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Academia de Amarelinha?!

Uma conhecida, que é profissional da educação e acompanha o blog, deu um alerta depois de ler o texto a respeito da importância do brincar na infância. Na terça-feira passada, participei de uma mesa em um congresso sobre Educação e o professor Yves de La Taille (veja entrevista dada por ele aqui no blog em 12/05/2006) fez um comentário semelhante, então resolvi compartilhar com vocês a preocupação deles, que é minha também.

Atualmente, a brincadeira está se transformando em atividade quase profissional para muitas crianças! Há escola de futebol, de natação, de capoeira, de dança etc. Muitos pais, quando percebem que o filho apresenta uma queda por determinada brincadeira, logo pensam em matricular a criança numa dessas escolas.

Então, vamos deixar bem claro: brincar de jogar futebol é bem diferente de freqüentar uma escolinha de tal esporte; gostar de brincar de dançar não significa que a criança queira aprender balé; ser louco por estar na água não tem o mesmo sentido de querer aprender a nadar. Perceberam o que estamos fazendo ao agir assim? Estamos, simplesmente, acabando com a brincadeira dessas crianças.

Brincar, para ser uma atividade infantil prazerosa, de descobertas e tipicamente infantil exige liberdade de criação e não comporta horários previamente marcados para começar e terminar. A criança, quando brinca, em geral quer a participação dos adultos de outra maneira que não como instrutor. Brincar é uma atividade lúdica, e aprender a dançar ou a jogar futebol são atividades de outra natureza, muito mais parecidas com a escolar do que com a atividade de brincar.

Além disso, a criança não precisa aprender a brincar. Ela inventa, aprende com a própria cultura, com outras crianças, e na imitação do mundo adulto. Uma criança que gosta de brincar de vender sapatos não precisa ser matriculada em um curso de vendedor, certo?

Precisamos resistir a essa pressão social que nos leva a pensar que preparar as crianças para o futuro significa oferecer a elas condições precoces de treinamento e de instrução. Comecei a ler um livro que, até o momento, se mostra bem interessante. Assim que terminar, posso contar a vocês a minha apreciação. Mas, só pelo título já dá para perceber que o que as autoras defendem é justamente o tempo para a brincadeira. Chama-se “Einstein teve tempo para brincar”, da Editora Guarda-Chuva.

Para finalizar, deixo a frase do professor Yves que, em tom bem humorado, mas igualmente crítico, falou: “Desse jeito, logo teremos Academia para ensinar a jogar Amarelinha”!!

Um bom final de semana a todos.

Escrito por Rosely Sayão às 12h19
Elogios em demasia podem atrapalhar os filhos

Recentemente, a mãe de uma garota de sete anos que enfrenta algumas dificuldades no processo de alfabetização escolar colocou-me suas inquietações. Ela achava que a filha estava com a auto-estima baixa, que não enfrentava bem as frustrações e que desistia muito rapidamente das lições difíceis para ela e até das brincadeiras que não davam certo logo.

Procurei investigar com essa mãe como ela agia habitualmente com a filha e logo descobrimos, juntas, que ela, com a intenção de estimular a inteligência e a auto-estima da filha, sempre elogiou tudo o que ela fazia. Percebemos também, em nossa conversa, que os elogios eram tão numerosos que, sem perceber, eles perderam o sentido de incentivo para a garota.

Nossa conversa foi tão proveitosa para essa mãe que, apenas duas semanas após, ela me deu um retorno entusiasmado: estava conseguindo, finalmente, ajudar a filha a enfrentar seus obstáculos com esforço em vez da já habitual desistência.

O que essa mãe percebeu para conseguir mudar sua atitude com a filha? Que o excesso de elogios atrapalhou a menina. Por quê? Porque a garota acabou por construir a idéia de que deveria conseguir realizar as coisas sempre de pronto e facilmente. Quando tinha de investir esforço para tentar finalizar algo, quando não conseguia resolver as dificuldades que enfrentava, desistia porque provavelmente acreditava que não fosse capaz.

Quando uma criança faz algo com facilidade, é sinal de que ela já estava preparada para aquilo. Elogiar o filho quando ele faz algo dessa natureza não tem sentido principalmente por dois motivos: porque os pais apreciam mais o resultado obtido do que o processo que a criança realizou e porque reforçam a rapidez e a facilidade e não o esforço.

Essa mãe passou a elogiar a filha apenas quando ela se esforça, independentemente do resultado que consegue com isso. E mais: está também incentivando a garota a se aprimorar. Sempre que ela se esforça, a mãe a encoraja e diz que ela tem condições de fazer ainda melhor. Aos poucos, a garota está apreendendo que, mais importante do que o resultado, é o processo anterior a ele e que isso exige esforço e concentração da parte dela.

Também lentamente, a garota começa a mostrar sinais de que está aprendendo o que precisa. E a mãe também tem aproveitado muito essa experiência: agora ela não tem pressa de ver a filha ler e escrever porque sabe que o que mais importa não é o resultado, ou seja, o êxito da filha.

Todos nós podemos aprender algo com essa bela história, não é verdade? E, pelo que me parece, esse foi apenas o início de uma grande mudança de rumo na relação dessa mãe com a educação da filha. No meu entender, essa foi a questão mais importante desse episódio.

Escrito por Rosely Sayão às 11h58

Filhos não podem ser o único motivo para o casal continuar junto

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Categoria: Vídeos
Escrito por Rosely Sayão às 17h58
Todos os pais são caretas

A Flávia, em seu comentário, fez uma observação muito interessante. Ela se pergunta se não estaria sendo muito careta ao proibir o filho de usar um determinado jogo no videogame por suas características. Decidi conversar a esse respeito porque muitos pais – muitos mesmo – temem ser caretas nas atitudes que tomam com os filhos e no relacionamento que têm com eles e, por isso, muitas vezes perdem seu norte.

Quando qualificamos uma pessoa de careta queremos dizer que ela é conservadora, antiquada na maneira de pensar, certo?  Hoje o mundo muda tão rapidamente que os pais se encontram permanentemente sem referências a respeito de como conduzir a educação do filho. O jeito que eles pensam parece que não vale mais, os princípios que seguem parece que estão com a data de validade expirada. O temor de ser careta é fruto, em parte, da velocidade dessas mudanças e também desse anseio de os adultos acompanharem de perto a vida dos filhos.

O problema é que educar supõe justamente transmitir a visão de mundo e de vida conhecida até então. Educar significa, de algum modo, buscar transmitir as tradições e, portanto, todo adulto que educa é, na visão dos mais jovens, careta. Essa conduta não impede as mudanças, as melhorias e as inovações. Quem conserva o mundo delega aos mais novos a tarefa da inovação, da mudança. Quem se conduz assim na vida, na realidade confia nos mais novos e em sua capacidade de melhorar este mundo.

Se os mais velhos se ocuparem também de serem modernos, ou seja, de seguirem as tendências da época atual, as gerações mais novas ficarão deserdadas, ou seja, não receberão a herança que teriam direito a receber.

Considerem um pai que deixa a seu filho, de herança, uma casa. Não cabe ao pai deixar a casa do modo que ele imagina que o filho iria gostar e desfrutar. Cabe a ele passar a casa ao filho do jeito que a concebeu e permitir que ela seja transformada, reformada ou mesmo derrubada para dar lugar a uma nova. É assim que o filho torna a herança que recebeu em algo seu, não é?

Hoje, o adulto que é chamado de careta ou de conservador pelos mais novos se sente desprezado. Pois esses adultos deveriam receber esse adjetivo como elogio, pois significa que o filho percebeu que eles não se inserem no mundo do mesmo modo.

Recentemente, um jovem internauta escreveu em seu comentário que considera minha posição educacional conservadora mas que, mesmo assim, a respeita. Talvez esse respeito seja fruto exatamente dessa intuição de que, como representante do mundo antigo e que já não existe mais, minha função, como a de todos que se dedicam à educação, é transmitir a visão do mundo que eles não conhecem a não ser por nós.

E, por último, um esclarecimento aos pais que acham que ser careta com o filho irá impedir que ele tenha acesso a muitas coisas desse admirável mundo novo. Não: o máximo que fazemos ao agir como “adultos caretas” é dar aos mais novos uma direção. Quando eles não concordam com tal direção, mais cedo ou mais tarde a superam. É isso que se chama liberdade, não é mesmo? E todo educador sabe que seu papel tem data de expiração já que educamos para a liberdade e para a autonomia. Nossos filhos e alunos irão nos superar. Será que é isso que tememos com esse receio de sermos caretas?

Escrito por Rosely Sayão às 13h41

Escolha da escola

Muitos pais enfrentam uma situação tensa: esta é a hora de tomar grandes decisões a respeito da matrícula escolar para o próximo ano. O ato de escolher em geral não é fácil, e isso fica mais evidente quando o que está em questão é o anseio de uma boa educação e da melhor formação para o filho enfrentar o futuro.

Para complicar, os pais têm de dar conta de dois tipos de pressão: as internas e as externas. As primeiras dizem respeito às suas aspirações em relação à vida escolar do filho. Os pais querem acertar e, para tanto, buscam algumas garantias. Esse movimento é salutar, mas tem provocado uma reação curiosa: os impasses a que se chega. Alguns leitores que escreveram a esse respeito mostram que terminaram, ao que parece, num beco sem saída.

Já as pressões externas são cruéis. De um lado, jornais e revistas fazem reportagens minuciosas a respeito dos vários tipos de escola, dos métodos, das propostas político-pedagógicas, do ensino laico e do confessional, da inclusão etc. Eu li várias dessas matérias, e elas me deixaram perplexa. Cheguei à conclusão de que os pais talvez devessem fazer um curso de pedagogia em dez aulas para conseguir entender e utilizar tanta informação em linguagem especializada.

E as pressões sociais? São expressas pelas propagandas das escolas, pelos rankings escolares, pelas opiniões de profissionais e de conhecidos, entre várias outras. Isso sem falar nos testes que muitas escolas fazem para selecionar seus futuros alunos e do "feedback" que dão aos pais. A mãe de um garoto que iniciará o ensino fundamental recebeu da escola um parecer que a deixou inquieta. Famosa por aprovar alunos nos vestibulares concorridos, a escola informou que seu filho não tinha o perfil adequado para freqüentá-la.

Salve-se quem puder com tanta confusão com aparência sofisticada! E o que os pais precisam realmente saber? Vamos simplificar a questão.

Item um: escola boa é a que se dispõe a atender qualquer tipo de criança ou de jovem. As escolas que têm um perfil ideal de aluno são as que têm objetivos mais importantes do que o de educar. São as que querem atender apenas os que já chegam "formatados" às finalidades a que se propõem. Esse é o tipo de escola que exclui, não importa qual o tipo de exclusão que pratica. Os pais precisam considerar que o filho muda sempre. Isso significa que, a qualquer momento, um aluno pode experimentar um perfil diferente do inicialmente vivenciado e ser excluído.

Item dois: métodos são apenas procedimentos que a escola utiliza para chegar a determinado resultado. Qual o resultado sensato a se esperar de qualquer método? Que seus alunos aprendam a disciplina necessária para o acesso ao conhecimento sistematizado e os requisitos importantes para a convivência social com respeito, justiça e solidariedade. Para tanto, não é preciso conhecer o método baseado na teoria socioconstrutivista, montessoriana, waldorfiana etc.

Item três: a melhor escola é aquela em que a família confia e à qual delega autoridade educativa. Vale um lembrete: escola perfeita não existe.

Item quatro: as crianças e os jovens têm condições de enfrentar quaisquer adversidades da vida escolar. Para tanto, basta que freqüentem uma escola que considere as dificuldades como desafios a enfrentar, e não como obstáculos ao ensino.

Item cinco: como escola não é clube, a ambiência física importa menos do que a ambiência educativa.

Por último: como são os professores que praticam a educação escolar, eles devem ser respeitados e considerados pela escola.

A escolha da escola é mais simples do que parece. O que realmente tem valor é que os pais tomem sua decisão e a honrem, pelo menos até que o pacto de confiança inicial seja desfeito irremediavelmente.

*Texto publicado originalmente no Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 11h37