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Privacidade X Convívio social

O assunto do momento na internet é o vídeo tornado público que mostra alguns momentos da intimidade da apresentadora Cicarelli com seu namorado. Nem sei se dá para chamar de momentos de intimidade o que foi filmado já que o local era público – uma praia – e o casal estava sob os olhares de todos que estavam por lá.

O que podemos aprender com esse fato? Pelo menos uma questão dá para refletir: a dificuldade que os jovens têm apresentado em diferenciar privacidade de convívio social. E essa dificuldade tem tudo a ver com o tipo de educação que recebem – ou não recebem - desde bem pequenos. O fato é que tem sido muito difícil discriminar, no mundo atual, o que é público do que é privado. A fronteira que separa essas duas realidades tem sido bem confusa e tênue.

Um bom retrato da conseqüência dessa indiferenciação é a imagem de uma criança em torno dos 10 anos quando está em casa e acessa a internet. Em geral, ela faz isso de seu quarto e, portanto, sente-se protegida por estar nesse local privado e seguro. Mas ocorre que um fio – apenas um fio – a liga ao mundo público e, na maioria das vezes, ela nem percebe que isso ocorre. Resultado? Age como se estivesse livre do olhar – e do julgamento – do outro.

Parece que foi isso que ocorreu com o casal que está em evidência nestes dias. Eles se envolveram tanto com as carícias que simplesmente se esqueceram que não estavam sozinhos. E isso tem acontecido com os adolescentes diariamente. Basta observar casais de namorados dessa idade.

Não se trata apenas de falta de modos; é bem mais complexa a questão. Eles não sabem que, ao agir assim, eles se expõem. Eles nem imaginam o que é que permitem que os outros vejam. De novo, parece que foi isso que ocorreu com o casal de famosos que, agora, ameaça processar quem fez o vídeo e quem o divulgou. Não parece que eles só se deram conta do que fizeram na frente dos outros ao verem, pelo olhar do outro, o modo como se comportaram?

Os pais precisam prestar atenção a esse detalhe da educação: é preciso ensinar aos filhos o que cabe no convívio social e o que é da ordem da intimidade. Sem esse ensinamento eles correm o risco de ficar sem intimidade já que tudo se mistura. E é bom lembrar que saber construir a própria intimidade é essencial para uma boa vida.

Bom final de semana.

Escrito por Rosely Sayão às 00h10
A opinião dos pais é fundamental

“Mãe, quem é que desliga as ondas do mar depois que a gente vai embora da praia?” Essa pergunta, feita por um garoto de pouco menos de quatro anos, mostra um fato: as crianças do mundo atual nasceram e vivem no mundo em que o botão liga/desliga comanda boa parte das atividades do cotidiano. E, por isso mesmo, a criançada domina esse mundo como ninguém; aliás, fazem isso bem melhor do que muitos adultos, que resistem ao uso da tecnologia.

Se por um lado isso é bom, por outro cria uma série de problemas aos pais. Principalmente para aqueles que acham que a internet, os jogos de computador, os de videogame e a televisão não fazem bem aos filhos, mas ao mesmo tempo não sabem como controlar.

A tv e o computador exercem um fascínio sobre crianças e adolescentes. Mas, para que não prejudiquem, é preciso impor regras de uso aos filhos e tutelar para que sejam cumpridas. Mas, como eles sempre encontram um jeito de transgredir as regras – e isso é saudável -, é preciso que os pais façam mais. O que mais?

Os pais precisam comentar com o filho os programas que eles vêem, os jogos que disputam, os sites que conhecem ou que ficam sabendo que existem.  Mas o jeito de fazer isso é que tem sido um problema. Em geral, os pais dão sermão – o que é natural – dizem para o filho que há coisa melhor e mais importante para ele ver ou fazer, criticam o gosto do filho. Essas lições de moral não costumam funcionar: a criançada ouve e nem liga.

O bom mesmo é quando os pais emitem a opinião sobre o que sabem que o filho tem visto de um modo bem claro. Sem, necessariamente,tentar convencer o filho a pensar igual, mas para que ele escute o que os pais têm a dizer. Os pais não imaginam o quanto as opiniões sinceras que dão influenciam os filhos.

O problema é que, hoje, os pais têm feito muito silêncio sobre o barulho que a televisão e a internet fazem na vida dos filhos. E o resultado disso é que os filhos ficam expostos a tudo que assistem, ouvem e fazem s em grandes críticas. Ninguém – nem mesmo a escola – tem ajudado as crianças e os jovens a desenvolver um espírito crítico frente a essas ferramentas de entretenimento que eles tanto gostam.

Os adultos costumam reclamar, lamentar que a programação seja tão ruim, e alguns chegam inclusive a pedir uma censura governamental mais rigorosa. Mas essa censura pode – e deve – ser feita dentro de casa. Quanto menos o estado interferir, maior a liberdade dos cidadãos. Mas, para isso, a censura privada, da família, deve ser praticada.

Proibir de assistir a um determinado programa, por exemplo, não impede que o filho tenha acesso a ele. O mesmo vale para os sites da internet, mesmo quando protegidos por programas especiais. Eles podem assistir escondido, ou na casa dos amigos, ou burlar o programa. Eles são muito bons em conseguir o que querem, não é verdade? Além disso, sempre é bom lembrar que proibir não significa impedir totalmente. Mesmo assim, a parte mais importante da história foi realizada: dar ao filho a referência daquilo que a família acha certo e o que acha errado, o que aprova e o que desaprova, o que gosta e o que não gosta.

Os pais precisam saber que, mesmo que aparentemente os filhos rejeitem e contestem o que os pais falam, eles ouvem e registram. É assim que, na maturidade, terão mais fundamento para escolherem a postura que julgarem mais correta. Mas, para chegar lá, eles precisam que, hoje, os pais não silenciem – tanto verbalmente quando na ação – sobre tudo o que faz parte da vida deles.

Escrito por Rosely Sayão às 00h23
Essas crianças maravilhosas e seus tênis deslizantes

Vocês já devem ter visto esse novo tipo de tênis para crianças que têm rodinhas no salto. A criançada adora e, pelo que percebi, essa é a nova onda entre eles. As crianças que eu tive a oportunidade de ver usando o tênis tinham entre sete e 10 anos, mais ou menos. E todos eles, é claro, estavam acompanhados de seus pais ou no mínimo de um deles quando usavam a nova engenhoca.

Apesar de provocar uma grande diversão – até eu me diverti só assistindo à diversão deles – o tênis pode ser uma armadilha tanto para as crianças quanto para os pais delas. A primeira coisa que eu adoraria saber é se esse tipo de calçado não prejudica a criança. É que, quando eles andam em vez de deslizar, parece que o mecanismo atrapalha um pouco a caminhada. Eles ficam bem desengonçados – mais do que já são nessa idade – tentando se equilibrar nas rodinhas para dar passos em vez der patinar.

Tanto atrapalha que todos os que eu vi, quando precisavam andar em determinados trechos do local em que estavam, se penduravam nas mãos dos pais para que estes os puxassem. Quando me dei conta disso, não pude deixar de pensar que a cena da mãe ou do pai puxando o filho era uma metáfora do que tem ocorrido atualmente com essas crianças.

É em torno dos seis, sete anos que a criança deixa a primeira etapa da infância para trás e, com isso, a absoluta dependência que tinha em relação aos adultos – pais, principalmente. É a partir de então que ela, de fato, passa a ter condições de dar os passos com suas próprias pernas. Em termos práticos, isso significa enfrentar e buscar soluções para seus problemas e se esforçar para isso, investir a energia que tem não apenas na diversão e nas brincadeiras, mas também nas responsabilidades e deveres, passar a se comprometer com o que vive e quer.

Entretanto, o estilo de vida que temos assumido principalmente na relação com os filhos dessa idade tem nos levado a agir de modo bem diferente. Quando eles nos contam suas dificuldades ou percebemos que eles hesitam quando se defrontam com obstáculos, por exemplo, em vez de encorajarmos as crianças a buscarem suas soluções, a investirem esforço para achar alguma saída, quase sempre tentamos resolver para e por eles. No lugar deles. E isso não ajuda a criançada a crescer e a colocar em ato o potencial que têm. Ao contrário: faz com que permaneçam estagnados no estágio da infância que deveriam ultrapassar.

Foi a cena dos pais puxando os filhos para onde eles deveriam ir em vez de fazer com que eles chegassem lá com seu próprio esforço foi que me fez refletir a esse respeito. E quero deixar bem claro que isso nada tem a ver com o filho ter ou não ter o tal tênis e sim com a idéia confusa que temos atualmente de proteger e de cuidar dos filhos.

Nosso desafio não é simples: temos de identificar as situações em que eles precisam de nossa proteção mesmo que não a queiram – quando estão na internet, por exemplo – das que eles não precisam de nossa intervenção, mesmo que a peçam – com as responsabilidades com os estudos, por exemplo.

PS: Gostei muito das discussões a respeito da relação entre pais e escolas. Os comentários geraram boas oportunidades de reflexões a respeito do tema.

Escrito por Rosely Sayão às 18h21