Filhos homossexuais
O modo de viver no mundo contemporâneo mudou nosso estilo de vida. Mudou também o tipo de relacionamento entre pais e filhos, entre professores e alunos, assim como a educação praticada por famílias e escolas. Essas mudanças trouxeram algumas novidades que, antes, ficam encobertas, escondidas. Entre elas, algumas melhoraram o convívio familiar, outras trouxeram mais riscos para os filhos, principalmente adolescentes e, portanto, maiores preocupações aos pais. E outras, ainda, provocam constrangimento, perplexidade, falta de referências que orientem o agir dos pais. A sexualidade de crianças e adolescentes está localizada nessa última categoria.
Hoje, inspirada em um programa de tv que vi de passagem, quero colocar em debate uma questão delicada: como agir, o que fazer ao descobrir que o filho ou a filha é homossexual ou se comporta como?
As mudanças sociais apontam para uma maior tolerância e um menor preconceito ao lidar com essa questão. Se antes as pessoas com orientação homoerótica eram segregadas, excluídas, encaixadas em rótulos morais ou médicos e, por isso, escondiam sua condição e mantinham segredo, hoje elas têm a liberdade de escolher se querem ou não assumir publicamente sua situação.
Para os pais, a situação, em geral, é bem difícil. Primeiro, porque quem tem filhos tem expectativas, anseios, sonhos de uma vida para ele. Claro que todo filho pouco a pouco mostra aos pais que a vida é dele e que o que ele quer e sonha para si pode ser bem diferente do que os pais queriam. Quando um filho diz aos pais que é homossexual, boa parte dos sonhos dos pais é destruída subitamente. Isso provoca sofrimento, tanto para os pais quanto para os filhos.
Não pensem os pais que, para o filho, isso é fácil. Eles até podem querer mostrar que sim, mas a complexidade da situação é logo percebida e provoca uma turbulência de emoções, sentimentos, frustrações e também, em meio a tudo isso, esperança de vida.
Como conduzir o relacionamento com os filhos a partir de então? Primeiro, é importante enfrentar o próprio preconceito, e isso deve acontecer diariamente. Fomos todos educados em uma cultura que é preconceituosa e seria irreal afirmar que é possível ser livre disso. Depois, é também importante assinalar ao filho o preconceito social, que ainda existe e é forte. Conhecendo o fato, o filho poderá aprender a se defender melhor, a pensar mais antes de decidir se expor para qualquer um.
E, principalmente, os filhos precisam aprender com os pais – e isso diz respeito a todos os filhos – que privacidade e intimidade é algo que se constrói e se preserva. Quando os pais não se sentem à vontade para conversar a respeito do fato com o filho, é importante assinalar isso, o que não é prejudicial já que a sexualidade faz parte da intimidade das pessoas e nem sempre o trânsito livre entre pais e filhos nesse assunto deve abordar a vida pessoal de cada um. Falar de idéias é importante, compartilhar intimidades não é recomendável.
Ter segredos é índice de maturidade, e hoje muitos filhos abrem sua vida íntima aos pais porque não suportam arcar sozinhos com ela: precisam sentir que são aprovados pelos pais. A educação deveria atuar justamente no sentido de permitir aos filhos o acesso à autonomia, à responsabilidade por suas escolhas. Será que temos atuado nesse sentido?
Escrito por Rosely Sayão às 16h59

Escola: essa batalha é só dos filhos
O semestre letivo mal começou, mas muitos pais já estão ansiosos e preocupados com o rendimento escolar de seus filhos.
Os que têm filhos dorminhocos que estudam no período da manhã já começam o dia estressados para que o filho não se atrase para o início das aulas. O despertador toca e começa o martírio: “Acorda, fulano, está na hora”. Nas primeiras vezes em que chamam o filho, os pais – em geral a mãe é quem fica com essa tarefa ingrata – até que são carinhosos. “Vamos, filho, não vá se atrasar. Você precisa ter tempo para tomar o café da manhã, não pode sair sem comer”, e assim por diante. Mas, depois de 15, 20 minutos, o tempo começa a se esgotar junto com a paciência da mãe, e o chamado antes carinhoso passa a ser quase agressivo. E não é incomum que, nos últimos segundos, a mãe passe para a gritaria.
Já os pais que têm filhos que não gostam de fazer a lição de casa, terminam o dia estressados. Depois de trabalhar, em vez do descanso ou da convivência direta com o filho, sentem a obrigação de sentar com ele e fazer as vezes de professor no acompanhamento da lição de casa. E começa a ladainha de fazer o filho dar conta de seu dever escolar. Não é difícil que essa história termine em discussões e brigas.
Tanta preocupação, tanta ansiedade por parte dos pais, acaba dando ao filho a idéia de que os estudos são problemas muito mais dos pais do que dele mesmo. E isso não contribui para que ele se aproprie de seus estudos e, portanto, não se responsabilize tanto com esse compromisso que, na verdade, é dele, só dele.
Por isso, faço um convite aos pais neste início do semestre escolar de seus filhos. Que tal tentar passar a bola ao filho, deixar a responsabilidade ser dele, mesmo que isso custe se angustiar ao vê-lo errar? Afinal, a primeira batalha que os mais novos deveriam enfrentar sozinhos é justamente a vida escolar.
Claro que eles não vão aprender a dar conta do recado se os pais simplesmente abandonam a questão. Não: o que eles precisam é que, pouco a pouco, os pais façam menos por eles e o responsabilizem mais por sua vida escolar.
O mais importante é que os pais acreditem que o filho é capaz, sim, de dar conta sozinho de sua vida escolar. O que a criança - ou o adolescente - precisa é de orientação, de apoio, de encorajamento, de cobrança e de condições para ganhar confiança em si e em sua capacidade de estudar e de investir seu esforço para tanto.
Escrito por Rosely Sayão às 18h08

As más companhias
Quando chega a adolescência, os filhos trocam de turma: deixam a família para trás e procuram os amigos. É que nessa fase, faz parte da busca da autonomia aprender a viver sem depender dos pais, o que será necessário assim que a adolescência terminar. E se tem uma questão que preocupa bastante os pais nesse período são as amizades que o filho escolhe.
Ah, as más companhias! Que medo os pais têm de que o filho se envolva com colegas, amigos e conhecidos que possam influenciar de modo negativo o comportamento dele, não é verdade? Mas, o que será que significa essa expressão tão usada?
Má companhia, na visão dos pais, é o amigo ou amiga que o filho ou a filha escolhe que tem hábitos muito diferentes de viver, que tem mais liberdade do que os pais dão ao filho, que gosta de coisas que os pais não aprovam, que se comporta de um modo que os pais não querem que o filho se comporte.
E como os pais costumam reagir a essa situação quando se defrontam com ela? Tentam, de todos os modos, convencer o filho de que aquele amigo ou amiga não é uma pessoa legal de se conviver, que ele ainda vai se dar mal por causa dessa amizade, coisa e tal. O que os pais querem é afastar essas amizades do círculo do filho.
Mas é preciso pensar nos motivos que levam um jovem a se aproximar de outro para se tornar amigo. Em primeiro lugar, eles procuram seus pares, ou seja, se aproximam daqueles que consideram quase iguais a ele. Em segundo, procuram aqueles que são do jeito que gostariam de ser. E também se agrupam quando têm interesses comuns.
Pensando assim, os amigos considerados má companhia não são tão diferentes assim dos filhos. Isso quer dizer que, talvez, os pais consigam ver nos amigos que o filho escolhe o que não conseguem ver em seu próprio filho. E isso pede uma atuação direta com o filho, e não com os amigos dele. Aliás, na vida dos filhos, nessa fase, ainda dá para interferir, mas na dos amigos dele não dá.
Em vez de tentar persuadir o filho a renunciar aos amigos – isso não é legal porque faz o filho pensar que os pais não acreditam que ele tenha capacidade para julgar, se proteger, arriscar, errar e aprender com isso -, melhor é prestar mais atenção nele, dialogar mais, ser mais claro ao passar os valores da família para ele. Saber que ele pode contar com a família caso se dê mal em algumas situações – e isso sempre pode acontecer – deixa o jovem mais seguro, mais confiante para viver a vida por conta própria.
Nenhum pai gosta de ver o filho sofrer ou tomar um rumo equivocado na vida. Mas, para aprender a viver ele precisa passar por isso. Para o pai suportar melhor essa situação, nada melhor do que lembrar de como foi a própria adolescência. Todos nós, que hoje somos adultos, não passamos por maus pedaços? Então: com o filho vai ser do mesmo jeito.
Agüentar o tranco com firmeza, carinho e orientação é o modo mais seguro de enfrentar as dificuldades que surgem na educação dos filhos. Só não vale desistir e deixar que o filho tenha vida de adulto. Não: para chegar lá, ele precisa da atuação dos pais.
Escrito por Rosely Sayão às 17h20

Antes da vida adulta
Ao ler uma reportagem sobre o alto índice de estresse entre jovens de 14 a 18 anos, deparei-me com o depoimento surpreendente de um garoto de 15 anos que se trata por causa desse problema. O adolescente já tem planos sólidos para sua vida: daqui a três anos, quer prestar vestibular para o curso de economia e, como não pretende perder um ano com o cursinho, transferiu-se para uma escola mais "forte". E ele sonha muito mais longe: antes de se casar e de ter filhos, ainda pretende fazer pós-graduação.
O problema é que a cobrança excessiva das responsabilidades que assumiu o afastou da namorada e das atividades que pratica por prazer. E ele ainda sofre de insônia e de dores de cabeça freqüentes e tem dificuldade para se concentrar.
Crianças e jovens têm sido bastante pressionados por seus pais. Não é novidade a agenda cheia que eles cumprem, desde bem pequenos. Além da escola, freqüentam atividades extracurriculares dos mais variados tipos: esportes, línguas e artes são as mais concorridas, mas há também tratamentos, acompanhamentos pedagógicos, aulas particulares. Dá-lhes formação para múltiplas habilidades e competências! Tudo isso porque os pais querem garantir um bom futuro para eles. Mas os pais não poupam nos sonhos para os filhos. Em todas as atividades, eles precisam disputar as melhores posições. Competir, por sinal, é o que as crianças e os adolescentes sempre fizeram. As brincadeiras em grupo nas ruas tinham essa marca. Mas as regras podiam ser negociadas, e a tensão e a frustração pelas derrotas podiam ser minimizadas pela convivência com os colegas.
Hoje, os mais novos disputam para valer. Seus oponentes -em geral, colegas ou amigos- perdem logo esse valor: passam a ser rivais. E há também o oponente que nem humano é. O videogame e os jogos de computador fazem sucesso, mas é preciso lembrar que eles são programados muito mais para ganhar do que para perder. Com colegas ou com máquinas, os garotos estão mais interessados no ranking e nas medalhas do que na interação e na diversão que poderiam ter.
E, antes que se pense que considero a competição sempre nociva, um esclarecimento: a competição é saudável porque incentiva a superação dos próprios limites e encoraja a busca do aprimoramento, além de permitir que os mais novos aprendam a respeitar as normas de convivência, a negociar e a manejar recursos para lidar com as situações difíceis. O mal da competição está no modo como ela se dá hoje: só há lugar para os vencedores, e, para ganhar, vale tudo, inclusive burlar normas e regras. Esse é o princípio do uso de drogas nos esportes, por sinal.
Crianças e jovens são exigidos em demasia pelos pais em nome do futuro. Mas e o presente deles? Um estresse! Hoje, a expectativa de vida é bem alta. Consideremos, então, um ciclo de vida. A vida adulta ocorre após os 18 anos, certo? Até lá, a vida se divide em três etapas: a primeira e a segunda infâncias e a adolescência.
Cada uma dessas etapas pode ser vivida, portanto, apenas por cerca de seis anos. A criança pequena só pode ser assim por seis anos, menos da décima parte do que, provavelmente, viverá. Depois, tem mais seis para continuar a ser criança um pouco mais crescida e, finalmente, mais seis para desfrutar da adolescência. Depois disso, é entrar na vida com toda a responsabilidade que ser adulto exige. Em geral, as pessoas terão em torno de 50 anos para viver nessa condição. Então, por que roubar dos mais novos esses 18 primeiros anos de vida, tão curtos e preciosos?
* Texto publicado originalmente na Folha Equilíbrio
Escrito por Rosely Sayão às 23h13

Irresponsabilidade Social
Li uma pequena nota na Folha de hoje, na coluna Outro Canal do Daniel Castro, que me deixou brava. Ele informa que a Record, neste ano, participa da mobilização do Dia de Fazer a Diferença e que vários de seus contratados já participam de algum tipo de ação social. Assim, a apresentadora Eliana irá levar crianças de um orfanato passear num shopping na próxima sexta..
Isso é o que se pode chamar de absoluta irresponsabilidade social. Então há gente que acredita que levar crianças órfãs e pobres passear justamente no templo do consumo de nossa sociedade é um ato de solidariedade, de compromisso social?
E antes que alguém resolva dizer que elas também têm o direito de fazer esse tipo de passeio, preciso deixar claro que não trata do passeio em si. A questão é outra: fazer esse passeio não fará diferença alguma na vida de crianças que vivem em uma instituição, que não têm a sorte de conviver com seus pais, que provavelmente sofrem com a falta de atenção e de carinho na vida cotidiana e que, por último, irão ver tudo aquilo a que não têm – e quem sabe não terão – acesso.
Para fazer a diferença e ser socialmente responsável é preciso saber olhar para o outro, em primeiro lugar. Quem olha para si pode até pensar que esse é um tipo de lazer que essas crianças apreciariam.
Mas o que poderia fazer realmente uma diferença na vida dessas crianças seria a presença de adultos disponíveis para com elas brincar, para ouvi-las verdadeiramente, para ensinar o que elas podem, querem e devem aprender, para contar a elas histórias, mostrar como é possível viajar com o pensamento, dedicar um pouco de afeto em forma de ação.
Conheço alguns grupos de jovens amigos que, pelo menos duas vezes ao ano, se reúnem e comparecem a uma dessas instituições que abrigam crianças e passam o dia brincando com elas. Não levam nada, a não ser algumas poucas guloseimas que conseguem arrecadar com os amigos. É que o objetivo deles é mesmo interagir com as crianças, dar a elas um pouco de vida, nada além disso.
E o testemunho que dão a respeito dessa experiência é emocionante. As crianças adoram, se divertem, riem e – o mais importante – nunca perguntam a respeito de presentes ou pedem algo material a eles. Presença humana: isso é o que elas gostam e precisam. Na saída, o que eles mais costumam ouvir é a pergunta: “Quando vocês voltam?”. O que esses jovens fazem é o que pode se chamar de atitude educativa socialmente responsável!
Tanto para realizar ações de responsabilidade social quanto para educar é preciso ser responsável e conseqüente, não é verdade? E por falar nisso, e nós? O que fazemos nesse sentido? O que ensinamos aos nossos filhos e alunos a respeito de responsabilidade social?
Escrito por Rosely Sayão às 15h19

Pré-adolescente?!
Muita gente costuma dizer, com ironia e bom-humor, que educar os filhos é tarefa difícil porque eles não vêm com manual de instrução. E eu costumo retrucar que, caso viessem, poucos pais se dariam ao trabalho de ler. Dúvidas não faltam aos pais de crianças entre 9 e 12 anos, chamados agora pelo pomposo nome de pré-adolescentes. Até as próprias crianças já não se consideram mais crianças. E como sabem usar bem esse argumento os espertinhos quando se trata de conseguir o que querem.
Aqui, vale uma reflexão. Eles querem namorar, ir ao shopping só com a turma, freqüentar festas e dançar no escurinho. Será que querem mesmo? Ou simplesmente foram arrancados à força da infância e, por isso, acreditam que devem se comportar dessa forma?
Lembro da mãe que já esperava uma guerra quando o filho, um garoto que sabe brigar pelo que quer, pedisse para ir ao shopping no sábado à tarde só com os amigos, todos com cerca de 10 anos. Para surpresa dela, quando ele fez o esperado pedido e não ganhou a autorização para ir, reagiu com a maior naturalidade e aceitou quase de pronto a resposta negativa da mãe. Por quê? Talvez porque não quisesse tanto assim o que pedira. Claro que alguns vão, de fato, querer muito fazer algo. Mas nem tudo o que eles querem é, de fato, o que eles precisam. Além disso, eles ainda não sabem avaliar se o que querem faz bem a eles ou não.
Uma criança de 9 a 12 anos continua sendo uma criança, mesmo num mundo que muda rapidamente e que limita tanto a vida das crianças. Os pais não podem creditar aos filhos dessa idade uma responsabilidade que eles ainda não têm condição de arcar.
Cabe aos pais poupar essas crianças de uma entrada precipitada na adolescência. Dizer não para uma criança que quer se comportar como adolescente antes da hora pode ser sofrido. Tanto para a criança quanto para os pais. Mas, é educativo.
Terminar bem a infância é um passo para começar bem a adolescência. Viver cada fase da vida na hora certa e com equilíbrio: para isso, as crianças dependem dos pais.
Escrito por Rosely Sayão às 22h19

Juventude subestimada
As crianças e os jovens têm sido subestimados, principalmente, por aqueles que mais deveriam dar crédito a eles: seus pais e professores. E esse fenômeno não é característica dessa ou daquela família ou de um ou de outro professor, e sim uma ocorrência geral que faz parte de um estilo de vida assumido pela classe média. E a idéia que fazemos da criança e do jovem tem mudado drasticamente em razão disso.
Algumas convicções foram tomando conta dos educadores e transformando o relacionamento com os filhos e alunos.Tudo isso tem produzido efeitos complexos na vida dos mais novos, e vale a pena refletir sobre eles, que têm mais atrapalhado a idéia de educação como busca de autonomia do que contribuído para ela.
Vamos pensar em duas idéias, partilhadas por pais e professores, que marcam a relação entre eles e dirigem a chamada parceria entre os pais e a escola.A primeira é a idéia de que a escola e a família devem falar a mesma língua e priorizar os mesmos valores para que os mais novos percebam a coerência educativa e aprendam com mais consistência. Segundo essa idéia, crianças e jovens não conseguiriam viver com a diversidade, e isso não percebemos de imediato.
O mundo que recebe essas crianças já se mostra a elas pleno de diferenças. O discurso que apreciamos ouvir (e que nem sempre aplicamos) diz que esta é a era do respeito à diversidade. Apostar na idéia de que as crianças e os jovens devem freqüentar espaços educativos com bases semelhantes anula a possibilidade de eles aprenderem a se defrontar com as diferenças.
Além disso, esconde-se, por trás dessa idéia, uma atitude perigosa: a de não dar o devido valor à capacidade das crianças e dos jovens de aprender sobre a vida, já que se busca para eles um contexto uniforme, coeso e ausente de contradições. É como se eles não fossem capazes de sobreviver num mundo fragmentado e cheio de incoerências. Claro que não é essa a intenção dos adultos, mas é assim que se expressam as ações sustentadas nessa idéia.
O segundo conceito que tem influenciado a relação entre pais e professores é bem delicado. Pais e professores acreditam que as crianças não conseguem se distanciar de suas vivências familiares para, na escola, dedicar-se aos estudos com todo o potencial que têm. É essa a idéia que sustenta a troca de informações entre eles e que confunde a vida privada e a vida pública dos mais novos.
Afirmar que a criança é capaz de viver seu papel de aluno apesar dos problemas que vivencia em sua vida pessoal costuma desagradar muita gente porque vai contra a ideologia educacional que estimula um determinado tipo de interação entre pais e professores. Aliás, em um encontro recente, muitos pais reagiram a essa idéia. Para eles, pensar que a criança é capaz de "desligar o botão da vida familiar" quando entra na escola é considerá-los pequenos robôs. Pois é possível considerar que pensar dessa maneira pode expressar exatamente o oposto, e as crianças e os jovens nos apontam isso. Basta observar um deles em qualquer atividade a que se dedicam por prazer ou escolha. Não há problema que atrapalhe decisivamente sua concentração e seu empenho. Então, por que supor que com a obrigação escolar seria diferente? Não está também, por trás dessa idéia, uma atitude que os subestima?
Quando um professor conhece a visão que os pais têm a respeito do filho, ele certamente será influenciado por esse olhar. E é assim que a criança perde a chance de ser vista de outro modo e de ter a vida e a auto-imagem enriquecidas.
*Texto publicado originalmente na Folha Equilíbrio
Escrito por Rosely Sayão às 09h44

Preconceito e diferença
Muitos dos comentários postados no texto anterior expressam preconceitos e vários internautas reagiram. Então, vamos refletir um pouco a respeito dessa questão. O preconceito é sempre conseqüência da falta de análise crítica e, em geral, resulta em intolerância. Como vivemos na época da diversidade e temos, cada vez mais, a expressão dos mais variados tipos de preconceitos, é preciso buscar algum tipo de compreensão mais ampla para essa questão. Escolhi pensar no contexto sócio-cultural do mundo contemporâneo. O individualismo que vivemos já há algumas décadas produziu efeitos que nem sempre a ele creditamos. Essa característica, aliada à deserção que temos feito da vida pública, provoca o fenômeno de rejeição à diferença. Buscamos sempre os iguais – os semelhantes quase já não nos servem mais – para a convivência social. Consideramos os diferentes, hoje, uma ameaça. O estranho, aquele com quem não se tem uma relação pessoal, incomoda profundamente. E tem mais: não apenas não respeitamos o outro – o estranho. Sequer toleramos a sua presença. Sempre que vou ao cinema, a um congresso, dar uma palestra, observo com atenção como as pessoas se acomodam. Em geral, procuram cadeiras isoladas, ou seja, evitam a companhia próxima do outro. No metrô é a mesma coisa. Quando possível, sempre preferimos escolher um assento cuja cadeira ao lado esteja vazia, não é? Como a escola tem reproduzido sem crítica alguma a cultura do mundo atual, observamos a dificuldade da presença do diferente no espaço escolar. E não estou me referindo aqui aos alunos portadores de algum tipo de deficiência. Como bem disse uma internauta, basta um aluno ser diferente da maioria para ser discriminado, tanto pelos profissionais quanto pelos colegas. Aliás, é isso o que sustenta o comportamento hoje chamado de bullying. Esse é um paradoxo do mundo contemporâneo: valorizamos muito a idéia do respeito à diversidade, mas na prática não toleramos a diferença. O outro – o diferente de nós – acaba se transformando quase sempre no responsável por todas as nossas mazelas. Esse tipo de atitude é muito prejudicial à vida social, ou seja, à nossa vida pública e à dos mais novos, principalmente. É por isso que temos a obrigação de nos defrontarmos com nossos preconceitos. Um livro que eu adorei ler é o “O Homem que Comeu de Tudo”, de Jeffrey Steingarten (Companhia das Letras). O autor, advogado, é crítico gastronômico da Vogue. Logo na introdução ele conta que, ao ser nomeado crítico da revista, seu primeiro passo foi elaborar uma lista com todos os preconceitos alimentares que tinha e debruçar-se sobre ela para libertar-se e, assim, poder exercer seu trabalho com profissionalismo e ética. Quem bom seria se todos que educassem fizessem o mesmo, não? Bom final de semana!
Escrito por Rosely Sayão às 15h46

Educação escolar de elite
Devo começar desculpando-me pelo atraso. Mas, ele até que não foi tão prejudicial. Eu já tinha rascunhado o assunto do post de ontem, mas assim que consegui ler as notícias da internet mudei de idéia rapidamente. Creio que o tema revisto é bem mais importante.
Li no UOL que o candidato José Serra afirmou que a migração intensa que ocorre em São Paulo é responsável pelos baixos índices obtidos nos exames nacionais de avaliação da educação. Para falar a verdade, eu não estranhei muito essa declaração. Já ouvi coisa muito parecida em um lugar em que nunca pensei que fosse ouvir.
Estive na Itália para conhecer o trabalho realizado com a educação infantil em um programa educacional de importância internacional. A cidade é Reggio Emília e o programa chama-se Reggio Children. De fato, o projeto que eles desenvolveram e que já está em prática há uns 30 anos mais ou menos é bem diferente desses que conhecemos. A criança é valorizada, a primeira infância é preservada e as artes – isso só poderia acontecer na Itália, não? – fazem parte de seus trabalhos diários. Em resumo: o trabalho é mesmo espetacular.
No seminário em que apresentaram os trabalhos e suas bases teóricas, metodológicas e políticas, alguém perguntou qual o maior problema que eles enfrentavam. E, para minha surpresa e perplexidade, a resposta veio rápida: o maior problema é a presença de crianças que são filhos dos extra-comunitários. Eu nem conhecia essa expressão, mas logo percebi que eles referiam-se aos imigrantes.
Não há diferença alguma, afinal, entre a declaração de um político brasileiro e a de um educador italiano, certo? E quais serão as origens de um pensamento desse tipo? Farei minha análise.
A educação escolar sempre foi privilégio das elites. Lembro-me de ter passado, quando criança, por um exame que ocorria entre o primário e o ginásio. Chamava-se exame de admissão. Seu objetivo era um só: escolher os melhores alunos para continuar os estudos. Isso deixava a maioria da população fora das escolas. E eram os pobres, claro, os maiores excluídos.
Com a democratização do acesso à escola eles passaram a freqüentar o espaço escolar e a grande questão hoje é que não sabemos o que fazer com eles. No Brasil ou na Itália, a questão é a mesma: como educar pessoas tão diferentes daquelas que sempre foram o alvo da educação escolar?
Um amigo, o Julio Groppa Aquino, costuma dizer que as escolas não sabem o que fazer com os “feios, sujos e malvados”. Ele usa o título de um filme como metáfora para apontar a dificuldade de a escola dar conta de seu trabalho com todos os alunos. Ou seja: a escola oferece vagas a quase todas as crianças, mas ainda não sabe como ensiná-los.
Enfrentamos um problema sério em educação: as escolas e os profissionais da educação sempre foram formados para trabalhar com um determinado tipo de aluno. Os que saem fora dessa norma são considerados problemáticos.
Creio ser importante, principalmente em época que antecede as eleições, que todos se conscientizem da importância das políticas públicas em educação. Os leitores do blog têm, em sua maioria, os filhos estudando em escolas privadas. Mas é preciso saber que os filhos da classe média sofrerão graves conseqüências da má educação praticada nas escolas públicas. No mínimo por isso, precisamos nos ocupar politicamente dessa questão.
Escrito por Rosely Sayão às 09h52
Aviso aos leitores
Estou com problemas para blogar, hoje, mas retorno amanhã.
Obrigada pela compreensão!
Escrito por Rosely Sayão às 16h52
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