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Crianças e jovens VIP

Toda a educação começa em casa -dessa afirmação ninguém duvida. Também sabemos agora, mais do que nunca, que não é apenas a família a responsável pela educação. Aliás, nenhuma criança deve ficar submetida apenas à prática educativa familiar se almejamos uma sociedade democrática. Como todo pequeno grupo, o familiar sempre apresenta seus preconceitos, suas próprias tradições e, principalmente, seus limites. Para isso, contamos com a escola, a segunda instituição responsável formalmente pela educação, e sabemos que ela tem enfrentado dificuldades para dar conta dessa função.

Acontece que as crianças e os jovens não se comunicam apenas com essas duas instituições -eles estão em contato permanente com toda a sociedade e observam atentamente os movimentos à sua volta, os assuntos em discussão, os temas sociais em destaque. Tal participação, mesmo que à distância, resulta em um aprendizado: a visão de como é a vida. Toda a comunidade educa, e todos têm sua quota de responsabilidade.

Nesse sentido, quero destacar uma característica do nosso estilo de viver que já invadiu a vida dos mais novos: a busca de privilégios pessoais. Nossa sociedade tem uma queda pela palavra VIP e por seu significado. O que é ser VIP? Nada mais do que se destacar por desfrutar de regalias em detrimento, é claro, da maioria. São VIP as pessoas que têm muito mais dinheiro ou pistolão, que têm fama ou são amigas das que têm, que estão na mídia e nas colunas sociais, que consomem muito e com regularidade em determinados estabelecimentos etc. Em muitas situações, ser VIP significa ter passaporte para ser fura-fila.

Em uma reportagem da Folha do último domingo a respeito dos embalos da noite, a jornalista Mônica Bergamo mostrou bem como isso funciona para quem busca as diversões noturnas. Cliente VIP não pega fila: passa na frente, entre outras vantagens. Uma freqüentadora habitual de casas noturnas que desfruta desse privilégio declarou: "O pessoal na fila fica olhando, mas o azar é deles". Ela tem 19 anos.

Um casal de leitores, pais de um garoto de 12 anos, enviou correspondência indignada alertando para o mesmo fato em um local de diversão para crianças e adolescentes. O empreendimento oferece um serviço chamado "atração VIP" (passaporte que permite a entrada em uma atração sem a necessidade de entrar na fila).

Volto a lembrar que nunca falamos tanto sobre educação para a cidadania. Ora, o que significa isso senão ensinar a viver em comunidade e a cultivar conceitos fundamentais como justiça, igualdade, solidariedade, respeito? Mas parece que nosso discurso é vazio, já que continuamos a cultivar a cultura das vantagens, não é verdade? Na "hora do vamos ver", apelamos para a chamada "lei de Gerson".

Creio que é hora de dar um passo importante nos assuntos que envolvem a educação. Precisamos sair da reclamação para alcançar a transformação. Já reclamamos o suficiente da falta de limites das crianças e dos jovens, da forte influência da mídia no comportamento deles, da falta de respeito que eles demonstram com a autoridade dos pais e dos professores etc.

Acontece que estamos implicados com todos esses assuntos até os ossos, por isso precisamos agir e assumir nossa parcela de responsabilidade, e não apenas reclamar dos outros. Quando decidimos que a educação para a cidadania é uma questão importante para os mais novos, precisamos dar valor a essa nossa decisão e nos empenhar pessoalmente.

*Texto publicado originalmente no Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 10h00

Crianças têm raciocínio lógico diferente dos adultos

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Categoria: Vídeos
Escrito por Rosely Sayão às 17h12
Qual a hora de o filho começar a ficar sozinho?
Mensalmente, eu me reúno com grupos de pais para trocar idéias a respeito de educação. São encontros muito interessantes e estimulantes. Em geral, os grupos são formados por pais que têm filhos com idades próximas, e aí percebemos o quanto a educação pode variar de família para família e de filho para filho, mesmo seguindo alguns princípios semelhantes.

Em uma dessas últimas reuniões, em que os filhos dos participantes têm entre 6 e 13 anos, o tema foi bem instigante: como e quando começar a soltar os filhos para o mundo ensinando a responsabilidade e a autonomia. Soltar no mundo significou, nessa reunião, sem a presença dos pais.

Uma das mães contou um fato bem interessante: num fim de semana, em que estava com a família no campo, queria ir com o marido assistir a um espetáculo, as filhas maiores queriam brincar com amigas e o caçula, de seis anos, queria ficam em casa assistindo a um filme. Pois essa mãe encheu-se de coragem e deixou o filho em casa, sozinho, por um período de pouco mais de uma hora. E a orientação dela ao garoto foi clara. Deixou o telefone com ele e disse que, caso ele quisesse apenas conversar, deveria ligar para as tias ou irmãs porque ela e o pai estariam ocupados. Mas, caso ele precisasse dos pais, deveria ligar que eles voltariam imediatamente. Essa mãe disse que ficou tranqüila porque conhece bem o filho e sabe que ele é sossegado. Se ocorresse o mesmo com uma outra filha, por exemplo, que não teria tomado tal atitude.

Outras mães deram depoimentos bem diferentes: uma delas disse, por exemplo, que não tem coragem de deixar o filho de oito anos nem 15 minutos sozinho em casa até que a empregada chegue mas que, depois do que ouviu, iria tomar coragem para ter uma atitude de desligamento seguro. Outra, ainda, contou que começou a fazer a filha de 13 anos a ir para a aula de inglês de ônibus. Outra tem o costume de pedir que os filhos levem a cachorra na rua para um pequeno passeio.

Hoje, consideramos o mundo perigoso para os filhos e fazemos de tudo para protegê-los. Mas, talvez essa atitude seja muito mais arriscada. As crianças, com tutela permanente dos pais, não conseguem aprender a ter autonomia e responsabilidade com elas mesmas, questões fundamentais da educação. Mais cedo ou mais tarde elas cairão no mundo, então é mais seguro soltá-los aos poucos, mais cedo, ensinando e acompanhando de perto o que eles fazem.

Quando eles entram na adolescência, talvez já seja tarde para soltar ensinando e cuidando. Sabem como é: adolescente vai a uma festa levado pelos pais, no meio decide ir para outra, e vai. Muitas vezes avaliar os riscos que pode correr. E depois volta para que, no horário combinado, os pais o encontrem no mesmo lugar.

Cada família deve escolher o momento de começar a deixar os filhos sozinhos para realizar algumas atividades. Mas, depois dos sete anos, certamente as crianças já têm condições de realizar várias tarefas sozinhas. Ir à padaria ou à banca de revistas próxima, esperar um adulto chegar num breve intervalo de tempo, atravessar a rua etc. são alguns exemplos Mas eles farão isso bem só se perceberem que os pais confiam e exigem que ele faça como foi ensinado. E esse ensinamento é um processo lento que exige a presença firme e segura dos pais.
Escrito por Rosely Sayão às 16h52
Educar é ensinar a superar limites

Uma mulher entrou no elevador com a filha de mais ou menos quatro anos. Assim que entraram, a garota se apressou para apertar o botão e a mãe logo informou qual era o número. A garotinha, que era uma graça, respondeu imediatamente:

- Eu já “sabo”, mãe.
- Não é “sabo”, filha, é sei.
- Mãe! Eu “sabo” que é  eu sei.

Esta é uma boa oportunidade para falar a respeito de uma importante limitação das crianças em relação às regras. Assim que elas descobrem uma regra, seja por conclusão própria ou por aprendizado – elas ficam aprisionadas nas tais regras,

Com a idade que tem a garota do diálogo, ela está descobrindo o funcionamento das regras, de todos os tipos. O problema é que, quando descobre ou aprende, ela passa a universalizar o uso, como ela fez com o verbo saber. Se correr resulta em eu corro, se beber em eu bebo e fazer em eu faço, claro que saber só pode resultar em eu “sabo”!

O que eu quero dizer é que o maior problema na educação de crianças e jovens talvez não seja o de colocar limites a eles e sim o oposto. Talvez nossa maior tarefa seja exatamente a de ajudar os mais novos a superarem os limites que têm.

Não será fácil para essa mãe convencer a filha de que ela deve falar “eu sei” e não “eu sabo”. E sabem por quê? Porque a garota está fixada em uma regra. A menina não tem culpa se os verbos da nossa língua não têm, todos, conjugação regular, certo?

Pois assim é com o comportamento. Quando uma criança aprende, por exemplo, que morder produz um efeito que ela busca, ela descobre uma regra. Daí em diante, ela irá morder sempre que a situação que enfrentar for semelhante à primeira em que mordeu e que conseguiu o resultado que queria. O comportamento dela não significa, portanto, falta de limites e sim excesso de limite! O que ela precisa é aprender a superar tal limite e esse aprendizado é demorado, na maioria das vezes.

Modificar nossa compreensão a respeito dessa questão é bem importante porque assim pode mudar também nossa atitude frente às crianças e aos jovens. Quando pensamos que eles se comportam de determinadas maneiras por falta de limites ficamos enfadados, desanimados e até impotentes. Mas, se pensarmos que o que provoca tais comportamentos é, na verdade, um excesso de limites e que eles precisam de nós para conseguir superá-los, nossa atitude pode se tornar mais potente e a nossa prática educativa mais generosa.

Por falar nisso: generosidade é virtude essencial para quem educa, não é?

 

Escrito por Rosely Sayão às 14h47