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Mundo infantil de fantasias

As manifestações de amor que os pais dirigem aos filhos têm sido cada vez mais vigorosas. Expressões como "eu amo você" são tão usadas que chegam a se tornar banais, além de oferecerem a possibilidade de deixar a criança sufocada com tanto carinho. Outro dia, assisti a uma cena que pode ser usada como exemplo. Ao buscar o filho de uns cinco anos na escola, a mãe o abraçou e disse: "Eu te amo tanto!". A resposta do garoto foi imediata e mostrou o quando ele deveria ouvir a mãe dizer a mesma coisa: "Eu já sei, mãe. Não precisa falar de novo".

Claro que é importante que a criança sinta o amor dos pais. Mas carinho se expressa também de outros modos que não apenas pelo contato físico ou por meio de expressões diretas. É principalmente a partir do tipo de interação que os pais têm com o filho que ele percebe o carinho e a importância dada à sua presença na família. Mas hoje tem sido muito difícil a criança ser reconhecida como tal, inclusive pelos pais.

Vivemos na era da tecnologia, e a idéia de qualidade de vida tem sido construída a partir de orientações científicas. Isso tem contribuído para que a fantasia típica da criança seja banida do nosso mundo; impera a lógica do adulto, inclusive nas relações com as crianças. Acontece que acolher a criança com suas fantasias e reconhecer que essa é sua maneira de enfrentar as angústias talvez sejam os atos mais carinhosos que podemos demonstrar. De nada adianta repetir "eu te amo" e tratar os filhos pequenos como se eles vivessem e entendessem a vida como adultos.

Um bom exemplo de como as fantasias das crianças são desconsideradas é o modo como as perguntas que elas fazem são respondidas. Tomemos como exemplo as questões sobre a origem da vida e a sexualidade.Informações da biologia, detalhes da concepção, do nascimento e do relacionamento sexual entre a mãe e o pai são, muitas vezes, transmitidos à criança em nome do direito que ela tem de acesso ao conhecimento. Mas isso nada mais é do que ignorar solenemente o mundo mágico da fantasia no qual a criança vive. Vamos admitir: isso não é carinhoso.

Uma garotinha de pouco mais de três anos explicou à sua professora como ela foi gerada. A história é maravilhosa."Quando eu era um anjo e voava lá no céu, um dia eu vi minha mãe no avião. Aí, eu caí no prato dela e ela me comeu. Foi assim que eu fui parar na barriga dela e, depois, eu nasci." Essa é a maneira de a criança entender a vida: pela fantasia, que ela ainda não diferencia da realidade. Aliás, a criança leva bastante a sério suas fantasias, e, quando o adulto não faz o mesmo, ela se sente desvalorizada. Essa tendência de imprimir ao universo infantil a lógica adulta se manifesta também nessa onda politicamente correta que tenta modificar canções e contos infantis.

Os adultos subtraem ou substituem o que consideram violento. Ora, isso é negar o acesso que permite à criança identificar algumas emoções que sente, integrá-las ao mundo e encontrar modos de vivenciá-las simbolicamente e expressá-las. Assim é com a idéia de morte, com atos violentos etc. Muitos pais censuram a escola quando os professores contam histórias para as crianças em que há morte, madrastas más, lobos que comem crianças etc. Não querem que os filhos sejam maculados com essas idéias. Não é mesmo um paradoxo o adulto tudo informar sobre a sexualidade à criança, mas silenciar a respeito da morte?

Acolher a criança e suas fantasias e encontrar um registro que facilite a comunicação, em vez de trazê-la ao mundo adulto, talvez sejam a melhor maneira de expressar carinho aos filhos pequenos.

*Texto publicado originalmente no Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 21h59
Obediência X Limites

A palavra obediência quase não é usada hoje em dia. Por que será? Talvez porque o anseio educativo atual seja o de evitar o autoritarismo. Quem teve pais autoritários ou frequentou escolas assim sabe muito bem que fica mais difícil traçar um rumo na vida com a pressão do autoritarismo. Essa já é uma boa razão para querer educar de um jeito diferente.

Acontece que não ser autoritário não significa não ocupar o lugar de autoridade que ser pai, ser mãe ou ser professor implica. E autoridade supõe obediência. Sem obediência, a autoridade perde o sentido porque a assimetria na relação educativa deixa de existir.

É um ônus exercer o papel de autoridade porque é preciso estar atento o tempo todo para que ela não se esvazie. Como tem sido cada vez mais difícil sustentar esse lugar, responsabilizar filhos e alunos pela fragilidade do vínculo com a autoridade parece ter sido um caminho quase natural. Por isso deixamos de falar em obediência e passamos a falar em limites.

A obediência supõe dois sujeitos envolvidos: aquele que exerce a autoridade e aquele que precisa responder com um mínimo de obediência para manter o vínculo, a relação. Ao falar em limites, podemos supor apenas um sujeito. Quando uma mãe fala, por exemplo, “Meu filho não tem limites”, parece até que ela não tem nada a ver com o fato que descreve. Quando um professor diz que seus alunos não aceitam limites, ele também não se põe na situação, não credita a ele mesmo nenhuma responsabilidade pelo fato.

E foi assim, sem nos darmos conta, que passamos a colocar todo o fardo do trabalho educativo nas costas de crianças e adolescentes. A história agora é com eles: eles que precisam aceitar os limites e respeitá-los.

Os pais sabem exercer a autoridade quando é preciso. Os filhos vão à escola, ao médico, tomam medicamento quando necessário etc. E os pais não temem ser autoritários quando exigem isso dos filhos.

Nossa questão é que se há autoridade, há embate; se há regra, há transgressão; se há filhos, haverá desobediência sempre.

Escrito por Rosely Sayão às 10h36
Educação e autoridade

Precisamos continuar a falar a respeito do tapa na criança, não é mesmo? Pelos resultados da enquete ao lado, a maioria dos pais já bateram no filho. Então, vamos enfrentar mais um passo dessa conversa. Desta vez, vamos falar um pouco a respeito da autoridade que os pais precisam ter com os filhos para praticar a educação.

Até uns 40 anos atrás, mais ou menos, a educação era praticada com uma autoridade inquestionável. Podemos dizer que os pais – tanto quanto os professores – exerciam essa autoridade pela coerção e não havia problema pessoal ou social algum a esse respeito. Esse tipo de autoridade era uma idéia compartilhada por todos, exercida com convicção, portanto. Nesse esquema, o tapa como estratégia educativa fazia todo o sentido.

De lá para cá, as teorias da educação, da psicologia, da pedagogia, bem como as diversas mudança sociais e políticas trouxeram a idéia de uma educação menos repressora e mais centrada nos educandos. O respeito à criança e ao jovem passou a fazer parte dessa nova concepção.

O autoritarismo passou a ser rejeitado, portanto. Ocorre que, em busca de um modelo de autoridade diferente, caímos em uma cilada: passamos a exercer a autoridade pela persuasão em substituição à coerção. Em resumo: buscamos a adesão dos mais novos à educação que praticamos. Vamos convir: o discurso do convencimento funciona bem na publicidade, mas na educação não tem o mesmo efeito. E o tapa, nesse novo esquema, surge quando a persuasão não funcionou, não é verdade? Não há coerência mais desse recurso com o modelo adotado tampouco com o estilo de vida pretendido.

Uma coisa é inegável: é preciso ter autoridade para educar. Nosso problema atual é esse: como construir um tipo de autoridade que não seja coercitiva, mas que também não dependa do convencimento de quem está sendo educado, já que isso não se consegue o tempo todo?

O próximo passo desta nossa conversa é refletir a respeito do surgimento de uma palavra que é chave nessa história: os limites das crianças e jovens e a relação com a autoridade exercida pelos pais e professores.

PS: Ontem tive problemas, por isso atualizo o blog somente hoje.

Escrito por Rosely Sayão às 10h20
Qual a importância dos filhos na vida dos pais?

Muitos pais dizem que não podem ficar com os filhos porque precisam trabalhar e o compromisso profissional tem exigido cada vez mais das pessoas. Aliás, muitos pais – mães em especial – sentem uma culpa enorme por deixarem os filhos porque precisam ou querem trabalhar.

Não acredito que os mais novos não recebam a devida atenção dos pais por causa do trabalho deles. O buraco é mais embaixo, como afirma a expressão popular. Na verdade, os tempos atuais privilegiam o individualismo e a juventude, e essas duas questões têm conseqüências decisivas na relação entre pais e filhos e, portanto, na educação.

Na ideologia do individualismo as pessoas investem quase toda a energia que têm em si mesmos, em seu prazer, pois isso se torna a coisa mais importante da vida. Com a obrigatoriedade de serem jovens o tempo todo, os adultos – mesmo sem se darem conta disso – priorizam seus sonhos e a vida presente. Somadas essas duas questões a outras também importantes – como a ideologia do consumo que aniquilou a idéia de uma vida simples – temos um quadro complicado para os mais novos.

Há uns dois anos, escrevi uma coluna na Folha de São Paulo comentando a esse respeito e apontando situações simples da vida que dão aos filhos a possibilidade de interpretarem que tudo é mais importante na vida dos pais do que a convivência e a dedicação a eles. Citei um exemplo: quando chamamos alguém ao telefone e a pessoa não pode atender, as justificativas são várias. Ela pode estar em uma reunião de trabalho ou realizando uma tarefa profissional, pode estar ocupada com uma atividade que não pode interromper etc. Nunca se diz que a pessoa não pode atender porque está com os filhos. Alguém já ouviu tal resposta?

Pois bem: um casal, ambos profissionais da saúde e com filhos entre sete e nove anos, leu a coluna e ficou bem sensibilizado com a questão. Tomaram uma decisão: o horário do café da manhã, que era a única refeição do dia em que se reuniam, seria sagrado. Instruíram a empregada da casa a não interromper esse momento em hipótese alguma. Nenhum dos dois trabalha com situações de emergência, é bom avisar. Uma manhã houve um chamado tão insistente que a empregada sentiu a obrigação de informar ao casal; o pai pediu que ela dissesse que estava terminando o café com os filhos e, em 15 minutos, daria o retorno.  Ao ouvir o que o pai disse, o garoto de sete anos exclamou: “Nossa, pai, eu não sabia que a gente era tão importante”. Esse pai escreveu para contar o ocorrido e dizer que os filhos são a coisa mais importante da vida do casal, mas que nunca havia percebido antes que a vida cotidiana não comunicava isso a eles.

É isso: é preciso que, no dia-a-dia, os filhos percebam sua importância na vida dos pais. Se o trabalho, o futebol, a novela etc. parecerem sempre mais importantes, eles irão reagir negativamente, é claro. E vale lembrar – tenho aprendido a deixar tudo muito claro – que não se trata de deixar de se dedicar às outras coisas da vida e sim de valorizar o tempo de dedicação aos filhos.

Escrito por Rosely Sayão às 10h49

Amigos dos filhos adolescentes

A mãe de três adolescentes me escreveu contando como é a vida com os filhos nessa fase. Bastante conturbada, é claro, mas, para essa mãe dedicada e sensível, que tem uma profissão e exerce trabalho remunerado, isso não é problema. Entretanto, ela tem uma dúvida. Melhor dizendo, uma queixa. Ela diz que seus filhos se relacionam com a casa de dois modos alternados.

Ora se comportam como se morassem em uma pensão -vão e voltam apenas para comer, dormir e trocar de roupa, porque só pensam em sair-, ora tratam a casa como lugar de festa -trazem os amigos para lanches, jogos, reuniões barulhentas. Além da queixa, ela tem também uma dúvida: quer saber se é assim mesmo ou se é preciso segurar um pouco mais.O estranhamento dessa mãe é compreensível, porque, segundo ela, quando pequenos, os filhos sempre gostaram da companhia dos pais, mas agora só se interessam pelos amigos. Ela tem muitos motivos para se alegrar, apesar de esse ser um momento difícil para os pais.

O que acontece na vida dessa família é o caminho natural a ser trilhado. Os filhos cresceram e precisam sentir que não são indispensáveis aos pais para que possam investir nos relacionamentos com os outros, em geral seus pares. Se, quando crianças, os filhos são educados com respeito e ensinados a valorizar o relacionamento com os familiares, na adolescência, têm mais chances de saber se comportar de modo a serem estimados por colegas e amigos.

É isso que significa ser sociável. Na adolescência, freqüentar a casa dos amigos e recebê-los em casa são fatos de grande importância para o processo de socialização. Mas pode acontecer de os pais não gostarem de alguns amigos dos filhos.

Não se pode negar que os adultos podem julgar os outros com mais maturidade do que os jovens e perceber rapidamente alguns aspectos dos relacionamentos que os filhos, de tão envolvidos e interessados em tais vínculos, deixam passar. É assim mesmo, entretanto, que eles aprenderão a selecionar as amizades e a diferenciar amigos com os quais eles podem contar de colegas interessados apenas em compartilhar diversão. Isso leva tempo, e é preciso ter paciência.

Alguns pais acreditam que alguns desses relacionamentos podem ser prejudiciais aos filhos. Nesses casos, é imprescindível alertá-los, porque, conhecedores da opinião dos pais, os filhos podem avaliar melhor as pessoas com quem escolhem conviver. Aparentemente, eles recusam a opinião dos pais porque podem entender que isso nada mais é do que ciúme. E, para falar a verdade, algumas vezes eles têm razão. Mesmo assim, se aprenderam a ouvir e a respeitar o que os pais lhes dizem, uma hora ou outra terão a oportunidade de confirmar -ou não- o que ouviram de seus pais sobre os colegas que escolheram para conviver.

E quando as companhias do filho não respeitam a casa da família? Como os costumes são bem variados de família para família, isso pode acontecer.
Nesse caso, os pais precisam ser firmes: é preciso delegar ao filho a responsabilidade de fazer colegas e amigos se comportarem em sua casa de modo aceitável pela família e exigir que ele dê conta de seu dever.

Não são apenas colegas e amigos que podem influenciar negativamente os filhos adolescentes. Aliás, os jovens estão submetidos a muitas pressões, por isso precisam aprender a avaliar criticamente o que lhes é proposto e imposto.

É a educação que melhor responde a essa questão. Na adolescência, os filhos precisam muito mais da ação educativa e do acompanhamento discreto dos pais do que do controle exercido por eles.

*Texto publicado originalmente no Folha Equilíbrio

Escrito por Rosely Sayão às 12h03
A escola e os novos tempos

Alguns internautas disseram que a escola não precisa ser chata. Bem, devo dizer que, por melhor que a escola seja, um pouco chata ela sempre será. Por motivos simples: os alunos - crianças e jovens cheios de vida - lá estão para aprender e isso exige disciplina, concentração, perseverança, tenacidade e paciência, entre tantas outras qualidades.

É chato ter vontade de jogar videogame e ficar na aula. É chato querer correr e brincar, mas ter de ficar concentrado e sentado. É chato se esforçar quando o mais cômodo é deixar rolar. E é especialmente chato ter de aprender coisas que não se sabe ao certo se e quando irá usar. Para crianças e jovens, pode ser chato investir a energia do presente em estudos que só renderão frutos no futuro.

Para enfrentar e superar essa chatice os alunos precisam dos adultos - que empenham sua palavra na importância desse estudo - e da firmeza deles nas orientações necessárias. Por isso, para ser professor é preciso gostar muito de ensinar. É a paixão do professor pelo ensino que ajuda o aluno a se encantar com o conhecimento.

Um professor perguntou como fazer para que o aluno deixe de pensar no jogo que está rolando e se concentre na aula. Os professores fazem isso todos os dias! Os alunos estão sempre ligados – ocupados – com todas as outras coisas que ocorrem em suas vidas. E os professores, todos os dias, tentam fazer com que os alunos se desliguem um pouco do que rola lá fora para que possam se ligar no que devem aprender.

Mas, sabem o que é chato de morrer? A escola ser do mesmo jeito que é há séculos num mundo que mudou tanto, e isso ocorre porque ela não dialoga com os acontecimentos, com as mudanças, com os novos tempos. Há uma história interessante que os profissionais da educação conhecem bem. Uma parábola, eu diria.

Se pudéssemos ressuscitar um cientista que viveu no século 19 e o colocássemos para trabalhar hoje, ele não conseguiria entender o conhecimento de tanto que as ciências se desenvolveram. Se uma máquina do tempo trouxesse para os dias de hoje um médico que trabalhou no início do século 20, ele enlouqueceria tamanha a revolução tecnológica nessa área... e assim por diante. Mas, se essa mesma máquina trouxesse um professor que foi docente no século 19, ele entraria na escola, procuraria sua sala e passaria a dar sua aula.

Não é por falta de propostas e de novas idéias que as escolas não mudam. Uma professora disse, em seu comentário, que chovem críticas sobre a escola, mas que ninguém apresenta propostas. Nossa! Há propostas novas de todos os tipos e para todos os gostos!

Então: por que será que a escola não muda? Vamos arriscar nossos palpites?

PS: Recebi correspondência de algumas escolas que tiveram notícia de nossa discussão a respeito de aula em dia de jogo. Elas funcionaram regularmente nesse dia. Assistir ao jogo junto com os professores e colegas foi uma das tarefas que os alunos tiveram no dia, com discussão posterior. Achei bem legal.

Escrito por Rosely Sayão às 00h05
Censura e educação

Censura no blog? Prefiro não exercê-la. É uma decisão arriscada, eu sei. Mas, ainda assim, escolhi manter todos os comentários, mesmo os mais estranhos e ofensivos. É uma maneira, creio eu, de responsabilizar quem os fez e de conhecer melhor o contexto em que temos vivido. O mundo virtual é uma repetição do real, com algumas características que o diferenciam, é claro. Conhecer a vida como ela é ainda é a melhor maneira de aprender a vivê-la. 

Acho típico do nosso tempo essa tendência de agredir e destruir a pessoa que emite opiniões com as quais não concordamos em vez de contestar as idéias expressas. Muitos dos comentários seguiram esse rumo. Há comentários machistas, e isso mostra o quanto ainda temos de caminhar em busca da equidade de gêneros e, portanto, de justiça. As ofensas pessoais talvez sejam as mais imaturas já que não se pode confundir um autor e sua obra com a pessoa que ele é. Um trabalho é apenas uma produção, afinal. Mas, em tempos em que se cultua mais as personalidades do que suas ações, isso é compreensível.

Não sei se já disse que coleciono os chamados “ditados populares”. Eles nos permitem uma boa reflexão a respeito de como pensamos determinados aspectos da vida. Quem já não ouviu falar que “É conversando que a gente se entende”? Penso que, na verdade, é conversando que a gente se desentende. Ao conversar revelamos nossos pontos de vistas, apresentamos nossas análises e deixamos visível a interpretação que fazemos de fatos ou de idéias. E é assim que podemos nos desentender com os outros porque eles, possivelmente, têm idéias, análises e interpretações diferentes. Tenho um colega que diz que viver é a arte de aprender a administrar os desentendimentos e a se enriquecer com eles. E, para tanto, é preciso conversar, que é o que temos feito aqui. Com bons frutos, devo dizer, apesar dos percalços. Mas, quem disse que a vida não tem seus obstáculos?

Aqui no blog, pelo menos enquanto for sustentável, as palavras dos internautas ficarão registradas. Mas, deixo uma consideração: falar qualquer coisa é um exercício democrático? A educação – familiar e escolar –  pode contribuir decisivamente para que os mais novos aprendam que as palavras têm força e que exigem compromisso e responsabilidade. Antes isso do que, mais tarde, clamar pelo uso da censura, concordam?

Escrito por Rosely Sayão às 14h14
Enfrentando um furacão

Nossa! Passou um furacão por aqui. E que furacão! Daqueles de intensidade devastadora. Para falar bem a verdade, levei um susto quando vi o que estava acontecendo no blog. Mais de 80 comentários quando acessei a primeira vez. Isso não é comum por aqui; quem freqüenta com regularidade, sabe disso. Afinal, educação não é um tema que seduz muita gente.

Após ler metade deles, fiquei preocupada. Será que eu havia escrito o conteúdo que levou tantos internautas a me agredirem com violência, ironia sarcástica e fúria? Fui reler, mais uma vez, o texto que havia escrito. Não: eu não consegui ler nada contra o futebol; não critiquei quem gosta do esporte nem condenei os alunos que preferem assistir aos jogos em vez de ir à escola. Aliás, o tema principal do texto foi a escola e não o gosto – melhor dizendo, a paixão – pelo futebol. Li todos os comentários, como sempre faço, porque é dialogar com os leitores o meu objetivo. E tem tanta coisa que fiquei com dificuldade para escolher. Tem conteúdo para conversa que não termina tão cedo. Hoje, vou citar as duas primeiras idéias que me ocorreram.

Tem sido extremamente difícil o diálogo no nosso tempo. Só há possibilidade de diálogo quando existem idéias diferentes e, por incrível que pareça, no mundo atual a diversidade tem sido pouco tolerada. O fato é que reprovamos ou julgamos falsas e infundadas as opiniões discordantes. Quando temos contato com novas idéias, a tendência primeira é a de concordar com elas e aceitá-las, ou então rejeitá-las, ou seja, discordar delas.  Mas, essa postura nada produz: apenas sustenta e mantém o estado que já existia anteriormente. Na verdade, é o diálogo com as idéias diferentes que propicia o desenvolvimento, o crescimento. E – devo deixar bem claro – não se trata de adotar tais idéias e sim permitir que elas questionem nosso modo de pensar e de viver.

Estabelecer relacionamentos mais democráticos e menos autoritários tem sido um anseio de quase todos, e o exercício da liberdade é um direito fundamental para tanto. Que conceito fazemos a respeito da liberdade? Liberdade é, sempre, liberdade de escolha. Só exercemos a liberdade quando podemos escolher, com autonomia, entre uma coisa ou outra. Caso contrário é submissão, sujeição. Quando a escola fecha em dia de jogo, os alunos ficam sem escolha.

Nas últimas décadas construímos a idéia de democracia não só na política, mas também nos relacionamentos interpessoais; entretanto, a construção da prática dela tem sido bem mais penosa. A escola é o lugar privilegiado onde se pode construir e exercitar essa prática e ensinar como estabelecer relacionamentos democráticos, ou seja, respeitosos, justos e solidários. É isso que quase todo Projeto Político Pedagógico das escolas afirma: que seu objetivo é preparar o futuro cidadão. Por isso dou tanta importância a essa instituição que, parece, está tão desvalorizada e desacreditada pela sociedade.

Deixo como palavra final uma citação contida no livro Escolas Democráticas, de Apple, M. e Beane, J.: “... se as escolas de uma sociedade democrática não existem e não trabalham para defender e ampliar a democracia, são socialmente inúteis ou perigosas. Na melhor das hipóteses, educarão pessoas que vão viver sua vida e ganhar seu pão indiferentes às obrigações da cidadania, em particular, e do modo de vida democrático em geral... Mas é muito provável que eduquem pessoas para serem inimigas da democracia...”.

Bom final de semana a todos.

Escrito por Rosely Sayão às 23h35