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Quando os filhos mentem - Parte 1
No final de semana em que se comemora o dia das mães, um presente para elas e para os pais também: uma entrevista com o professor Yves de La Taille. O trabalho dele eu já conhecia pela leitura de seus livros e artigos e admirava há tempos. Pessoalmente, tive a sorte de encontrá-lo uma vez em um debate e, depois, por pura coincidência, num vôo de ida e volta a um congresso em que ambos participamos. Foi lá que tive a chance de conhecê-lo um pouco e de, inclusive, fazer o convite para esta entrevista, que ele prontamente aceitou. Considero um privilégio ter a palavra do Yves aqui entre nós. Yves, obrigada. (Entrevista originalmente publicada em 12/05/2006)
O professor Yves é docente e pesquisador no Instituto de Psicologia da USP e especialista em moralidade. Os pais que tiverem interesse em aprender mais com o trabalho dele podem – e devem – consultar os seguintes livros:
LIMITES: TRÊS DIMENSÕES EDUCACIONAIS – Yves de La Taille - Editora Ática
NOS LABIRINTOS DA MORAL – Mario Sergio Cortella e Yves de La Taille – Editora Papirus
Rosely Sayão: Yves, não há mãe e pai que não se defronte, mais cedo ou mais tarde, com mentiras dos filhos. O que eles devem considerar, de fato, como mentira?
Yves de La Taille: Vamos definir a mentira. Tecnicamente falando, ela consiste em dizer, intencionalmente, algo que se sabe não ser verdadeiro. A mentira se distingue, portanto, do erro e da ilusão. Vejamos agora o lado moral. A moral costuma condenar a mentira porque, quase sempre, ela corresponde a uma vontade de prejudicar outra pessoa, de privá-la de uma verdade à qual ela tem direito. Nem sempre é o caso. Por exemplo, se um pai ou uma mãe procuram invadir a vida privada dos filhos – e eles não têm esse direito, a não ser que esteja dramaticamente em jogo a saúde física ou mental deles, fato raro – estes não têm outra saída a não ser escondê-la pelo silêncio e até pela mentira. Mas, casos desse tipo são raros. Como eu disse, quase sempre a mentira traduz um problema moral, pois representa alguma violência dirigida a quem se mente. Logo, temos um tema de educação moral.
Rosely: E como os pais precisam reagir frente a essa situação, já que é um tema delicado da educação?
Yves: Em primeiro lugar, os pais devem, eles mesmos, serem exemplos de pessoas que não mentem. Ora, nem sempre é o caso, até mesmo em casa. Alguns falam abertamente em sonegar impostos – sonegação implica mentir. Outros aconselham os filhos a dizer aos professores que não ‘conseguiram’ fazer a lição de casa porque estavam passando mal, quando na verdade foi pura preguiça – é mentira deslavada! Outros ainda valorizam em alto e bom som jogadores de futebol que cavam pênaltis – outra forma de enganação. Um último exemplo: há pais – e não são raros nesse caso – que, ao invés de dizer a seus filhos que não querem participar de tal ou tal atividade com eles, lhes dizem que ‘não podem’. Ora é, mentira, e as crianças rapidamente percebem o engodo. Em resumo, se elas percebem que a mentira é vista como fazendo parte do jogo normal das relações sociais, as crianças terão a tendência em tolerá-la e, elas mesmas, empregá-la. Em segundo lugar, é preciso lembrar que a moral é, antes de mais nada, uma empreitada humana para valorizar o bem. Ora, não raramente ela é apresentada apenas como algo que combate o mal. É um erro filosófico e pedagógico. Não é tanto a mentira que deve ser condenada, é a verdade que deve ser claramente valorizada. Logo, de nada adianta esperar que a criança minta para falar no valor da verdade. Tal valor deve ser apresentado antes e sempre. Moral é vacina, não remédio. Em terceiro lugar, eu diria que a firmeza dos educadores em defender os valores morais, entre os quais a verdade, é condição necessária a uma formação ética bem sucedida. Assim como a criança compreende, - bem cedo no caso – que a lei da gravidade faz os objetos inapelavelmente caírem, ela deve perceber que as leis morais têm a mesma força e consistência. Não se trata de castigar a toda hora, trata-se de nunca deixar de falar que a verdade é um bem e, logo, a mentira um mal. Em último lugar, lembraria que não há relação social pacífica e rica sem confiança mútua. Ora, a mentira quebra justamente os laços de confiança. Ela é uma via de rápido acesso à violência. É preciso explicar isto à criança. E também aos adolescentes que, por ventura e estranhamente (mas certamente em razão de um processo educacional falho) ainda não tenham tomado consciência deste fato.
Escrito por Rosely Sayão às 17h10

Quando os filhos mentem - Parte 2
Rosely: O pai de um garoto de 5 anos ficou bravo porque o filho contou, na escola, a respeito de uma viagem com a família que eles não fizeram e a mãe de uma criança da mesma idade castigou-a porque ela trouxe um brinquedo emprestado da escola quando, de fato, trouxera sem pedir ou ser autorizada. A mãe de uma menina de 10 anos descobriu que a filha usava o dinheiro do lanche para comprar cards. Um adolescente de 16 anos perdeu a licença para sair por um mês porque foi a um lugar diferente do que havia dito aos pais. Todas essas situações podem ser consideradas mentiras e, portanto, exigem uma atitude educativa dos pais?
Yves: A primeira situação é mais ambígua, uma vez que se trata de uma criança bem pequena; é que, nesta idade, além das crianças fantasiarem muito (notadamente movidas por desejos que gostariam que se realizassem ou que se tivessem realizado), elas ainda não têm clareza a respeito das dimensões morais da mentira. Penso que não se trata de ficar bravo. Trata-se de falar com a criança sobre a verdade e seu valor, e isto de forma paciente, generosa e firme. Os outros casos representam claramente a vontade de enganar. Vale para elas o que disse anteriormente: mostrar o valor da verdade, o direito das pessoas a acesso a ela e a violência decorrente da falta de confiança. O caso do adolescente é mais grave, não somente pela idade (16 anos) como pelo conteúdo da mentira: negou a seus pais a condição de responsáveis pelo seu sustento e educação, arriscou-se (vai saber que outro lugar é este – lembram da tragédia dos dois alunos do Colégio São Luis?) e certamente preparou, de longa data, a sua enganação. Foi uma quebra de confiança pesada. Não sei, evidentemente, de quem se trata. Seria preciso ver se tal episódio não é conseqüência de uma longa série de quebras de confiança de parte a parte.
Rosely: Você disse que os pais devem ser exemplos de pessoas que não mentem e cita algumas situações. Vou citar outro exemplo: pessoas que ligam para falar de trabalho em horário impróprio e os pais mandam dizer que não estão. Sem dúvida é uma mentira, mas ela não ajuda a sustentar as relações sociais e a preservar a vida privada? E como se portar com o filho que testemunha esse tipo de situação?
Yves: Como eu disse anteriormente, nem toda mentira, no sentido técnico da palavra – ou seja, dizer intencionalmente algo que se sabe não ser verdade – apresenta problema moral. Às vezes a moral até exige que se minta. Por exemplo, se escondo, na minha casa, um homem procurado por algum esquadrão da morte e se um membro desse esquadrão me pergunta se conheço tal homem, certamente mentirei ao responder que não, a fim de protegê-lo. No exemplo que você deu, trata-se de avaliar se, por um lado, a pessoa que telefona tem o direito de saber que o pai está em casa e, por outro, se a mentira visa algum bem. Salvo casos excepcionais, penso que a casa deve ser um lugar protegido, notadamente do trabalho (embora aconteça cada vez menos, notadamente por causa do celular que transforma seu pobre proprietário numa presa fácil, em casa ou em qualquer lugar), logo, penso que a mentira, nesse caso, se justifica. Mas é preciso explicar tudo isso ao filho. Se ele for pequeno, apenas notará que se empregam mentiras.
Rosely: Como construir pactos de confiança entre pais e filhos já que eles ocupam lugares bem diferentes e assimétricos?
Yves: Nas relações assimétricas, portanto naquelas nas quais alguém depende de outro, esse outro deve ser altamente merecedor de confiança. Por exemplo, se viajo de avião, estou, literalmente, nas mãos do piloto (eis a assimetria na relação). Logo, só me resta confiar nele. Nas relações entre pais e filhos, algo semelhante acontece: o filho depende, para inúmeras coisas, dos pais e estes, portanto devem imperativamente mostrar-se dignos de confiança. Porém, a recíproca deve paulatinamente valer. À medida que a criança cresce, ela vai adquirindo mais liberdade, e, logo, mais responsabilidade. Esse ponto deve ser sublinhado: merecer confiança é a contrapartida da liberdade. Alguém que eu vigio o tempo todo, alguém que somente pode fazer, sob meus olhos, o que eu mando, para esse alguém não se coloca tanto a questão da confiança, pois o próprio fato de ser vigiado incessantemente mostra que é a desconfiança que vale. Merecer confiança se coloca para as pessoas livres. Ora, voltando às crianças, a educação visa justamente dar-lhes condições de viver de forma livre e autônoma. Nesse caso, merecer confiança dos pais (e de todo mundo, aliás) é condição necessária. E os pais devem dizê-lo claramente, e cobrá-lo. Mas quero insistir num ponto: no início do desenvolvimento moral – quando a criança tem apenas 4 ou 5 anos – a situação não é simétrica, e se ela não confiar nos adultos, tal desenvolvimento fica prejudicado. A criança precisa primeiramente confiar para, depois, compreender que também deve ser digna de confiança. Por essa razão é tão importante os pais não prometerem sem cumprir, não falarem uma coisa e fazerem outra, não valorizarem pequenas e grandes enganações. Enfim, é importante os pais darem valor às palavras, notadamente às palavras empenhadas.
Escrito por Rosely Sayão às 17h09

Seu filho é sociável ou popular?
Atualmente, muitos pais se preocupam com as relações do filho com seus colegas ou amigos. Até parece que ter muitos conhecidos, ser convidado para passear quase todo fim de semana, receber inúmeros telefonemas no dia – o que significa ser popular, no conceito que importamos - é sinônimo de socialização. Não é.
Socialização é o processo de colocar a criança em contato com a vida em grupo, e isso significa saber conhecer e acatar as regras de convivência, respeitar-se e ter respeito pelos outros, ser cooperativo e conseguir identificar os próprios limites e os limites dos outros. Em resumo: o processo de socialização nada tem a ver com o fato de ser popular.
Muitos pais não suportam a idéia de saber que o filho fica sozinho na escola, mesmo que seja por alguns minutos, o tempo de duração do recreio. Os professores, principalmente os das crianças pequenas, são constantemente interpelados pelos pais no sentido de incentivarem a criança a se enturmar a fim de que não fique isolada ou sozinha.
Já a partir do fim da infância e da entrada na puberdade, a pressão dos pais vai sobre os filhos. “Por que você não liga para algum amigo ou amiga?”; “Seus amigos não convidam você para passar o fim de semana com eles?”; “Não pode ter vergonha, ser tímido!”. Frases com essas, ditas pelos pais, povoam a vida de muitos filhos. Mas, é preciso saber que esse tipo de pressão – isso não é encorajamento - não os ajuda em nada.
Ser tímido não significa não ser socializado. Aliás, muitas crianças tímidas são muito mais socializadas do que outras chamadas "populares": reconhecem e respeitam com mais facilidade os outros e sabem ser solidários com os diferentes. Ser tímido também não significa estar isolado ou não ter amigos, do mesmo modo que ser popular não significa ter muitos amigos e não sofrer de solidão. Muitas crianças e adolescentes populares não têm um único amigo leal entre tantos colegas e conhecidos que os rodeiam.
Talvez, o mais importante hoje seja a educação em valores, isto é, ensinar aos filhos que todo mundo tem o direito de ter amigos, mas que isso implica em responsabilidade. Significa olhar ao lado para saber se há alguém sozinho que gostaria de estar acompanhado e aprender a respeitar quem quer estar sozinho por um período. Além disso, significa também aprender que ser amigo supõe compromissos e virtudes como a lealdade, por exemplo. Por último, é muito importante saber diferenciar amigo de colega e de conhecido. E são os valores que ajudam a estabelecer as fronteiras entre essas categorias.
Escrito por Rosely Sayão às 22h27

A brincadeira na vida da criança
Vocês repararam que já vemos campanhas e propagandas estimulando a compra de brinquedos para o Natal? Ainda temos dois meses antes da data mas o comércio quer faturar, é claro, e os comerciantes sabem que a vida econômica atual exige planejamento, não é mesmo? Por isso já começam a investir pesado. Então, esta é uma boa oportunidade para pensar na importância que tem o brincar para a criança.
Nossa dificuldade inicial é imaginar a atividade de brincar hoje sem considerar o consumo. Quando queremos estimular uma criança a brincar logo pensamos em comprar um brinquedo novo, lembramos de um modelo novo de jogo que desenvolve a criatividade etc. Mas, mais importante do que a criança ter qualquer brinquedo é ela ter oportunidade e chance para brincar. E as principais condições para assegurar isso à criança são espaço e tempo.
A criança pode brincar com qualquer coisa. Já observaram como uma criança pega um livro que está na estante, um enfeite sobre a mesa de centro da sala, tenta alcançar uma fruta que está na fruteira, por exemplo? Tudo o que ela quer fazer com essas coisas é brincar. Ao pegar um objeto, puxar, arrancar, morder, dar um outro uso a ele, ela está brincando. E é com esse tipo de brincadeira que a criança explora o meio em que vive, os objetos de uso familiar, e é assim que ela aprende.
A questão hoje é que as casas nem sempre permitem que a criança pratique esse tipo de brincadeira. Os enfeites da sala quebram, portanto ela não pode pegar. Os livros são de uso dos pais, logo ela não pode rasgar; o sofá precisa permanecer limpo, então ela não pode colocar os pés ou trepar nele à vontade. Para preservar a casa, muitos pais enchem o quarto da criança de brinquedos e fazem com que ela fique lá, onde o território é livre para ela. Ocorre que, dessa maneira, ela fica confinada, não interage com as pessoas que estão na casa nem com o ambiente. Isso sem falar no fato de que há brinquedos demais, o que impossibilita que ela dirija a atenção a um deles e desfrute da brincadeira.
Quem tem filho pequeno deve considerar a possibilidade de suspender por um tempo a intenção de ter a casa toda arrumada. A casa deve servir a seus moradores, e não seus moradores servirem a ela. E a criança é um morador. Claro que ela precisa aprender a usar a casa de modo organizado e a respeitar os espaços comuns, mas isso leva tempo e exige esse primeiro passo de exploração do ambiente. Em vez de escolher um ambiente da casa para a criança ficar à vontade, talvez fosse melhor escolher um ou dois ambientes da casa que ela não possa explorar sem ajuda. Dessa maneira, o aprendizado pode ser mais eficiente e as brincadeiras ganham muito em espaço.
E o tempo? Como a criança pode brincar se gasta todo seu tempo na escola, fazendo lição, jogando videogame, assistindo a tv, fazendo aula de esporte, de língua estrangeira, se tem vasta programação prevista etc.? Brincar exige ficar livre de compromissos por um bom período. É nesse período de quietude, de não fazer nada, que a criança cria brincadeiras sem influência ou orientação dos adultos.
Brincar também exige a atenção dos pais. Tem brincadeira mais gostosa para a criança pequena do que brincar de esconde-esconde com os pais, do que ficar jogando berço abaixo um brinquedo só para a mãe pegar de volta? Isso é brincadeira pura que ensina a criança a suportar melhor as ausências e a descobrir que o que saiu de sua visão depois volta.
Além do tempo e do espaço, a criança precisa então de uma coisa ainda mais importante: da disponibilidade dos pais para que ela possa ser criança. E não é fácil, com a cultura dos dias de hoje, permitir que o filho seja criança.
Escrito por Rosely Sayão às 22h53
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