Juventude subestimada

As crianças e os jovens têm sido subestimados, principalmente, por aqueles que mais deveriam dar crédito a eles: seus pais e professores. E esse fenômeno não é característica dessa ou daquela família ou de um ou de outro professor, e sim uma ocorrência geral que faz parte de um estilo de vida assumido pela classe média. E a idéia que fazemos da criança e do jovem tem mudado drasticamente em razão disso.

Algumas convicções foram tomando conta dos educadores e transformando o relacionamento com os filhos e alunos.Tudo isso tem produzido efeitos complexos na vida dos mais novos, e vale a pena refletir sobre eles, que têm mais atrapalhado a idéia de educação como busca de autonomia do que contribuído para ela.

Vamos pensar em duas idéias, partilhadas por pais e professores, que marcam a relação entre eles e dirigem a chamada parceria entre os pais e a escola.A primeira é a idéia de que a escola e a família devem falar a mesma língua e priorizar os mesmos valores para que os mais novos percebam a coerência educativa e aprendam com mais consistência. Segundo essa idéia, crianças e jovens não conseguiriam viver com a diversidade, e isso não percebemos de imediato.

O mundo que recebe essas crianças já se mostra a elas pleno de diferenças. O discurso que apreciamos ouvir (e que nem sempre aplicamos) diz que esta é a era do respeito à diversidade. Apostar na idéia de que as crianças e os jovens devem freqüentar espaços educativos com bases semelhantes anula a possibilidade de eles aprenderem a se defrontar com as diferenças.

Além disso, esconde-se, por trás dessa idéia, uma atitude perigosa: a de não dar o devido valor à capacidade das crianças e dos jovens de aprender sobre a vida, já que se busca para eles um contexto uniforme, coeso e ausente de contradições. É como se eles não fossem capazes de sobreviver num mundo fragmentado e cheio de incoerências. Claro que não é essa a intenção dos adultos, mas é assim que se expressam as ações sustentadas nessa idéia.

O segundo conceito que tem influenciado a relação entre pais e professores é bem delicado. Pais e professores acreditam que as crianças não conseguem se distanciar de suas vivências familiares para, na escola, dedicar-se aos estudos com todo o potencial que têm. É essa a idéia que sustenta a troca de informações entre eles e que confunde a vida privada e a vida pública dos mais novos.

Afirmar que a criança é capaz de viver seu papel de aluno apesar dos problemas que vivencia em sua vida pessoal costuma desagradar muita gente porque vai contra a ideologia educacional que estimula um determinado tipo de interação entre pais e professores. Aliás, em um encontro recente, muitos pais reagiram a essa idéia. Para eles, pensar que a criança é capaz de "desligar o botão da vida familiar" quando entra na escola é considerá-los pequenos robôs.
Pois é possível considerar que pensar dessa maneira pode expressar exatamente o oposto, e as crianças e os jovens nos apontam isso. Basta observar um deles em qualquer atividade a que se dedicam por prazer ou escolha. Não há problema que atrapalhe decisivamente sua concentração e seu empenho. Então, por que supor que com a obrigação escolar seria diferente? Não está também, por trás dessa idéia, uma atitude que os subestima?

Quando um professor conhece a visão que os pais têm a respeito do filho, ele certamente será influenciado por esse olhar. E é assim que a criança perde a chance de ser vista de outro modo e de ter a vida e a auto-imagem enriquecidas.

*Texto publicado originalmente na Folha Equilíbrio