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Fidelidade

Ontem assisti ao capítulo da novela “Paginas da Vida” e ouvi um diálogo curioso entre dois personagens que trocavam idéias a respeito da relação entre os parceiros no casamento. Um deles dizia que a fidelidade era fundamental, e outro defendia a idéia de que a lealdade era mais importante. Eu não entendi direito a conversa já que, no meu entendimento, lealdade e fidelidade significavam a mesma coisa. Na dúvida, fui ao dicionário. Adoro consultar o dicionário. E eu estava correta: leal e fiel são sinônimos. Achei esse um bom tema para a conversa de hoje.

Muitos internautas levam suas questões a respeito das relações com maridos e mulheres, namoradas/os, parceiros, enfim, na relação amorosa e/ou sexual, principalmente no Programa “Momento Família”. Devo dizer que a maioria aborda justamente essa questão: a fidelidade ao relacionamento, e não apenas nas questões sexuais.

O relacionamento afetivo/sexual nos tempos atuais é bem complexo. Não sabemos mais o que é ser homem e o que é ser mulher (no sentido de que não há mais referências sociais sólidas a esse respeito já que os comportamentos aceitos são bem diferentes entre si) e o casamento mudou bastante. Aliás, está em decadência, no entender de muita gente.  Mesmo assim, as pessoas querem casar. O difícil mesmo tem sido manter o casamento, não é mesmo?

Um relacionamento duradouro com outra pessoa é algo bem complexo. Exige, da parte dos envolvidos, generosidade, tolerância, paciência e, entre outras virtudes, lealdade ou fidelidade. Mas, como podemos entender isso hoje?

Quando duas pessoas decidem compartilhar um projeto de vida e sua intimidade, elas fazem uma sociedade e, para que esta vingue, elas precisam fazer um contrato. E não me refiro aqui ao contrato formal, e sim ao contrato que regula a convivência de ambos. Como o termo contrato ganhou caráter de negócio, usemos a palavra pacto. Em resumo: quando duas pessoas se casam fazem um pacto, e para que ele tenha valor e sobreviva é necessário que as duas pessoas honrem o que foi combinado, acordado, pactuado.

Assim que a lua-de-mel termina – e isso pode demorar dias, meses ou anos – as pessoas passam a sentir na pele a dureza que é honrar tal pacto. É que para cumprir o que foi combinado entre ambos é preciso renunciar a muitas coisas. O que me impressiona nas questões trazidas pelos internautas não é a dificuldade que as pessoas têm em renunciar: isso é difícil para qualquer um, principalmente nos dias atuais. O problema maior é a dificuldade experimentada na atualização diária do pacto assumido. Em outras palavras: o pacto, ou o acordo, não é explicitado cotidianamente e a fidelidade é esquecida.

Vale aqui uma citação de André Comte-Sponville:

“O essencial é saber o que faz com que um casal seja um casal. O simples encontro sexual, por mais repetido que seja, não bastaria evidentemente para tanto. Mas também não a simples coabitação, por mais duradoura que seja. O casal supõe tanto o amor como a duração. Supõe, portanto, a fidelidade, pois o amor só dura sob a condição de prolongar a paixão (breve demais para fazer um casal, suficiente para desfazê-lo!) por memória e por vontade.”

 

Escrito por Rosely Sayão às 17h04
Crise de birra

Hoje presenciei uma cena bizarra no trânsito. Um cidadão, que dirigia um bom carro e estava muito bem vestido, foi fechado por uma cidadã. Sim, ela estava errada: não prestou atenção no fluxo e saiu com seu carro bem na frente do dele, que conseguiu brecar em tempo, ou seja, nada ocorreu a não ser o susto dos envolvidos e dos que estavam por perto.

Como isso aconteceu nas imediações de uma escola, justamente na hora da saída dos alunos, o trânsito estava todo parado. Pois esse senhor – com idade aproximada de 40 anos - ficou tão irritado com o fato que saiu do carro, foi xingar a senhora – que aparentava ter em torno dos 60 anos – bem ao lado dela e, descontrolado, gesticulava feito louco e chutava com violência o pneu do carro dela. Logo chegaram duas pessoas para tentar acalmar o cidadão, mas este não conseguia se conter.

Depois de ver isso, pensei em algumas cenas a que assisti em peças publicitárias e em novelas que mostraram adultos em momento de tensão e nervosismo, e me dei conta de que essa cena tem sido bem comum. Os adultos têm tido crises de birra! Jogam coisas, chutam, batem, esmurram, gritam, batem o pé.

Qualquer um que tem filho já presenciou uma crise de birra: isso é inevitável. Quando a criança – principalmente as com menos de seis anos – é desagradada, não consegue o que pretende ou é levada a fazer algo que não quer, pode ter uma dessas crises. Nesse momento ela pode jogar-se ao chão, bater a cabeça na parede, gritar, xingar, chorar copiosamente etc.

Essas crises são compreensíveis na infância já que a criança ainda não tem controle sobre seu corpo, seus impulsos e suas emoções: ela é controlada por eles. Mas, um adulto reagir da mesma maneira em situações semelhantes? Vamos convir: isso é um tanto quanto assustador, não é?

Podemos levantar algumas hipóteses a esse respeito. Ficarei com duas. Uma delas é a de que não temos mais vergonha dos outros já que eles deixaram de ter valor. “Pouco me importa o que o outro pensa a meu respeito!”: esse tem sido um princípio que norteia nossa vida. Além disso, podemos considerar também a possibilidade de os adultos viverem, atualmente, de modo bastante impulsivo, ou seja, sem autogoverno.

Então, isso significa que as crianças, quando têm crises de birra, fazem mais do que manifestar uma reação própria de sua idade: elas assim se comportam também porque têm o exemplo dos adultos. Talvez por isso a nossa dificuldade em controlar essas crises dos mais novos seja tão grande atualmente.

Há uma frase que eu não gosto que é dita e repetida diariamente por quem educa: “As crianças e os adolescentes precisam de limites”. Eu prefiro dizer que as crianças e os adolescentes precisam de adultos. Mas, de adultos que se comportem como tal, não é?

Escrito por Rosely Sayão às 18h14
Tempos Loucos – Parte 2

Os adultos que educam hoje vivem na cultura que incentiva ao extremo o consumo. Somos levados a consumir de tudo um pouco: além de coisas materiais, consumimos informações, idéias, estilos de ser e de viver, conceitos que interferem na vida (qualidade de vida, por exemplo), o sexo, músicas, moda, culturas variadas, aparência do corpo, a obrigatoriedade de ser feliz etc. Até a educação escolar virou item de consumo agora. A ordem é consumir, e obedecemos muitas vezes cegamente a esse imperativo.

Quem viveu sem usar telefone celular por muito tempo não sabe mais como seria a vida sem essa inovação tecnológica, por exemplo. O problema é que a oferta cria a demanda em sociedades consumistas, que é o caso atual, e os produtos e as idéias que o mercado oferece passam a ser considerados absolutamente necessários a partir de então.

A questão é que temos tido comportamento exemplar de consumistas, boa parte das vezes sem crítica alguma. Não sabemos mais o que é ter uma vida simples porque almejamos ter mais, por isso trabalhamos mais etc. Vejam que a idéia de lazer, hoje, faz todo sentido para quase todos nós. Já a idéia do ócio, não. Ou seja: para descansar de uma atividade, nos ocupamos com outra. A vadiagem e a preguiça são desvalorizadas.

Bem, é isso que temos ensinado aos mais novos, mais do que qualquer outra coisa. Quando uma criança de oito anos pede a seus pais um celular e ganha, ensinamos a consumir o que é oferecido; quando um filho pede para o pai levá-la ao show do RBD, e este leva mesmo se considera o espetáculo ruim, ensinamos a consumir, seja qual for a estética em questão; quando um jovem pede uma roupa de marca para ir a uma festa e os pais dão, ensinamos que o que consumimos é mais importante do que o que somos.

Não há problema em consumir; o problema passa a existir quando o consumo determina a vida. Isso é extremamente perigoso, principalmente quando os filhos chegam à adolescência. Há um mercado generoso de oferta de drogas. Ensinamos a consumir desde cedo e, nessa hora, queremos e esperamos que eles recusem essa oferta. Como?!

Na educação, essa nossa característica leva a conseqüências sutis, mas decisivas na formação dos mais novos. Como exemplo, podemos lembrar que estes aprendem a avaliar as pessoas pelo que elas aparentam poder consumir e não por aquilo que são e pelas idéias que têm e que o grupo social deles é formado por pares que consomem coisas semelhantes. Não é a toa que os pequenos furtos são um fenômeno presentes em todas as escolas, sejam elas públicas ou privadas.

Nessa ideologia consumista, é importante considerar que os objetos perdem sua primeira função. Um carro deixa de ser um veículo de transporte, um telefone celular deixa de ser um meio de comunicação; ambos passam a significar status, poder de consumo, condição social, entre outras coisas.

A educação tem o objetivo de formar pessoas autônomas e livres. Mas, sob essa cultura do consumo, esses dois conceitos se transformaram completamente e perderam o seu sentido original. Os jovens hoje acreditam que têm liberdade para escolher qualquer coisa, por exemplo. Na verdade, as escolhas que fazem estão, na maioria das vezes, determinadas pelo consumo e pela publicidade. Tempos loucos, ou não?

Escrito por Rosely Sayão às 18h59

DOCUMENTÁRIO

O filme "Ser e Ter" fez um enorme sucesso no ano em que foi lançado -e com razão. Trata-se de um documentário sobre a relação de um professor com seus alunos em uma pequena escola no interior da França que funciona com uma classe única, com alunos de diversas idades e em estágios escolares diferentes. Durante um ano, a relação do professor com seu ofício e com seus alunos é registrada pela câmera. O tema educação é tratado com rara sensibilidade. Todo educador, familiar ou escolar, deveria assistir a esse filme.

Ser e Ter
Diretor: Nicolas Philibert

Categoria: Filmes e Livros
Escrito por Rosely Sayão às 07h55

FELICIDADE

A felicidade pode ter um sentido bem diferente desse que temos consumido atualmente. O filme "A Vida no Paraíso" mostra o caminho encontrado por um maestro com grande reconhecimento e que, mesmo assim, é solitário e infeliz. Em busca de uma vida diferente após sofrer um problema sério no coração -metáfora linda, por sinal-, ele decide reencontrar-se com sua história, mas, na verdade, o que consegue é um grande encontro com os outros. Em sua nova e simples vida, estabelece vínculos estreitos, envolve-se e sofre, mas, sobretudo, vive com e para o outro. Um filme que pode ser assistido com os filhos adolescentes e que possibilita que os pais estabeleçam com eles uma troca de idéias a respeito de vários aspectos da vida e dos valores que realmente importam.

A Vida no Paraíso
Diretor: Kay Pollak

Categoria: Filmes e Livros
Escrito por Rosely Sayão às 07h52

CRIANÇAS

O filme "Crianças Invisíveis" é imperdível para quem tem compromisso com o futuro da humanidade. Numa coletânea de curtas-metragens, diversos diretores conhecidos dão visibilidade à situação da infância esquecida e abandonada em diferentes países, inclusive no Brasil. Em uma atitude de defesa, temos criado cegueiras: não vemos mais essas crianças que lotam os cruzamentos pedindo dinheiro, vendendo quinquilharias, fazendo malabarismos. Quem são essas crianças, como vivem, quem se responsabiliza por elas? Não podemos fazer de conta que não temos nada com isso, não é verdade? 
Crianças Invisíveis
Diretores: Kátia Lund, Spike Lee, Ridley Scott, John Woo e outros

Categoria: Filmes e Livros
Escrito por Rosely Sayão às 07h50

Pequenos imperadores

O Estado chinês, para conter o aumento da população, há mais de 20 anos aplica uma política rigorosa de controle de natalidade para obrigar as famílias a reduzir a prole para apenas um filho. As que geram mais de um pagam multa e só podem matricular um único filho em escola pública. Assim, mesmo nas famílias mais abastadas, criou-se lá o fenômeno dos filhos únicos. No Brasil, não há política oficial de controle de natalidade, mas a dificuldade econômica provocou a redução da prole, principalmente nas famílias de classe média, já que, para criar um filho, é preciso investir boa parte do orçamento familiar. Aqui, constatamos a formação de famílias que geram só um ou, no máximo, dois filhos.

Na China, o fenômeno do filho único transformou o comportamento dos pais em relação ao filho. O exagero de apego, de proteção e de mimos colaborou na construção de uma geração de crianças com enorme dificuldade em obedecer e grande talento para mandar. Lá, eles são chamados de "os pequenos imperadores" .

No Brasil, a cultura da juventude eterna e a do consumo exagerado têm provocado efeitos semelhantes nas crianças. Os pais, bastante ocupados com a própria vida, têm tido pouca energia, paciência e disponibilidade para a árdua tarefa educativa. Consideram mais fácil e amoroso acatar os pedidos -que logo se transformam em exigências- destas do que levá-las, pouco a pouco, a aprender a obedecer e a ver a vida como ela é. Não temos ainda uma expressão nossa para nomear essa geração, mas falamos muito em "crianças sem limites", "pequenos tiranos sem controle", "crianças-problema", "filhos mandões" e "alunos indisciplinados".

Na China, famílias com alto poder aquisitivo encontraram um modo curioso de disciplinar os "pequenos imperadores": matriculá-los em escolas e em atividades extracurriculares que usam a linha dura para educar. Assim, um acampamento de verão que usa o castigo, inclusive físico, como estratégia educativa faz sucesso.

No Brasil, precisamos considerar que o risco de semelhança com a China nessa questão existe. Isso porque ainda nos resta a idéia de que o castigo é uma boa estratégia educativa em certos momentos. Assim, não parece lógico que, em situações extremas de falta de disciplina, o castigo surja como uma promessa de redenção? Vejam como exemplo o sucesso que fazem os programas de TV que exaltam os castigos como medidas disciplinares. Os pais não têm hesitado em pôr o filho pequeno no cantinho ou em tirar um brinquedo a cada mau comportamento. Na China, crianças com cerca de dez, 12 anos levam chicotadas públicas no acampamento mencionado e dizem que o castigo é merecido. Esse é o equívoco: delegar às crianças a responsabilidade total pela indisciplina.

Ora, a responsabilidade é dos adultos que as educam. Se uma criança pequena desobedece, é porque os pais assim o permitem, seja agindo como se ela já soubesse obedecer, seja esperando que obedeça sem ser ensinada ou mandada. E mandar é muito mais do que dizer o que deve ser feito. É levar a criança a fazer ou impedir que faça. Para tanto, não é preciso castigo, pelo menos antes dos seis anos.

A diferença entre nós e os chineses, até agora, é que aqui os pais se permitem usar o recurso do castigo, mas não costumam aceitar que a escola aplique sanções adequadas quando os alunos transgridem normas. Nesses casos, costumam sair em socorro dos filhos, mesmo quando não deveriam. Vejam que me refiro a sanções necessárias, e não às humilhantes e descabidas. Será que manteremos essa diferença?

Escrito por Rosely Sayão às 00h05

Filhos não são mandões; pais é que são obedientes

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Escrito por Rosely Sayão às 14h53
Tempos loucos – Parte 1

O Rodrigo coloca em questão uma expressão que usei no texto anterior: tempos loucos. Tempo louco é este em que nos submetemos a quase todas as características da cultura sem crítica alguma, sem avaliação do que vivemos em relação à vida que pretendemos ter, sem grandes questionamentos e/ou contestações. O nosso estilo de viver parece ser dominado pela frase “deixa a vida me levar”. E isso tem muito mais a ver com os adultos do que com as crianças e os jovens. Estes, apenas são vítimas de nossa entrega a tal cultura já que eles dependem de nós para aprender como é a vida, que mundo é este em que eles irão viver.

Hoje, vou falar de uma dessas características de nossa cultura que interfere radicalmente na educação dos mais novos: a busca da juventude eterna. Hoje, no mundo só há lugar para quem é jovem. E, vejam bem, não se trata apenas de aparentar ser jovem. A questão da aparência, que nos nossos dias tem sido explorada a ponto de se transformar em um esporte radical, é apenas um dos componentes dessa característica. Mas, o pacote da juventude é bem mais complexo e amplo.

Ser jovem significa ser insolente com o mundo preestabelecido e com o patrimônio humano acumulado até então; é querer viver intensamente o tempo presente; é investir toda a energia em si mesmo, na construção de sua vida e na busca de novos sonhos; é estar sempre pronto para a aventura e a diversão; é não ter ainda muito controle sobre os próprios impulsos, é não querer renunciar a quase nada. Ser jovem significa ter urgência em tudo e pressa em ver resultados: a impaciência é uma característica fundamental da juventude. Ser jovem é ser um pouco inconseqüente, é não querer assumir a fundo muitos compromissos para não perder a mobilidade.  O compromisso da juventude é, basicamente, com o novo e não com a tradição.

Vejam como nós, os adultos, pouco a pouco assumimos essa ideologia de viver. Na educação, isso toma uma forma muito delicada já que o objetivo dela é justamente transmitir aos mais novos o passado, a tradição, o conhecimento construído até então. Esse seria o legado cultural e moral que teríamos de deixar a eles. E, para realizar essa tarefa, é preciso maturidade, que não tem relação com a juventude.

Cada vez ouço mais pais e professores dizerem que não têm mais paciência com filhos e alunos. Pois essa postura tem tudo a ver com a cultura a que nos submetemos, com nossa juventude. Por isso, o grande desafio de pais e de professores é o de envelhecer. Sem isso, os mais novos ficam abandonados à própria sorte, que é o que tem ocorrido. Como diz o Rodrigo, temos deixado os jovens à mercê de tudo, inclusive da mídia, que usa seu poder para pressionar para o consumo. Esta, aliás, é outra forte marca deste nosso tempo que interfere bastante na educação. Tratarei disso no próximo texto.

Escrito por Rosely Sayão às 14h38
Pais e filhos: ligação direta

É, parece que os pais querem mesmo permanecer bem perto dos filhos. Mesmo e quando estes vivem o tempo em que precisariam aprender a viver longe de seus pais. Claro que isso ocorre lentamente: esse é um aprendizado não linear, em que cada passo deve ser ensinado, incentivado e, o filho, para dar tais passos, precisa ser encorajado. Isso é educar e preparar para o futuro: os pais precisam dar um passo para longe dos filhos sempre que estes mostram condições de dar um passo sozinhos. Afinal, se há um relacionamento amoroso que só dá certo se termina em separação, esse é o relacionamento entre pais e filhos.

Nos tempos loucos em que vivemos é muito fácil perder a perspectiva de que educar é compromisso com o futuro e não com o presente. E, com esse esquecimento, temos investido tudo o que podemos e até feito sacrifícios para atender os filhos agora, mas ao agir assim temos comprometido o futuro deles.

O fato é que temos criado uma geração de jovens frágeis, dependente dos pais e de outros adultos, que têm dificuldades em assumir responsabilidades e encarar a maturidade. Já temos inúmeras constatações a esse respeito. Mas, parece que temos os olhos vendados para essas questões. O nosso querer mais intenso é mesmo ficar perto dos filhos.

Dar um celular ao filho e pedir que ele leve à escola para usar em caso de urgência de contato com a família é apenas um indício disso. Pais defendem que os filhos devem poder falar com eles, mesmo no horário escolar. Por quê? Um artigo em uma revista de psicologia dos Estados Unidos já afirmou, há mais de um ano, que o celular é hoje o cordão umbilical que une os filhos a seus pais.

Agora, temos outra moda importante que colabora ainda mais para que os filhos permaneçam profundamente ligados a seus pais: muitas faculdades têm convocado os pais dos alunos calouros para reunião, pode? “Pode e deve”, afirmam os pais que, orgulhosos, comparecem em massa a essas reuniões. Ponto negativo para esses jovens que, assim, perdem mais uma chance de assumirem eles mesmos a responsabilidade com sua vida.  Os jovens parecem gostar da novidade porque ela facilita muito a vida deles. Mas eles não sabem que, assim, perdem também a chance de caminhar em direção à liberdade.

Mas, hoje faz muito mais sucesso em nossa cultura atitudes como essa do que as que tentam engajar os jovens e as crianças na vida como ela é, não é verdade? Afinal, todo nosso foco de visão está muito mais voltado para o tempo presente do que para o futuro.

Os filhos nascem para a vida própria quando o cordão umbilical é cortado na hora do parto. Daí em diante, é tarefa dos pais reafirmarem esse corte. E não é que, pelo jeito, temos feito o possível e até tentado o impossível para reconstruir tal cordão?

Um colega disse que ele não gostaria de ser jovem nos tempos atuais porque eles têm pouca liberdade, entre outras coisas. Devo dizer que ele tem boas razões para chegar a essa conclusão. Agora até detetive particular é acionado pelos pais para obter informações dos filhos! Claro que as justificativas são as melhores possíveis: proteger o filho, por exemplo. Mas celular, reunião na faculdade, detetive particular, são estratégias usadas para proteção ou para controle dos filhos? Sou mais pela segunda hipótese.

Escrito por Rosely Sayão às 13h35