo nessa história.
Temos feito uma pressão desmedida sobre os filhos quando o assunto é a vida escolar. Como disse a Estrela Negra no post a respeito do vestibular, passar em universidade particular não é considerado mérito. É preciso disputar as universidades consideradas “nobres” e os cursos mais concorridos para ter o devido reconhecimento. E isso é só um pequeno detalhe da vida escolar da criançada e dos jovens.
E quanto à questão da chamada popularidade? Como já comentei, os pais querem e até forçam os filhos a se comportarem de modo a terem muitos conhecidos ou “amigos”, como eles dizem. Filho que não é convidado a ir a determinadas festas ou finais de semana com colegas provoca o maior estresse em casa.
E no que diz respeito à vida dos pais e dos adultos em geral? Não há quase mais segredos de adultos para com as crianças, dos pais para com os filhos, do mundo adulto em relação à infância. Ora, se para o adulto é pesado encarar algumas dificuldades e características da vida atual, imaginem só o que deve ser para as crianças!
E tem mais: a pesquisa apontou também que 95% das crianças brasileiras (!!!!) acham que é obrigação delas tornar os pais felizes, contra 20% das inglesas e 50% das chinesas. Por que será que eles tomaram para si tal responsabilidade? Certamente porque, de algum modo, a jogamos sobre elas.
Por fim, há essa paranóia geral a respeito da falta de segurança. Não deixamos mais nossos filhos nas ruas nem permitimos que usem transporte público por medo da violência. Violência que está entre nós e que nós mesmos praticamos no nosso cotidiano, em nome da insegurança que sentimos. Por falar nisso, há violência maior do que a de criar uma geração de crianças e jovens estressados?
Espero que o resultado dessa pesquisa produza frutos na prática. Eu não canso de dizer: temos tratado crianças e jovens como adultos, temos esperado deles um comportamento que cabe a nós levá-los a ter. Lembram-se das mães que acham "chato" ter de repetir ao filho 10 vezes a mesma coisa? O índice de estresse que eles carregam é apenas um dos resultados desse nosso estilo de conviver com eles. E, talvez, nem seja o mais importante.
Escrito por Rosely Sayão às 23h41

Recuperação e reprovação
Neste período do ano, muitas crianças e muitos adolescentes enfrentam dissabores em casa. É que os pais já sabem se os filhos irão para recuperação escolar ou se repetirão o ano. E essa notícia provoca reações emocionais intensas.
No caso de alunos que irão para recuperação, muitos pais decidem agir na tentativa de salvar o ano do filho e saem em busca de socorro pedagógico. Mas será que eles querem mesmo ajudar o filho? Pelas atitudes tomadas, parece que não.
Eles querem é evitar a reprovação, custe o que custar. Alguns professores que dão aulas particulares -e que ficam sobrecarregados de trabalho nos últimos meses do ano- informam que o pedido dos pais é simples: que o filho passe de ano. E mais: quase todos mencionam o valor alto da mensalidade das escolas. Já no caso de pais que tiveram a notícia de que o filho irá repetir o ano, as reações são bem mais radicais. Muitos aplicam algum tipo de punição: o filho perde o direito de viajar, recebe a notícia de que não ganhará determinado presente, fica proibido de jogar videogame e de acessar a internet, perde a mesada, não pode sair no final de semana etc. Tudo isso acompanhado de muita reclamação e de um descontentamento visível que acaba por criar uma barreira entre os pais e seus filhos e até entre estes e sua relação com os estudos.
A primeira coisa que os pais precisam saber é que, do modo como a escola funciona hoje, o desempenho escolar dos alunos tem pouca relação com o aprendizado adquirido. As instituições escolares ficaram tão viciadas no tipo de avaliação que fazem que boa parte dos alunos, assim que consegue apreender a gramática da escola, responde a ela, tão somente. Desse modo, as notas estão mais ligadas à relação dos alunos com a instituição escolar do que ao conhecimento. Assim, um aluno que passa o ano com boa avaliação pode não sinalizar nada mais do que simplesmente ter conseguido cumprir a tarefa de não ficar retido e a de ter bons resultados nas avaliações. Isso significa que muitos alunos que serão aprovados não conseguiram, necessariamente, construir um sentido para o ato intelectual de aprender nem uma relação de gosto pelo conhecimento.
Já os alunos que farão recuperação ou repetirão o ano podem só mostrar as falhas da escola no ensino e na organização ou a dificuldade que eles mesmos tiveram em focar sua atenção no estudo e em dar um sentido ao fato de freqüentar a escola. Tarefas, aliás, que fazem parte do trabalho da escola.
Conclusão: o êxito escolar diz muito pouco a respeito do estudo e do empenho dos alunos na relação com o conhecimento sistematizado. Outro fator que os pais precisam saber é que estudar não é a coisa mais importante na vida de seus filhos -nem precisa ser. Jogar futebol, namorar, brincar, ficar sem fazer nada, procurar diversão etc. são comportamentos, na vida de crianças e adolescentes, que não indicam necessariamente preguiça, pouco empenho, irresponsabilidade ou mesmo dificuldade de aprendizado. Muitas vezes, as crianças e os adolescentes precisam de um tempo para amadurecer intelectualmente, e se dedicar intensamente a algo apaixonante pode ser um passo nesse caminho.
Agora, salvar o próximo ano escolar deve ser, para os pais, a meta mais importante. Para tanto, deixar claro ao filho o transtorno familiar que ele provocou é o suficiente. Não é preciso qualificar a situação escolar como fracasso nem aplicar punições severas. Aliás, em muitos casos os filhos precisam, neste momento, de consolo. E, na próxima etapa, é importante transmitir a eles, desde o início e cotidianamente, a idéia de que estudar e passar o ano é um dever para com eles mesmos e não para com seus pais. Afinal, a escola é a primeira luta que os mais novos precisam enfrentar sozinhos.
*Texto publicado originalmente no Folha Equilíbrio
Escrito por Rosely Sayão às 00h40

Tempo de vestibular
Recebi correspondência de um jovem que está, nesta época do ano, ocupado com essa tarefa insana que é prestar vestibular. Fiquei sensibilizada com algumas palavras que ele escreveu e, creio, representam o estado dele e de boa parte de seus colegas. Ele diz que não sabe se irá dar conta da prova que irá realizar no próximo domingo – a primeira fase da Fuvest – de tão ansioso e preocupado que está. E mais: que não sabe o que irá fazer da vida caso não seja aprovado.
É isso: para muitos jovens, a maioria da classe média, passar no vestibular transformou-se na coisa mais importante da vida. Isso sem falar, é claro, na escolha do curso, processo anterior ao atual. Não que isso faça grande sentido a eles. Na verdade, faz muito mais sentido aos pais do que aos próprios jovens.
O fato é que construímos, para os filhos, a idéia de que a grande batalha da vida deles é tal exame. Imaginem vocês que pais de crianças com menos de seis anos já se preocupam se a escola de educação infantil considera o vestibular em sua programação. Não é uma loucura isso?
Pois é assim, desde muito cedo, que criamos uma pressão que acaba sendo monstruosa sobre os jovens. E, quando chega a hora H, como chegou para esse internauta, é um desespero só. Medo do fracasso, de não vencer a batalha para a qual vem sendo preparado boa parte da vida.
O problema é que, depois de passar, muitos entendem que já cumpriam sua missão e relaxam. Pois é: o índice de estudantes universitários que não consegue terminar o curso tem aumentado a cada dia. Eles desistem de algumas disciplinas ou do curso, pedem transferência, param por um ou mais semestre ou vão acumulando dependências.
Talvez seja necessário que os pais repensem essa questão para conseguir reduzir a importância do vestibular a seus limites reais. O que significa passar no vestibular em relação ao futuro desses jovens? Nada de tão importante assim, afinal. Quando um jovem não consegue passar pela etapa do vestibular para determinada faculdade, ele tem disponível muitas outras opções.
É isso que o internauta que escreveu e os jovens que irão fazer a mesma prova devem considerar: se eles não forem aprovados, a vida continuará a correr regularmente. Alguns tentarão outras faculdades, outros decidirão se preparar melhor por mais um ano, outros ainda podem querer procurar um trabalho enquanto estudam para o próximo exame. Nenhuma tragédia. Portanto, em frente e boa sorte.
Escrito por Rosely Sayão às 01h24
É preciso colocar ordem nas relações amorosas
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Vídeo exclusivo para assinantes UOL.
Escrito por Rosely Sayão às 20h18

Educação e felicidade
Assisti novamente ao filme “Dança comigo?” nestes dias, agora em versão nova. A primeira – que foi a que mais gostei – é japonesa e foi lançada em 1996. A segunda, americana e lançada em 2004, foi filmada com atores consagrados e apreciados pelo público e é a versão mais conhecida.
Esse filme me fez pensar em duas coisas e hoje vou tratar de uma delas: a questão da felicidade. Já comentei aqui, em outro texto, que vivemos na atualidade uma obrigação incômoda que interfere diretamente na educação que praticamos. Hoje, é obrigatório ser feliz.
O problema é que a felicidade, em uma cultura que também estimula o consumo, a aparência, o individualismo e o imediatismo, ganhou uma face muito duvidosa. Hoje, felicidade é ter alegria, prazer imediato e pessoal. Como isso interfere na educação? Só para citar os efeitos provocados nos anseios que temos com os mais novos: não há pais nem escola que não afirmem que “o importante é que seus filhos e/ou alunos sejam felizes”.
Considerando o conceito atual de felicidade, fica difícil educar, não? Na verdade, educar, em geral, descontenta os mais novos. Afinal, que criança fica alegre ao ter de trocar a brincadeira pela escola, ao receber um não a um pedido? E o adolescente, então, que precisa cumprir horários em vez de sonhar, que tem de arcar com responsabilidades e compromissos – afetivos, inclusive – e não apenas se deixar levar por seus impulsos?
Pois o filme nos dá algumas pistas sobre como esse conceito de felicidade é falso. O personagem principal, um advogado, tem tudo o que, supostamente, deveria render felicidade: uma família que ama, um trabalho bem remunerado, uma posição social e econômica boa. Mas, por dentro, é só angústia.
Talvez os pais e a escola não devessem se preocupar tanto com a aparente felicidade – ou prazer e alegria - dos mais novos. Os pais têm funções mais importantes do que essa. Algumas delas, que talvez possam contribuir para que, na maturidade, os filhos encontrem com mais facilidade os caminhos da própria felicidade, são ajudar o filho a se conhecer melhor para procurar os seus meios de expressão e ensinar a “ler” o mundo em que vive para ser capaz de encontrar maneiras de interferir nele.
No filme, é na dança que o personagem encontra um modo de expressar suas emoções, de relaxar, de se divertir. E, mesmo assim, percebe que para alcançar tudo isso precisa investir compromisso, esforço, concentração e, acima de tudo, enfrentar a si mesmo e, conseqüentemente, aos outros que compartilham sua intimidade.
Foi essa a reflexão que fiz ao assistir ao filme. Pensei que, se de fato acreditarmos nas novas gerações, delegaremos a elas a tarefa de buscar a própria felicidade. Nosso trabalho seria anterior, na formação deles. Mas, como parece, acreditamos mais em nós do que neles. Por isso, assumimos o dever de proporcionar a eles a felicidade. É aí que a coisa complica ainda mais para quem precisa educar, não é verdade? Afinal, o que é que possibilita a felicidade para cada um de nós?
Escrito por Rosely Sayão às 10h54
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