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Mãe sumida



Essa foto acima eu tirei para mostrar a vocês a prova material de um crime que tem sido sistematicamente cometido por muitas escolas: o julgamento dos pais de seus alunos com base na relação que eles estabelecem com a escola.

Primeiro, a história dessa faixa. A mãe de um garoto de quatro anos a recebeu na escola, na festa do dia das mães. Sim, a escola preparou uma apresentação de seus alunos para homenagear as mães e armou, ela mesma, uma surpresa para as mesmas. As professoras confeccionaram várias faixas, com dizeres como “Mãe Linda”, “Mãe Presente” e, claro, “Mãe Sumida”. Ao final da apresentação, fizeram a entrega solene das faixas para as três felizardas. Vocês podem imaginar a situação da mãe que recebeu essa ou das que não receberam de mãe presente ou de mãe linda?

A escola tem julgado os pais de seus alunos assim: se os pais aparecem quando são chamados, são considerados pais presentes na vida do filho. Se nem sempre aparecem, são considerados pais ausentes e desinteressados em relação ao filho. Isso não pode acontecer!

Os professores, que são profissionais da educação, parecem que esqueceram de um ensinamento básico: não se pode tomar a parte pelo todo. Um pai ou uma mãe que sempre atende aos chamados da escola pode não ser verdadeiramente presente na vida do filho e vice-versa.

De um modo geral, quase todas as escolas fazem o que essa fez, mas não escancaram desse modo a opinião que têm a respeito dos pais de seus alunos. E para quem sobrou o maior prejuízo nessa história tão horrorosa?

A mãe que recebeu a faixa ficou constrangida, mas ela sabe que é presente na vida do filho e, depois de alguns dias, esqueceu o triste fato. Mas, e o garoto de quatro anos que a tudo presenciou? Que sentidos pode ter dado ao que viu?
Escrito por Rosely Sayão às 22h31
Educação vem do berço?
A respeito do texto sobre a educação como bem de consumo concordo totalmente com o Tadeu quando ele diz que o tema é complexo, aliás, como todos os aqui tratados. Mas, sempre é preciso dar o pontapé inicial para iniciar os debates e as reflexões. Aos poucos, os textos irão se complementando e produzirão mais sentido, ok?

Hoje, quero dialogar com uma frase postada pelo Raffer: “a educação vem do berço”. Quero deixar bem claro que não se trata da opinião dele, um jovem que se interessa pelas questões da educação neste nosso tempo, mas de muita gente e que tem tanta consistência que já integra o pensamento das novas gerações.

São poucos os que, nos dias atuais, não concordam com a importância de uma educação democrática. Entretanto, nós não temos experiência nessa área e nossa maior dificuldade reside justamente nesse ponto já que a prática da educação democrática é entendida de modos pessoais e particulares. Entretanto, uma questão é clara: a educação, para ser democrática, tem de permitir as mesmas oportunidades a todas as crianças e jovens, correto?

Todas as famílias têm restrições. Algumas econômicas, outras culturais e/ou sociais etc. Quando afirmamos que a educação vem do berço, de largada já eliminamos as oportunidades de uma boa educação para muitas crianças e jovens que nasceram em famílias que não podem, por qualquer que seja o motivo, oferecer uma boa educação a seus filhos. E vejam que tiramos dessa geração mais nova muitas – talvez as mais importantes - oportunidades por conta de questões que não dizem respeito a eles mesmos. Que culpa tem uma criança em ser filho desta ou daquela família, não é verdade?

Isso não exime a importância da educação familiar, quero que isso fique bem claro. Entretanto, reconhecer que há a possibilidade de muitas famílias não darem conta de seu papel educativo dá maior responsabilidade social à escola, já que ela é a melhor chance para muitas crianças e jovens que não podem aprender com a família questões importantes da vida. Isso se a escola tem anseios democráticos, é claro. Na teoria, quase todas afirmam que têm.

Consideremos o quadro – geral – do ensino nas escolas públicas. As dificuldades são imensas e muitas delas são referenciadas à expressão que estamos analisando. Os professores reclamam que nada podem fazer porque os pais de seus alunos pouco fazem. Então, fica uma pergunta para todos nós: num país que tem mais de 70% de seus alunos matriculados no ensino público, como se anuncia o futuro próximo se continuarmos aceitando que educação vem do berço? Como será a vida dos filhos da classe média, minoria esmagadora da população mais jovem? Eles terão como companhia essa maioria que, talvez, não possa oferecer educação de berço como a concebemos.

OBS: essa frase é muito rica e voltaremos a analisar outros aspectos dos efeitos restritivos que ela provoca na educação escolar e na vida dos mais jovens, inclusive nos que frequentam escolas particulares.
Escrito por Rosely Sayão às 13h30
Educação como bem de consumo
Vamos encarar, graças ao comentário da Mônica, uma questão das mais importantes: a educação escolar vista como bem de consumo e os pais dos alunos como clientes da escola.

Caros pais: os filhos de vocês precisam, pelo bem do futuro deles, serem libertados da trama familiar. Explico: a tradição familiar, ao ser passada aos mais novos, perpetua não apenas valores positivos, virtudes privadas e certa visão de mundo que cada família tem. Perpetua também opiniões pessoais dos pais a respeito de assuntos delicados da vida civil que podem ser carregados de preconceitos e estereotipias. Tudo bem reconhecer que cada um de nós tem seus preconceitos? OK, então vamos adiante.

É quando os filhos vão para o Ensino Fundamental que eles passam a ter contato com o mundo público diretamente, que começam a aprender a conviver e a ganhar ferramentas para que possam fazer a leitura desse mundo. A transmissão do conhecimento humano acumulado - que será recriado pelos alunos quando estes alcançam maturidade para tanto - é que permite isso.

Ora, se os pais são colocados no lugar de clientes da escola e se portam como tal, o mundo público é privatizado. Quem perde com isso são as próprias crianças e jovens.

Vejamos o exemplo do vestibular. Muitas escolas privadas têm a preparação de seus alunos para o vestibular como a maior e mais importante meta de seu trabalho. Para quem prepara futuros cidadãos isso é muito pouco, quase nada. Em vez de ter instrumental para a interpretação desse mundo tão complexo, os alunos recebem materiais e aprendem truques que os capacitam a passarem em um exame seletivo. E por que isso tem acontecido? Porque os pais têm demandado, e a escola tem atendido.

Mas, se um pai ou uma mãe leva seu filho ao médico, não irá exigir desse profissional que aja assim ou assado, não é verdade? E, caso o médico receite um remédio amargo a seu filho como tratamento, os pais aceitam já que a saúde do filho está em jogo. Mas, não é assim que agem em relação à escola.

A educação escolar não é um bem que o mercado oferece e não há cliente algum nesse processo.Vamos debater essa questão que é deveras importante para o futuro dos mais novos.

Bom final de semana a todos!
Escrito por Rosely Sayão às 23h09

Participação em sala de aula

Várias mães têm me consultado sobre o que fazer com algumas informações que a escola dá sobre seus filhos. Escolhi refletir sobre um tipo de comunicação que a escola tem feito cada vez com mais freqüência. Trata-se de, na avaliação dos alunos, analisar o item participação em sala de aula. E é bom ressaltar que a escola costuma acentuar que a participação dos alunos nas aulas é algo a ser incentivado.

Uma coisa não fica clara: o que a escola entende por participação do aluno nas aulas? Os pais não sabem ao certo, mas têm lá suas hipóteses. Fazer perguntas sobre o conteúdo das aulas, adiantar algumas respostas resultantes de raciocínio, estudo ou conhecimento prévio ou apresentar um trabalho frente aos colegas são as alternativas que ocorrem com mais freqüência. Participar de debates e apresentar propostas também. Será que é assim que os professores entendem o conceito de participação? Pode ser que sim, o que resulta em algo bem complicado.

É bom notar que todas essas possibilidades levantadas têm um ponto em comum: a fala pública. Isso é um problema para muitos alunos, notadamente para os que se sentem embaraçados porque se identificam como tímidos e para aqueles que têm medo de errar publicamente. Já para os alunos extrovertidos, que têm traquejo no trato com os colegas e gostam de exibir seus conhecimentos, isso é um prato cheio.

Um ponto muito importante é que nem sempre os professores consideram o ato de participar em toda a sua complexidade. Pudera: em um mundo em que agir parece ser mais importante do que pensar, em que ser o centro das atenções é considerado fundamental e em que ser popular é um sinônimo de ser social, a questão foi simplificada em demasia. Vamos considerar os alunos tímidos. Sim, eles existem. A timidez não é, necessariamente, patológica. Pode ser um traço, uma característica, um modo de ser. Apenas a timidez exagerada, que atrapalha as relações interpessoais, deve ser considerada prejudicial. Hoje, entretanto, a timidez virou defeito.

Como pode? Afinal, vivemos (ou dizemos viver) no mundo da diversidade e do respeito à diferença, não é? Mas o fato é que os tímidos estão sem lugar. Se o aluno não participa como seus professores esperam por ser tímido, isso quer dizer que ele não aprende? Ora, temos inúmeros exemplos de pessoas extremamente tímidas que tiveram produção intelectual ou artística notáveis. E, se a escola contemplar, de fato, as diferenças pessoais de seus alunos, terá recursos que possibilitem aos alunos tímidos comunicar seu aprendizado. Os professores devem lembrar que muitos deles não se pronunciam em reuniões pedagógicas por timidez, e que isso não quer dizer que delas não participam.

Outro ponto importante é que alguns alunos participam, mas de um modo bem diferente daqueles que se encaixam no conceito atual de participação. Se a escola entender que participar é fazer parte da aula, por exemplo, isso pode ocorrer com o aluno em silêncio. Ouvir e observar são, também, maneiras de participar. Quando uma criança com menos de seis anos olha atentamente dois colegas brincando, ela participa da brincadeira mesmo que à distância e em silêncio. Quando um aluno não faz perguntas ou não se pronuncia, isso não quer dizer que não está presente.

Por outro lado, muitos alunos que falam em todas as oportunidades nem sempre o fazem com o sentido de participar. Finalmente, quanto ao aluno que não participa por medo de errar, a escola deve reconhecer que é responsável por esse comportamento. Afinal, ela valoriza o acerto e reprova o erro no processo de aprendizagem.

*Texto originalmente publicado no Folha Equilíbrio.

Escrito por Rosely Sayão às 18h14

Contra o que os jovens podem se rebelar?

Quem tem filhos adolescentes e leu a notícia sobre um acidente de carro ocorrido recentemente em que estavam cinco jovens de 14 a 15 anos -um deles ao volante- e em que três garotas morreram certamente imaginou o sofrimento e a dor que uma tragédia assim deve provocar nos familiares. Pois bem: já está na hora de pararmos de olhar para tais cenas como se assistíssemos a um filme de terror. Não podemos fechar os olhos quando há indícios de que o pior está para acontecer. É preciso reconhecer que estamos todos nessas cenas. E não só como espectadores: estamos envolvidos nelas até os ossos.

Sempre que uma tragédia que envolve jovens da classe média acontece surgem discursos oportunistas e moralizantes que repetem que os jovens não têm limites, não têm objetivo na vida, são "aborrescentes", sua rebeldia é vazia, não respeitam nada etc. Essa lengalenga precisa acabar. Basta de demonizar crianças e jovens. Em vez disso, talvez seja mais proveitoso lembrar o verso de uma música interpretada pela banda Legião Urbana: "Desde pequenos nós comemos lixo/ Comercial e Industrial/ Mas agora chegou nossa vez/ Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês".

Os jovens de hoje, como os de todas as épocas, precisam lutar contra algo, porque é negando o que querem que eles sejam que eles começam a caminhar em direção a saber quem, de fato, são. Mas eles têm agora poucos motivos para lutar contra os adultos. Estes têm preferido ser companheiros legais, confidentes, defensores da liberdade que eles deveriam desfrutar, bravos guerreiros contra o desprazer que, porventura, pudesse atrapalhar a vida dos jovens; têm compartilhado com eles estilos de vida e anseios. Não funcionam mais como alvo de confronto, já que quase não provocam restrições à vida dos jovens. Foi o tédio que se tornou o inimigo mortal, é contra ele que precisam lutar.

Fomos nós, adultos, que instalamos o tédio na vida dos jovens. Tudo eles têm e não precisam se esforçar para conseguir o que -julgam- desejam ter. São prisioneiros da ideologia de consumo, peça tão importante no mundo contemporâneo. Além disso, fazem o que acreditam que gostam e devem fazer nessa etapa da vida. Aí incluem-se festas, sexo, consumo, drogas e farras. Na verdade, eles não têm escolha.

É com profundo desprezo que olham para as normas da vida social e é com desdém que tratam os outros. Querem ser independentes. Mas tudo o que conseguem é serem pessoas desgarradas de qualquer grupo. Nem o que chamam de grupo pode ser considerado como tal. Trata-se mais de um agrupamento de jovens que giram em torno de interesses oportunistas e temporariamente comuns.

Contra o tédio resultante de uma existência tão vazia eles lançam a ousadia, a impulsividade e a bravura que, potencialmente, têm. Por isso os esportes radicais -tanto os lícitos e formais quanto os ilícitos e informais- fazem tanto sucesso entre eles. É a morte que eles desafiam porque esta parece ser a única autoridade que pode lhes restringir a vida. Parece que é apenas nessas práticas que eles conseguem vislumbrar alguma possibilidade de realizar feitos heróicos. Em nenhuma outra atividade da vida que levam se exige que ele expressem coragem, tenacidade, perseverança, dedicação e concentração, por exemplo. Os adultos responsáveis por eles não querem exigir quase nada. Apenas que passem no vestibular. E isso tem tão pouca importância para uma vida... E nós, adultos, temos assistido quase impassíveis à situação de vida que eles experimentam atualmente. Uma vez ou outra nos comovemos, nos indignamos. Mas a reação pára por aí. Não conseguimos, ainda, assumir que a infância e a juventude são questões que dizem respeito a todos nós, e não só aos pais e aos professores. Não demos conta, ainda, de tornar essa uma questão coletiva, de interesse comum.

Cenas trágicas como a do acidente referido devem servir para colocarmos esse debate em dia. Afinal, o que temos feito pelos jovens além de deixá-los abandonados com seus próprios recursos e vivermos como se fôssemos nós os adolescentes?

*Texto originalmente publicado no Folha Equilíbrio.

Escrito por Rosely Sayão às 18h12

"O Valor de Educar"

Autor: Fernando Savater

Buscar na Web "Fernando Savater "

Quando: 1998

"O sistema democrático tem de se ocupar do ensino obrigatório dos neófitos para assegurar a continuidade e a viabilidade de suas liberdades; isto é, por instinto de conservação. Educamos em defesa própria. Seus pais queiram ou não? Pois sim, queiram ou não. Os filhos não são propriedades dos pais, nem simples objetos para que estes satisfaçam suas veleidades – por mais amorosas que sejam – ou realizarem experiências irrestritas... A criança vai à escola para se pôr em contato com o saber de sua época, não para ver confirmadas as opiniões de sua família."

Categoria: Citação
Escrito por Rosely Sayão às 15h08
Motivação para os estudos
Várias mães e alguns pais pediram para falar a respeito da motivação – ou da falta dela - para o estudo. Todos reclamam da mesma situação: os filhos, em geral entre nove e 13 anos, não querem saber de estudar. Então, vamos refletir a respeito do tema e, para começar, vou tomar uma palavra que tem sido rejeitada por muitos pais: obrigar.

Por que os filhos vão para a escola? Inicialmente, pelo menos, porque os pais os obrigam. Aliás, é bom lembrar que todas as crianças são obrigadas a freqüentarem pelo menos o Ensino Fundamental, de acordo com nossas leis. Nem mesmo os pais podem deixar de cumprir essa determinação do Estado. E cabe essa obrigatoriedade? Deixo que Fernando Savater responda:

“...O sistema democrático tem de se ocupar do ensino obrigatório dos neófitos para assegurar a continuidade e a viabilidade de suas liberdades; isto é, por instinto de conservação. Educamos em defesa própria. Seus pais queiram ou não? Pois sim, queiram ou não. Os filhos não são propriedades dos pais, nem simples objetos para que estes satisfaçam suas veleidades – por mais amorosas que sejam – ou realizarem experiências irrestritas... A criança vai à escola para se pôr em contato com o saber de sua época, não para ver confirmadas as opiniões de sua família.” (O Valor de Educar).

Voltemos à nossa questão. Se a criança vai obrigada para a escola é porque não tem condições, ainda, de avaliar a importância do estudo para a vida, sua e dos outros. Por isso, esperar que ela tenha motivação para persistir nos estudos, para se esforçar para aprender, é ingenuidade nossa.

É tarefa dos pais dar bons motivos para que seu filho estude; é responsabilidade dos adultos provocar na criança o exercício do conjunto de comportamentos necessários ao estudo. E há outra maneira de conseguir isso a não ser obrigando?

Os pais que esperam que seus filhos tenham vontade de estudar precisam dar uma força a eles. Cada família deve ter o seu jeito de realizar isso, mas é preciso que as crianças sejam estimuladas a vencerem a vontade de se divertir para conseguirem a força de vontade para estudar. Sim, sim, isso exige esforço da parte de pais e dos filhos, não?
Escrito por Rosely Sayão às 14h56
A diferença e o preconceito
O comentário da Marilia nos deu a chance de falar do preconceito na educação, assunto que deve render muita conversa. Quem diria: em pleno século XXI, vivemos uma época de preconceito, violência e confronto entre diferentes grupos sociais. Ao mesmo tempo em que fazemos questão de afirmar que reconhecer a multiplicidade humana é a marca do nosso tempo, não conseguimos conviver com a diferença. Cada vez mais nos agrupamos com nossos iguais e excluímos os diferentes de nós. E ensinamos isso aos mais novos, é claro, com justificativas aparentemente racionais e críticas.

No ano passado, li uma reportagem no Folhateen – caderno semanal da Folha de São Paulo - a respeito de jovens da classe média, entre 14 e 18 anos, que nunca haviam usado ônibus em São Paulo. O repórter acompanhou alguns deles nessa primeira aventura e colheu o depoimento a respeito das impressões do uso do transporte coletivo.

Uma garota de 14 anos considerou o banco de passageiros nojento e quente; outra, com 18 anos, disse ficar enjoada com o balanço do veículo e com o cheiro de suor dos passageiros. Um jovem de 18 disse que nunca andara antes de ônibus porque “não precisa”. Estranheza frente ao outro e às diferenças sociais, econômicas e culturais, por exemplo, estão claramente colocadas nas falas desses jovens. O preconceito violento está posto para a classe média.

O comentário da Marília – irônico ou não, não importa – revela o que nós, da classe média, temos ensinado aos mais novos a respeito da convivência social e da vida pública. O outro, o estranho, é sempre um risco, um perigo, uma ameaça. E esse outro é sempre aquele que não se veste como nós, não freqüenta os mesmos lugares que nós, que não pensa como nós, que não é igual, portanto. O preconceito tem sido por nós ensinado em nome da segurança e da proteção.

Uma professora me contou uma conversa pra lá de interessante com um aluno de quase 10 anos. Ele, que reside no Morumbi, acredita que mora em uma região nobre da cidade. Da sacada de seu apartamento ele avista uma favela. Pois ele acredita que quem lá reside mora na periferia.

Qual o conceito de cidadania que temos transmitido aos nossos filhos, afinal?
Escrito por Rosely Sayão às 09h58
Adolescência estendida

Os comentários a respeito do texto sobre viagens de formatura são bem instigantes e provocativos; merecem um diálogo. O ponto mais interessante, para mim, foi a constatação de que minha pergunta final soou como afirmação. E, na verdade, é mesmo uma dúvida. Não sei se vale a pena colocá-los nessa situação. Da mesma maneira que quase todos, conheço de perto jovens que fizeram a viagem de formatura, é bom lembrar - e aproveitaram muito, e outros tantos que se arrependeram de ter ido porque lá fizeram coisas que não fariam jamais.

Muitos levantaram a questão de que, aos 17, é preciso ter maturidade e autonomia. Concordo plenamente! Entretanto, não é nessa direção que caminha a educação que temos praticado. Vamos, para este debate, considerar o rumo geral da educação que principalmente a classe media tem praticado com seus filhos, ok? Vamos tentar olhar de fora o contexto que essa juventude vive hoje.

Vamos reconhecer: temos colocado nossos jovens numa vida ambígua e contraditória. Vejamos alguns exemplos: eles freqüentam festas que varam a madrugada, votam, dirigem veículos, fazem viagens ao exterior sozinhos e lá ficam por um ano ou mais, têm agenda lotada, praticam sexo, experimentam drogas etc. Entretanto, não usam transporte coletivo, não almejam uma vida independente em relação aos pais porque já têm tudo o que precisam, não são responsabilizados por contribuir com afazeres domésticos na casa dos pais etc.

Temos vários sinais de que a maturidade tem ocorrido cada vez mais tarde. Não são poucas as universidades, por exemplo, que decidiram fazer reunião com pais de calouros para explicar o funcionamento da vida acadêmica. Outras enviam boletim de freqüência dos alunos diretamente à residência deles, ou seja, aos pais. O que significa isso? Que os jovens não têm sido julgados maduros para administrar sua vida universitária, não é?

Administrar a vida livre dá muito trabalho. É preciso fazer escolhas o tempo todo e honrá-las. E o fato é que temos ensinado muito bem aos jovens os direitos que eles têm, mas temos exigido e cobrado muito pouco a respeito dos deveres que precisariam arcar. E quem paga a conta dessa confusão que nós, adultos, armamos?

Para essa questão, não tenho dúvida: são eles.

Escrito por Rosely Sayão às 15h32