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Os pais e a vida escolar dos filhos
No sábado consegui, finalmente, assistir a um capítulo da novela das oito – que por sinal começa depois das nove – da tv Globo. Muita gente tem me pedido para comentar a respeito de alguns personagens e cenas, mas não dá para fazer isso sem se colocar como telespectador. Então fiz isso assim que pude, e tive sorte.
Nesse capítulo, assisti a uma cena em que aparece a mãe de uma garota, que deve ter nove anos mais ou menos, em uma entrevista com a diretora da escola. Não serei capaz de reproduzir o diálogo que foi curioso, mas vou resumir. A diretora informa à mãe que a filha está com baixo rendimento e pergunta se a garota passa por algum problema em casa. A mãe responde que não, conta que estuda com a filha e faz com ela os deveres de casa, que o pai ensina matemática porque é bom nisso, e fica bastante nervosa com a informação que recebe. A diretora tenta, então, acalmá-la dizendo que não há motivo para tanta preocupação e que há tempo para reagir. Além disso, a diretora diz que a aluna apresenta também comportamentos inadequados,conversa muito com uma colega, e essa é a deixa para a mãe encontrar a grande culpada de tudo.
Como essa cena expressa com muito realismo o que costuma ocorrer entre pais e escola, vale a pena levantar algumas questões. Em primeiro lugar, eu pergunto: o que a escola pretende ao chamar os pais de seus alunos? Isso nunca se sabe ao certo, mas os efeitos disso as crianças conhecem bem de perto: broncas, mais pressão, castigos etc. Afinal, a classe média – representada pelos personagens da novela – paga caro as escolas de seus filhos e os pais querem, portanto, que eles tenham bom rendimento.
Eu sei que os professores dirão que essa atitude da parte da escola objetiva o maior comprometimento dos pais, que o envolvimento destes com a vida escolar dos filhos aumenta seu rendimento, que buscam conhecer melhor o contexto de vida de seus alunos etc. Sei que há inúmeras pesquisas que afirmam isso, assim como há outras que provam o oposto. Vivemos numa época de tanta produção de conhecimento que muitas pesquisas comprovam hipóteses contrárias.
A questão principal é que, tanto a atitude da escola quanto a dos pais frente a essas situações tão freqüentes não provocam benefício algum aos alunos que enfrentam problemas no espaço escolar. Ao contrário: costumam deixar a criançada mais indisposta ainda em relação aos estudos e às obrigações escolares.
Eu sei que esse tema é muito polêmico porque há uma idéia generalizada que defende essa posição. Mas, é preciso considerar outras possibilidades sempre, não é? Para ilustrar que o envolvimento com a vida escolar dos filhos é menos importante do que o empenho dos pais na educação das virtudes, da moral e dos princípios de vida que querem que os filhos tenham cito um outro exemplo dado pela tv no programa Globo Repórter.
Uma família do interior de um estado do Nordeste – não me lembro qual – deu um testemunho simplesmente maravilhoso. Os pais, ambos analfabetos, educaram 10 filhos e todos eles conseguiram se formar. Há, entre esses irmãos, uma solidariedade, uma colaboração e um respeito dignos de louvor. Os mais velhos, por exemplo, abdicaram de parte da juventude para ajudar os mais novos.
Se, de fato, o envolvimento dos pais é fundamental aos estudos dos filhos, como um casal de analfabetos conseguiria realizar a proeza de ter filhos doutores, inclusive? Fica aí a minha provocação de hoje para vocês.
Escrito por Rosely Sayão às 13h10

O potencial dos mais novos
Ontem estive em Campinas com o Júlio – professor Julio Groppa Aquino – para uma conversa em um Congresso de Pais a respeito de nosso último livro escrito juntos. Este, com o título “Família: Modos de Usar” foi nosso segundo livro escrito em parceria, ambos pela Papirus Editora. O título do primeiro é “Em Defesa da Escola”.
No livro em questão fazemos uma análise da família, do processo de transformação intensa que a assalta desde o início da década de 60, dos fenômenos que a rodeiam neste mundo contemporâneo e dos efeitos educativos sobre os mais novos. Mas, o que quero compartilhar com vocês a respeito desse encontro é o que ocorreu na abertura dele.
A Escola Comunitária de Campinas, que promoveu o congresso, oferece aulas de teatro aos alunos. Pois não é que a turma do teatro, formado pelo professor e um grupo de alunos adolescentes, leu o livro e, a partir da leitura, montou uma apresentação para ilustrar o tema?
Bem, eles criaram vários esquetes, a partir de situações da vida familiar que comentamos no livro, e o fio condutor para transformar essas encenações em uma narrativa foi a leitura de trechos da introdução do livro, que fizemos em forma de bula, intercalando os quadros.
Desde o lançamento desse livro, o Júlio e eu temos conversado com nossos leitores e ouvido a análise crítica que vários deles fazem a respeito de nossas análises. Devo dizer que muitos desses leitores apresentam grande resistência frente a alguns temas que abordamos porque discordam de nossa reflexão, já que ela é bem diferente das opiniões que eles já têm. Mas, o mais importante ao ler um livro não é concordar ou discordar das idéias apresentadas e sim aproximar-se delas para conhecê-las.
Esses jovens fizeram isso como poucos adultos o fizeram. Apreenderam as idéias que apresentamos, apropriaram-se delas e as transformaram. Isso é produzir conhecimento!
Vocês não imaginam a emoção que foi para nós, os autores, assistir a esse acontecimento. Ouvir nossas palavras ditas pelo outro é algo incrível porque elas adquirem um novo sentido. O humor e a ironia que quisemos imprimir à bula da família ganhou contornos de grande sofisticação na encenação desses alunos.
A emoção que experimentamos foi ainda maior porque são eles, os mais novos, o alvo do trabalho de quem se dedica à educação. Testemunhar o que eles são capazes de fazer quando acompanhados por um professor que assume seu papel com firmeza e autoridade e que, tendo seu conhecimento como fonte e como norte, orienta seus alunos com generosidade e com a confiança de que eles são dignos desse trabalho, é um momento muito especial. É isso que permite manter a esperança no futuro.
Os mais novos merecem nosso crédito, nosso respeito e nossa dedicação nessa árdua tarefa educativa. Será que temos honrado nosso ofício?
Escrito por Rosely Sayão às 09h07

"Eu confio em meu filho"
Não sei se vocês leram a respeito de uma tese de um aluno da USP que mostrou a invisibilidade das pessoas que atuam em trabalhos que não exigem qualificação, como balconistas, garis, atendentes, motoristas etc. Para quem não sabe, vou contar só um fato que o aluno utilizou em seu trabalho. Como aluno da faculdade, ele era regularmente cumprimentado por colegas, professores, funcionários. Um belo dia ele colocou o uniforme de gari e ninguém o cumprimentou, ou seja, ele passou a ser invisível. Creio ser um ato de cidadania reconhecer todos os que convivem no espaço público, não é? Converso sempre com as pessoas com as quais travo um relacionamento, mesmo que breve e passageiro. Cumprimento os faxineiros, o caixa do banco, a balconista e, se eles decidem conversar, participo ativamente do diálogo. Em geral, eles se espantam com meu costume. Quando agradeço o motorista do ônibus, por exemplo, vejo sempre um ar de perplexidade neles. Outro dia, numa dessas conversas rápidas com o caixa de uma grande livraria, observei que ele pedia uma série de documentos sempre que alguém pagava com cheques ou com cartão e, se a quantia fosse maior do que R$200, 00 ele ainda solicitava, por telefone, autorização de um gerente ou coisa parecida. Perguntei, então, se essas medidas eram tomadas por causa de problemas freqüentes que eles enfrentavam com pagamentos, e ele me contou fatos bem interessantes. Disse, entre outras coisas, que o maior problema era com crianças e jovens que tentavam pagar as contas das compras que faziam com o cartão de débito ou de crédito dos pais. Vejam vocês: alguns pais - e, segundo o que o rapaz me disse, não são poucos - pedem aos filhos para comprar algo, e dão o cartão e sua senha para que o filho possa efetuar o pagamento. O problema é que, frente a tantas tentações, o filho compra o que o pai pediu mais o que gostou e quis comprar para si. Sem autorização, é claro. Depois, sabem o que esses pais fazem? Vão à livraria reclamar do fato com os funcionários, em geral os caixas. Vivemos numa época em que virou moda essa história de os pais confiarem nos filhos. Há discursos de todos os tipos: “confio na educação que dou”, “meu filho aprendeu comigo a ser honesto” e outros semelhantes. Esse tipo de atitude só não contempla uma coisa das mais importantes: a de que é preciso confiar que o filho é criança ou adolescente e que, portanto, pode agir como tal. A impulsividade, a inconseqüência, a busca do prazer imediato, o egocentrismo, entre outras, são atitudes que devemos considerar como muito possíveis nos mais novos, mesmo que eles tenham a educação mais dedicada e primorosa possível.POr isso é que os mais novos precisam dos adultos até a maturidade. Esses casos que o simpático caixa da livraria me contou, em tom de desabafo, são mais um sinal de como temos tratado crianças e adolescentes como adultos em determinadas situações. Para falar bem a verdade, confiar nos filhos, em determinadas situações, é ignorar que eles são crianças ou adolescentes. É, portanto, jogar sobre eles responsabilidades que eles ainda não conseguem administrar. PS: Peço desculpas pela ausência no Momento Família de ontem. A gripe ainda não desistiu de mim...
Escrito por Rosely Sayão às 16h29

Pais sempre serão caretas e chatos
Estive em um encontro com pais e, a certa altura, uma jovem mãe que tem um filho de 11 anos deu um depoimento – que eu adorei – que serviu de contexto para a questão que ela queria colocar. O que ela contou foi que faz questão de ensinar ao filho o respeito pelos outros e pelas normas de convivência que tornam civilizado o relacionamento no espaço público. E ela não ensina isso apenas na teoria e nas palavras: ela dá ao filho pequenas responsabilidades que expressam os ensinamentos que quer que ele tenha.
Um exemplo que ela deu foi bem interessante. Sempre que ela vai ao supermercado o filho a acompanha e, depois de guardar as compras no carro, ela faz o filho levar de volta ao devido lugar o carrinho. E o garoto sempre reclama, não quer fazer, mas ela dá conta do seu papel e faz o menino levar. O argumento que o garoto usa para não cumprir sua responsabilidade é bem simples. Ele diz que ninguém faz isso, que todos deixam o carrinho no estacionamento, e que ele parece bobo quando faz o que a mãe manda. E ele tem razão, não é verdade?
Devo dizer que fico indignada – muitos de vocês devem ficar também – quando vou pegar o carro e encontro vários carrinhos de compras travando a garagem. O que custa colocar as coisas nos lugares em que foram pegas? Acontece que quem não considera o outro não acredita que precisa fazer isso já que só pensa em si mesmo, esse é o fato.
Mas a questão que essa mãe queria colocar foi mais interessante ainda. Ela queria saber como fazer o filho entender que comportar-se dessa maneira é necessário, e como agir para ele fazer o que é preciso sem cara feia, ou seja, de bom humor, e sem achar quer a mãe é chata, careta e ultrapassada, que é o que ele.
Tive de dizer a ela que o filho não irá entender o princípio do que ela ensina tão cedo e que, portanto, irá continuar a reagir desse modo. Mas isso não importa. O que importa mesmo é que ele a obedeça, ou seja, que ele se comporte como ela orienta. É assim, e mesmo de cara amarrada e de bico, que o filho aprende.
Um sinal do culto à juventude em nosso tempo é que os pais não gostam de serem considerados caretas e chatos. Isso é coisa de velho, e os adultos querem ser jovens hoje em dia. Entretanto, ser mãe e ser pai significa envelhecer, qualquer que seja a idade. Envelhecer em dois sentidos, principalmente: no sentido de amadurecer, e no sentido de se tornar guardião de algumas tradições sócio-culturais que garantem uma boa convivência pública. Por isso, todos os pais são, gostem ou não, caretas aos olhos dos filhos.
Escrito por Rosely Sayão às 12h18

Os pais de volta às aulas
O reinício do período letivo traz de volta questões delicadas sobre a relação dos pais com os filhos, com a vida escolar e com a escola -tema que me é bastante caro. Recentemente, ao abordar a pressão por rendimento acadêmico sofrida pelos filhos, um leitor manifestou sua confusão. Ele disse que, após ler as reflexões que fiz, ficou ainda mais confuso porque já experimentara deixar os estudos como uma responsabilidade dos filhos, mas que tal atitude não dera certo e que, portanto, ele não sabe como agir.
Precisamos reconhecer que os pais estão submetidos a múltiplas pressões -mais ainda no que diz respeito à vida escolar dos filhos. Como os pais são mais avaliados pelo comportamento dos filhos do que pelo seu próprio, a performance escolar transformou-se em item importante de avaliação.
Vejam só: quando um aluno não vai bem na escola, os pais são responsabilizados por isso, direta ou indiretamente. E cada escola tem os seus recursos para expressar esse posicionamento. Algumas utilizam a agenda para enviar recados aos pais e solicitar providências. Outras preferem usar um recurso que provoca grande apreensão nos pais: convocar reunião. Há, também, a possibilidade de encaminhar o aluno a atendimentos especializados.
De qualquer maneira, o que fica oculto é que, de algum modo, os pais estão em julgamento -já que é nas mãos deles que se coloca uma possível solução. As hipóteses que fazem sucesso nas escolas e que sustentam essa ótica são várias: falta de envolvimento com a vida escolar, ausência de autoridade, pouca disponibilidade para a função educativa, superproteção etc. O que não se considera é que, por mais que os pais se dediquem à tarefa educativa, seus filhos podem apresentar baixo rendimento em alguns períodos e atitudes de descaso com as regras de convivência. Não é necessariamente na escola e hoje que se podem constatar os efeitos de uma dedicada educação familiar.
Alguns leitores que escrevem relatando as dificuldades com os filhos contam que eles preferem futebol, internet e jogos aos estudos. Não é de se estranhar essas preferências, é? Mas, como os pais estão pressionados pelas escolas e pela sociedade com a idéia de que o filho terá um futuro melhor se apresentar êxito nos estudos, acreditam que um baixo rendimento coloca em xeque sua atuação como pais. E há uma conseqüência que é agravante nessa história toda: os pais têm tratado a vida escolar como se fosse uma questão única na relação com os filhos e na educação que praticam. Não é. É apenas uma pequena parte desse universo complexo e que, por isso mesmo, não precisa ser tratada com destaque.
Já faz tempo que testemunhamos a aproximação entre as escolas e os pais. As razões para essa relação são inúmeras, mas quero destacar o reconhecimento de que ambas as instituições se defrontam com sérios limites na prática educativa. O problema é que a escola reconhece os limites da família e não os seus, e os pais apontam os limites da escola e não reconhecem os seus. Nesse jogo de empurra, sabemos de antemão quem sai perdendo.
Se seu filho vai mal nos estudos, não quer fazer a lição, reclama da escola, resiste em abdicar de suas diversões para assumir a responsabilidade escolar, lembre-se: isso é normal. Investir na educação para a autonomia possível, insistir na relação entre os direitos e os deveres e encorajar o filho para que enfrente com bravura suas dificuldades, por exemplo, são atitudes que podem originar melhores resultados. Mas esses resultados podem não aparecer a curto prazo, é bom lembrar, já que a educação é um longo processo.
*Texto publicado originalmente na Folha Equilíbrio
Escrito por Rosely Sayão às 23h01

Meu filho só come porcarias!
É impressionante o volume de correspondência que recebo de pais - mães, principalmente – que enfrentam dificuldades com a alimentação dos filhos. A maioria reclama que os filhos comem mal, que não aceitam alimentos a não ser os que já experimentaram e gostaram, que durante o dia todo beliscam as guloseimas e, na hora das refeições principais, não querem saber de comer. E a educação para uma alimentação adequada é fundamental principalmente hoje, em que o índice de distúrbios alimentares entre crianças e jovens cresce assustadoramente. Não sei se vocês sabem, mas a aceitação da variedade dos sabores dos alimentos começa com a amamentação. O sabor do leite materno varia bastante: os alimentos que a mãe ingere alteram significativamente o gosto do leite e, assim, o bebê já se acostuma a diferentes sabores. Mas isso não quer dizer que os bebês alimentados com mamadeira não possam ser educados. As primeiras refeições do bebê dão trabalho aos pais. Ora ele reclama da demora em receber a segunda colherada, ora recusa e cospe etc. Mas, esse momento é dos mais importantes. Optar pelas comidas industriais com regularidade é uma pena: a textura, o sabor e o cheiro da comida feita em casa são muito mais propícios para esse início da educação alimentar. E, se pensarmos bem, essa tarefa dá tão pouco trabalho, não é verdade? Quando as crianças ganham independência, elas passam – é claro! – a buscar comidinhas que gostam. Ora, se os pais deixam disponíveis as guloseimas - em profusão, por sinal - por que é que elas resistiriam à tamanha tentação? E, quando se trata de oferecer novos alimentos, os pais desistem com muita facilidade frente à resistência do filho. É preciso insistir. Muitas vezes. Uma, duas, oito, 15 vezes! E com firmeza, mas com carinho. Por sinal, na educação são imprescindíveis três ingredientes: a paciência, a persistência e a insistência. Não se deve obrigar a criança a comer quando ela não tem fome. Mas também, não se pode agir de modo a ela nunca ter fome no horário das refeições porque, ou já se satisfez com outros alimentos, ou porque sabe que, caso não almoce ou jante, os pais darão o que ela gosta com medo que ela morra de fome, não é verdade?
Escrito por Rosely Sayão às 14h10
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