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Heranças de família

Recentemente, li um artigo sobre o caráter descartável de quase tudo na sociedade que enfatiza o consumo. Um trecho me chamou a atenção, porque o autor ressaltou uma perda significativa. Cada vez menos as pessoas deixam de herança aos filhos algum objeto de uso doméstico. Isso ocorre porque quase todos têm pouca durabilidade e também porque a moda é muito transitória.
Ele usou exemplos interessantes: até há pouco tempo, quase todas as famílias tinham algum móvel antigo que pertencera a algum antepassado -ou uma batedeira de bolo, uma máquina manual de moer carne etc. Lembrei-me de que tenho, em minha sala, um móvel antigo comprado por meu pai antes de eu nascer. Toda vez que passo por ele, lembro-me com carinho de meu pai, da minha infância e de seus ensinamentos. Sempre me emociono.
Mais do que decorar a casa, a função desses objetos é a de corporificar a história da família, lembrar às pessoas as suas origens. Pelo visto, as novas gerações não terão essa sorte.
Tal pensamento me fez associar a um outro: assim como os objetos de uso geral têm se tornado descartáveis, as tradições familiares têm se perdido. Corremos o risco de nos tornarmos uma geração de famílias anônimas: sem identidade própria, sem tradições nem costumes. Desse modo, tanto faz ter este ou aquele sobrenome.
Muitos pais têm desistido de transmitir aos filhos o que receberam de seus pais no convívio familiar: certos costumes de reuniões com parentes, de estilo de comemorar datas e presentear, de maneiras de encarar as dificuldades da vida e, principalmente, o valor de algumas atitudes. Tudo isso em nome da mudança dos tempos.
Um fato é verdadeiro: o mundo hoje é diferente do mundo em que esses pais foram criados, por isso parece que nada do que aprenderam com seus pais serve para a educação de seus filhos. Mas essa idéia tem um problema: o de que a história pode ser ignorada.
Isso significa, como um amigo gosta de dizer, que os pais precisam, a cada dia, na relação com os filhos, "inventar a roda, começar do zero". Isso torna tudo mais difícil, pois exige que os novos pais façam várias escolhas diariamente, e escolher é um processo complexo.
Tomemos um exemplo banal: a vida escolar dos filhos. Recebo, com regularidade, dúvidas dos pais sobre como proceder: acompanhar ou não as lições de casa, estudar ou não com os filhos, comparecer ou não às reuniões da escola, impor a leitura de tantos livros por mês ou não etc. O mais interessante é que, em quase todas as correspondências, eles dizem que, quando freqüentaram a escola, não tiveram esse tipo de ajuda dos pais.
A tradição de muitas famílias de delegar a responsabilidade escolar aos filhos tem se perdido, portanto. Por quê? Porque o êxito escolar hoje em dia tem sido muito mais valorizado.
Temos feito de tudo para dar aos filhos o que nossos pais não puderam nos dar, mas, ao mesmo tempo, temos negado ofertar a eles coisas importantes que herdamos. Talvez seja possível encontrar um equilíbrio nessa relação.
Escrito por Rosely Sayão às 13h48

Os medos dos filhos
Algumas mães escreveram pedindo orientação a respeito de como agir quando os filhos têm medo. Há crianças – todas com menos de seis anos – com medo de cachorro, de palhaço, de fantasma, do escuro, de cair etc. Há também dois casos de crianças com mais de oito anos com medo da morte e de fazer provas e, finalmente, um caso de uma adolescente que tem medo de sair de casa. Vamos, então, encarar o assunto.
O que é o medo? É um estado afetivo provocado pela consciência de um perigo. O medo é, portanto, uma defesa positiva. Quando uma criança sente medo de cair, é provável que ela tome cuidado quando estiver em lugares altos e andar em terrenos irregulares, por exemplo. Quando ela não tem tal medo, sua chance de se machucar é maior já que não reconhece, pelo medo, a situação de risco. digo isso para reafirmar que sentir medo não é negativo.
Quando a criança está na primeira infância, os medos que sente são diretamente ligados ao mundo em que ela vive com intensidade, que é o mundo imaginário. Por isso, sentir medo de palhaço, de fantasma e do escuro é muito comum nessa fase.
Eu tive a oportunidade de assistir uma cena muito interessante nesse sentido. Uma professora de educação infantil decidiu vestir-se de palhaço para contar uma história aos alunos que tinham por volta de três anos. Cuidadosa e bem conhecedora do risco de as crianças sentirem medo, decidiu fantasiar-se na frente delas: colocou a roupa e fez a maquilagem característica enquanto explicava tudo para elas. Após terminar o ritual, todas as crianças estavam tranqüilas, menos uma que passou a chorar desesperadamente. A professora tentou aproximar-se da garotinha para dizer que era a professora, mas ela não permitia. Aos berros, disse que o palhaço tinha engolido a professora e iria engolir todos os alunos também.
Apesar de a causa do medo da criança ser imaginário, o medo é bem real, por isso os pais não devem fazer pouco-caso da situação. O melhor é tentar buscar um equilíbrio entre não dar atenção ou dar atenção exagerada. A criança precisa saber que os pais a protegem e a sensação de segurança ajuda a superar, aos poucos, o medo.
Algumas dicas podem ajudar: não exigir que a criança tenha contato próximo com o objeto de seu medo – palhaço ou cachorro, por exemplo – deixar uma luz acesa na hora de dormir quando o medo é de escuro e garantir que os pais estão perto, entre outras. Vale também, com cuidado e progressivamente, encorajar a criança a superar os medos que podem ser vencidos porque isso fortalece a auto-imagem.
Em relação aos maiores de oito anos, é também comum o medo da morte, principalmente a dos pais. É nessa idade que, em geral, eles se defrontam com a morte real, por isso o medo. Aos poucos os pais podem oferecer a segurança necessária e possível para diminuir a sensação de impotência e solidão que a idéia de morte dos pais provoca na criança. O medo do fracasso nas provas tem sido também cada vez mais requente: é que hoje se valoriza mais o acerto do que a aprendizagem, o que é uma pena.
Por último, o medo que muitos adolescentes desenvolvem de sair de casa tem relação com a busca desesperada dos adultos pela segurança frente aos perigos reais e também com o novo corpo, com a busca de ser aceito e amado por seus pares, a insegurança de andar com as próprias pernas e de lidar com as questões do mundo adulto. Um bom acompanhamento dos pais ajuda muito, mas se o medo for paralisant, pode ser interessante a consulta a um profissional.
Escrito por Rosely Sayão às 17h47

Ser mãe hoje

Por que tantas mulheres desejaram ou desejam ser mãe? Afinal, essa tarefa é hoje bem mais do que complexa. Seu exercício exige um tanto de delicadeza que chega a provocar irritação e embaraço. É de difícil desenredo porque no exercício dela a mulher erra sempre, o que torna a tarefa um lance arriscado que faz suar. "Ser mãe é um osso duro de roer", disse-me certa vez uma jovem mulher, atrapalhada com seus dois filhos que não se cansavam de lhe causar cansaço.
A mulher que tem filhos, atualmente, tem de estar disposta a praticar um ato de quase heroísmo. É que não mais se trata de criar os filhos, educá-los e deixá-los viver. Há muitos percalços a enfrentar e superar.
Primeiro, é preciso assumir a vida pessoal com todo o rigor que a vida profissional impõe. Parece óbvio isso, mas é que a mulher passou tanto tempo como coadjuvante nos mundos social, econômico e do trabalho que, agora que alcançou condição de ser também personagem principal, deixa-se engolir por esses papéis facilmente. Ela faz de tudo para dar conta de afazeres profissionais: viaja, faz horas extras, leva trabalho para casa, participa de reuniões que avançam na madrugada, atende a chamados profissionais no celular a qualquer hora etc.
Tanta dedicação, cuja finalidade não é só a de sobreviver no mundo profissional tão competitivo mas também a de fazer carreira, suga a energia da mulher, que fica exausta ao fazer a passagem para sua vida pessoal. Além disso, como a linha divisória entre privacidade e vida pública tornou-se tênue, fica cada vez mais difícil resguardar a vida pessoal, ter prazer ao dedicar-se a ela. Os filhos, que são parte importante da vida pessoal, são mais facilmente confundidos com o trabalho que eles dão do que com condição de resgate de energia, conforto.
O antes chamado lar cada vez mais é só a casa para a mulher. Talvez ela tenha se ressentido de ser a "rainha do lar" por tanto tempo, por isso prefira casa. Acontece que, na casa, as pessoas moram juntas, mas é no lar que elas consolidam seus vínculos afetivos, protegem-se mutuamente e constroem um grupo de pertencimento.
Quando a mulher consegue harmonizar vida pessoal e profissional ainda precisa, ao se tornar mãe, rebelar-se contra ideais contemporâneos importantes. Deve, por exemplo, lutar contra a idéia de se manter jovem permanentemente. É que ser jovem não combina com ser mãe, porque cuidar de um outro exige maturidade. A mulher jovem não renuncia a um passeio, por exemplo -já a mãe, sim. Ela deve, igualmente, resistir com bravura a pensar de modo individualista, a priorizar seus impulsos.
Mesmo assim, muitas mulheres desejam ser mãe. Por quê? Talvez porque esse seja um modo de driblar a finitude da vida e os limites do tempo cronológico. Ao ter filhos, a mulher garante sua intervenção no futuro, colabora com sua construção e ainda garante vínculos afetivos duradouros, coisa rara hoje em dia.
Por isso, as mulheres que escolheram ter ou adotar filhos sabem que vale a pena ser mãe, no sentido mais exato da expressão
Escrito por Rosely Sayão às 14h32

Sobre a declaração de um professor na Bahia
Certamente, vocês souberam a respeito do coordenador de um curso de medicina da Bahia que, ao ser entrevistado a respeito da avaliação ruim do curso que dirigia, afirmou que a responsabilidade era dos alunos que, como baianos, apresentavam déficit intelectual. Além disso, atribuiu também parte da responsabilidade do mau desempenho da escola à política de cotas.
Pois bem: todos os que leram a matéria reprovaram o professor e o qualificaram como preconceituoso, acima de tudo. Por sinal, ele renunciou ao cargo e pediu desculpas públicas pelo que disse.
Esse fato, entretanto, pode muito bem servir para nos levar a uma reflexão já que a idéia expressa pelo professor tem amplitude bem maior do que parece. Na verdade, o que ele afirmou é um pensamento muito comum das escolas: elas sempre se consideram boas na educação que praticam e no ensino que ministram; ruins são os alunos, portanto, que não conseguem aproveitar o que elas oferecem. E isso não se restringe ao aprendizado, portanto à área cognitiva: refere-se também ao comportamento e às atitudes dos alunos.
É esse tipo de concepção que sustenta, por exemplo, tantos encaminhamentos especializados que a escola faz para seus alunos. É um tal de encaminhar alunos a tratamentos médico, psicológico, acompanhamento psicopedagógico, fonoaudiológico etc. que não tem fim. Isso sem falar da solicitação, aos pais, de aulas particulares. Por quê? Simples: porque tais alunos não conseguem aprender como deveriam – ou como a escola espera – ou porque não se comportam de modo adequado. Percebem, nessa questão, o mesmo pensamento do professor que proferiu a infeliz declaração?
Isso não significa que alguns – alguns! – alunos não se beneficiariam com algum tipo de acompanhamento ou tratamento, mas é prerrogativa dos pais tomarem a decisão. Afinal, ninguém é obrigado a considerar a psicoterapia, só para citar um exemplo, um instrumento eficaz para abordar determinadas dificuldades. Alguns pais preferem a homeopatia, outros a abordagem oriental etc. O que entra em jogo, nesses casos, são a cultura e a tradição familiar que a escola deve respeitar.
Essa concepção também é responsável pelo fato de a escola chamar os pais de muitos alunos para, além de “reclamar”, dar algumas orientações familiares. A escola espera que, ao intervir com os pais, o comportamento do aluno melhore no espaço escolar. A instituição, portanto, continua com a crença de que educa bem e, nesses casos, a família é que não o faz.
Creio que só esses dois aspectos levantados já nos permitem constatar que o que o professor de medicina da notícia referida fez nada mais foi do que dizer, em alto e bom som, o que a maioria das escolas pensa, mas não diz claramente: mostra nas entrelinhas de sua atuação.
Escrito por Rosely Sayão às 16h45

O excesso nas festas infantis

O ideal de consumo tem sido tão intenso em nossas vidas que, em alguns aspectos, pelo menos, ele supera nossa capacidade de análise crítica e até mesmo de bom senso. Vou hoje tomar um exemplo: as festas de aniversário dos filhos.
A esse respeito, uma amiga contou uma experiência bem interessante. O filho e a nora estavam planejando uma festa grandiosa para a neta que faria sete anos e, para tanto, pediram a ajuda financeira dela. Os pais queriam contratar um bufê infantil, convidar todos os colegas de série da escola, contratar um ônibus para levar as crianças para o local da festa e, ainda por cima, comprar um saco de quinquilharias para cada convidado. Isso sem falar do aluguel de alguns brinquedos.
Essa amiga, uma pessoa sensata, madura e que tem com a família uma relação de muita intimidade, recusou-se a participar do plano. Claro que ela gerou um enorme conflito com os familiares, mas, depois de muita discussão, conseguiu que seu filho e sua nora entendessem seu ponto de vista. Resultado: os pais da garota desistiram da festa e fizeram uma reunião familiar com a presença de poucos colegas de escola da menina -que, por sinal, adorou a comemoração. E é bom ressaltar que o plano inicial dos pais estava -garantiam eles- ancorado num pedido da filha e mirava à "felicidade" dela.
Ao ouvir a história, lembrei-me de ter lido uma reportagem publicada na Folha, no início de março, justamente a respeito dessas megafestas infantis que têm ocorrido com muita freqüência. O tom da reportagem era claramente crítico ao fazer referências aos excessivos valores pagos para transformar as festas em um grande espetáculo com direito a todo tipo de recurso possível, inclusive a presença de atores famosos, produções dignas de filmes e novelas etc. Em um canal pago de TV, assisti também a um programa feito nos EUA, chamado "Party Mamas", que mostrou, no mesmo tom crítico, todo tipo de excesso cometido por mães quando organizam festas para os filhos. Mas parece que os pais não se dão conta de seus exageros.
O pior é que até as escolas se tornam cúmplices nessa história: a maioria delas aceita trabalhar como auxiliar dos pais na empreitada e colabora organizando os alunos para que compareçam ao evento na saída da escola. Isso inclui distribuir os convites em horário de aula, receber as autorizações dos pais para a saída em transporte especial, acompanhar e verificar tudo até que a caravana siga para seu destino. Muito tempo e energia de educadores profissionais gastos de forma absolutamente inadequada. E não seria justamente a escola a instituição mais apropriada para discutir com os alunos o consumo consciente e cultivar valores humanos?
Esse tipo de celebração nada tem a ver com a criança, é bom saber. Ela até pode pedir e tentar seduzir os pais porque é vítima indefesa da indústria de consumo e porque costuma saber o que quer. Mas, como sempre digo, se o que ela quer faz bem ou não a ela, são os pais que devem saber. Que tipo de bem uma festa nesses moldes pode oferecer a uma criança?
Escrito por Rosely Sayão às 19h43

Sobre o andamento da vida escolar dos filhos
“Tenho um filho de seis anos, nascido em agosto de 2001. Ele está no 2º ano e acho que está com muita dificuldade escolar. Gostaria de saber qual atitude tomar: retornar para o 1º ano, ou fazer novamente o 2º ano? Você acha que devo mudar de escola para ele não se sentir mal perante os amigos por voltar ao 1º ano?”
Escolhi esta mensagem de uma internauta porque ela chegou ao mesmo tempo em que outros pais me trouxeram questões bem semelhantes. Entre todas, levantei dois pontos em comum: as crianças têm até seis anos e as escolas delegaram a decisão aos pais. Por isso, vamos pensar a respeito.
Primeiro, vamos considerar a Educação Infantil. Que história é essa de passar a criança do G4 – denominação que muitas escolas usam para o grupo de alunos de quatro anos – para o G5 ou reter? E olhem que os argumentos usados são vários: ele será o mais novo ou mais velho, mais maduro ou imaturo da turma etc.
Gente, isso é pura insanidade porque mostra um modo de pensar a educação infantil como se fosse uma preparação para o ensino fundamental. Não é.
Na educação infantil não deve haver outra preocupação do que a de oferecer às crianças oportunidades e materiais para que brinquem e aprendam com as brincadeiras. Aprendam o quê? Não sabemos, não controlamos, não importa. De modo resumido: elas aprendem um pouco sobre a vida, as relações com seus pares, com outros adultos que não os da família, as normas de convivência num espaço comum etc.
Além disso, qualquer criança pode mudar rapidamente num curto espaço de tempo nessa idade: o garotinho que parece um bebê, em menos de um mês pode se transformar num moleque, por exemplo. O contrário também vale: uma criança madura pode passar a ter comportamentos aparentemente já superados. Esse desenvolvimento não linear é característica dessa idade.
Para falar bem a verdade, depois dos três anos e antes dos seis, todas as crianças poderiam freqüentar a mesma turma. O mesmo pode-se dizer a respeito de antes dos três anos. Ou seja: não deveria existir essa “seriação” na educação infantil.
Agora, não é demais que a escola delegue aos pais a decisão de reter, voltar ou adiantar a vida escolar do aluno? Essa responsabilidade deve ser dela já que é a escola que se relaciona com o aluno. Os pais se relacionam com os filhos e, por mais difícil que seja aceitar isso quando falamos a respeito de crianças, é preciso reconhecer: somos diferentes quando ocupamos papéis diferentes.
Como o filho de nossa leitora está em pleno processo de alfabetização – não sei se a nomenclatura que ela usa considera a duração de oito ou nove anos no ensino fundamental – é bom ter paciência e encorajar o filho nos estudos. Muitas crianças se alfabetizam em três meses, outras em oito, e o processo pode durar até doais anos, o que é aceitável.
Par finalizar nossa reflexão, uma frase de Guimarães Rosa que está em “Grande Sertão: Veredas”:
“...mire, veja: o mais importante do mundo é isto; que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.”
Escrito por Rosely Sayão às 23h07

De olho no pódio

Os Jogos Olímpicos se aproximam e, por meio da imprensa, já temos notícias de atletas em fase final de preparação para alcançar medalhas, subir no pódio, quebrar recordes. Isso me fez lembrar de que, sempre que assisto a alguma competição esportiva, reconheço que esse é o lugar legítimo e adequado da competição.
Ao considerar nosso modo de vida atual, faço uma analogia: transformamos a vida em uma olimpíada permanente. A competição transpôs a fronteira do ramo esportivo e se instalou no nosso cotidiano.
Não é à toa que muitos esportistas ou treinadores bem-sucedidos são chamados para dar palestras em empresas. Afinal, eles são os maiores especialistas em competição, não é? Do mesmo modo, os atletas que triunfam são escolhidos para ser garotos-propaganda de muitas empresas, das quais poucas produzem artigos ligados ao ramo esportivo. "Use nosso produto e você será um vencedor!" é a mensagem.
Hoje, exigem-se um preparo técnico acurado e um treinamento contínuo, tanto na vida profissional quanto na pessoal. E não se trata apenas de conhecer e estudar seu ramo de atividade ou de se cuidar, e sim de se empenhar em estratégias que permitam, ou pelo menos prometam, sair na frente e chegar em primeiro lugar ou, pelo menos, entre os primeiros.
Competimos contra tudo e todos. Contra o tempo -e ainda acreditamos ser possível ganhar dele. Contra nossa constituição física, contra nossos pares, contra nossa vida coletiva, contra qualquer outro que se coloque à nossa frente em qualquer situação. Iniciamos nossos filhos precocemente nessa competição acirrada e acreditamos que tal iniciativa é absolutamente necessária para a sua sobrevivência no futuro. Não valorizamos mais a aprendizagem do jogo que é a vida desde a largada, e sim seu resultado, que só pode ser um: ganhar.
As escolas se apropriaram desse anseio dos pais e incrementam ainda mais a concorrência entre seus alunos. Os anunciados rankings de escolas baseados nos mais diferentes exames, os primeiros lugares conquistados nos vestibulares e as avaliações dos alunos, sempre comparativas, são exemplos dessa apropriação da competição pelo espaço escolar.
O sucesso, hoje, é definido principalmente pela competição, o que faz com que o processo de identificação com o outro ocorra de modo negativo. Ser melhor do que o outro, ganhar do outro ou então se resignar a ser inferior a ele. Desse modo, fica mais fácil entender o motivo de o outro ser quase sempre percebido como ameaça.
É preciso saber que essa olimpíada permanente tem seu preço. Sabemos o custo que os atletas pagam na busca da superação: contusões sérias, cirurgias precoces, interrupção da vida profissional muito cedo. Isso sem falar das conseqüências emocionais e sociais quando eles enfrentam a derrota ou saem do pódio. Arcamos com conseqüências análogas em nossas vidas quando transformadas nessa competição sem trégua: tédio, depressão, estresse, agressividade descontrolada, pânico etc.
Escrito por Rosely Sayão às 00h22

Pagamento de tarefas domésticas
Uma leitora contou que assistiu ao programa “Fantástico” do último domingo e foi ao ar uma reportagem a respeito de pagamento de tarefas domésticas aos filhos como uma estratégia para a agora chamada “educação financeira”. Ela quer saber minha opinião a respeito. Então, vamos lá.
Logo de início, quero esclarecer que minha posição é totalmente contrária a esse tipo de estratégia, e vou explicar os motivos.
As crianças precisam aprender, na prática, que fazem parte de um grupo – o familiar – e que isso significa que elas têm um lugar nesse grupo e que, portanto, devem contribuir para sua manutenção e dinâmica. É no fato de pertencer a uma família – o primeiro grupo social de sua vida – que a criança aprende a conviver, a cooperar, a respeitar, a dar valor ao grupo e não apenas a si. Do mesmo modo, aprende a cuidar de si e dos outros e a se comunicar com eficiência. Chamamos esse processo de socialização.
Pois bem: o fato de pertencer a uma família e participar ativamente de sua vida faz com que a criança perceba que isso acarreta em direitos e deveres de todos para com todos, não é verdade? Os pais têm seus deveres para com os filhos e a manutenção familiar quase que integralmente quando a criança é pequena, mas à medida que ela cresce eles devem passar a ela seus deveres também. Entre estes, está a contribuição com as tarefas domésticas para que a vida de todos flua melhor.
Claro que isso só pode ocorrer quando a criança passa a ter condições para tanto. Por exemplo: os menores de seis anos não podem ser responsabilizados pela organização de nada, inclusive de seus brinquedos. Para que aprendam a cooperar, eles devem ser chamados pelo adulto a ajudar na tarefa. Já a partir dos seis, mais ou menos, a equação deve ser invertida: a criança deve ser responsabilizada pela tarefa, mas precisa contar com a ajuda do adulto. É a partir dos 11, 12 anos, mais ou menos, que o filho pode fazer tudo que aprendeu antes sem a ajuda dos adultos, mas ainda com sua tutela, ou seja, orientação, cobrança etc.
Quando pagamos pelas tarefas que os filhos deveriam fazer como dever, a mensagem que passamos é a de que eles não têm obrigação de contribuir com a família e, portanto, só assumirão essa responsabilidade por interesse pessoal. Fica excluída a idéia de família como um grupo de pessoas interdependentes, não é?
Além disso, tal atitude por parte dos pais leva também o filho a valorizar mais os bens materiais do que as relações interpessoais. Outras coisas, além dessas, são ensinadas aos filhos ao se usar tal estratégia, mas por hoje ficaremos com essas. Esperarei as contribuições de vocês para, se for o caso, prosseguir com essa análise.
Que a semana seja boa para todos nós.
Escrito por Rosely Sayão às 13h04

A violência mora ao lado

Vivemos na cultura da violência, e tal fato afeta profundamente a formação dos mais novos. Todos os pais tomam medidas que miram à segurança dos filhos e transmitem, nas entrelinhas, lições nem sempre benéficas sobre a vida em comum. Muitos, por exemplo, não permitem que os filhos andem ou usem transporte público até a escola. Do mesmo modo, só deixam que eles freqüentem locais que consideram seguros, como clubes, festas em casa de colegas, shoppings etc.
O que os mais novos aprendem com isso? Que as pessoas que freqüentam esses locais são ou ameaçadoras, no caso dos impedimentos, ou amigáveis, no caso das autorizações. Pois um acontecimento que envolveu um grupo de adolescentes de classe média é exemplar para mostrar os equívocos cometidos com boas intenções -como quase sempre, é claro.
Um grupo de amigos, todos por volta dos 14 anos, encontrou-se num shopping de uma região nobre da cidade. Muitos pais autorizam que seus filhos façam tal programa por achar que lá eles estão seguros. Por quê? Porque os shoppings têm um serviço de segurança e porque os freqüentadores costumam ter o mesmo estilo de vida, pois pertencem ao mesmo grupo social.
Grande engano.
Em certo momento, o grupo foi abordado por outro grupo composto por jovens um pouco mais velhos. No confronto público, garotas e garotos foram humilhados, agredidos moral e fisicamente e obrigados a fazer coisas que não queriam.
O confronto tinha o objetivo de criar uma hierarquia social pelo uso da violência, ou seja, identificar quais eram os fortes e os fracos entre os que compartilhavam o mesmo espaço público. E atenção para um detalhe sério: muitos adultos estavam no entorno e nenhum deles tomou uma única atitude.
Que reflexões esse lamentável caso pode provocar? De largada, que a violência está tão banalizada que nem sempre percebemos que ela está instalada também no grupo social que freqüentamos e inclusive em nosso próprio comportamento. É a isso que chamamos cultura da violência, e cada um de nós tem suas responsabilidades em relação a ela.
Precisamos considerar, na educação familiar e na escolar, a importância da valorização da paz. Aliás, educar para a cidadania e para a paz são expressões muito utilizadas por pais e por educadores profissionais, mas carecem de sentido na prática.
Se hoje temos crianças e jovens que praticam violências cotidianamente é porque temos falhado nesse tipo de educação. A educação para a cidadania começa com alguns valores: os de justiça, solidariedade e respeito; a negociação pacífica de conflitos também deve ter lugar de realce. A escola do seu filho contempla, na prática cotidiana, essas questões? E na família, como agimos em relação a elas? Precisamos lembrar que é participando da vida familiar e escolar que os mais novos apreendem os princípios que norteiam nossa prática de vida.
E é por isso que repetem, a seu modo, certos comportamentos aprendidos ou não contidos.
Escrito por Rosely Sayão às 13h41

O Mundo Adulto em Miniatura
Li um artigo do Sérgio Dávila na Revista da Folha de 06/04 e que está publicado no blog - http://sergiodavila.blog.uol.com.br/ - que me levou a fazer algumas associações interessantes. No artigo, ele conta a tendência de, nos EUA, crianças serem acusadas de assédio sexual.
Cada vez mais, percebemos esse movimento, creio que global, de o mundo adulto tratar as questões da infância à sua moda. Isso significa tratar a criança como se ela fosse a miniatura do adulto.
Quais seriam as causas dessa tendência? Certamente devem ser várias, mas destaco uma delas, que nos interessa em nossas reflexões: a ocupação exagerada do adulto consigo mesmo e com seu mundo. Então, se a criança exige muito do adulto, a melhor maneira de evitar tal trabalho sem dúvida é fazer com que ela cresça rapidamente. E assim temos feito.
Aqui no Brasil, ainda não tenho conhecimento de casos em que crianças são acusadas formalmente de assédio sexual. Mas, conheço muitos professores que pensam de modo muito parecido quando crianças se tocam, se exploram mutuamente, procuram ver os genitais dos colegas etc.
Sei também de casos que ocorrem em escolas – como brigas, por exemplo - e que acabam na polícia. E não estou me referindo aos jovens que freqüentam o segundo ciclo do ensino fundamental ou mesmo o ensino médio e sim a crianças do primeiro ciclo do fundamental, portanto com menos de 10 anos. Quer dizer: no lugar da educação, colocamos a polícia. No lugar da dedicação, colocamos a omissão.
Essas são apenas algumas amostras das conseqüências que podemos ter ao tratar crianças como se elas tivessem todos os recursos que os adultos têm – e que muitas vezes não têm – como autonomia, autocontrole, domínio de seus impulsos socialmente inaceitáveis etc.
Recomendo, para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer, o livro “O Senhor das Moscas” ou o filme nele baseado, com o mesmo nome. Ele é magistral ao mostrar o que ocorre com crianças que convivem sem a intervenção dos adultos, ou o que ocorre no mundo adulto quando este se encontra infantilizado.
Aliás, tenho pensado muito nisso também: será que tratamos as crianças como adultos porque queremos o lugar de criança para nós?
Escrito por Rosely Sayão às 12h03

Tragédias na mídia

Nas últimas semanas, temos sido bombardeados, por todas as mídias, por notícias que revelam violências contra crianças praticadas possivelmente por adultos próximos a elas. É uma criança torturada aqui, outra ali, outra que morre lá e assim por diante. E não podemos esquecer que as crianças, hoje, têm acesso a todos os veículos de comunicação e recebem essas informações.
Que sentidos elas dão a esses fatos? Tomemos dois exemplos que chegaram a mim. Uma criança, de oito anos, perguntou à mãe se o pai poderia matá-la quando ficasse muito bravo. Outra, um pouco mais nova, perguntou se iria ficar de mãos amarradas quando fosse ao castigo. Certamente, muitos leitores devem ter passado por experiências semelhantes com seus filhos e seus alunos.
As crianças estão angustiadas com tais notícias porque identificam nelas que os adultos próximos, ao invés de de protetores, podem ser ameaçadores. Justamente aqueles em quem elas depositam a maior confiança se revelam, nas notícias, suspeitos de agir de modo contrário. E agora?
Agora, mais uma parte da infância de nossas crianças fica comprometida, fato cada vez mais banal. Mas será que não se pode fazer nada? Sim, podemos e devemos fazer algo por elas, que, sozinhas, não conseguem entender e expressar toda a angústia que as invade.
A maioria das escolas costuma ignorar o fato de que seus alunos sabem dessas notícias e continuam seus trabalhos como se nada de excepcional ocorresse. Pois todas elas têm recursos para, de alguma maneira, tratar dessas questões. É um bom momento, por exemplo, para oferecer aos alunos, nas aulas de expressão artística, estratégias para dar forma ao que eles imaginam, sentem e pensam sobre tais fatos.
O simples fato de colocar de modo simbólico sentimentos e angústias já aponta pistas sobre outras formas de trabalhar o tema. Depois, é importante que se fale a respeito, sem psicologismos nem interpretações leigas, para que, coletivamente, eles se sintam acolhidos em suas preocupações e aprendam sobre os direitos das crianças e dos adolescentes e os valores sociais da justiça e da responsabilidade com o bem comum.
Para os pais, esse é um bom momento para oferecer aos filhos mais segurança em relação aos vínculos familiares e dar maior relevância aos valores morais e éticos. É muito importante, por exemplo, afirmar que a família ama e respeita a vida, que nenhuma violência deve ser aceita pelos integrantes do grupo familiar, que casos como os noticiados são exceções -apesar de tanto alarde-, que os impulsos agressivos podem ser controlados e, também, estabelecer um diálogo a respeito das opiniões dos pais e dos filhos sobre esses fatos.
Todas as tragédias servem para nos fazer refletir sobre a humanidade e o nosso cotidiano. Por isso, é importante que os adultos pensem a respeito das pequenas violências, simbólicas ou reais, que o mundo adulto comete contra os mais novos. Afinal: nossas posições demonstram que somos a fim deles ou que estamos mais para ser o fim deles?
Escrito por Rosely Sayão às 13h21

Cuidados com a saúde dos filhos adolescentes
“Tenho 14 anos e faço 15 este ano; comecei a me envolver com mulheres a partir dos 12,13 anos e transei a primeira vez com 12 anos, sendo que a mulher tinha 21. Depois disso, demorou um tempo até eu me envolver com a mesma mulher. Não transei com mais nenhuma mulher e só fiquei me masturbando e algumas pessoas falam que o peito cresce quando o homem se masturba. E é o que está acontecendo: meu peito está igual a um peito de garota e eu estou muito preocupado com isso, pois sou alvo de chacotas. Peço a vocês que me ajudem, por favor: preciso saber se isso tem algum tipo de tratamento e qual tipo de médico devo consultar. Isso me constrange muito, pois não posso tirar a camisa perto de meus colegas, não posso ir a clubes ou freqüentar praia por causa de meus peitos tão grandes.”
Já comentei com vocês que muitos adolescentes freqüentam o nosso blog e enviam perguntas. A mensagem acima me chamou muito a atenção e decidi comentá-la porque isso pode ajudar nosso jovem leitor e os pais que têm filhos adolescentes.
Primeiro, é importante saber que a primeira experiência sexual vem ocorrendo cada vez mais cedo. Isso deve servir de alerta aos pais, já que conheço muitos que não acreditam que o filho ou a filha, nessa idade, possa ter esse tipo de vivência. Temos a tendência a achar que isso só acontece com os filhos dos outros, não é verdade?
E por que os pais precisam saber disso? Para tomar ciência de que esse fato demanda mais cuidados, mais orientações e mais conversas com os filhos, e não apenas sobre a sexualidade, mas também sobre afetos, comprometimento e respeito consigo mesmo e com os outros. É preciso considerar que este nosso tempo demanda uma educação afetiva também. Falaremos disso em outra oportunidade.
Hoje, quero ressaltar o sofrimento dos jovens com as rápidas mudanças do corpo que ocorrem nessa idade. Vejam que o acesso à informação não basta: certamente nosso jovem leitor teria a possibilidade de encontrar facilmente – inclusive na internet – a explicação de que o crescimento das mamas nos meninos não tem relação alguma com a masturbação. Acontece que ele precisa é de alguém que respeite como autoridade no assunto e, nesse caso, uma consulta com um médico especializado ajudaria muito.
Quando nossos filhos nascem, temos o hábito de levá-lo ao médico pediatra com regularidade para checar e aplicar as vacinas necessárias, acompanhar o desenvolvimento do organismo e suas adaptações etc. Pois o adolescente precisa do mesmo e isso é importante inclusive para que ele passe a assumir o cuidado com a própria saúde, que chamamos de autocuidado.
Como o desenvolvimento nessa fase da vida é peculiar, há uma especialidade da medicina dedicada ao atendimento dos adolescentes chamada hebiatria. Muita gente ainda não conhece essa especialidade e leva os filhos adolescentes ao pediatra ou a um clínico geral de adultos. O jovem pode ficar pouco à vontade ao se consultar com um médico cuja especialidade é o atendimento de crianças, não é verdade? Por isso, levar o filho logo no início da puberdade – o que tem ocorrido perto dos 11 anos – a um hebiatra e deixar que os dois se entendam sozinhos pode ser uma boa atitude dos pais já que colabora para o bem-estar dos filhos e também no processo da conquista de autonomia deles.
Farei, em breve, uma entrevista com um hebiatra para que os pais conheçam melhor esse ramo da medicina.
PS: a área de tecnologia do UOL já está verificando o problema que vocês relatam. Espero que seja resolvido brevemente!
Escrito por Rosely Sayão às 09h43

A sociedade do espetáculo
"BEM-VINDA à nossa comunidade!". Essa saudação me foi dirigida logo na porta de entrada da Paróquia Nossa Senhora da Candelária por uma senhora que trajava uma camiseta que a identificava como integrante do grupo deapoio da igreja.
Às 19h, o local já estava lotado de pessoas vestidas com simplicidade, muitas com camiseta com a foto de Isabella. Mal consegui dar dois passos para entrar e assistir à missa de sétimo dia dedicada a Isabella e outras cinco pessoas. O ar estava abafado apesar de, lá fora, estar frio. Fiquei na porta.
Perguntei à senhora que me recebera se ela conhecia a maioria das pessoas que lá chegara. Ela respondeu que não, que cerca de metade delas freqüenta a igreja, mas que, com o anúncio da missa pela TV, muitos vizinhos haviam ido para lá para, quem sabe, "ter a chance de aparecer nos canais de TV que estão aí" -jornalistas de rádio, emissoras de TV e da imprensa estavam lá em peso.
O padre começa a missa pontualmente, não sem antes exigir que todos da mídia se concentrassem no local reservado. Pelo lado de fora da igreja, cheguei à frente. De lá, vi o altar repleto com crianças que brincavam, corriam, conversavam. Pais as fotografavam.
Passei a sentir um mal-estar. Olhava para o público e não identificava expressões visíveis de dor, sofrimento, indignação, espanto. Foi mais resignação o que vi estampado nos rostos presentes. Alguns choram silenciosamente. Os demais cantam, batem palmas, oram.
A comunhão ocorre enquanto uma jornalista escova os cabelos e ensaia a entrada que fará ao vivo. Cerca de oito metros atrás dela está a mãe de Isabella, logo na primeira fila. Terminada a comunhão, a repórter celebra com a "câmara-woman" o êxito de sua participação no noticiário da emissora.
Assim que o padre termina a missa, todos os jornalistas com suas câmaras, microfones, telefones celulares ligados e luzes fortes correm e rodeiam a mãe de Isabella. De longe, me coloco no lugar dela, aprisionada pela sociedade do espetáculo a qualquer custo, e me entristeço.
Saio carregando meu mal-estar, minha tristeza e a idéia de que o sofrimento de nossa gente é tamanho que talvez nem seja possível sofrer mais quando ocorre uma tragédia. Tempos desumanos e de barbárie este que vivemos, não?
PS: Fui à missa a pedido da Folha para escrever este depoimento, que foi publicado hoje no caderno Cotidiano.
Escrito por Rosely Sayão às 11h41

Comunicação com os filhos

Um fenômeno bem interessante tem ocorrido nas relações entre pais e filhos. Trata-se da dificuldade que muitos pais experimentam para conversar com os filhos sobre alguns fatos da vida deles -fenômeno que ocorre principalmente a partir da adolescência.
Primeiro, vamos entender como essa comunicação ocorre no início da vida das crianças. Alguns pais conversam com seus filhos pequenos como se eles já fossem adultos. Isso significa ignorar que eles têm uma visão especial do mundo, que é fantástica e imaginativa. A fala dos adultos, racional e objetiva, é mais um fator a arrancar a infância das crianças. Assim, muitas crianças pequenas são obrigadas a enfrentar conversas cheias de detalhes do universo adulto que não entendem ou entendem de modo muito peculiar. Só para exemplificar: pais que se separam, cheios de boas intenções, tentam explicar os motivos do rompimento e terminam por expor detalhes do relacionamento que a criança não deveria saber. Um garoto de quatro anos, ao ouvir uma história de fadas, comentou que o pai não morava mais com a mãe porque este havia sido enfeitiçado por uma bruxa e era prisioneiro dela. Esse é o mundo infantil, é assim que a criança tenta entender o que ocorre à sua volta.
Bem, os filhos crescem e, aos poucos, passam a se relacionar com o mundo como adultos. É uma aprendizagem, por isso precisam da orientação dos pais. É aí que a coisa pega, porque muitos pais criam um conflito: deixam que os filhos tenham vida de gente grande, mas se comunicam com eles como se eles fossem crianças.
Vejamos alguns exemplos. Uma mãe soube, pela amiga da filha, que ela havia experimentado maconha e não teve coragem de abordar o assunto com a garota. Outra mãe constatou que o filho trazia da escola objetos que não eram dele e optou por levar o menino, de 13 anos, para um tratamento psicológico porque não conseguiu falar com ele sobre o tema. Um casal viu, num site de relacionamentos, que o filho se referia às mulheres de modo preconceituoso e ofensivo, mas preferiu não dizer nada ao filho.
Nos casos citados, os pais ficaram melindrados para conversar com os filhos. E, em todos eles, os adolescentes já tinham condições de enfrentar um diálogo franco e arcar com as conseqüências de seus atos.
Aliás, todos eles precisavam da orientação dos pais, não é? Os filhos têm o direito de saber o que os pais sabem sobre a vida deles e também o de ouvir a opinião dos pais sobre o que fazem e como vivem. Só tendo uma relação transparente com seus responsáveis eles aprenderão a agir da mesma maneira na própria vida. Afinal, o que se opõe à conversa franca e aberta com o maior interessado, que é quem toma determinada atitude, é a fofoca, não é?
Escrito por Rosely Sayão às 11h51

Criança precisa de oportunidades para brincar
“Meu filho tem dois anos e meio e não fala, chora para tudo, ao levá-lo no parquinho ele não quer saber de aprender a ficar nos brinquedos, não sobe em triciclos, etc. Eu acho que ele fica muito tempo na frente da TV. Seria o caso de colocá-lo na escolinha? Já marquei uma consulta em um médico para saber se há problemas.”
Uma freqüentadora aqui do blog enviou a questão acima que merece nossa colaboração.
Bem, a primeira coisa que ela nos diz é que sabe que o filho passa muito tempo vendo TV, o que pode atrapalhar a vida da criança. Não podemos deixar de reconhecer que a televisão é hipnótica para a criançada e faz com que elas passem horas e horas sem querer fazer outra coisa. Vale lembrar que a criança brasileira é uma das que mais horas de televisão assiste, não é?
Então, a primeira coisa a fazer é tirar esse recurso dele. Como ele já está bastante acostumado, talvez seja melhor tirar aos poucos, ou seja, limitar o tempo da TV ligada um tanto por vez. Mas, como o comportamento humano é imprevisível, não custa tentar tirar de uma vez só e ver o que acontece.
Por que será que o garoto não quer brincar? Arrisco alguns palpites: porque ele não sabe e aprender é angustiante; porque aprendeu a viver passivamente e brincar requer atitude, ação, decisão; porque isso ainda não faz parte do mundo dele, ele não reconhece o prazer e a satisfação que provoca.
Então, o que nossa leitora deve fazer é oferecer mais oportunidades para que ele brinque em casa, ambiente que ele conhece como aconchegante e seguro antes de partir para os brinquedos do parque. Oferecer oportunidade para brincar é simples e nem requer brinquedos. Aliás, melhor não ter brinquedo com função e forma já estruturadas: água em balde ou bacia e vários vasilhames de tamanhos diferentes, barro, tampas de panela, enfim, quaisquer objetos que não ofereçam risco para uma criança dessa idade.
É assim que a criança coloca em ato sua imaginação e inventividade e amplia seus horizontes e sua relação com o mundo: brincando.
Quanto ao fato de chorar e não falar é importante que as mães saibam que esse tipo de comportamento é um recurso que a criança aprende nessa idade, ou seja, de alguma maneira o choro dele provoca as reações que ele demanda, então chorar passa a ser um bom negócio, não é verdade?
Criança pequena exige muita paciência dos pais e dos adultos que com ele convivem e para isso é preciso ser incansável, sensível e ter muita disponibilidade interna. Por isso, toda a força para nossa colega deste espaço virtual.
PS: não sei se vocês exploraram o portal de curtas que indiquei abaixo. Vale a pena porque tem muita coisa boa. Há, por exemplo, um curta chamado “A velha a fiar”, que é uma canção chamada acumulativa porque a cada estrofe um elemento novo é adicionado. O vídeo é feito em preto e branco – ótimo para criança pequena – e tem uma estética que não retrata nossa realidade urbana, o que em geral chama muito a atenção da criançada. Recomendo para nossa leitora e seu filho.
Escrito por Rosely Sayão às 17h59
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