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Escola X Famílias

E não é que, nos comentários do último post, acabamos por reproduzir essa guerra que se instalou entre professores e pais de alunos? Uma leitura mesmo que rápida dos comentários nos permite identificar, de pronto, que há dois times no jogo, e eles se colocam em lados opostos. E percebem que um acusa o outro de não dar conta de suas responsabilidades?

Esse talvez seja um dos nossos grandes problemas em educação: a polaridade instalada entre grupos que deveriam estar do mesmo lado, ou seja, ambos a favor das gerações mais novas. O mais curioso é que ambos os times têm suas razões e estão convencidos de que dizem a verdade. Isso me faz lembrar de um trecho de Fernando Pessoa, presente no livro “Fernando Pessoa, Obra Poética” que cito a seguir.

“Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.”. (Notas soltas; sem data; não assinadas.)

É nesse estado de perplexidade que me vejo sempre que ouço pais e professores, separadamente. E quando os ouço juntos, como ocorre aqui ou em algumas palestras que dou, fico constrangida com a oposição que logo se instala e com o tom violento das acusações.

Então, faço um convite a todos, pais e professores: que tal experimentar uma trégua nessa guerra, tentar superar esse impasse? Para tanto, precisamos duvidar das verdades universais que grudaram em cada um de nós a respeito desse tema.   E isso não é nem um pouco fácil. Aliás, é extremamente difícil dialogar com idéias diferentes, conhecer o outro lado da questão. Mas, como educadores que somos, temos esse dever e essa dívida para com os mais novos.

E é preciso esclarecer que não se trata de suspender as críticas que temos a respeito da educação escolar ou da familiar, de nos tornarmos cegos para a realidade. Vivemos um período de transição, por isso tanto as escolas quanto as famílias se encontram perdidas, sem norte e sem referências seguras e sólidas. Nenhuma das duas instituições está a salvo. Para constatar tal fato, basta observarmos o comportamento de filhos e de alunos. São eles, afinal, que pagam a conta dessa nossa grande confusão, não é?

Escrito por Rosely Sayão às 23h02
Páginas da Vida Escolar

O capítulo de segunda da novela “Páginas da Vida” mostrou uma cena bem interessante que nos dá a oportunidade de boas reflexões. A mãe de uma garotinha portadora da Síndrome de Down desconfia que a filha seja discriminada pela professora em sala. Para comprovar sua hipótese, faz uma visita surpresa à escola. Lá, encontra a filha sozinha, brincando com massa de modelar, enquanto as outras crianças estão sentadas com lápis à mão e atendem às instruções da professora tais como “Vamos pintar o círculo de azul”, “Agora o quadrado de vermelho”, etc. A mãe interpela a professora e elas têm, então, um confronto que eu chamaria de raivoso. Mãe e professora discutem, defendem suas posições, se atacam e se ameaçam.

A cena pode inspirar muitos e variados comentários, mas escolhi hoje falar dessa relação entre os pais e as escolas que seus filhos freqüentam. Vamos, para isso, desconsiderar o fato de a criança em questão ser uma aluna que necessita do trabalho de inclusão, ok? Deixamos esse assunto para outra oportunidade.

A primeira coisa que eu chamo a atenção é que a mãe da garota entra na escola, chega à sala de aula e interfere no trabalho da professora na frente de todos os alunos. Ora, ora, isso é um comportamento bem discutível. Comportamento, diga-se de passagem, típico de quem se coloca no lugar de consumidor que exige seus direitos.

Esse fato tem atrapalhado em demasia o trabalho das escolas e a relação dela com seus alunos e com os pais deles. A escola se sente pressionada a agir de acordo com o que os pais pedem, e estes, por sua vez, exigem o que julgam ser o melhor para os filhos. Mas – e isso já comentei aqui – filho e aluno são dois papéis bem diferentes.

O fato que a cena da novela mostrou bem é o que ocorre na realidade: a tal parceria entre a escola e os pais não passa de uma guerra. A escola desconfia do tipo de educação que os pais praticam com os filhos e os pais não confiam no trabalho da escola; os pais acreditam que podem interferir no trabalho educativo da escola e os professores acham que devem interferir na prática educativa da família; o espaço escolar é frequentemente invadido pelos pais e os professores invadem a intimidade familiar; os pais desautorizam a autoridade dos professores e estes não consideram os pais autoridades frente aos filhos... Em resumo: os pais acham que estão certos e a escola errada e vice-versa. Um não ouve o outro, não há diálogo e muito menos respeito.

O fato é que ainda não conhecemos um tipo de relação entre a escola e os pais dos alunos que resulte em benefícios aos mais novos. Uma coisa é certa: do jeito que ela ocorre atualmente - aliás, muito bem mostrado na novela - as conseqüências não têm sido nem um pouco positivas ou benéficas. Nosso desafio atual é construir um novo tipo de relação entre essas duas instituições tão importantes para a formação das crianças e dos jovens.

Tenho acompanhado de perto uma experiência bem interessante de um grupo de pais que tenta inovar nessa questão. Farei um relato dessa tentativa brevemente, ok?

Escrito por Rosely Sayão às 13h17
O futuro são os jovens

Fui visitar uma das minhas irmãs que mora no Rio. Fiquei bem impressionada com a repercussão que o acidente que resultou na morte de cinco jovens tem tido por lá. Cito algumas das notícias que acompanhei: o pai de uma das garotas que morreram fez um depoimento por escrito, muito emocionado e comovente, a respeito da dor de perder a filha de 17 anos; uma juíza opinou que os pais dos jovens são negligentes por deixarem os filhos durante a noite toda em festas em que são servidas bebidas alcoólicas; uma perita declarou que, pelos primeiros indícios que ainda não são conclusivos, parece que os jovens não usavam cinto de segurança no momento do acidente e que, portanto, arriscaram muito. Quase todo mundo tem algo a dizer sobre o trágico acontecimento.

O fato é que o país todo precisa mesmo prestar atenção a fatos desse tipo. Os estudos estatísticos revelam que a morte violenta de jovens é um dado que cresce assustadoramente, principalmente entre os do sexo masculino, negros e que residem no Rio de Janeiro.  Em outras palavras: a reação a esse tipo de notícia não pode ocorrer apenas quando a tragédia atinge jovens de classe média. Os jovens pobres morrem diariamente em conseqüência de algum tipo de violência, mas esse fato não chama tanto a atenção da sociedade. Mas nosso futuro depende de todos esses jovens, afinal.

Li, certa vez, uma análise bem interessante que afirmou que nós, brasileiros, não temos tradição de ação quando se trata de exigir providências para o bem comum. Sabemos vestir roupas pretas, verde-amarelas ou brancas, sabemos fazer passeatas pela paz e abraçar simbolicamente um parque e coisas desse tipo. Mas, como vamos exigir condições dignas de vida aos jovens agindo apenas dessa maneira?

Nessas tragédias temos todos a nossa parcela de responsabilidade. O trânsito está violento? Os bares servem bebidas aos menores? As danceterias aceitam a entrada de adolescentes sem idade para freqüentar festas de madrugada? Os jovens adoram desafiar a morte em seus carros velozes? Além de conter e regular nosso próprio comportamento, de não pactuar com quem os pratica, de manter nossos olhos bem abertos, precisamos também saber exigir as medidas necessárias de educação, de vigilância e de sanção para quem não acata as normas da convivência civilizada e não preza o bem-estar coletivo. 

Temos de ter esse tipo de atitude em relação ao ensino público também. Os pais da classe média que colocam seus filhos em escolas privadas não estão livres do tipo de educação que é praticado nas escolas públicas. Como diz meu amigo Julio Groppa Aquino, os filhos da classe média também serão vítimas da má educação praticada em boa parte das escolas públicas. Precisamos refletir e dialogar com os comentários que a Giulia, por exemplo, faz a esse respeito.

As eleições estão aí, mas não é apenas no voto que podemos exercer nossos direitos e deveres da cidadania, não é verdade? Afinal, o futuro do país está nas mãos dos jovens, mas o presente e o futuro deles estão também em nossas mãos.

Escrito por Rosely Sayão às 22h49

Dúvidas e certezas

Os pais que criaram seus filhos décadas atrás tinham quase toda a certeza de como agir com eles. Está certo que tais certezas se mostraram, mais tarde, ilusórias ou falsas, mas, de qualquer maneira, ajudaram os pais a ter atitude e a dar conta de sua tarefa. É que naquele tempo não havia muitas alternativas: quase todo mundo pensava de modo semelhante sobre como agir com os filhos. Tais referências eram socialmente compartilhadas e, portanto, funcionavam quase como garantias. Mais tarde, os filhos contabilizaram muitos erros de seus pais, claro, mas sobreviveram.

Acontece que o mundo mudou com velocidade incrível e continua mudando. O contexto sociocultural passou a contar com múltiplas referências, as famílias se tornaram diferentes, as idéias sobre educação se multiplicaram, e ficou quase impossível imaginar como será o futuro dos mais novos.

Hoje, parece que a única certeza que restou aos pais em relação à educação é a de que os filhos precisam freqüentar a escola. É por isso que, por mais que uma criança resista, reclame ou faça cara feia, seus pais a obrigarão a ir para a escola. Ninguém conhece pais da classe média que atenderam aos pedidos do filho para deixar de ir à escola, não é verdade? E, certamente, há muitas crianças que gostariam de obter tal autorização. Pois é essa certeza dos pais a responsável pela continuidade dos estudos da maioria das crianças. No restante dos assuntos, tudo o que os pais têm são dúvidas. Qual a idade certa para colocar na escola? É melhor escola pequena ou grande? Até quando é normal usar chupeta? Castigo funciona? A partir de que idade a criança deve freqüentar escola de línguas? Como reagir à birra? As dúvidas começam quando o filho nasce e não terminam nunca mais!

O maior problema não é ter dúvidas, mas querer ter garantias. Sabemos que nenhuma idéia é indiscutível, e isso não permite ter certeza de quase nada. É preciso aprender a caminhar na corda bamba e a conviver com a insegurança e a possibilidade de erro para conseguir educar os filhos. E é preciso saber de antemão que qualquer atitude poderá, mais tarde, ser julgada errada. Ao atingir a maturidade, os filhos certamente lamentarão a falta de firmeza ou o excesso de pressão dos pais nessa ou naquela questão. Em resumo: por mais que os pais queiram e procurem acertar, eles errarão.

Aceitar tal idéia permite uma reflexão importante: já que é impossível saber o que será considerado certo ou errado no futuro pelos filhos, o melhor é agir de acordo com o que os pais pensam hoje, em conformidade com suas convicções, mesmo que elas não soem como certezas. Em outras palavras: para educar, é preciso simular poucas, mas decisivas, certezas.

Essa atitude facilita um pouco a árdua tarefa educativa. Tomemos o exemplo da certeza atual que os pais têm a respeito dos estudos. É por ter essa certeza que os pais conseguem fazer com que os filhos freqüentem a escola e não a abandonem no meio do caminho.
Mesmo que percebam que isso é sofrido para o filho, mesmo que reconheçam o esforço que a criança ou o jovem tem de investir nessa atividade, os pais conseguem persistir em sua atitude e, conseqüentemente, os filhos sabem que não há negociação. Por isso, eles também persistem, apesar de tudo.

Do mesmo modo, quando os pais quiserem valorizar alguma atitude a ser tomada com o filho, precisam investir certeza nela, mesmo sabendo que ela pode ser ilusória. É desse modo que os filhos acatarão a autoridade dos pais. Afinal, quem respeita a autoridade de quem duvida da própria atitude?

*Texto publicado originalmente na Folha Equilíbrio.

PS:Viajo hoje. Caso não consiga blogar na sexta, volto na segunda. Bom feriado a todos!

Escrito por Rosely Sayão às 10h17
Pais obedientes

Os programas de tv em que uma babá chega numa casa e coloca disciplina nas crianças têm feito o maior sucesso. Em geral, as crianças que aparecem podem ser consideradas, por seu comportamento, pequenas tiranas. E olhem que elas são pequenas mesmo: os personagens apresentados têm, em geral, 4, 5, 6 anos. O que essas crianças mostram? Simples: elas dizem, cada uma à sua maneira, que quem manda em casa são elas. E os pais? Estão desesperados, mas quase que conformados com a situação, como se fosse impossível fazer os filhos obedecerem.

A criança quer comer tal coisa e os pais acham que ela não deve, que está fora de hora? A criança quer brincar mais um pouco antes de dormir e os pais acreditam que é hora de ela descansar? O filho quer dormir com a mãe e, para tanto, quer que o pai vá dormir em outra cama? O filho quer o brinquedo que viu anunciado na tv mesmo tendo acabado de ganhar um outro parecido? Pois basta o filho fazer uma boa birra, espernear ou dar um pequeno escândalo que, pronto: consegue o que quer. Os pais desistem de manter a firmeza diante do protesto veemente do filho ou do sofrimento intenso que ele expressa. Por que será que os pais tornaram-se tão obedientes aos filhos?

Claro que há muitos fatores envolvidos, mas o que parece ser o maior problema para algumas famílias é que os adultos acreditam que á possível educar o filho sem provocar algum tipo de sofrimento para ele.

Pois é bom saber que não dá para educar evitando a frustração, o sofrimento, a decepção. Por quê? Porque a criança, desde muito pequena, aprende logo a reconhecer o que quer. Mas o que a criança quer nem sempre faz bem a ela, não é verdade?
Vamos ver apenas um exemplo: a hora de dormir. O sono restaura as energias, a atenção e o desgaste do dia-a-dia, mesmo que isso signifique apenas brincar, que é a coisa mais importante para a criança de até seis anos. E um sono tranquilo depende de algumas condições. Uma delas é sossego e segurança. Mas, na hora de dormir, é difícil para a criança despedir-se do dia, dos pais, dos brinquedos, por isso ela resiste bravamente e quer ficar um pouco mais tempo acordada. Se os pais permitem, ela pode ficar feliz naquela hora, mas esse estado é passageiro. Não se compara a uma noite inteira de sono. Já se os pais são firmes, a criança sofre por não conseguir o que quer, mas acaba cedendo; aí, dorme tranqüila e segura e no dia seguinte estará bem melhor.

A criança enxerga somente o que quer, e sua visão é guiada pelo impulso que busca sempre a satisfação imediata no presente. Aos pais cabe pensar no futuro do filho,  prepará-lo para enfrentar a vida. E a vida é cheia de dificuldades, de problemas, de situações que exigem esperar, se conter ou até mesmo suspender certas vontades. E não é atendendo a todos os desejos da criança e satisfazendo os caprichos dela que se vai prepará-la para viver nesse mundo.

Então, vale a pena pensar bem nesses tiranos que tais programas mostram.  Não, não me refiro aos tiranos em miniatura, mas sim aos educadores que não assumem seu papel, sua responsabilidade. Às crianças, não restam outra alternativa a não ser a de ficar submetida aos seus próprios impulsos. Isso custa caro a elas, tanto no presente quanto custará no futuro. O triste é saber que elas pagam a conta que é dos pais.

Em vez de crianças tiranas ou sem limites é mais adequado dizer que temos adultos irresponsáveis ou infantilizados, ou seja, que pensam apenas no presente, do mesmo modo que seus filhos pequenos fazem.

Escrito por Rosely Sayão às 10h34
Os jovens e as bebidas alcoólicas

Hoje os jornais publicaram mais uma notícia de um acidente de carro com conseqüências fatais. Cinco jovens entre 16 e 22 anos morreram no Rio após saírem de uma festa. Há suspeitas de que o motorista, uma das vítimas, estivesse alcoolizado.

Precisamos pensar muito seriamente em nossa responsabilidade nessa questão. Os jovens têm experimentado álcool muito cedo: as pesquisas informam que mais da metade dos adolescentes brasileiros tomam o primeiro gole de bebida alcoólica antes de completar 12 anos. E mais: o álcool já é a droga mais consumida pelos jovens.

Muitos pais acham normal que o filho tome um pouco de bebida quando estão com eles em casa ou quando saem juntos. Esses acreditam que é melhor que o filho aprenda a beber junto com os pais do que só com os amigos, escondido. Outros acreditam que festa sem algum tipo dessa bebida não faz sucesso entre eles. Por isso, oferecem com parcimônia, e acreditam que assim controlam a s ituação. Eu li a recomendação em um jornal, na coluna social, que em festas de 15 anos a bebida deveria ser oferecida de hora em hora para que os jovens não exagerassem. Considerar uma festa sem a bebida parece impraticável.

Por outro lado, conheço adultos que são pais e que deixaram de tomar bebida alcoólica em casa, na frente dos filhos, porque não querem que estes tenham um mau exemplo. Claro que não me refiro a adultos que se embebedam, mas aos que tomam a bebida com controle e moderação. Isso significa que os pais não conseguem separar o mundo adulto do mundo da criança e do jovem. Parece mais fácil abolir a bebida do que proibir o uso dela aos filhos.

O fato é que os jovens são, mais uma vez, vítimas de nossa dificuldade em assumir nossa autoridade na relação com eles. Cabe aos adultos proibir e conter os jovens nessa relação com a bebida alcoólica também. Mas, temos feito o oposto. Somos nós, muitas vezes, que oferecemos bebida a eles.

Claro que toda essa oferta sedutora que o mercado publicitário faz a eles da imagem de quem bebe é forte e, por isso, a proibição dos pais pode ser burlada, transgredida. Mas, a autorização dos pais é muito pior. A proibição funciona muito mais como uma referência familiar do que como proibição de fato. Desse modo, o jovem tem a chance de ser mais cuidadoso ao beber já que precisa ocultar o fato dos pais, não é mesmo?

Muitos pais pensam que nesse mundo em que vivemos é impossível impedir o acesso dos filhos a determinadas situações, como a bebida, por exemplo. Mas é possível, sim, não pactuar com as situações que os pais consideram perigosas.

Beber na adolescência é perigoso já que os jovens não têm ainda autocontrole. E se eles começam a tomar a bebida sem controle, será mais difícil adquirir depois.

Escrito por Rosely Sayão às 16h13
Ressaca para a vida toda?

O título do post de hoje bem como o texto - que está em negrito - são de autoria da leitora Cristina Maria Mira, escritora e jornalista. Ela tem duas filhas e uma delas termina o Ensino Médio este ano. O texto que ela produziu nos leva a fazer reflexões a respeito das viagens de formatura, especialmente aquelas que seguem para Porto Seguro. Já tratamos desse assunto aqui e creio que vale a pena pensar mais e melhor sobre o assunto. Por isso, decidi passar a minha palavra a ela hoje. Bom final de semana a todos!


Porto Seguro(BA) parece ter sido escolhida a cidade oficial das viagens de formatura do Ensino Médio no Brasil.Recebe nos meses de pico (setembro e outubro) cerca de 15 mil estudantes, sendo 90% deles do Estado de São Paulo. A principal empresa de viagem do setor estima um crescimento de 50% no turismo de formatura nos últimos dois anos (2,5 mil alunos por semana). 

Tradicionalmente a vigem tem duração de oito dias e inclui além dos serviços de hospedagem, alimentação e translado, alguns passeios e uma extensa programação de baladas. Diz o programa da Forma Turismo, uma das mais destacadas do setor: “Todas as noites uma balada diferente e ás vezes até duas baladas na mesma noite, uma seguida da outra! Você escolhe o tipo de música que quer ouvir dentro da balada (axé, eletrônica, pagode, forró etc) pois todas as casas são enormes e bem divididas. Quem viaja com a Forma ainda conhece casas noturnas que abrem exclusivamente para os nossos passageiros curtirem antes da festa oficial da noite”

Outros aspectos da viagem

No passado uma menina de um colégio de classe média de São Paulo foi estuprada em Porto Seguro por três rapazes. A cena foi filmada e os jovens foram espancados por seus colegas de classe.

Outra jovem paulistana embarcou em Porto Seguro com problemas de saúde. Após uma semana exposta a poucas horas de sono e alimentação irregular desembarcou em São Paulo gravemente doente. Faleceu em seguida. Os médicos diagnosticaram Meningite.

Um segurança, que trabalhou temporariamente em Porto Seguro, relata ter visto várias jovens embriagadas -que costumam dormir na praia após as baladas - serem bolinadas por seguranças que cuidam do local.

Todos os anos jovens entre 17 e 19 anos morrem em acidentes em Porto Seguro: afogados nas praias e piscinas, de ataque do coração em baladas, sob o efeito de bebidas e drogas.

Em 2002 um garçom que trabalhava na Passarela do Álcool foi espancado até a morte por estudantes. 

O OBJETIVO DESTE TEXTO NÃO É APENAS CHAMAR A ATENÇÃO PARA AS HISTÓRIAS TRÁGICAS OCORRIDAS EM PORTO SEGURO(BA).

GOSTARIA DE LANÇAR ALGUMAS PERGUNTAS PARA AS FAMÍLIAS (PAIS, MÃES E RESPONSÁVEIS), PARA AS ESCOLAS E PARA A SOCIEDADE.

Em que momento as “viagens de estudo do meio” realizadas pelas escolas em que nossos filhos estão matriculados foram substituídas pelas viagens de lazer?

O que dizem as escolas sobre o assunto? Porque cederam às empresas de viagem de lazer?

O que nos fez substituir uma “viagem escolar” por uma viagem em que predominam festas e uso indiscriminado de bebidas, sem falar das drogas?

Porto Seguro é que de melhor podemos oferecer para os nossos filhos, com o nosso dinheiro?

Por que expor nossos filhos a essas experiências, conscientemente?
Estaríamos desta forma contribuindo para o seu amadurecimento?
 
Não sentimos medo do que possa acontecer a eles nesta viagem?

O que é uma verdadeira confraternização?

Expor nossos filhos a uma semana sem dormir, convivendo com bebidas e drogas, é prepará-los para as adversidades da vida?

Estariam eles preparados para essa experiência?

O que dizem as outras empresas de turismo estudantil que se recusam a levar jovens para Porto Seguro?

Que precedentes estaríamos abrindo com essa viagem para vida dos nossos filhos?

Que tipo de jovens estamos formando?


O “aparentemente inofensivo” álcool é a droga, entre as lícitas e as ilícitas, que mais avança entre os jovens no Brasil. A faixa etária para o consumo de álcool caiu. Hoje se bebe a partir dos 12/13 anos e as moças já alcançaram os rapazes.
Os estudos relevam que o uso do álcool provoca: acidentes de carro, homicídios, queda do rendimento escolar, sexo inseguro etc.
 
A Divisão de Prevenção do Programa Estadual DST/Aids afirma: “Sob o efeito do álcool, as pessoas relatam que esquecem de se proteger, pois o senso crítico diminui e, assim, passam a ter comportamento de risco”. 

A esmagadora maioria dos jovens drogados atendidos pelo Hospital Albert Einstein iniciou pelo vício da bebida. Entre adolescentes, a bebida é um risco peculiar, uma vez que estão na fase de experimentar limites e passam a se guiar pelas atitudes dos amigos.

Pablo Neruda em seu excepcional livro “Confesso de Vivi” descreve os meios que os conquistadores espanhóis costumavam empregar para dominar os índios araucanos:

“Contra os índios todas as armas foram usadas com generosidade. Disparos de carabina, incêndio de suas choças, e depois de forma mais paternal, empregou-se a lei e o álcool. O advogado se tornou especialista também na espoliação de seus campos, os juiz os condenou quando protestaram, o sacerdote os ameaçou com o fogo eterno. E por fim, a aguardente consumou o aniquilamento de uma raça soberba cujas proezas, valentia e beleza Alonso de Ercilla, em seu Araucana, deixou gravadas em estrofes de ferro e jaspe”.

Cristina Maria Mira
Escritora e jornalista

Escrito por Rosely Sayão às 16h01

O respeito aos velhos

Na semana passada, li uma notícia que me chamou a atenção. As informações eram duas: os atropelamentos são a terceira principal causa de morte entre brasileiros de 5 a 14 anos de idade; e o risco de morrer atropelado sobe (para homens e mulheres) a partir dos 50 anos. Segundo a nota, envelhecer provoca patologias, como perda da visão e da capacidade auditiva, que diminuem a atenção aos alertas dados pelos motoristas, e perda da força muscular, que afeta a agilidade e dificulta a travessia de vias movimentadas.

Já comentei aqui que a cultura atual simplesmente eliminou as duas pontas da vida: a infância e a velhice. O que vale hoje é a juventude. Queiramos ou não, é preciso ser jovem de qualquer maneira. Essa notícia, portanto, não faz mais do que confirmar o fato. O trânsito, as vias públicas, o tempo dos semáforos, a faixa de pedestres, o comportamento dos motoristas e a configuração de ruas e calçadas não são próprios para crianças e velhos. Mas o que mais me impressionou foram as explicações para o risco de morte por atropelamento entre as pessoas com mais de 50 anos: é a própria velhice a responsável. Talvez o esperado seja que os cidadãos com mais de 50 anos respeitosamente se retirem do espaço público para que não provoquem o constrangimento de serem atropelados, não? Ou, então, que mantenham a agilidade e as funções como se fossem jovens.

Adequar as condições das vias pública para respeitar os velhos -e faço questão de dizer velho e não pessoas da terceira idade ou algo parecido justamente para marcar a dignidade que se deve a essa etapa da vida- não é algo a considerar.

Não é apenas na vida pública, entretanto, que vemos esse desdém com os velhos. O modo como a família contemporânea convive também expressa o mesmo. Para grande parte dos adultos, os avós são aqueles que "estragam" os netos e que tiram a autoridade dos pais. As opiniões dos velhos a respeito das crianças, em geral cheias de bom senso, são consideradas ultrapassadas.
O que se espera dos avós é que eles façam o que os pais das crianças querem, não é? Que os substituam à sua imagem e semelhança. E o que significa tal expectativa senão desdenhar do que eles adquiriram com a experiência? Os adultos com filhos ainda conseguem reconhecer a relação que têm com seus próprios pais e respeitar algumas das opiniões deles sobre as crianças.

Já quando a relação é de aliança, ou seja, quando o velho ocupa o lugar de sogra ou de sogro, não costuma ocorrer o mesmo. Em nome da popular dificuldade desse tipo de relação, os pais simplesmente não dão valor à contribuição que os avós poderiam dar. Na prática, isso resulta em grande diminuição do convívio entre crianças e velhos. Aqui é preciso um adendo: as crianças são colocadas, em geral, na relação com os avós no sentido utilitarista -quando os pais precisam que os avós cuidem de seus netos.Não se trata de convivência, e sim de trabalho. O fato é que, como não admitimos a velhice -porque isso significa reconhecer a proximidade da morte-, não sabemos conviver com os velhos e como tratá-los. E, se os adultos não sabem fazer isso, não conseguem ensinar aos mais novos o respeito à geração mais velha.

Uma sociedade que não é generosa nem respeitosa com os velhos, que equipara a primeira e a última etapas da vida à juventude, que não dá valor ao acúmulo de experiência, nada mais faz do que abolir o passado e o futuro e considerar apenas o tempo presente. Estamos, assim, armando uma cilada contra nós mesmos.

*Texto publicado originalmente na Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 23h25