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Filhos não podem ser o único motivo para o casal continuar junto

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Escrito por Rosely Sayão às 17h58
Todos os pais são caretas

A Flávia, em seu comentário, fez uma observação muito interessante. Ela se pergunta se não estaria sendo muito careta ao proibir o filho de usar um determinado jogo no videogame por suas características. Decidi conversar a esse respeito porque muitos pais – muitos mesmo – temem ser caretas nas atitudes que tomam com os filhos e no relacionamento que têm com eles e, por isso, muitas vezes perdem seu norte.

Quando qualificamos uma pessoa de careta queremos dizer que ela é conservadora, antiquada na maneira de pensar, certo?  Hoje o mundo muda tão rapidamente que os pais se encontram permanentemente sem referências a respeito de como conduzir a educação do filho. O jeito que eles pensam parece que não vale mais, os princípios que seguem parece que estão com a data de validade expirada. O temor de ser careta é fruto, em parte, da velocidade dessas mudanças e também desse anseio de os adultos acompanharem de perto a vida dos filhos.

O problema é que educar supõe justamente transmitir a visão de mundo e de vida conhecida até então. Educar significa, de algum modo, buscar transmitir as tradições e, portanto, todo adulto que educa é, na visão dos mais jovens, careta. Essa conduta não impede as mudanças, as melhorias e as inovações. Quem conserva o mundo delega aos mais novos a tarefa da inovação, da mudança. Quem se conduz assim na vida, na realidade confia nos mais novos e em sua capacidade de melhorar este mundo.

Se os mais velhos se ocuparem também de serem modernos, ou seja, de seguirem as tendências da época atual, as gerações mais novas ficarão deserdadas, ou seja, não receberão a herança que teriam direito a receber.

Considerem um pai que deixa a seu filho, de herança, uma casa. Não cabe ao pai deixar a casa do modo que ele imagina que o filho iria gostar e desfrutar. Cabe a ele passar a casa ao filho do jeito que a concebeu e permitir que ela seja transformada, reformada ou mesmo derrubada para dar lugar a uma nova. É assim que o filho torna a herança que recebeu em algo seu, não é?

Hoje, o adulto que é chamado de careta ou de conservador pelos mais novos se sente desprezado. Pois esses adultos deveriam receber esse adjetivo como elogio, pois significa que o filho percebeu que eles não se inserem no mundo do mesmo modo.

Recentemente, um jovem internauta escreveu em seu comentário que considera minha posição educacional conservadora mas que, mesmo assim, a respeita. Talvez esse respeito seja fruto exatamente dessa intuição de que, como representante do mundo antigo e que já não existe mais, minha função, como a de todos que se dedicam à educação, é transmitir a visão do mundo que eles não conhecem a não ser por nós.

E, por último, um esclarecimento aos pais que acham que ser careta com o filho irá impedir que ele tenha acesso a muitas coisas desse admirável mundo novo. Não: o máximo que fazemos ao agir como “adultos caretas” é dar aos mais novos uma direção. Quando eles não concordam com tal direção, mais cedo ou mais tarde a superam. É isso que se chama liberdade, não é mesmo? E todo educador sabe que seu papel tem data de expiração já que educamos para a liberdade e para a autonomia. Nossos filhos e alunos irão nos superar. Será que é isso que tememos com esse receio de sermos caretas?

Escrito por Rosely Sayão às 13h41

Escolha da escola

Muitos pais enfrentam uma situação tensa: esta é a hora de tomar grandes decisões a respeito da matrícula escolar para o próximo ano. O ato de escolher em geral não é fácil, e isso fica mais evidente quando o que está em questão é o anseio de uma boa educação e da melhor formação para o filho enfrentar o futuro.

Para complicar, os pais têm de dar conta de dois tipos de pressão: as internas e as externas. As primeiras dizem respeito às suas aspirações em relação à vida escolar do filho. Os pais querem acertar e, para tanto, buscam algumas garantias. Esse movimento é salutar, mas tem provocado uma reação curiosa: os impasses a que se chega. Alguns leitores que escreveram a esse respeito mostram que terminaram, ao que parece, num beco sem saída.

Já as pressões externas são cruéis. De um lado, jornais e revistas fazem reportagens minuciosas a respeito dos vários tipos de escola, dos métodos, das propostas político-pedagógicas, do ensino laico e do confessional, da inclusão etc. Eu li várias dessas matérias, e elas me deixaram perplexa. Cheguei à conclusão de que os pais talvez devessem fazer um curso de pedagogia em dez aulas para conseguir entender e utilizar tanta informação em linguagem especializada.

E as pressões sociais? São expressas pelas propagandas das escolas, pelos rankings escolares, pelas opiniões de profissionais e de conhecidos, entre várias outras. Isso sem falar nos testes que muitas escolas fazem para selecionar seus futuros alunos e do "feedback" que dão aos pais. A mãe de um garoto que iniciará o ensino fundamental recebeu da escola um parecer que a deixou inquieta. Famosa por aprovar alunos nos vestibulares concorridos, a escola informou que seu filho não tinha o perfil adequado para freqüentá-la.

Salve-se quem puder com tanta confusão com aparência sofisticada! E o que os pais precisam realmente saber? Vamos simplificar a questão.

Item um: escola boa é a que se dispõe a atender qualquer tipo de criança ou de jovem. As escolas que têm um perfil ideal de aluno são as que têm objetivos mais importantes do que o de educar. São as que querem atender apenas os que já chegam "formatados" às finalidades a que se propõem. Esse é o tipo de escola que exclui, não importa qual o tipo de exclusão que pratica. Os pais precisam considerar que o filho muda sempre. Isso significa que, a qualquer momento, um aluno pode experimentar um perfil diferente do inicialmente vivenciado e ser excluído.

Item dois: métodos são apenas procedimentos que a escola utiliza para chegar a determinado resultado. Qual o resultado sensato a se esperar de qualquer método? Que seus alunos aprendam a disciplina necessária para o acesso ao conhecimento sistematizado e os requisitos importantes para a convivência social com respeito, justiça e solidariedade. Para tanto, não é preciso conhecer o método baseado na teoria socioconstrutivista, montessoriana, waldorfiana etc.

Item três: a melhor escola é aquela em que a família confia e à qual delega autoridade educativa. Vale um lembrete: escola perfeita não existe.

Item quatro: as crianças e os jovens têm condições de enfrentar quaisquer adversidades da vida escolar. Para tanto, basta que freqüentem uma escola que considere as dificuldades como desafios a enfrentar, e não como obstáculos ao ensino.

Item cinco: como escola não é clube, a ambiência física importa menos do que a ambiência educativa.

Por último: como são os professores que praticam a educação escolar, eles devem ser respeitados e considerados pela escola.

A escolha da escola é mais simples do que parece. O que realmente tem valor é que os pais tomem sua decisão e a honrem, pelo menos até que o pacto de confiança inicial seja desfeito irremediavelmente.

*Texto publicado originalmente no Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 11h37

Quando os filhos mentem - Parte 1

No final de semana em que se comemora o dia das mães, um presente para elas e para os pais também: uma entrevista com o professor Yves de La Taille. O trabalho dele eu já conhecia pela leitura de seus livros e artigos e admirava há tempos. Pessoalmente, tive a sorte de encontrá-lo uma vez em um debate e, depois, por pura coincidência, num vôo de ida e volta a um congresso em que ambos participamos. Foi lá que tive a chance de conhecê-lo um pouco e de, inclusive, fazer o convite para esta entrevista, que ele prontamente aceitou. Considero um privilégio ter a palavra do Yves aqui entre nós. Yves, obrigada.
(Entrevista originalmente publicada em 12/05/2006)

O professor Yves é docente e pesquisador no Instituto de Psicologia da USP e especialista em moralidade. Os pais que tiverem interesse em aprender mais com o trabalho dele podem – e devem – consultar os seguintes livros:

LIMITES: TRÊS DIMENSÕES EDUCACIONAIS –  Yves de La Taille - Editora Ática

NOS LABIRINTOS DA MORAL – Mario Sergio Cortella e Yves de La Taille – Editora Papirus


Rosely Sayão: Yves, não há mãe e pai que não se defronte, mais cedo ou mais tarde, com mentiras dos filhos. O que eles devem considerar, de fato, como mentira?

Yves de La Taille: Vamos definir a mentira. Tecnicamente falando, ela consiste em dizer, intencionalmente, algo que se sabe não ser verdadeiro. A mentira se distingue, portanto, do erro e da ilusão. Vejamos agora o lado moral. A moral costuma condenar a mentira porque, quase sempre, ela corresponde a uma vontade de prejudicar outra pessoa, de privá-la de uma verdade à qual ela tem direito. Nem sempre é o caso. Por exemplo, se um pai ou uma mãe procuram invadir a vida privada dos filhos – e eles não têm esse direito, a não ser que esteja dramaticamente em jogo a saúde física ou mental deles, fato raro – estes não têm outra saída a não ser escondê-la pelo silêncio e até pela mentira. Mas, casos desse tipo são raros.  Como eu disse, quase sempre a mentira traduz um problema moral, pois representa alguma violência dirigida a quem se mente. Logo, temos um tema de educação moral.

Rosely: E como os pais precisam reagir frente a essa situação, já que é um tema delicado da educação?

Yves: Em primeiro lugar, os pais devem, eles mesmos, serem exemplos de pessoas que não mentem. Ora, nem sempre é o caso, até mesmo em casa. Alguns falam abertamente em sonegar impostos – sonegação implica mentir. Outros aconselham os filhos a dizer aos professores que não ‘conseguiram’ fazer a lição de casa porque estavam passando mal, quando na verdade foi pura preguiça – é mentira deslavada! Outros ainda valorizam em alto e bom som jogadores de futebol que cavam pênaltis – outra forma de enganação. Um último exemplo: há pais – e não são raros nesse caso – que, ao invés de dizer a seus filhos que não querem participar de tal ou tal atividade com eles, lhes dizem que ‘não podem’. Ora é, mentira, e as crianças rapidamente percebem o engodo. Em resumo, se elas percebem que a mentira é vista como fazendo parte do jogo normal das relações sociais, as crianças terão a tendência em tolerá-la e, elas mesmas, empregá-la.
Em segundo lugar, é preciso lembrar que a moral é, antes de mais nada, uma empreitada humana para valorizar o bem.  Ora, não raramente ela é apresentada apenas como algo que combate o mal. É um erro filosófico e pedagógico. Não é tanto a mentira que deve ser condenada, é a verdade que deve ser claramente valorizada. Logo, de nada adianta esperar que a criança minta para falar no valor da verdade. Tal valor deve ser apresentado antes e sempre. Moral é vacina, não remédio.
Em terceiro lugar, eu diria que a firmeza dos educadores em defender os valores morais, entre os quais a verdade, é condição necessária a uma formação ética bem sucedida. Assim como a criança compreende, - bem cedo no caso – que a lei da gravidade faz os objetos inapelavelmente caírem, ela deve perceber que as leis morais têm a mesma força e consistência. Não se trata de castigar a toda hora, trata-se de nunca deixar de falar que a verdade é um bem e, logo, a mentira um mal.
Em último lugar, lembraria que não há relação social pacífica e rica sem confiança mútua. Ora, a mentira quebra justamente os laços de confiança. Ela é uma via de rápido acesso à violência. É preciso explicar isto à criança. E também aos adolescentes que, por ventura e estranhamente (mas certamente em razão de um processo educacional falho) ainda não tenham tomado consciência deste fato.

Categoria: Entrevista
Escrito por Rosely Sayão às 17h10

Quando os filhos mentem - Parte 2

Rosely: O pai de um garoto de 5 anos ficou bravo porque o filho contou, na escola, a respeito de uma viagem com a família que eles não fizeram e a mãe de uma criança da mesma idade castigou-a porque ela trouxe um brinquedo emprestado da escola quando, de fato, trouxera sem pedir ou ser autorizada. A mãe de uma menina de 10 anos descobriu que a filha usava o dinheiro do lanche para comprar cards. Um adolescente de 16 anos perdeu a licença para sair por um mês porque foi a um lugar diferente do que havia dito aos pais. Todas essas situações podem ser consideradas mentiras e, portanto, exigem uma atitude educativa dos pais?

Yves: A primeira situação é mais ambígua, uma vez que se trata de uma criança bem pequena; é que, nesta idade, além das crianças fantasiarem muito (notadamente movidas por desejos que gostariam que se realizassem ou que se tivessem realizado), elas ainda não têm clareza a respeito das dimensões morais da mentira. Penso que não se trata de ficar bravo. Trata-se de falar com a criança sobre a verdade e seu valor, e isto de forma paciente, generosa e firme.
Os outros casos representam claramente a vontade de enganar. Vale para elas o que disse anteriormente: mostrar o valor da verdade, o direito das pessoas a acesso a ela e a violência decorrente da falta de confiança. O caso do adolescente é mais grave, não somente pela idade (16 anos) como pelo conteúdo da mentira: negou a seus pais a condição de responsáveis pelo seu sustento e educação, arriscou-se (vai saber que outro lugar é este – lembram da tragédia dos dois alunos do Colégio São Luis?) e certamente preparou, de longa data, a sua enganação. Foi uma quebra de confiança pesada. Não sei, evidentemente, de quem se trata. Seria preciso ver se tal episódio não é conseqüência de uma longa série de quebras de confiança de parte a parte.

Rosely: Você disse que os pais devem ser exemplos de pessoas que não mentem e cita algumas situações. Vou citar outro exemplo: pessoas que ligam para falar de trabalho em horário impróprio e os pais mandam dizer que não estão. Sem dúvida é uma mentira, mas ela não ajuda a sustentar as relações sociais e a preservar a vida privada? E como se portar com o filho que testemunha esse tipo de situação?

Yves: Como eu disse anteriormente, nem toda mentira, no sentido técnico da palavra – ou seja, dizer intencionalmente algo que se sabe não ser verdade – apresenta problema moral. Às vezes a moral até exige que se minta. Por exemplo, se escondo, na minha casa, um homem procurado por algum esquadrão da morte e se um membro desse esquadrão me pergunta se conheço tal homem, certamente mentirei ao responder que não, a fim de protegê-lo. No exemplo que você deu, trata-se de avaliar se, por um lado, a pessoa que telefona tem o direito de saber que o pai está em casa e, por outro, se a mentira visa algum bem. Salvo casos excepcionais, penso que a casa deve ser um lugar protegido, notadamente do trabalho (embora aconteça cada vez menos, notadamente por causa do celular que transforma seu pobre proprietário numa presa fácil, em casa ou em qualquer lugar), logo, penso que a mentira, nesse caso, se justifica. Mas é preciso explicar tudo isso ao filho. Se ele for pequeno, apenas notará que se empregam mentiras.

Rosely: Como construir pactos de confiança entre pais e filhos já que eles ocupam lugares bem diferentes e assimétricos?

Yves: Nas relações assimétricas, portanto naquelas nas quais alguém depende de outro, esse outro deve ser altamente merecedor de confiança. Por exemplo, se viajo de avião, estou, literalmente, nas mãos do piloto (eis a assimetria na relação). Logo, só me resta confiar nele. Nas relações entre pais e filhos, algo semelhante acontece: o filho depende, para inúmeras coisas, dos pais e estes, portanto devem imperativamente mostrar-se dignos de confiança. Porém, a recíproca deve paulatinamente valer. À medida que a criança cresce, ela vai adquirindo mais liberdade, e, logo, mais responsabilidade. Esse ponto deve ser sublinhado: merecer confiança é a contrapartida da liberdade. Alguém que eu vigio o tempo todo, alguém que somente pode fazer, sob meus olhos, o que eu mando, para esse alguém não se coloca tanto a questão da confiança, pois o próprio fato de ser vigiado incessantemente mostra que é a desconfiança que vale. Merecer confiança se coloca para as pessoas livres. Ora, voltando às crianças, a educação visa justamente dar-lhes condições de viver de forma livre e autônoma. Nesse caso, merecer confiança dos pais (e de todo mundo, aliás) é condição necessária. E os pais devem dizê-lo claramente, e cobrá-lo.
Mas quero insistir num ponto: no início do desenvolvimento moral – quando a criança tem apenas 4 ou 5 anos – a situação não é simétrica, e se ela não confiar nos adultos, tal desenvolvimento fica prejudicado. A criança precisa primeiramente confiar para, depois, compreender que também deve ser digna de confiança. Por essa razão é tão importante os pais não prometerem sem cumprir, não falarem uma coisa e fazerem outra, não valorizarem pequenas e grandes enganações. Enfim, é importante os pais darem valor às palavras, notadamente às palavras empenhadas.

Categoria: Entrevista
Escrito por Rosely Sayão às 17h09
Seu filho é sociável ou popular?

Atualmente, muitos pais se preocupam com as relações do filho com seus colegas ou amigos.  Até parece que ter muitos conhecidos, ser convidado para passear quase todo fim de semana, receber inúmeros telefonemas no dia – o que significa ser popular, no conceito que importamos - é sinônimo de socialização. Não é.

Socialização é o processo de colocar a criança em contato com a vida em grupo, e isso significa saber conhecer e acatar as regras de convivência, respeitar-se e ter respeito pelos outros, ser cooperativo e conseguir identificar os próprios limites e os limites dos outros. Em resumo: o processo de socialização nada tem a ver com o fato de ser popular.

Muitos pais não suportam a idéia de saber que o filho fica sozinho na escola, mesmo que seja por alguns minutos, o tempo de duração do recreio. Os professores, principalmente os das crianças pequenas, são constantemente interpelados pelos pais no sentido de incentivarem a criança a se enturmar a fim de que não fique isolada ou sozinha. 

Já a partir do fim da infância e da entrada na puberdade, a pressão dos pais vai sobre os filhos. “Por que você não liga para algum amigo ou amiga?”; “Seus amigos não convidam você para passar o fim de semana com eles?”; “Não pode ter vergonha, ser tímido!”. Frases com essas, ditas pelos pais, povoam a vida de muitos filhos. Mas, é preciso saber que esse tipo de pressão – isso não é encorajamento - não os ajuda em nada.

Ser tímido não significa não ser socializado. Aliás, muitas crianças tímidas são muito mais socializadas do que outras chamadas "populares": reconhecem e respeitam com mais facilidade os outros e sabem ser solidários com os diferentes. Ser tímido também não significa estar isolado ou não ter amigos, do mesmo modo que ser popular não significa ter muitos amigos e não sofrer de solidão. Muitas crianças e adolescentes populares não têm um único amigo leal entre tantos colegas e conhecidos que os rodeiam.

Talvez, o mais importante hoje seja a educação em valores, isto é, ensinar aos filhos que todo mundo tem o direito de ter amigos, mas que isso implica em responsabilidade. Significa olhar ao lado para saber se há alguém sozinho que gostaria de estar acompanhado e aprender a respeitar quem quer estar sozinho por um período. Além disso, significa também aprender que ser amigo supõe compromissos e virtudes como  a lealdade, por exemplo. Por último, é muito importante saber diferenciar amigo de colega e de conhecido. E são os valores que ajudam a estabelecer as fronteiras entre essas categorias.

 

Escrito por Rosely Sayão às 22h27
A brincadeira na vida da criança

Vocês repararam que já vemos campanhas e propagandas estimulando a compra de brinquedos para o Natal? Ainda temos dois meses antes da data mas o comércio quer faturar, é claro, e os comerciantes sabem que a vida econômica atual exige planejamento, não é mesmo? Por isso já começam a investir pesado. Então, esta é uma boa oportunidade para pensar na importância que tem o brincar para a criança.

Nossa dificuldade inicial é imaginar a atividade de brincar hoje sem considerar o consumo. Quando queremos estimular uma criança a brincar logo pensamos em comprar um brinquedo novo, lembramos de um modelo novo de jogo que desenvolve a criatividade etc. Mas, mais importante do que a criança ter qualquer brinquedo é ela ter oportunidade e chance para brincar. E as principais condições para assegurar isso à criança são espaço e tempo. 

A criança pode brincar com qualquer coisa. Já observaram como uma criança pega um livro que está na estante, um enfeite sobre a mesa de centro da sala, tenta alcançar uma fruta que está na fruteira, por exemplo? Tudo o que ela quer fazer com essas coisas é brincar. Ao pegar um objeto, puxar, arrancar, morder, dar um outro uso a ele, ela está brincando. E é com esse tipo de brincadeira que a criança explora o meio em que vive, os objetos de uso familiar, e é assim que ela aprende.

A questão hoje é que as casas nem sempre permitem que a criança pratique esse tipo de brincadeira. Os enfeites da sala quebram, portanto ela não pode pegar. Os livros são de uso dos pais, logo ela não pode rasgar; o sofá precisa permanecer limpo, então ela não pode colocar os pés ou trepar nele à vontade. Para preservar a casa, muitos pais enchem o quarto da criança de brinquedos e fazem com que ela fique lá, onde o território é livre para ela. Ocorre que, dessa maneira, ela fica confinada, não interage com as pessoas que estão na casa nem com o ambiente. Isso sem falar no fato de que há brinquedos demais, o que impossibilita que ela dirija a atenção a um deles e desfrute da brincadeira.

Quem tem filho pequeno deve considerar a possibilidade de suspender por um tempo a intenção de ter a casa toda arrumada. A casa deve servir a seus moradores, e não seus moradores servirem a ela. E a criança é um morador. Claro que ela precisa aprender a usar a casa de modo organizado e a respeitar os espaços comuns, mas isso leva tempo e exige esse primeiro passo de exploração do ambiente. Em vez de escolher um ambiente da casa para a criança ficar à vontade, talvez fosse melhor escolher um ou dois ambientes da casa que ela não possa explorar sem ajuda. Dessa maneira, o aprendizado pode ser mais eficiente e as brincadeiras ganham muito em espaço.

E o tempo? Como a criança pode brincar se gasta todo seu tempo na escola, fazendo lição, jogando videogame, assistindo a tv, fazendo aula de esporte, de língua estrangeira, se tem vasta programação prevista etc.? Brincar exige ficar livre de compromissos por um bom período. É nesse período de quietude, de não fazer nada, que a criança cria brincadeiras sem influência ou orientação dos adultos.

Brincar também exige a atenção dos pais. Tem brincadeira mais gostosa para a criança pequena do que brincar de esconde-esconde com os pais, do que ficar jogando berço abaixo um brinquedo só para a mãe pegar de volta?  Isso é brincadeira pura que ensina a criança a suportar melhor as ausências e a descobrir que o que saiu de sua visão depois volta.

Além do tempo e do espaço, a criança precisa então de uma coisa ainda mais importante: da disponibilidade dos pais para que ela possa ser criança. E não é fácil, com a cultura dos dias de hoje, permitir que o filho seja criança.

Escrito por Rosely Sayão às 22h53
A criança e a morte

A Derci enviou um pedido que sensibilizou muita gente. Então, vamos conversar sobre o assunto já que o tema da morte diz respeito a todos nós. Afinal, por mais difícil que seja encarar a idéia, o fato é que a morte faz parte da vida.

A criança pequena, que vive num mundo fantasioso e quase mágico, não consegue pensar a esse respeito. Tanto que, quando morre alguém próximo, a criança com menos de seis, cinco anos, sofre a perda no sentido da ausência da pessoa que conhecia, mas não consegue ainda ter a dimensão do fato e não imagina que ela mesma, um dia, irá morrer. A criança pequena é onipotente e, por isso, se julga imortal.

Já a criança a partir dos sete, oito, nove anos (sempre estendo o intervalo de idade porque as crianças são diferentes), quando enfrenta a perda de uma pessoa próxima é atingida de modo diferente. Em primeiro lugar, ela pensa que os pais também podem morrer e isso provoca grande sofrimento e angústia. O próximo passo é concluir que ela mesma, um dia, irá morrer. E, por mais doloroso que seja, esse é um processo que humaniza. Isso porque não somos mortais apenas porque iremos morrer; somos mortais também porque temos a certeza de que iremos morrer.

Por isso, talvez não seja uma boa idéia poupar os mais novos – de qualquer idade – do conhecimento da morte. A criança pode conhecer a idéia da morte de várias maneiras: sabendo que uma pessoa que conhece morreu, participando dos rituais sociais de despedida, observando a ajuda mútua no luto e, inclusive, sofrendo com o evento.

Entendo a angústia da Derci assim como a de todas as pessoas que passam ou passaram por situação semelhante. Mas, não devemos proteger a criança daquilo que é inevitável, não é mesmo? Sei que a intenção de esconder o fato (ocultando ou colocando outras explicações) dela é boa em sua origem, mas não é boa no que provoca.

Mais cedo ou mais tarde a criança irá descobrir a existência da morte e poderá ficar, então, jogada no vazio da ausência de palavras a respeito. Precisamos lembrar que não é tanto o que falamos para a criança que a angustia e a desespera. Esse efeito é provocado mais por aquilo que não falamos, por aquilo que silenciamos.

A melhor maneira de contar o fato para a criança é com franqueza e de modo direto. Depois disso, é ouvir o que ela tem a dizer, a perguntar, a lamentar. Claro que essa notícia pode provocar sofrimento, não devemos esperar coisa diferente, não? Mas, que sofrimento? A própria criança nos dará as pistas sobre quais caminhos seguir para oferecer o que ela precisa. Apoio, conforto, aconchego, amparo e a companhia firme e serena dos adultos é o que, em geral, eles demandam nessas horas. Por isso, Derci, respire fundo e se encha de coragem para acompanhar seu filho nesse momento. Educar para a vida supõe isso também.

Escrito por Rosely Sayão às 01h14
A educação para a cidadania

Os comentários da Patrícia e da Luci postados no texto a respeito da fidelidade são bem instigantes, por isso vou partir deles para nossa reflexão de hoje. Cada uma a seu modo, o que elas fizeram foi colocar em questão a vida pública, o conceito em prática da cidadania e suas repercussões sobre a educação dos mais novos.

Aliás, a palavra cidadania tem sido muito maltratada atualmente, principalmente pelas escolas. Alguém conhece algum projeto político pedagógico que não faça referência ao conceito de cidadania? Todas as escolas, sejam elas públicas ou privadas, ostentam bordões do tipo “formação e educação para a cidadania”, “o aluno é o futuro cidadão” etc. O problema é que, na prática de tais projetos, ou seja, no cotidiano da vida escolar, não conseguimos visualizar que raios de cidadania é essa que a escola ensina e pratica com seus alunos. O que parece é que, do conceito de cidadania, ficamos com os direitos e deveres sempre divididos: os direitos dirigidos sempre para alguns – em geral, quem está em causa -  e os deveres dirigidos aos outros e deles cobrados, não é mesmo?

Vou pinçar do comentário da Luci apenas um exemplo que ela deu: as filas duplas nas ruas que contornam as escolas. Todos nós sabemos que essas pequenas infrações são cometidas diariamente pelos pais que deixam seus filhos na escola e querem que, lá, eles aprendam a ser futuros cidadãos. Mas esses mesmos pais se esquecem que, com esse ato, ensinam aos filhos que os deveres podem ser esquecidos momentaneamente de acordo com os interesses pessoais. E os outros que são prejudicados por essas pequenas infrações? Ah, os outros? Que valor têm eles para nós?

Quando os pais consideram a segurança do filho e a pressa que têm e se permitem parar em fila dupla “só um minutinho” para deixar o filho na porta da escola, eles colocam os interesses pessoais acima do interesse coletivo e não se dão conta de que, ao agir assim, desdenham o bem comum, tema importante da cidadania.

É também por isso que, como a Patrícia ressaltou, tratamos tão mal o espaço de convivência pública: porque acreditamos que tal espaço, em vez de ser entendido como espaço de todos – e que deve, portanto, ser cuidado por todos – é espaço de ninguém. Na cultura do individualismo, cada um só cuida do que é seu, só valoriza o espaço privado, portanto.

O problema é que isso colabora na construção da violência e já sentimos na pele os efeitos desse estilo de vida. Aliás, tem sido em nome do temor da violência que a classe média, cada vez mais, tem tirado os filhos das ruas, dos transportes coletivos, da convivência com a diversidade, da escola pública. É por isso que as escolas privadas parecem clubes e as ruas estão sujas com o lixo que lá jogamos.

Quem tem filhos precisa pensar não apenas no futuro pessoal dele, mas também no mundo em que ele viverá. Ninguém vive isolado, afinal. É por isso – pelo bem deles - que temos o dever de respeitar o bem comum e ensinar o mesmo aos mais novos.

Escrito por Rosely Sayão às 21h47

Como agir quando o filho é humilhado pelos amigos?

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Escrito por Rosely Sayão às 17h49
Crianças hiperativas ou pais hiperestimuladores?

A vida dos adultos está uma correria: é trabalho demais, preocupações idem, o corre-corre diário no trânsito, problemas domésticos, profissionais e muito mais. Isso sem falar no trabalho árduo que educar um filho provoca. Talvez por isso, os pais impõem aos filhos uma rotina quase tão atribulada e estafante quanto a deles. Crianças pequenas, com menos de doze anos, vão à escola, fazem alguma atividade esportiva, uma língua estrangeira, têm vida social etc. Nas férias, fazem viagens com a família ou sem ela, freqüentam acampamentos ou pequenos cursos chamados de “imersão”.

Os motivos dos pais parecem bem legítimos: preparar o filho para o futuro, tão incerto, e evitar que ele fique muito tempo parado em frente à televisão, jogando videogame ou inventando pequenas “artes” próprias da infância. Mas, será que isso é bom para eles? Parece que não muito. Uma das maiores reclamações atuais de pais e professores é de um quadro chamado de “hiperatividade com déficit de atenção”. E poderia ser diferente, principalmente para as crianças mais sensíveis a tantos estímulos?

Na verdade, nós é que exigimos que elas aprendam a dividir a atenção entre uma grande variedade de atividades, objetos, brinquedos e informações e queremos que elas dêem conta de tudo, não é verdade?

Claro que não dá para mudar nem o mundo nem a maneira como as crianças se relacionam com ele hoje. Mas os pais podem, sim, ajudar o filho a aprender a se concentrar um pouco mais nas atividades que exigem atenção mais focada. Mas é bom saber que isso exige esforço por parte da criança e firmeza da parte dos pais.

Em primeiro lugar, é bom, por exemplo, orientar o filho a fazer a lição de casa ou estudar em ambiente sem muito estímulo para que ele aprenda, pouco a pouco, a se concentrar em uma atividade única. Perto da televisão, da cozinha, ou de conversas, com rádio ligado, telefone prestes a tocar etc. a criança fica distraída e, portanto, com muito mais dificuldade para se esforçar na concentração. Em segundo, é bom também rever a agenda do filho. Será que ele não está com muito compromisso? Mesmo que ele goste, isso o deixa hiper excitado, o que estimula ainda mais a inquietação.

Pequenas mudanças, sem alterar a rotina e sem mudar o estilo de viver da família ajudam o filho a perceber e a aprender que algumas atividades requerem persistência, paciência e perseverança. E os pais podem ajudar o filho nisso.

Aos pais mais preocupados com o futuro, um alerta: não é preciso encher o filho de atividades na infância. Ele terá bastante tempo – na verdade, toda a vida adulta - para viver assim. Nada melhor, no momento, do que preservar a infância dele. E, além disso, é preciso lembrar que ficar sem fazer nada por um período ajuda a criança a crescer e a melhor se conhecer.

Escrito por Rosely Sayão às 11h47