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Mães sinceras?

Li uma reportagem publicada na revista Época da semana passada cujo título é “Só as mães são sinceras”. Sabem do que ela trata? Da grande confusão a respeito de como a mulher se relaciona com o papel de mãe nos dias atuais. Confusão, aliás, que tem tudo a ver com o meu post anterior.

A nova mulher é bem diferente da que viveu até a Segunda Guerra e que passou por mudanças intensas e rápidas a partir dos anos 60. Mas, alguns anseios continuaram para muitas delas: o de ter filhos. Não sei bem se é um anseio próprio ou fruto de pressão social, mas o fato é que boa parte das mulheres ainda querem ter filhos.

E a equação ter filhos mais se dedicar ao desenvolvimento profissional, à carreira, à diversão e ao entretenimento, ao lazer, à busca de novos desafios etc. não tem resolução simples tampouco resultado conhecido, ou seja, resposta certa. Agora, muitas mulheres decidiram reclamar da árdua tarefa de criar e de educar os filhos. Publicamente. E mais: essa reclamação passou a fazer sucesso na mídia e, portanto, tem audiência certa.

Se pensarmos bem, nunca ninguém disse que ser mãe seria uma tarefa fácil. Lembram-se daquela famosa frase que afirmava que “Ser mãe é padecer no Paraíso”? Ela já anunciava, em alto e bom som, que a vida de mãe, mesmo bem-aventurada, de fácil não tem nada. Muito bem: já superamos essa pieguice, mas daí a chegar a dizer que a vida de mãe é quase um inferno já é demais, não é? Pelos depoimentos publicados, dá para pensar que muitas mulheres que encararam a maternidade consideram, hoje, que caíram numa armadilha. Vejam essa frase que a reportagem mostrou: “Dizem que filhos são um presente enviado pelo céu. Mas ninguém diz que às vezes a gente tem vontade de mandar o presente de volta.”.

E a matéria ainda elaborou uma lista: “10 chatices da vida de mãe”. Vou citar só as duas primeiras: “Pedir 10 vezes para o filho tomar banho, escovar os dentes e fazer o dever de casa” e “Levar o filho para ir ao banheiro nos locais e momentos mais absurdos”.

Para mim, essas frases não soam como um relato sincero de mãe frente às dificuldades que enfrenta e sim como uma reclamação de adolescente que não quer dar conta do que assumiu.

Ser mãe não é mesmo tarefa simples ou fácil: repetir 10 vezes a mesma coisa é pouco, muito pouco. Na verdade, quem tem filhos repete a mesma coisa por, pelo menos, uns 18 anos...  Quem tem filhos precisa fazer um parêntese na vida para tantas coisas, não é verdade? E nem vou dizer que ser mãe é uma maravilha, uma coisa mágica coisa e tal. Ser mãe é um compromisso que exige muito esforço, paciência, persistência e dedicação, entre outros predicados. E, acima de tudo, disponibilidade e maturidade.

Não vejo problema algum no fato de mulheres confessarem as perplexidades e as confusões que a maternidade provoca, ainda mais com humor. Mas, um pouco de recato cairia bem. Dizer coisas do tipo “Sinto muito, mas meus filhos são um tédio mortal” – título de um artigo publicado por uma jornalista inglesa e citado na reportagem – não é tratar da questão com humor. É debochar.

Escrito por Rosely Sayão às 23h44
Onde estão os adultos?
Vocês devem ter lido a notícia da morte da garota Ana Carolina, 21 anos, modelo. Ela foi vítima de anorexia. Esse tipo de notícia sempre me faz pensar muito. Afinal, qual a parcela de nossa responsabilidade nessas mortes trágicas de jovens? Não dá para fazer de conta que não temos nada com isso, não é verdade? Será que não estamos jogando nossas crianças e nossos jovens aos leões?

Nossos jovens buscam, hoje, um corpo perfeito. O índice de cirurgias plásticas praticadas em adolescentes em nosso país já é alarmante. O de distúrbios alimentares também, e as garotas são as vítimas preferenciais. A anorexia, por exemplo, é nove vezes mais comum em mulheres do que em homens. A idade em que mais ocorre é na adolescência, mas os médicos dizem que ocorre cada vez mais precocemente.

Essa busca por uma aparência socialmente cultuada pode ser constatada facilmente por qualquer observador. As academias de ginástica estão repletas de jovens e consultórios de médicos que orientam dietas também, só para citar dois indicativos do fenômeno. E a fabricação e a comercialização de produtos diet e ligth, então?

Alguém já parou em frente a uma banca de revistas e olhou atentamente para as capas delas? Mulheres magras, sempre muito magras. Parece que ter um corpo magro, hoje, é fundamental. Os adolescentes que não são magros sabem muito bem o peso que é carregar um corpo que não se encaixa nesse padrão.

Mas, precisamos saber que nós alimentamos cotidianamente esse conceito. Nós, os adultos. Quem paga as cirurgias desses jovens, quem estimula – mesmo sem perceber – o consumo de alimentos de baixas calorias, quem banca as mensalidades das academias, afinal? Quem consome as caras roupas mostradas em desfiles por essas modelos extremamente magras?

Estamos tão ocupados na busca de nossa juventude permanente - tema que tem muito a ver com a aparência também - que estamos tratando de questões delicadas da vida dos mais novos com muita displicência.

Outro dia, uma leitora reagiu a um texto meu e escreveu perguntando se eu não tinha compaixão pelos pais. Vou falar com franqueza: minha compaixão é dirigida às novas gerações. Os mais novos, crianças e adolescentes, precisam de nós. E, pelo jeito, estamos tão mergulhados em nós mesmos que o lugar de adulto perante eles tem permanecido vago.

Não é à toa que a palavra educação tem sido tão usada – muitas vezes de forma inconseqüente – na atualidade. Educar exige a presença de adultos. Onde estão eles?
Escrito por Rosely Sayão às 23h39
Qual o valor que damos ao consumo?

Acabo de chegar de um trabalho em uma escola situada no interior paulista. Como faço assessoria regularmente, de vez em quando acompanho o trabalho dos professores em sala para observar os efeitos de nossas discussões e reflexões. Hoje, vou contar um fato que observei, que me chamou muito a atenção e me deixou bem pensativa.

Na Educação Infantil, em uma sala com crianças com idade em torno dos quatro anos, no início do período a professora reuniu os alunos – mais ou menos 20 – e fez o que se chama uma “roda de conversa”, um dispositivo bem interessante quando bem utilizado.  Mas, mais do que o procedimento, o que quero ressaltar foi o conteúdo da fala dessas crianças.

Como hoje é segunda-feira, elas queriam contar à professora e aos colegas o que fizeram no final de semana. Bem, muitas relataram atividades realizadas com a família e todas elas tinham um elo em comum: o consumo. Algumas crianças disseram que foram ao supermercado e contaram o que compraram; outras fizeram referência a lojas, outras ao shopping local, mas o que ressaltavam mesmo é o que havia sido comprado pelos pais, para a casa ou para a própria criança.

Claro que isso não significa que nenhuma criança dessa sala não tenha feito coisa diferente de consumir. Suponho que várias delas tenham ido visitar alguém ou tenham recebido alguma visita, que tenham brincado de algo diferente etc. Mas, uma coisa é certa: o consumo, pelo relato delas, foi a atividade mais valorizada.

Vamos nos deter um pouco nessa palavra: valor. Quando valorizamos algo, ou seja, quando investimos e/ou reconhecemos valor em algo - seja uma característica humana, um objeto ou uma atitude - significa que damos importância a isso que, de alguma maneira, desperta nossa admiração e/ou interesse.

Então, caros: se crianças pequenas valorizam dessa maneira o consumo, quer dizer que é essa a lição que temos transmitido. E vejam que o que está em jogo não é o ato de consumir mais ou menos, com maior ou menor regularidade, e sim o de VALORIZAR o consumo. Fiz questão de escrever essa palavra em letras maiúsculas porque já percebi que muitas pessoas, quando se referem ao consumismo, pensam na quantidade  e na freqüência do consumo e não no VALOR que se dá a ele.

Consumir é algo bem simples e faz parte da vida de todos: trata-se de usar ou adquirir para uso algo que queremos e/ou que precisamos. Consumimos nosso tempo, os alimentos, objetos dos mais variados tipos etc. O que importa para quem educa não é o consumo, e sim o valor que se dá a ele.

Gosto de dizer que a parte mais importante da educação é o ato de pensar a respeito das ações que tomamos. Os equívocos e os erros que cometemos quando educamos nossos filhos e alunos não são problemáticos. Aliás, são inevitáveis. O problemático é valorizarmos determinadas características sociais sem reflexão, sem crítica, sem resistência alguma.

Os mais novos bem que poderiam considerar outros aspectos da vida como mais valorosos do que o consumo, não é verdade? Isso certamente contribuiria para uma vida melhor no futuro, para eles mesmos e para a humanidade. Para tanto, precisamos pensar nos valores que transmitimos de fato a eles e nos que realmente gostaríamos de ensinar.

Escrito por Rosely Sayão às 18h54