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A experiência da Escola da Ponte – Parte 3
Uma leitora do blog perguntou se considero a Escola da Ponte a escola ideal. Não, não a considero ideal, nem perfeita. Como qualquer outra escola enfrenta dificuldades, comete equívocos, se atrapalha e às vezes perde de vista seu projeto. O que me entusiasmou no projeto da Ponte foi a maneira radicalmente diferente de enfrentar os desafios que todas as escolas enfrentam.
O ponto fundamental do projeto é a equipe de professores. Eles trabalham em união, de forma solidária e co-responsável, expressam claramente suas discordâncias e conflitos em busca de negociação, dialogam sempre, criticam-se uns aos outros, se apóiam. A equipe toda se envolve com o trabalho e, com empenho e dedicação, tentam levar adiante o projeto. Trabalham com coleguismo verdadeiramente. Quando a equipe fraqueja, o projeto sofre.
Na segunda visita que fiz à escola, a presença de vários professores novos e a existência de rupturas entre membros da equipe tornaram a escola bem diferente. Já não havia o silêncio, a disciplina e a concentração necessária dos alunos porque os professores não exigiam tanto deles. Isso deixou ainda mais evidente o quanto é decisivo a atuação dos professores e quão fundamental é a adesão de todos eles ao projeto da escola.
Outro ponto que me conquistou foi o modo como a escola encara os problemas que enfrenta. Em vez de considerar que há alunos com problemas de aprendizagem, por exemplo, a escola assume que não sabe ensinar para qualquer tipo de aluno e busca novas maneiras de abordar a questão.
Finalmente, o projeto da Ponte soube inovar sem pressa e sem grandes anseios de resultados imediatos. É preciso lembrar que o projeto começou a ser construído mais ou menos há trinta anos, e continua em construção. Educação é um processo longo, não é?
É preciso reconhecer a coragem e a ousadia dos professores que participaram e ainda participam dessa empreitada. Eles precisaram encarar, em primeiro lugar, seus próprios conceitos e preconceitos e fazer uma rigorosa crítica a sua própria atuação para mudar aquilo que está tão solidificado.
A grande lição da Ponte é que qualquer escola pode ser diferente e praticar um bom ensino a seus alunos. Para tanto basta partir do princípio que todo tipo de aluno pode ser ensinado, que os professores da escola formem uma equipe, que construam seu próprio projeto – por isso o professor Pacheco fala que a Ponte não pode ter clones – e respondam por ele.
Pode parecer que na realidade brasileira isso não se aplica. Discordo. O projeto da Ponte foi construído considerando-se a realidade deles. Aqui, deve ser considerada a nossa realidade. Acompanhei de perto a instalação de um projeto inspirado (inspirado não é copiado) lá em uma escola pública aqui em São Paulo, com cerca de mil alunos. Professores que, inicialmente, estavam reticentes quanto às mudanças, no trajeto se entusiasmaram porque testemunharam os efeitos delas. Outros não aderiram ao projeto porque dizem, entre outras razões, que nossa realidade é diferente. Esse é o maior empecilho ao desenvolvimento de qualquer projeto.
Sim, nossa realidade é bem diferente. Então, uma pergunta: por que é que nos conformamos com esse modelo escolar que conhecemos e que não foi construído para a nossa realidade?
PS: Ainda há muito que falar a respeito dessa experiência, mas vou dar uma pausa no assunto para contemplar outros. Alguns leitores que conhecem a escola querem fazer seus comentários. Podem enviar que eu os publico, ok?
Escrito por Rosely Sayão às 16h06

A experiência da Escola da Ponte – Parte 2
Há mais ou menos 30 anos, a Escola da Ponte era uma escola como outra qualquer que enfrentava problemas que conhecemos bem: alta rotatividade de professores, alunos desinteressados e com problemas de aprendizagem, alto índice de evasão escolar, baixo rendimento nas avaliações, alto índice de faltas de professores etc. Além disso, o prédio em que funcionava a escola não apresentava condições mínimas para receber os alunos e seus professores. Os alunos não tinham banheiro fechado, por exemplo.
O professor Pacheco, que dava aulas nessa escola, resolveu virar a mesa: passou a contatar os pais de seus alunos em busca de colaboração, a conversar com professores em busca de união e, pouco a pouco, nasceu o projeto que hoje lá é praticado. Conseguiu formar uma pequena equipe de professores e um pequeno grupo de pais que, comprometidos com a causa da educação, passaram a construir uma nova concepção de escola. Mas cabe ressaltar que pais e professores não confundem nunca o papel de cada um.
É preciso dizer que esse processo ocorreu em meio a muitas dificuldades, inclusive legais, porque a legislação portuguesa não dá autonomia alguma às unidades escolares, ao contrário da nossa, a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional).
Os professores que passaram a formar a equipe construtora do projeto mudaram radicalmente a visão da educação escolar. A mudança mais importante que o projeto promoveu foi, sem dúvida, a ruptura com a organização escolar em classes seriadas. Essa medida provocou grandes mudanças: nenhum professor é responsável, sozinho, por uma turma, já que elas não existem. Toda a equipe docente é responsável, indistintamente, pelo desenvolvimento e acompanhamento do coletivo dos alunos.
Todo o conteúdo a ser cumprido, de todas as disciplinas, foi transformado em objetivos a serem alcançados com pesquisa orientada e exercícios. Dessa maneira, os professores não precisam dar aulas expositivas, a não ser quando um grupo de alunos solicita ajuda quando enfrenta dificuldades. Do mesmo modo, as avaliações ocorrem à medida que o aluno dá conta de seus objetivos: para passar adiante, ele precisa mostrar que aprendeu o que deveria. Vejam que isso permite que cada aluno se desenvolva segundo seu ritmo. E, na verdade, esse é o verdadeiro sentido da progressão continuada.
Há muitos dispositivos que dão suporte ao projeto da Escola da Ponte, e eles podem variar a cada ano letivo. Cito alguns exemplos: reuniões semanais de grupos de alunos com seu professor tutor, assembléia semanal de alunos, reunião semanal de professores, plano de trabalho dos alunos, grupos de responsabilidade, etc. Ainda voltarei a comentar melhor alguns dispositivos.
Quero falar ainda da definição, clara e transparente, do espaço escolar como público. É isso que permite que os alunos iniciem a travessia do percurso da vida em família à vida em sociedade. Tudo – eu disse tudo – o que acontece no cotidiano escolar é levado ao conhecimento de todos, que são chamados a se responsabilizar por tudo. O espaço é de todos, realmente: lá não há salas com portas fechadas. E é a atuação firme dos professores que faz com que o registro pessoal seja respeitado sem que o individual seja priorizado.
Contar a minha visão a respeito desse projeto é uma tarefa mais árdua do que imaginei. Por isso, terei que voltar várias vezes ao tema e, também, contar com a colaboração de vocês com pedidos de esclarecimentos, com discussões e questionamentos, ok?
Deixo o endereço do site oficial da escola: www.eb1-ponte-n1.rcts.pt
Escrito por Rosely Sayão às 23h57

A experiência da Escola da Ponte – Parte 1
Muitos professores, em seus comentários, afirmam que eu não conheço a realidade escolar. Por que será que eles pensam assim? Será que é porque eu não aceito o modo de funcionamento atual e sei que é possível resolver a maior parte desses problemas basicamente assumindo uma outra posição ética e política?
Hoje vou começar a contar uma experiência escolar significativa que ocorreu em uma escola em Portugal e que tem inspirado algumas escolas daqui do Brasil – públicas, inclusive – a mudarem radicalmente seu trabalho. Trata-se da Escola da Ponte, uma escola pública portuguesa que fica em Vila das Aves, conselho de Santo Tirso, na cidade do Porto.
Quando estive lá pela primeira vez estava quase desistindo de trabalhar com educação. Na verdade, conhecer essa escola, para mim, era uma despedida do campo educacional. Estava muito desiludida com os rumos da educação, por isso cheguei a considerar uma mudança de rumo profissional. Após conhecer a escola e sua experiência, voltei atrás em minha decisão. Afinal, se é possível isso ocorrer em uma escola, pode acontecer em qualquer uma.
Eu conhecia pouca coisa a respeito da escola. Sabia apenas que era uma escola que desenvolvera um projeto inovador que lhe deu visibilidade internacional nos meios educacionais. Mas, do projeto em si, eu quase nada sabia. Havia lido um livro escrito pelo Rubem Alves a respeito da escola, mas confesso que não havia apreciado.
Bom, nessa minha primeira visita fui com um grupo de educadores e, assim que chegamos, antes mesmo de entrar na escola, me perguntei o que eu estava fazendo lá. A aparência da escola me deixou desiludida. É igual a uma escola pública daqui: um equipamento feio, mal cuidado, que em nada indica que esconde uma riqueza educacional escolar incrível em seu ambiente interno.
Assim que entramos, estranhei o silêncio. Cerca de 200 alunos lá dentro – é uma escola pequena para o padrão de nosso país, mas não para o deles – trabalhavam em pequenos grupos falando baixo, e totalmente concentrados em suas tarefas. O então coordenador da escola, professor José Pacheco, nos recebeu, pediu que nos dividíssemos em pequenos grupos e indicou um aluno para cada grupo para que nos apresentasse a escola. Na época, a escola trabalhava apenas com o ciclo 1, o que para nós equivale até a quarta série do ensino fundamental.
Pensam que os alunos nos apresentaram o ambiente físico? Que nada. Eles explicaram o projeto pedagógico lá praticado, e com uma clareza e compreensão de dar inveja a muito professor. E tratava-se de alunos com idade em torno dos 9, 10 anos.
Bem, hoje vou dar, resumidamente, as propostas gerais do projeto lá praticado: gestão democrática da escola em todos os níveis (professores, alunos e pais); busca de autonomia do aluno em sua relação com o conhecimento e com seu processo de desenvolvimento; o progresso pessoal dos alunos é sempre considerado no âmbito coletivo; todo tipo de aluno é incluído no processo escolar. O principal, entretanto, é a relação do professor com seu ofício.
Lá, os professores exercem sua autoridade com o objetivo de introduzir e manter os alunos numa convivência social justa e responsável pelo espaço público. É possível observar com clareza a forte e decisiva atuação dos professores que não têm constrangimento em exercer seu papel quando é necessário conter excessos dos alunos, cobrar as responsabilidades assumidas, exigir a concentração e o esforço necessários ao desenvolvimento nos estudos. Lá, o aluno tem liberdade para escolher o que e quando estudar; entretanto, não pode escolher não estudar. E são os professores que manejam o processo para que isso ocorra, mesmo e inclusive quando há dificuldades e obstáculos.
Continuarei o relato na próxima vez, ok? Façam as perguntas que gostariam para conhecer mais a respeito dessa experiência porque, assim, vocês norteiam minha narrativa.
PS: Conheço bem de perto a realidade escolar brasileira, privada e pública.
Escrito por Rosely Sayão às 09h49

De quem é a responsabilidade?
Vocês já devem ter percebido que, toda vez que escrevo um texto em que coloco em causa a educação escolar, muitos professores reclamam e dizem que o maior problema é o baixo salário. Do mesmo modo, quando é a educação familiar que está em jogo por causa do comportamento dos filhos, muitos pais dizem que a televisão é a grande culpada. Até o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente – se torna um grande vilão quando falamos de educação. Quero aproveitar esses comentários para falar um pouco desse nosso tempo e da maneira como temos vivido.
Hoje, é bem mais fácil achar um culpado ou responsável para tudo, do que nós mesmos assumirmos nossa parcela de responsabilidade pelo que acontece na educação. Aliás, isso ocorre em todas as áreas. A manchete da Folha de S.Paulo, hoje, é a seguinte: “Lula culpa sistema pela corrupção”. Todos que leram as notícias a respeito do julgamento de Suzane e dos irmãos Cravinhos tomaram conhecimento da tese utilizada pelo advogado de defesa de Suzane: afirmar que ela agiu por submissão ao ex-namorado, que só por isso participara do plano criminoso. Ou seja: a idéia era a de desresponsabilizá-la pelo ato cometido.
“Se há algum problema, eu não tenho quase nada a ver com isso, mas sei quem tem”; essa é a tese que vale neste nosso tempo. Essa tendência aponta para uma grande impotência dos adultos e, paralelamente, a um estado de infantilização que temos assumido. E isso não pode gerar conseqüências benéficas aos mais novos e, portanto, ao futuro.
Se alguém briga, foi o outro que provocou; se alguém fica bêbado, é da bebida a responsabilidade; se alguém fica viciado em jogo e aposta tudo o que tem nisso, é melhor fechar os bingos; quando alguém fica doente e credita a doença ao tabagismo, é a indústria do fumo que precisa ser processada e arcar com o ônus do tratamento. Esses são apenas alguns exemplos que apontam para nossa deserção da condição de adultos responsáveis pelas escolhas que fazem e pelo que acontece na vida em geral.
Especificamente na educação, não há como ignorar que os professores são mal remunerados. Entretanto, não podemos, do mesmo modo, fazer de conta que um bom salário resolveria os problemas que as escolas enfrentam. Prova disso é que há problemas inclusive nas escolas que atendem a classe média alta, e nelas os professores recebem um bom salário. Do mesmo modo, claro que a televisão exerce grande influência em crianças e jovens. Mas não são os pais que enchem a casa de aparelhos de tv e que fazem o maior silêncio e que não opõem resistência em relação aos programas que o filho vê?
Vivemos num mundo bem complexo e a cultura do individualismo tem ação decisiva nesse estilo de viver em que o importante é livrar a própria cara dos problemas e das responsabilidades. Mas, será que está claro que essa atitude que tomamos nos torna cada vez mais infantilizados, submetidos, impotentes e menos livres? É assim que queremos ser e viver?
Escrito por Rosely Sayão às 11h51

Qualidade de vida
Quase todo mundo, hoje, se preocupa com a qualidade de vida. Prática de exercícios saudáveis, alimentação equilibrada e, de preferência, sem aditivos químicos, horário para o lazer, e muito mais. Mas, se há um movimento geral de investimento nesse sentido, parece não haver o mesmo na área das relações humanas. E é impossível pensar em qualidade de vida sem considerar a interação com os outros.
Pessoas que moram num mesmo prédio ou na mesma rua, por exemplo, são capazes de usar o mesmo elevador ou calçada anos seguidos sem ao menos se cumprimentar, mas quando se trata de reclamar de algo ou de alguém estão sempre a postos. Tem quem ache que essa indiferença seja uma coisa natural já que o fato de duas pessoas serem vizinhas não significa que tenham algo em comum. Vá lá; mesmo assim, é bom lembrar que só o fato de morar no mesmo prédio, rua ou bairro, já significa ter muitas questões a resolver em colaboração. No mínimo, um “bom dia, como vai?” mostraria reconhecimento e disponibilidade para tanto.
E a convivência profissional? Colegas de trabalho e de escola chegam e saem do mesmo local como se fossem quase invisíveis: é uma falta de interação entre eles que chega a ser surpreendente, e coleguismo é uma palavra em extinção. Fazer um trabalho em grupo significa, em geral, dividir um todo em partes e distribuí-las entre os membros do grupo – que grupo? – para sua execução. E ai daquele que, por um motivo ou outro, prejudica o grupo – que grupo? – quando não cumpre sua parte ou não a entrega no prazo determinado, por exemplo.
Que qualidade de vida é possível ter vivendo esses tipos de relações? O estilo de vida que adotamos talvez contribua muito para essa tendência a se esquivar do outro. Afinal, assumimos muitos compromissos com nossa própria vida: tem a sobrevivência, a saúde, a aparência, o conforto, a segurança, a diversão e outros itens que exigem nosso esforço e dedicação. E relacionar-se, mesmo que sem muita proximidade e intimidade, supõe um mínimo de compromisso. E já temos tantos para nos responsabilizar!
Além disso, relacionar-se significa, também, comunicar-se, dialogar. E isso só é possível reconhecendo as diferenças. E é difícil conviver com quem tem opiniões tão diferentes sobre uma mesma situação, com quem não compartilha das mesmas idéias a respeito de determinadas coisas, não é verdade? Por isso, talvez pareça mais confortável e seguro não correr os riscos que a proximidade com os outros possa trazer.
Mas há uma ambigüidade nessa história. Nada é mais confortante e oferece mais qualidade de vida do que a sensação de pertencer a um grupo. Mas, que grupo?
Escrito por Rosely Sayão às 09h57

A busca pela imagem perfeita
Li uma reportagem na revista "Claudia" sobre adolescentes que se submetem a cirurgia plástica. Os números são impressionantes: das cerca de 650 mil cirurgias realizadas no ano passado no país, 15% foram em adolescentes entre 14 e 18 anos. E não são as meninas apenas que recorrem a tal recurso; os meninos, pouco a pouco, já aderem ao procedimento. Ter nariz perfeito, seios volumosos e corpo sem excesso de gordura é o anseio da moçada. Eles querem ver no espelho uma imagem perfeita. Querem ter um corpo que vista bem uma roupa, não procuram uma roupa para o corpo que têm.
Tal comportamento é resultado de múltiplas pressões. A sociedade de consumo apresenta a esses jovens a idéia de que quem não tem determinado corpo não consegue ser feliz. A sociedade da aparência e do espetáculo os informa que, para ser notado, é preciso apresentar uma beleza padrão. O depoimento de uma garota na reportagem citada revela bem essa questão. Diz ela: "Quem não tem peitão não é ninguém".
Além disso, vivemos também na era do imediatismo, da busca de soluções rápidas com um mínimo de esforço. No lugar do empenho pessoal e do compromisso, colocamos o dinheiro. Preferimos comprar o bem-estar e uma auto-imagem satisfatória a empenhar energia para melhorar o que temos. E é nesse clima que o abuso de drogas, legais e ilegais, tem crescido entre os jovens e se apresentado cada vez mais cedo.
À primeira vista, pode parecer que nada há em comum entre os dois temas, mas um olhar um pouco mais atento aponta para uma estreita ligação entre eles. Vejamos: os jovens não têm encontrado grandes obstáculos quando se sentem descontentes com o corpo e a aparência e decidem que podem resolver isso rapidamente, com uma intervenção cirúrgica. Muitos pais até incentivam seus filhos e, inclusive, arcam com o ônus financeiro. É que os pais acreditam que devem promover a felicidade dos filhos, e se o filho acredita que a felicidade é ter esse corpo idealizado, por que não colaborar?
As lições que ensinamos aos jovens ao contribuir, mesmo a contragosto, para que ajam dessa maneira não são, entretanto, as que gostaríamos que eles aprendessem. Ensinamos, primeiramente, que a felicidade é um bem-estar instantâneo localizado, e não um estado fruto de uma série de eventos somados na vida. Ensinamos, também, que sempre é possível escapar de situações que provocam mal-estares, dissabores, frustrações, sofrimentos ou mesmo pequenos incômodos.
As substâncias químicas fazem parte desse arsenal que promete soluções rápidas e eficazes, e os adultos as usam com bastante freqüência. Há comprimidos para tudo: diminuir a fome, provocar e manter a ereção, suprimir a tristeza e produzir alegria, controlar a ansiedade, aumentar a energia etc.
Os adolescentes, que vivem de desconforto em desconforto nessa etapa transitória da vida, descobrem rapidamente a oferta generosa de substâncias que prometem aliviar esses mal-estares experimentados na busca de sua identidade adulta. Afirma-se que essas drogas promovem a tal felicidade imposta a todos nós, mesmo que seja efêmera e com possíveis efeitos futuros pouco saudáveis. Mas o futuro não importa tanto quanto o presente, não é? As cirurgias plásticas em jovens com o corpo em desenvolvimento também podem provocar efeitos indesejados no futuro, mas isso não é considerado pelos jovens nem por seus pais.
O mundo atual é de uma complexidade incrível, e um ato educativo pode ter repercussões muito mais amplas do que as desejadas. Por isso, para educar é preciso muito mais pensar do que agir.
*Texto publicado originalmente na Folha Equilíbrio
Escrito por Rosely Sayão às 10h23

Escola não é família
A Clara fez um comentário bem interessante a respeito do costume de se chamar os profissionais da educação de tia e de tio, e quem se interessa pelo tema deve, sim, ler o texto que ela indicou, de Paulo Freire. Como esse costume é bem mais complexo do que parece, quero me deter um pouco nessa questão.
A palavra tia(o) diz respeito a uma relação de parentesco. Faz parte do universo familiar, do mundo privado, portanto. E, como sabemos, os laços que unem os integrantes da família são afetivos. É pelo afeto que a criança se deixa educar por seus pais.
Já a palavra professor(a) diz respeito a uma relação profissional, já que ser professor é exercer uma profissão. Qualquer trabalho profissional realiza-se no âmbito das relações impessoais, ou seja, não se referem a determinadas pessoas em particular, e ocorrem sempre no mundo público. E, claro, as relações profissionais não são norteadas pelos afetos e sim por metodologias e teorias.
Foi a partir da década de 60 que a educação, tanto familiar quanto profissional, passou a sofrer grandes mudanças, ancoradas tanto em pressões sociais quanto em anseios teóricos e metodológicos. Começa a surgir, em meio a tantas mudanças, um quadro bem curioso: a aspiração de que as crianças fossem acolhidas afetivamente nas escolas, e chamar a professora de tia vem dentro desse pacote. As famílias começam a desejar que a escola seja uma segunda família para seus filhos, e as escolas assumem essa tarefa. Ainda hoje, há escolas que se orgulham desse fato e que até usam essa frase como slogan.
Um grande problema ocorre com essa situação. Como a escola é justamente a instituição que deve fazer a transição, para seus alunos, da vida privada – famíliar – para o mundo público, quando ela assume ser “uma grande família” deixa de realizar uma de suas funções mais importante.
Na família as crianças aprendem a conviver com pessoas que têm relações afetivas entre si, que apresentam mais semelhanças do que diferenças, que têm em comum uma série de coisas. O círculo de amigos da família obedece a essa lógica também. O mundo público não é assim. Nele, temos de conviver com pessoas muito diferentes de nós, pelas quais não nutrimos afeto algum e com as quais nem sempre concordamos. E, mesmo assim, temos de respeitá-las e ter com elas uma relação civilizada, não é?
É na escola que as crianças precisam aprender isso. E, se as professoras se transformam em tia e os colegas em amigos, essa possibilidade fica prejudicada. E vejam que não se trata, apenas, de mudar a forma de tratamento. Conheço escolas em que as professoras são chamadas pelo nome, mas continuam agindo como se fossem “tias” de seus alunos.
Fica para uma próxima conversa essa história de identificar colega como amigo.
Escrito por Rosely Sayão às 10h56

A duração do ensino fundamental
Muitos pais que têm filhos na educação infantil estão confusos com a nova lei que determina em nove anos a duração do ensino fundamental. Na verdade, as escolas também estão confusas. As orientações recebidas são diferentes, e deve levar um tempo até que a situação se normalize.
Alguns pais acreditam, entretanto, que essa medida não é benéfica. Se pensarmos na decisão como política pública, ela é, sim, muito boa. É que o estado só tem a obrigação de oferecer vagas para crianças a partir do ensino fundamental. Assim, muitas crianças passavam a freqüentar escola pela primeira vez na primeira série do ensino fundamental enquanto outras, vindas da pré-escola, já chegavam alfabetizadas, ou quase.
Para as escolas particulares, as mudanças são pequenas e muito mais de caráter administrativo e legal do que educativo. O processo de alfabetização já começa, há tempos, a partir dos cinco anos, no máximo, então é apenas a nomenclatura da série que sofrerá mudanças. O que era pré passa a ser considerado primeiro ano, mas pouca coisa mudará na maneira de conduzir os trabalhos nessa série. Como a maioria dos filhos da classe média já freqüentam escolas desde os primeiros anos de vida, a medida não provoca impacto.
O meu maior receio é que as escolas privadas adiantem ainda mais o processo de escolarização das crianças, que já está começando cedo demais. Os pais acham lindo o filho de dois, três anos ser ensinado a reconhecer e escrever as letras do seu nome, a fazer contas etc. Pode ser bonito, mas não é produtivo nem respeitoso com a criança. Nessa idade elas devem brincar. Quem entra em uma escola de educação infantil e vê crianças de três anos sentadas prestando atenção no que a professora tenta ensinar, sabe que isso não tem muito a ver com o tipo de aprendizado nessa idade.
As crianças pequenas gostam de brincar de escolinha - de brincar! - e os pais não devem levar isso a sério, ou seja, não devem cobrar aquisição de conhecimento sistematizado do filho nem que a escola ensine seus alunos do modo que faz no ensino fundamental. Quando a criança brinca para valer quando pequena, naturalmente fica curiosa com as letras e, na idade certa, mostra vontade de aprender. Quando é privada de brincar para aprender antes dos seis, cinco anos, tem mais chances de se cansar rapidamente dos estudos escolares justamente na hora em que deve ser exigida a estudar.
Vamos com calma, que a primeira infância já é muito curta: dura apenas cinco anos, não é? Então, vamos deixar as crianças curtirem esse tempo só para brincar. Isso é, de fato, o mais importante nessa fase da vida.
Escrito por Rosely Sayão às 13h19
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