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Almoço em família
Uma internauta contou que sua família, apesar de grande, pouco se encontra ao longo do ano mas que, nos feriados tradicionais, costumam almoçar juntos, o que acontecerá agora, no domingo de Páscoa. Mas, ela está com um problema. Os dois filhos, que ela chama de pré-adolescentes – eles têm nove e 11 anos - não querem ir. Disseram que esse mico eles não pagarão mais. Ela até já tentou fazer pressão dizendo que, se eles não a acompanharem, não poderão ir a nenhum outro lugar. E a resposta deles veio direta: preferem ficar em casa jogando videogame. Diante disso, ela quer saber a partir de que idade ela pode liberar os filhos desses compromissos familiares.

Interessante a educação familiar que temos praticado no mundo contemporâneo. Parece que, aos mais novos, só cabe assumir os bônus decorrentes de pertencer a uma família. Desfrutar do conforto que a família oferece, das possibilidades sociais e culturais que ela pode apresentar e outros benefícios, isso os pais sabem muito bem ensinar a seus filhos como direitos que eles têm. Entretanto, quando se trata de cobrar deles a responsabilidade familiar, ou seja, de ensinar aos filhos que há deveres que eles precisam cumprir, aí os pais vacilam, hesitam. Que história é essa? Afinal, pertencer a uma família acarreta não apenas bônus, mas ônus diversos também.

Quando é que ficamos livres de toda e qualquer obrigação familiar? Nunca, se de fato honramos a família que temos e que nos direcionou na vida, seja para o bem, seja para o mal. Claro que as obrigações adquirem diferentes faces ao longo da vida. Crianças devem acompanhar os pais sempre nas reuniões familiares, por exemplo. Já quando os filhos passam a andar com as próprias pernas, claro que podem ser liberados de alguns compromissos, mas não de todos.

No caso de famílias que pouco se reúnem – caso de nossa colega internauta – três ou quatro encontros no ano em nada atrapalha a vida de jovens, correto? E, quando eles têm outros compromissos, como encontro com amigos, por exemplo, isso pode ser negociado. Caso eles estejam na mesma cidade, podem, por exemplo, passar pelo encontro familiar apenas para cumprimentar os parentes, dizer, enfim, que honram sua família. Caso estejam fora, um telefonema os faz presentes, não é verdade?

Tudo isso vale para quem valoriza a família. Há quem não dê valor a isso, então não há com o que se preocupar. A internauta que lançou a questão precisa fazer essa reflexão: ela quer ensinar aos filhos o valor de pertencer a uma família, ou não? Caso queira, deve impor a presença dos filhos no almoço, sem se impressionar com a cara feia deles. Caso não, pode deixar que fiquem em casa, sem drama algum.

Fica uma questão para discutirmos em breve: que categoria é essa, a de “pré-adolescentes”?!

Bom feriado a todos.
Escrito por Rosely Sayão às 10h30
Agora chega!
Outro dia fui ao supermercado e levei um susto: um corredor inteiro forrado de chocolate por todos os lados. Eu me senti andando em um verdadeiro “corredor polonês”, ameaçada por ovos de páscoa que estavam lá com o objetivo claro de impelir quem estava abastecendo a casa a escolher e a comprar pelo menos um tipo de chocolate.

Com tanto apelo ao consumo, os pais não resistem. Na páscoa, crianças e adolescentes ganham muito, mas muito chocolate. Há ovo que pesa até 5 kg! Se há oferta, é porque há comprador, não é verdade? E em meio a tanto chocolate, é bom lembrar que uma das funções dos pais é ajudar o filho a estabelecer um limite de saciedade já que, se depender só deles, esse limite pode ser alargado até provocar mal-estar.

Eu adoro colecionar ditados populares e um deles diz que criança é um “saco sem fundo”, lembram-se disso? Pois são mesmo. Quando começam a comer algo que gostam, não sabem a hora de parar. E esse tipo de comportamento deles não se restringe ao comer: refere-se a quase tudo da vida deles.

Não sabem identificar a hora de parar de brincar, de ficar na internet, de conversar ao telefone etc. Por isso, uma das funções importantes dos pais é dizer aos filhos “agora chega”. Se pensarmos bem, o “agora chega” dos pais começa logo que o filho nasce e precisa persistir até o final da adolescência. Só muda mesmo é o objeto do basta. Desde o mamar até o namorar, são os pais que precisam sinalizar ao filho a hora de interromper uma atividade. É assim que eles podem aprender a controlar a vontade que têm e não serem controlados por elas, é assim que exercitam a paciência para esperar, é assim que conseguem dirigir seu olhar para outros interesses.

Mas, é bom lembrar que o “agora chega” dos pais precisa ser responsável. De nada adianta dizer ao filho “agora chega de comer chocolate” e deixar a tentação ao seu alcance.
Escrito por Rosely Sayão às 12h14
Sem medo de ser autoritário
Alguns pais, em seus comentários aqui no blog, contaram que os filhos não aceitam o “não” como resposta, que não se convencem com as explicações que recebem, que não têm medo de castigo.

Na lida diária com os filhos, é difícil enfrentar os desafios que eles fazem. E até parece que eles identificam os dias em que os pais estão menos pacientes e mais enroscados com seus problemas para fazer as maiores e mais freqüentes provocações. Nós, adultos, que temos um cotidiano bem atribulado, em geral reagimos às demandas insistentes deles aumentando o tom de voz até chegar ao grito, ameaçando ou aplicando castigo ou desistindo, finalmente. Como nada disso costuma funcionar, vamos entender melhor a atitude deles.

Quando uma criança quer algo, ela não consegue se descentrar de seu querer de tão impositivo que ele é. É só por isso que eles não aceitam o não: porque não conseguem. Para que o “não” ganhe valor de proibição, de impedimento, os pais precisam ter atitude.

Em primeiro lugar, têm de ter a convicção de que estão fazendo uma imposição ao filho. Não se pode esperar que eles aceitem o não. Isso significa, muitas vezes, tirar o filho, com firmeza, da situação em que se encontra. Em segundo lugar, ajudar o filho a dirigir sua atenção a outra coisa, ou seja, a se descentrar daquilo que seu querer aponta. Tirá-lo da situação em que está temporariamente aprisionado e/ou apresentar outra interessante são estratégias que costumam funcionar; reagir com brincadeiras que o levem a “esquecer” o que queria, também. Mas são os pais, que conhecem seus filhos e têm com eles um determinado tipo de vínculo, as pessoas mais competentes para encontrar boas saídas para essas situações.

Não há, na maioria das vezes, jeito de convencer o filho a aceitar um “não”, a fazer o que os pais acham que ele precisa fazer. É preciso impor, com firmeza ou de modo lúdico, mas sem violência e sem medo de ser autoritário. Não é assim que fazemos quando é preciso levá-lo ao médico ou a tomar vacina, por exemplo?
Escrito por Rosely Sayão às 11h44
Os filhos precisam da ajuda dos pais
Quando fui conhecer a Escola da Ponte, em Portugal, uma coisa me deixou bem impressionada: os professores ensinam aos alunos como reconhecer situações em que eles precisam de ajuda; depois desse passo, ensinam como se pede a ajuda necessária e, também, como se ajuda um colega. Inicialmente pode parecer estranho, mas ensinar o filho a pedir ajuda hoje em dia é fundamental.

Na cultura competitiva em que vivemos, o fato de precisar do outro parece humilhação, demonstra inferioridade. Acontece que não vivemos sem o outro: vivemos para e com o outro, como bem diz o professor Yves de La Taille no livro “Nos Labirintos da Moral”, escrito com Mario Sergio Cortella. . E esse outro não é apenas quem eu conheço e de quem eu gosto. Outro é qualquer um com quem se convive no espaço público, mesmo que seja desconhecido.

Num comentário, uma internauta perguntou se os adolescentes também pedem ajuda aos pais com o olhar, como as crianças pequenas. Os filhos que já deixaram a infância precisam de ajuda, sim, mas creio que não aprenderam a pedir, a identificar situações em que precisam de ajuda e nem mesmo sabem como formular tal pedido. Por isso, é preciso que os pais interpretem como pedido de ajuda certas atitudes que eles tomam.

Vou tomar alguns exemplos: o esquecimento de um diário aberto ou largado pela casa, um enrolado de cigarro de maconha que os pais acham no quarto do filho, uma cartela de pílula ou uma caixa de camisinha deixadas, “sem querer”, à vista. Esses vestígios que os filhos deixam, aparentemente sem a intenção de que sejam descobertos, podem ser interpretados pelos pais como pedidos de ajuda. Afinal, quando eles querem esconder algo, sabem muito bem como fazer a coisa certa.

Isso exige dos pais uma atitude, uma ação não necessariamente punitiva, mas, sobretudo, de ajuda. Uma atitude educativa, de suporte, de socorro, inclusive, é o que demandam tais situações. Os pais precisam entender essas pistas como uma comunicação do filho de que ele ainda não dá conta sozinho da experiência em que se envolveu. Muitas vezes, é de uma proibição que eles precisam, para que possam colocar nos ombros de um adulto esse fardo.

Entretanto, os pais têm ignorado o que vêem e o que ouvem em nome da “privacidade” do filho, em nome de uma educação mais democrática e livre. Ora, ora, isso nada mais é do que um total abandono do filho e uma atitude descompromissada com a função educativa.
Escrito por Rosely Sayão às 11h28
São os pais que se colocam no lugar de desafiados
Os comentários que vocês postaram a respeito do castigo que se aplica em criança pequena e os desafios que eles fazem são bem interessantes e vou dialogar com eles. Mas, como são bem diversos, farei isso em várias partes. Hoje, escolhi o tema desafio. Alguns relutam em entender o olhar do filho como pedido de ajuda porque consideram que é puro desafio, luta de poder, teste de limites etc.

Bem, para falar a verdade, não sabemos o que eles querem dizer quando fazem isso. Nós é que damos uma interpretação a esse olhar, a essa atitude que eles tomam. Tanto pode ser desafio de fato, quanto pedido de socorro. O que importa, na verdade, é o sentido que os pais dão a isso.

Todos que têm filhos devem se lembrar do primeiro sorriso. Sorriso? Que nada! Trata-se apenas de um espasmo muscular que interpretamos como sorriso. E, como os pais são referência para o bebê, logo o espasmo – involuntário – ganha o valor de sorriso e passa a ser voluntário: surge na hora certa e com o objetivo claro de demonstrar carinho e agradar.

O mesmo se dá, portanto, com o olhar que a criança dirige aos pais quando está prestes a fazer uma travessura. Quando damos a ele o valor de desafio, de desobediência, de desacato, é esse o sentido que a criança tomará para si e será assim que ela irá encarar seu próprio comportamento.

O maior problema é que, ao darmos esse significado, arrancamos a criança pequena do universo infantil e a jogamos no mundo adulto. No momento em que identificamos o que ela faz desse modo, a colocamos em um lugar simétrico ao nosso. E acabou-se o que era doce, ou seja, a primeira infância.

E ela é tão curta, dura apenas seis anos! Bem que poderíamos ser mais pacientes e garantir às crianças um jeito de pesquisar e investigar o mundo e as relações de forma lúdica, característica principal dessa fase da vida, não é mesmo?

Alguns pais perguntaram: mas como impedir a criança? Simples: contendo-a fisicamente, ou seja, impedindo que ela faça o que não pode fazer e aceitando o fato de que ela tentará muitas, mas muitas vezes mesmo, antes de desistir.

Em tempo: Hoje, quarta-feira, a partir das 18h30min na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na av. Paulista, será o lançamento do meu mais novo livro, escrito em parceria com o prof. Julio Groppa Aquino. O título é “Família: modos de usar”. Quem quiser celebrar conosco, é nosso convidado.
Escrito por Rosely Sayão às 09h20
Acabou-se o que era doce
Outro dia, uma amiga que trabalha com educação infantil disse uma coisa que considerei terrível. Ela contou que sente pena das crianças pequenas porque se vestem como gente grande, conversam como adultos e são castigadas como se tivessem bem mais idade. Creio que perdemos a noção de como é que a criança com menos de seis anos se relaciona com os que a rodeiam e com o mundo, não sabemos mais nos comunicar com o universo infantil. Hoje vou, então, abordar apenas um desses pontos que ela mencionou: o castigo que os pais aplicam aos filhos dessa idade.

A primeira coisa a considerar é que a criança, para ser educada, precisa aprender a obedecer, certo? E como ela entende isso? Sendo levada a obedecer. Desse modo, o não só ganha valor de impedimento se, na prática, os adultos – em geral pais - de fato a impeçam de fazer o que foi a ela interditado.

Não basta falar, explicar, dar a ordem. Aliás, explicações em demasia só atrapalham. Nessa idade, elas entendem - e muito bem – o sentido do que os pais dizem. O que elas não conseguem ainda é controlar suas vontades e conter o corpo quando ele se encaminha para a transgressão. Então, são os pais que devem fazer isso por ela. Chamamos esse fenômeno de heteronomia, que é o oposto de autonomia.

Vamos tomar como exemplo uma situação típica: a criança pequena que, aprendendo a engatinhar, começa a explorar o ambiente da casa. Nessa investigação – que é situação de aprendizagem sempre – ela logo identifica algo que chama sua atenção. A tomada de força, por exemplo. Claro que ela vai querer tocar, colocar os dedinhos nos buracos sedutores. Os pais logo dizem que não, já que pode ser perigoso.

Uma ou duas indicações dos pais já são suficientes para que ela entenda que não deve fazer isso. Entretanto, não consegue se conter. Por isso, quando se encaminha em direção ao proibido, no meio do trajeto pára e dirige seu olhar aos pais. Estes, em geral traduzem esse olhar como desafio. Não é. É pedido de socorro para que os pais a impeçam de fazer o que ela está prestes a fazer.

Castigar uma criança pequena, que não consegue ainda ter autocontrole, nada mais é do que a mostra de nossa impotência perante ela, de nossa falta de compreensão a respeito do exercício da função educativa com filhos nessa idade ou de nossa falta de paciência com a árdua tarefa educativa.
Escrito por Rosely Sayão às 09h18