Os pais de volta às aulas

O reinício do período letivo traz de volta questões delicadas sobre a relação dos pais com os filhos, com a vida escolar e com a escola -tema que me é bastante caro. Recentemente, ao abordar a pressão por rendimento acadêmico sofrida pelos filhos, um leitor manifestou sua confusão. Ele disse que, após ler as reflexões que fiz, ficou ainda mais confuso porque já experimentara deixar os estudos como uma responsabilidade dos filhos, mas que tal atitude não dera certo e que, portanto, ele não sabe como agir.

Precisamos reconhecer que os pais estão submetidos a múltiplas pressões -mais ainda no que diz respeito à vida escolar dos filhos. Como os pais são mais avaliados pelo comportamento dos filhos do que pelo seu próprio, a performance escolar transformou-se em item importante de avaliação.

Vejam só: quando um aluno não vai bem na escola, os pais são responsabilizados por isso, direta ou indiretamente. E cada escola tem os seus recursos para expressar esse posicionamento. Algumas utilizam a agenda para enviar recados aos pais e solicitar providências. Outras preferem usar um recurso que provoca grande apreensão nos pais: convocar reunião. Há, também, a possibilidade de encaminhar o aluno a atendimentos especializados.

De qualquer maneira, o que fica oculto é que, de algum modo, os pais estão em julgamento -já que é nas mãos deles que se coloca uma possível solução. As hipóteses que fazem sucesso nas escolas e que sustentam essa ótica são várias: falta de envolvimento com a vida escolar, ausência de autoridade, pouca disponibilidade para a função educativa, superproteção etc. O que não se considera é que, por mais que os pais se dediquem à tarefa educativa, seus filhos podem apresentar baixo rendimento em alguns períodos e atitudes de descaso com as regras de convivência. Não é necessariamente na escola e hoje que se podem constatar os efeitos de uma dedicada educação familiar.

Alguns leitores que escrevem relatando as dificuldades com os filhos contam que eles preferem futebol, internet e jogos aos estudos. Não é de se estranhar essas preferências, é? Mas, como os pais estão pressionados pelas escolas e pela sociedade com a idéia de que o filho terá um futuro melhor se apresentar êxito nos estudos, acreditam que um baixo rendimento coloca em xeque sua atuação como pais. E há uma conseqüência que é agravante nessa história toda: os pais têm tratado a vida escolar como se fosse uma questão única na relação com os filhos e na educação que praticam. Não é. É apenas uma pequena parte desse universo complexo e que, por isso mesmo, não precisa ser tratada com destaque.

Já faz tempo que testemunhamos a aproximação entre as escolas e os pais. As razões para essa relação são inúmeras, mas quero destacar o reconhecimento de que ambas as instituições se defrontam com sérios limites na prática educativa. O problema é que a escola reconhece os limites da família e não os seus, e os pais apontam os limites da escola e não reconhecem os seus. Nesse jogo de empurra, sabemos de antemão quem sai perdendo.

Se seu filho vai mal nos estudos, não quer fazer a lição, reclama da escola, resiste em abdicar de suas diversões para assumir a responsabilidade escolar, lembre-se: isso é normal. Investir na educação para a autonomia possível, insistir na relação entre os direitos e os deveres e encorajar o filho para que enfrente com bravura suas dificuldades, por exemplo, são atitudes que podem originar melhores resultados. Mas esses resultados podem não aparecer a curto prazo, é bom lembrar, já que a educação é um longo processo.

*Texto publicado originalmente na Folha Equilíbrio