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Escrito por Interacao às 12h53

Jovens perdidos sem GPS

Um jovem me disse que se considera um consumidor voraz e dependente da tecnologia portátil. Ele conta que aonde vai carrega seu arsenal: telefone celular com múltiplas funções, tocador de músicas, Gameboy, acessórios, diversos pen drives, GPS etc. Está permanentemente conectado à internet e envia e recebe centenas de mensagens eletrônicas por dia, sem contar o uso de programas de comunicação por imagem e voz. Ao final, ele se perguntou se o uso de tanta tecnologia facilita sua vida ou se a torna mais complexa. A presença da tecnologia em nossas vidas modificou nossa maneira de conduzir muitas questões. São poucas as pessoas que poderiam viver sem seu celular para falar várias vezes ao dia com a mesma pessoa. As crianças e os adolescentes, por exemplo, não precisam ficar horas sem comunicação com os pais -que sempre atendem a seus telefonemas no celular. O motivo das ligações? Os filhos querem saber o horário em que os pais devem chegar, reclamar de seus cuidadores, saber o que comerão no jantar e outros assuntos corriqueiros. Uma mãe reclamou do número enorme de telefonemas diários dos filhos e eu lhe perguntei por que os atendia. Ela disse que sempre temia que fosse algo urgente, só que isso nunca havia acontecido. Mas a tecnologia se entranhou tanto em nossas vidas que agora não apenas a usamos como também, tão influenciados por ela, a imitamos.Vamos considerar a relação que os pais têm com os filhos. Algumas décadas atrás, era consenso que educar significava mostrar aos filhos como é a vida e dar a eles algumas direções a serem seguidas, pelo menos temporariamente. Os pais eram a bússola dos filhos. Apontar sempre a direção a seguir -a do grupo familiar- era a função que exerciam. Os valores, princípios morais, costumes, tradições e virtudes que a família priorizava eram a direção. Ao chegar à maturidade, com autonomia e conhecedores do norte familiar, os filhos poderiam escolher que direção seguir. Pois bem: o mundo mudou, e a relação dos pais com seus filhos também. Hoje, não basta ensinar a respeito da vida. Os pais querem ensinar aos filhos como eles devem viver. De bússola dos filhos, os pais passaram a ser seu GPS. Esse aparelho, que hoje tanta gente usa, não fornece apenas orientação; é principalmente um sistema de navegação que informa trajetos ponto a ponto. E mais: também mostra como sair de um trânsito pesado, por exemplo, e como evitar determinadas vias. O GPS resolve todos os problemas de quem transita pelas caóticas cidades em que vivemos. Se você pensar bem, tem sido essa a atuação dos pais. Não há dúvida de que, para os filhos, a situação é bem confortável. Entretanto, há um problema. Quando o sistema deixa de funcionar ou é desligado, deixa seu usuário completamente desorientado se ele não conhecer o local onde está e aonde quer ir. Talvez essa seja uma das causas da adolescência estendida: os jovens ficam andando em círculos e perdidos sem o GPS.
Escrito por Rosely Sayão às 15h06

Aprender a conviver

Um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), publicado na última semana, concluiu que o professor perde muito tempo para manter a ordem em sala de aula. Isso não é novidade para quem trabalha em escola, já que a indisciplina é um dos fatores que mais estorvam o ensino de qualidade. Suas causas são diversas. Em geral, a ausência da intervenção familiar e algumas características do próprio aluno ganham lugar de destaque ao analisarmos o fenômeno na escola. Vamos pensar a respeito do papel dos pais nessa questão. A falta de limites na educação familiar tem sido um bordão utilizado por especialistas de diversas áreas para explicar o comportamento ruidoso, incivilizado, transgressor e, por vezes, violento dos alunos em sala de aula. Mas devemos mudar o foco da discussão, já que esse não tem ajudado quase nada. Podemos pensar, por exemplo, em como tem ocorrido a socialização de nossas crianças. Cabe aos pais iniciar esse processo: ensinar o filho a falar, a vestir-se, a alimentar-se, a cuidar de seu corpo, por exemplo, são partes fundamentais. Entretanto, nada disso ganha sentido se não ocorre no grupo familiar e com ele. É preciso que a socialização seja coletiva, portanto, mesmo que no âmbito privado. Por exemplo: o ato de falar. Não basta que os pais ensinem a criança a nomear e a pronunciar as palavras corretamente para se expressar. É preciso que ela aprenda a se comunicar, ou seja, a usar a fala na relação com os outros. Os pais precisam ensinar a criança a se comunicar com a família. "Espere sua vez para falar", "Não interrompa sua mãe" e "Fale mais baixo" são exemplos de frases que ajudam a criança, desde pequena, a usar a fala de modo social e dialógico, ou seja, considerando os outros com quem interage e o grupo em que vive. O mesmo vale para o andar, o alimentar-se... Entretanto, temos hoje dois fatores que atrapalham situações que favoreçam esses tipos de intervenção. O centro das famílias passou a ser lugar ocupado pelos filhos e, por isso, os pais priorizam o que eles fazem. Calam-se quando eles falam, acham natural que corram em ambientes fechados, que se alimentem a qualquer hora, não chamam a atenção quando eles tomam atitudes inadequadas na frente dos outros. Mais do que deixar de colocar limites, muitos pais acatam o comportamento dos filhos. O segundo motivo é que, cada vez menos, as famílias se reúnem para uma refeição ou compartilham períodos juntos. A casa tornou-se um ambiente em que cada integrante da família tem sua própria vida. O individual superou o coletivo também no interior da família. Por isso, muitas crianças chegam à escola sem saber como estar com os pares, com os adultos e no grupo e lá precisam aprender quase tudo. Essa é nossa realidade. Por fim: os professores não "perdem" tempo quando colocam ordem na sala de aula. Criar a ambiência positiva para o ensino é parte integrante da aula, afinal.
Escrito por Rosely Sayão às 01h02

Jovens abandonados
Na segunda-feira, por volta das 19 h, eu estava no trânsito que, como sabemos, anda quase parado em São Paulo. Essa situação permite que cada motorista ou passageiro acompanhe por um período o que se passa nos carros que estão no seu entorno. Ao lado do táxi em que eu estava parou um carro com um casal que não tinha mais de 20 anos. O rapaz, que dirigia, estava com uma lata de cerveja nas mãos. Como se ele estivesse em sua casa ele namorava – a garota estava deitada no banco ao lado – bebia e começava tudo novamente. A lata de cerveja que ele tinha nas mãos não era dessa comum, pequena. Era uma bem maior e acho que já vi desse tipo em supermercados. No mesmo dia também li nos jornais a notícia de que uma jovem de 21 anos, estudante de medicina, morreu em uma festa regada à bebida e drogas. A moda, agora, é cheirar um gás usado em isqueiros chamado gás de buzina. Pelo que li, o efeito é alucinógeno. Juntei as duas coisas e me lembrei de um livro que li pesquisador e professor Yves de La Taille. O título já diz muita coisa: “Formação Ética – Do Tédio ao Respeito de Si” que, por sinal, eu recomendo. Ele fala que temos deixado as crianças e os jovens à mercê da cultura da vaidade, do tédio, da busca do prazer, da superficialidade e do vazio. Temos cuidado da nova geração – principalmente a classe média - no sentido de oferecer segurança, boas escolas, provisões necessárias etc. Entretanto, pouco temos feito no sentido da formação ética e moral. Na adolescência, deveríamos acompanhá-los na busca dos sentidos de viver principalmente no plano ético, ou seja, na procura da vida boa com e para os outros. Creio que temos falhado com os jovens e eles têm sofrido de um mal-estar na vida com sérias conseqüências: bebidas e outras drogas em demasia, depressão, tentativa de suicídio etc. Já temos sinais suficientes que mostram que devemos mudar nossa conduta em relação a eles para honrar essa nova geração que colocamos no mundo, não é verdade?
Escrito por Rosely Sayão às 16h44

Excesso ou falta de proteção

Muitas mães têm se tornado inconvenientes quando procuram proteger seus filhos: chamam a atenção das mães dos colegas deles, dão broncas nos professores, são rudes com parentes que interagem com seus rebentos etc. É claro que as crianças precisam da proteção dos adultos, porque sem ela não têm condições de viver bem. A mãe é a primeira a exercer essa função: alimenta o filho, cuida de seu bem-estar, evita que se coloque em situação de risco. Quando ele ainda é um bebê, a função de proteção não provoca dúvidas. O problema aparece quando a criança começa a crescer. Sabemos que o mundo adulto tem muitas facetas que, para a criança, são hostis e provocam medo, insegurança e angústia. É que ela ainda não tem recursos para fazer frente a muitas questões que nós, adultos, enfrentamos, mesmo com dificuldade. Recentemente, por exemplo, um acidente aéreo fez com que muitas famílias decidissem cancelar as férias porque os filhos ficaram com medo de avião. Muitos adultos também ficaram receosos, mas viajam assim mesmo se precisam. A criança precisa, portanto, ser protegida do mundo adulto. Precisa que seus pais a protejam do excesso de atividades, de estímulos que apelam para o erotismo e o consumismo, de informações detalhadas sobre crimes, guerras, corrupção e até de si mesma. Por ainda não ter desenvolvido seu mecanismo de autocontrole, precisa contar com o bom senso dos pais para ser contida em alguns de seus impulsos. As crianças sabem muito bem o que querem, mas ainda não sabem se podem ou devem ter ou fazer o que querem. Cabe aos pais essa decisão. Conter a criança é protegê-la. Nem sempre damos esse tipo de proteção às nossas crianças, não é verdade? Em compensação, muitas mães levam às últimas consequências a tentativa de proteger seus filhos das coisas inevitáveis da vida. É coisa de criança, por exemplo, estranhar-se com seus pares, reclamar de suas obrigações escolares, considerar injustas as pequenas sanções que sofre dos professores etc. E a primeira atitude que ela toma é justamente pedir proteção. Mas nem sempre a mãe deve interferir. Se os pais confiam na escola que o filho frequenta, devem apenas encorajá-lo a procurar a ajuda dos professores e falar diretamente com eles a respeito dos problemas que lá enfrenta. Sempre que os pais interferem diretamente, colaboram para que o filho se recuse a crescer e mantenha a ideia de que não tem condições de encarar as dificuldades. Mesmo quando a mãe considera que o problema que o filho diz enfrentar na escola merece uma intervenção, ela deve ser feita diretamente com os responsáveis da escola, e não com outras mães, porque isso pode criar problemas e situações constrangedoras. Andamos atrapalhados com o conceito de proteção à infância: nem sempre oferecemos o necessário e muitas vezes cuidamos do que não é preciso. Desse modo, a ideia de crescer fica confusa para a criança.
Escrito por Rosely Sayão às 14h06

Festa do Farol
Semana passada a mãe de uma garota de 12 anos me ligou e perguntou se eu tinha conhecimento de uma festa chamada “Festa do Farol”. Ela me explicou que a filha pedira para ir a com amigas de mesma idade a uma festa desse tipo em um clube, dedicada a adolescentes, mas que teria de comprar uma roupa vermelha para ir. A cor da roupa, segundo a garota explicou à mãe, tinha relação com a disponibilidade ou indisponibilidade para ficar com garotos, vejam só! Fui pesquisar e entendi que tal tipo de festa começou com a distribuição de pulseirinhas na entrada: quem colocava pulseira verde se colocava disponível para encontrar companhia e quem colocava vermelha sinalizava que já era comprometido. Só que essas festas eram destinadas a jovens maiores, claro. O nome “farol” tem relação com o semáforo e suas cores. Coisa de paulistano, não é mesmo? A história foi ficando cada vez mais sofisticadas e as cores aumentando: agora, já tem cor para sinalizar quem quer ficar sem nenhuma restrição, quem quer ficar, mas com algumas condições etc. e nem sempre há pulseirinha e sim roupa, como no caso da festa no clube que a garota queria ir. Entrei então no site do clube e a única referência era a de uma festa para adolescentes de 12 a 18 anos. O restante, ou tinha caráter informal ou era invenção da garotada mesmo. Bem: depois de entender a história liguei de volta para a mãe que, precavida, já havia ligado no clube para obter maiores informações e estava indignada. Primeiro, porque quem atendeu informou que se o adolescente tivesse 11 ou 10 anos mas fosse grande, eles deixariam entrar. Segundo, porque o horário seria até as 24h. Além disso, ela ligara também para outras mães das amigas da filha que, incautas, simplesmente deram permissão para as filhas irem à tal festa, desde que alguma mãe levasse e buscasse, claro. Resultado: a mãe não deixou a filha ir à festa. Essa história me fez pensar em duas coisas. Primeira: será que ir a uma festa desse tipo, aos 12, 13 ou mesmo 14 anos, não é um risco? Explico: no início da adolescência tudo o que a garotada procura é estar em um grupo e ainda é difícil se relacionar com as diferenças. Desse modo, muitos deles – delas, principalmente - podem fazer coisas que, mais tarde, pode provocar arrependimento numa festa dessas. Segunda: nosso tempo estimula o agir pelo impulso e o descartável e até mesmo as relações pessoais ganharam esse caráter. Para quem já nasceu nessa cultura e vai iniciar uma aproximação mais íntima com seus pares, esse tipo de festa só serve para acentuar ainda mais tais valores. Não tenho nada contra a idéia de “ficar” dos adolescentes. Considero adequado que as primeiras aproximações aconteçam assim mesmo. O que me incomoda é institucionalizar isso – o que esse tipo de festa faz – e estender até a vida adulta esse modo de estar com o outro e, ao mesmo tempo, não estar com ninguém. Aliás, um trecho de música diz assim mesmo: “...eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também...”. O problema é que eles não sabem – não aprendem a - namorar... Que solidão!
Escrito por Rosely Sayão às 17h17

Autoridade e medo

Uma notícia publicada em jornais chamou a atenção de uma leitora. O Tribunal de Justiça do Rio decidiu que uma menina receberá aproximadamente R$ 7.000 de indenização por ter sido retirada da sala de aula em dia de prova. O motivo? Estava sem uniforme. O que a leitora questiona é se a Justiça não está desqualificando a autoridade da escola e, dessa maneira, acentuando ainda mais as já existentes atitudes de desrespeito ao espaço escolar.
Ela tem uma filha que cursa a 6ª série em uma escola em que o diretor vai implantar o uso do uniforme. O problema é que os alunos não aceitam a ideia e o diretor aguarda a adesão deles à proposta, já que não quer fazer uma imposição. E nossa leitora reclama porque, para ela, algumas coisas devem ser, simplesmente, acatadas.
Para ela, o uso do uniforme é um desses casos, já que os alunos realizam um verdadeiro desfile de moda na escola por conta do consumismo. A reflexão de nossa leitora é a respeito do enfraquecimento da autoridade da família e da escola.
Em primeiro lugar, vamos lembrar que muitas atitudes de transgressão que os alunos cometem na escola são provocadas pela própria instituição. No caso da aluna que receberá a indenização, por exemplo, a explicação dada para não usar o uniforme é que não havia um disponível no tamanho dela.
No caso da escola que a filha de nossa leitora frequenta, apesar de o uso ser obrigatório segundo o caderno de normas e procedimentos distribuído no início do ano, a própria escola abriu o precedente, já que não havia uniforme para todos. Depois de um tempo indo às aulas com roupas casuais, os alunos não aceitam a mudança.
Pode haver ou não uma boa justificativa para o uso do uniforme. Uma delas é a citada pela leitora: evitar que os alunos usem e abusem das roupas para excluir colegas, zombar deles, fazer desfiles de grifes. Mas não basta decretar o uso e esperar que todos respeitem a norma. É preciso trabalhar para que ela seja cumprida.
Acontece que as escolas guardam a ideia obsoleta de que a punição é a melhor medida em educação. Quando alunos comparecem sem uniforme, são impedidos de frequentar as aulas. Mas, se o objetivo da escola é que o aluno aprenda e se, para tanto, precisa estar nas aulas, tal medida é equivocada. Por que não deixar algumas peças na secretaria e emprestá-las aos que vão sem uniforme? Essa e outras medidas podem ter caráter educativo.
Muitas escolas evitam, também, desagradar a seus alunos. Ora, mas educar não implica, necessariamente, desagradar? A criança quer brincar, mas precisa estudar; quer se distrair, mas precisa aprender a se concentrar; quer atenção exclusiva, mas precisa conviver e compartilhar; quer dormir, mas precisa acordar etc.
Inicialmente, a criança permite ser educada por medo de deixar de ser amada pelos pais. Mas, pelo jeito, hoje o medo é dos adultos: os pais temem perder o amor dos filhos, as escolas temem perder seus alunos...
Com medo, não dá mesmo para exercer a autoridade e, sem ela, não dá para educar.
Escrito por Rosely Sayão às 13h58

Conflito em casa

Conversei com a mãe de um adolescente que está se sentindo rejeitada pelo filho. Aos 16 anos, ele não aceita mais o que ela diz, sempre acha que sabe mais do que ela, que as opiniões dela são ultrapassadas e/ou ignorantes e demonstra intolerância pela maneira como ela se porta, se veste etc. O filho também não acata as normas da casa: não respeita horários, se recusa a dizer aonde vai, não contribui com nada. No confronto, ela sente que sempre sai perdendo. Essa mãe está à beira de desistir do final da jornada que começou quando o filho nasceu. Conversei também com um adolescente que, aos 15 anos, reclamou muito da falta dos pais em sua vida. Ele contou que os pais dão a ele total liberdade, que não perguntam nada, que não se interessam pelas coisas que faz, que sempre elogiam sua vida escolar etc. Ele acha que a responsabilidade de decidir tudo sozinho é muito grande e disse que preferiria ter alguns conflitos porque, assim, saberia que seus pais se interessam verdadeiramente por ele. Duas visões muito diferentes a respeito de uma mesma relação: a que ocorre entre pais e filhos quando chega a adolescência. A relação entre ambos muda bastante nesse período. Na infância, os pais são idealizados pelos filhos. São vistos como adultos que sabem e podem tudo, principalmente protegê-los e satisfazê-los. Na adolescência, os filhos percebem que os pais não sabem tudo, que não podem protegê-los nem satisfazê-los e que também são pessoas com conflitos, problemas e necessidades. Nessa transição, ocorre o tal conflito de gerações. Hoje, muitos pais se recusam a enfrentar esse período. Alguns delegam ao filho, repentinamente, todas as responsabilidades. Para eles, é como se os filhos passassem diretamente da infância para a vida adulta. Outros se sentem impotentes e fragilizados para enfrentar os questionamentos que os filhos fazem a respeito de tudo. Para eles, é como se perdessem, de largada, a autoridade que ocupavam perante o filho. Por último, há os que se recusam a aceitar seu amadurecimento. Em todos os casos, as consequências não são boas para os filhos. Eles podem recusar qualquer instrução, aviso ou orientação ou se sentirem abandonados ou infantilizados. Para quem está em processo de aquisição de autonomia e de formação da identidade adulta, a falta de contraponto entre a visão dos pais e a própria e a ausência de certas normas firmes impostas pela família impedem a segurança da transição. Os conflitos entre filhos adolescentes e seus pais é saudável. É por meio deles que o jovem cresce, amadurece, avalia suas convicções e a legitimidade delas para, então, usá-las em sua vida. Para tanto, os pais precisam ser potentes para reconhecer quando o filho ainda precisa da atuação deles e quando é preciso negociar, ceder. É certo que os pais errarão na medida, em algum momento. Mas devem, a todo custo, evitar errar pela ausência.
Escrito por Rosely Sayão às 14h07

Educação em poder do Estado

Algumas cidades do interior paulista adotaram o toque de recolher para crianças e adolescentes e outros municípios já estão interessados na medida. Fiquei perplexa quando li a primeira notícia que tratava do assunto, mas logo percebi que há todo um quadro que sustenta essa medida. Em primeiro lugar, já faz tempo que desertamos as ruas das cidades porque perdemos a confiança de que sejam lugares onde se pode ter uma vida boa. As ruas são consideradas locais inseguros que provocam medo; transformaram-se em depósitos de problemas originados por nossos estilos de vida. Todo o aparato de segurança que usamos -de condomínios fechados a travas de segurança nas portas dos carros- servem para nos colocar fora das ruas. Vivemos em pequenos "quartos de pânico", não parece? Em segundo lugar, também já faz tempo que nós, adultos, perdemos a mão de como nos postar diante dos adolescentes, Em parte porque eles têm aquilo que mais desejamos, perseguimos e fazemos de conta ter: a juventude. Por isso, passamos a tratá-los como iguais, como se ocupassem lugares simétricos aos nossos. A questão da educação democrática é um capítulo à parte. Passamos a acreditar que os adolescentes devem ser respeitados em seus direitos sem saber ao certo o que são tais direitos e sem também ensiná-los sobre os deveres correlatos. Sim: cada direito -o de ser respeitado, por exemplo- exige um dever -o de respeitar. Mas isso serviu mesmo a mais uma deserção: de nossa autoridade. Em nome dessa ideia de educação, sentimo-nos sem o direito de ocupar um lugar legítimo para conter, restringir, coibir ou suspender, mesmo que temporariamente, os quereres impulsivos e impositivos deles. Finalmente, vivemos um período em que, voluntariamente e em nome de causas aparentemente nobres, temos abdicado de nossa autonomia. Vivemos em tempos de terceirizar nossas vidas, lembra-se? E é isso que abre espaço para a entrada do Estado. Basta enumerar, como exemplo, quantos decretos proibitivos que envolvem a vida social já foram editados. Voltemos ao toque de recolher. Muitos pais são favoráveis à medida. Imagino que seja mais fácil, para eles, segurar o filho em casa pela força do Estado do que pela própria autoridade. Mas é bom lembrar que essa medida restringe a liberdade de escolha dos pais de como educar seus filhos. Em relação aos jovens, diretamente atingidos, a medida é preconceituosa. Afinal, qual a porcentagem de adolescentes nas ruas que comete delitos, envolve-se em confusão ou entra em contato com drogas, por exemplo? E a dos que não fazem nada disso? E a dos que fazem tudo isso dentro de casa? Mais uma vez, optamos por demonizar a juventude e retirá-la de cena. Cada vez mais, permitimos -e queremos- a intervenção do Estado em nossas vidas. Parece mesmo que buscamos nele um pai que as governe. Quem precisa de pai e de mãe são as crianças e os jovens. Que sejam eles a governar a vida dos filhos, e não o Estado, a polícia etc.
Escrito por Rosely Sayão às 11h32

Luta pela infância

Já constatamos que a infância está em franco declínio. Crianças da classe média têm hoje uma agenda lotada de compromissos, sofrem pressão para aprender cada vez mais cedo e têm pouco tempo e espaço para brincar. Crianças pobres trabalham e assumem responsabilidades precocemente.
Modos diferentes de entrar cedo demais no mundo adulto, mas muito semelhantes na consequência que produzem: a perda dessa fase da vida. Com isso, crianças pequenas carregam o fardo do contato com as mazelas dos adultos. Colocamos muito cedo na vida de nossas crianças o consumo e a noção de economia, a competição acirrada, a responsabilidade de fazer escolhas e de arcar com elas, a vida individual como valor máximo e outros aspectos de nossa cultura. Isso sem falar em todos os dramas e nas pequenas e grandes tragédias de nossa sociedade. Nossa intenção parece ser nobre: preparar os filhos para o futuro que enfrentarão e inseri-los por completo no mundo em que vivem. Mas, se lembrarmos que essas questões tornam a vida de um adulto complexa e tensa, precisamos reconhecer que, para as crianças, isso é elevado à potência máxima. Entretanto, é bom saber que é possível resistir a esse movimento e que há pais que têm enfrentado essa batalha com convicção e coragem. Aos meus olhos, cresce vagarosa, mas progressivamente, o número de pais que lutam para manter a infância dos filhos. É significativo o grupo de pais que não procuram escolas que ensinam as crianças a escrever desde os três anos e a aprender, ao modo adulto, conteúdos de disciplinas do conhecimento. Esses pais querem escolas com professores capacitados a acompanhar as brincadeiras dos filhos e a conduzir com qualificação o processo de socialização. Do mesmo modo, muitos pais já não hesitam em privar os filhos de objetos inúteis a eles, mesmo quando estes insistem. Sabem dizer, com firmeza, que o filho não precisa daquele tipo de calçado, tampouco de mais um brinquedo só porque todos os colegas têm. Há, inclusive, pais que se negam a sustentar um mercado que tem como alvo as crianças e um estilo de vida. Recentemente, testemunhei uma cena deliciosa: uma família celebrando o aniversário do filho, com algumas crianças, em uma praça da cidade. Eles conseguiram sair do círculo do aniversário comemorado com grande festa em bufê, com dezenas de crianças e sem parentes adultos. E há os que seguram os filhos na infância até perto dos 12 anos sem dar a mínima para essa bobagem de "pré-adolescente". As crianças não vão a festas sozinhas, não viajam com adultos que os pais mal conhecem, não frequentam shoppings sem responsáveis os acompanhando, não têm acesso às mídias sem tutela, por exemplo. Esses pais sabem que pagam um preço por tal resistência: além de estarem muito mais atentos aos filhos, precisam bancar os conflitos que surgirão. Mas eles sabem que prestam um excelente serviço à sociedade e ao nosso futuro.
Escrito por Rosely Sayão às 13h02

Adolescência e autonomia

Muitos pais estão confusos quanto ao seu papel educativo quando os filhos atingem a adolescência. Uma mãe conta que o filho de 15 anos aderiu ao uso do narguilé (espécie de cachimbo) e que ela não sabe que atitude tomar. Diz que, apesar de saber que pode ser prejudicial à saúde, fica na dúvida se deve ou não proibir o uso, já que o filho poderá fumar escondido. A mãe de uma garota que fará 15 anos diz que, mesmo sabendo que menores não devem ingerir álcool, servirá "bebida leve" com parcimônia na festa, pois, diz a filha, sem bebida os amigos não irão e a mãe quer que a reunião seja um sucesso. Os pais de um jovem de 17 anos permitiram ao filho que levasse a namorada para dormir em casa por acharem que, dessa maneira, estariam garantindo segurança ao casal. O problema é que, além de o jovem ter trocado várias vezes de namorada em um curto espaço de tempo, agora se relaciona com duas simultaneamente. O casal não sabe que atitude tomar porque acredita que não pode voltar atrás com o filho, que, afinal, já é quase um jovem adulto, mas não se sente à vontade com o que acontece. Há algo em comum em todos esses casos: os pais abriram mão de sua coerência em nome da proximidade com o filho, da alegria e da satisfação dele. Em nenhum dos casos citados há convicção dos pais nas atitudes tomadas; há justificativas, apenas. Será que vale a pena fazer isso? Vamos analisar as consequências de atos desse tipo. Considero que a educação que os pais dão aos filhos, seja ela do tipo que for, funciona como uma direção imposta a eles. Dessa maneira, eles aprendem o rumo que aquela família considera bom ou adequado. Mais ou menos como uma bússola: ela aponta sempre para o norte. Quem sabe usá-la e tem autonomia para escolher caminhos pode usar o instrumento como referência mesmo quando não quer ir para a direção apontada. A educação que os pais dão aos filhos é assim: funciona como norte, como referência aos filhos, que, ao atingirem a autonomia, terão condição e liberdade de escolher outras direções para sua vida. Sem direção certa, os mais novos correm o risco de se perderem. A pergunta é: os adolescentes têm autonomia para tais escolhas? Ainda não. Adolescência é tempo de amadurecer, e amadurecer significa ganhar experiência a respeito da própria vida e da vida em comum, dar duro para estabelecer planos e aprender a agir para alcançá-los, batalhar para entender que direitos e deveres caminham juntos e que toda escolha gera consequências. Autonomia é uma conquista árdua. Não é um ganho. Os pais não podem dar autonomia aos filhos: devem ceder espaço quando eles se mostram capazes de exercê-la. Ceder a casa -espaço dos pais- para que os filhos bebam, fumem, tenham encontros íntimos, não colabora em nada para que conquistem autonomia. O adolescente ainda exige tutela dos pais, que devem ter e manter a autoridade para exercê-la. Essa atitude permitirá o acesso dos filhos à maturidade exigida pela vida adulta.
Escrito por Rosely Sayão às 10h36

Intimidação e furto na escola
Muitos pais pedem providências da escola porque o filho passou por alguma situação problemática. Há dois temas que são campeões dessas solicitações: o bullying e os furtos. Acostumamo-nos a usar o termo bullying, mas um leitor reclamou desse uso, creio que com razão. Temos várias palavras em nossa língua que dão conta desse fenômeno e vou escolher uma delas: intimidação. Os pais precisam saber que, apesar de essas situações ocorrerem principalmente na escola, eles podem atuar para reduzir sua incidência. A primeira coisa importante a saber é que os pequenos furtos que ocorrem na escola -em todas elas- não são atitudes de "alunos problemáticos" que não recebem uma boa educação em casa, que têm carências etc. São fruto do consumismo que temos praticado e ensinado aos mais novos. Qualquer criança, portanto, pode cometer um pequeno furto por um querer exagerado e incontrolado de ter algo. Os pais têm contribuído muito para que as tentações na escola sejam irresistíveis para essa geração que tem aprendido que ter é ser. Mandam seus filhos para a escola carregados de eletrônicos: telefone celular com vários recursos diferentes, videogame portátil, iPod etc. E o que dizer do arsenal de canetas diferentes, lapiseiras, réguas e outras quinquilharias que recheiam as enormes mochilas que eles carregam? Pois a primeira contribuição que os pais podem dar é a de evitar que seu filho leve para a escola todas essas bugigangas, que, aliás, atrapalham a concentração exigida pelo estudo. Para a escola, os alunos deveriam levar materiais simples para que saibam que a aprendizagem é o que importa. Não podemos desvalorizar esses furtos quando o objeto é de pequeno custo nem valorizá-los em demasia porque é valioso. Todos devem ser tratados da mesma maneira, já que se trata de educar as crianças. Quanto à intimidação, ao assédio, às provocações que ocorrem entre crianças e jovens, precisamos considerar a responsabilidade que nos cabe. Valorizamos muito a competição, os vencedores e os poderosos, não é? Acreditamos que as crianças devem se relacionar preferencialmente -quando não exclusivamente- com os de mesma idade e, desse modo, não ensinamos o respeito aos mais velhos e os cuidados com os mais novos. Pois as condutas deles seguem o que ensinamos. Na verdade, poucos pais têm se preocupado com a educação moral de seus filhos, com o ensinamento das grandes virtudes -como a generosidade, a polidez, a humildade, a simplicidade, a compaixão, a coragem. Esta última, por sinal, tem sido bem desvirtuada, já que as crianças acreditam que é preciso coragem para pegar algo que não é seu e para brigar. Os pais devem considerar que seus filhos não são apenas alvo de intimidação: muitas vezes são agentes dela. É bom lembrar que os papéis na escola circulam entre os alunos, não são fixos. Por isso, além de exigir um trabalho educativo primoroso da escola referente aos furtos e à intimidação, os pais têm o dever de ensinar seus filhos a serem morais e virtuosos.
Escrito por Rosely Sayão às 17h40

Alfabetização precoce

O pai de um garoto de dois anos conta que o filho já sabe o nome de quase todas as cores e também contar até doze, tudo ensinado por ele e pela mãe. O próximo passo será ensiná-lo a escrever o nome. A mãe de uma menina de quatro anos está aflita porque teve de matricular a filha em uma escola mais em conta neste ano, que não pede lição de casa nem ensina a ler e a escrever algumas palavras, como a anterior. Ela acredita que a filha irá regredir nos estudos.
Muitos pais de filhos com menos de seis anos andam afoitos para que estes se iniciem nas letras e nos números, aprendam conteúdos específicos na escola, tenham acesso a outra língua etc. Estudos mostram que essas crianças têm alta capacidade de aprender.
Muitas escolas, atentas a esse anseio, passaram a ofertar estímulos para a alfabetização precoce. Os pais, em geral, ficam satisfeitos com esse procedimento e orgulhosos das conquistas dos filhos. Mas essa atitude é boa para as crianças?
Nossa reflexão a esse respeito não pode se basear em estudos sobre vantagens e desvantagens da alfabetização antes dos seis anos. Tal discussão está posta há tempos e não permite conclusão, já que especialistas se dividem em posições opostas e se fundamentam em pesquisas científicas. Talvez o melhor caminho seja pensar em alguns efeitos da introdução precoce da leitura e da escrita.
O primeiro deles é que um bom número dessas crianças não aprende as letras e passa a apresentar o que se convencionou chamar de dificuldade de aprendizagem. Pasmem: muitos médicos têm recebido pais torturados cujos filhos com três, quatro ou cinco anos não acompanham os colegas em tal aprendizado.
Esse fenômeno ocorre porque nem toda criança se interessa por aprender a ler e a escrever o nome dos colegas ou simplesmente não está pronta para enfrentar o processo de alfabetização. Como a escola, em geral, não tem metodologia para lidar com grupos de alunos com diferenças de ritmos e de maturidade entre si, acaba por tratar a média como norma. Assim, crianças que não se situam nessa média costumam ser suspeitas de apresentar algum distúrbio de aprendizagem.
O segundo efeito da alfabetização precoce é que ela contribui para o desaparecimento da infância. Que crianças pequenas já carreguem grande parte do peso do mundo adulto porque não conseguimos mais protegê-las dele é fato. Mas colocá-las intencionalmente nesse mundo é bem diferente.
Até os seis anos, o mais importante é brincar livremente para desfrutar o que pode da primeira infância, que dura tão pouco. Claro que algumas se interessarão pelas letras espontaneamente. Que isso seja tratado como brincadeira, então. Acelerar a aprendizagem na esperança de uma melhor formação para o futuro é ilusão e equívoco de nossa parte.
Cabe aos pais e às escolas a defesa intransigente do direito que a criança tem de ter infância, já que tudo o mais conspira para o desaparecimento dessa fase. Nossas escolhas mostram se realizamos isso ou não.
Escrito por Rosely Sayão às 12h20

O ranking que não ajuda
Uma leitora, cuja filha cursa a sexta série do ensino fundamental, enviou uma correspondência com questionamentos e reflexões sobre a escola que a menina frequenta. Ela não sabe se mantém a filha lá. Conta que escolheu a instituição há cinco anos pela localização e pela qualidade do ensino. Nesse período, a escola alcançou destaque na mídia pelos resultados do Enem e, na visão desta nossa leitora, mudou. O número de alunos matriculados subiu muito e os professores passaram a cobrar excessivamente dos alunos e a colocá-los sob pressão constante. Nossa leitora acredita que essa mudança tem relação com a colocação no ranking de escolas, e não com a melhoria do ensino. Ela construiu uma comparação muito bem-humorada: disse que o que aconteceu com a escola foi o mesmo que dar um sapato de salto alto a uma adolescente ainda sem total equilíbrio do corpo, o que faz com que ande com muito medo de cair. Faz sentido, não? Bem, mas o resultado é que a filha passou a se mostrar ansiosa com a vida escolar e tem pedido para trocar de escola. É essa a dúvida dessa mãe. Se ela aceitar o pedido, se sentirá culpada por não oferecer à sua filha um bom estudo -afinal, a escola está nos primeiros lugares no tal ranking! Caso insista para que a garota fique na escola, receia que sua relação com os estudos fique prejudicada por tanta tensão. Sabemos que nenhuma das duas decisões trará tranquilidade e satisfação a ela, ou melhor, à família toda. Que benefícios trazem aos pais esses rankings de escolas, baseados em avaliações de alunos e em índice de aprovação em certos vestibulares? Rigorosamente, nenhum. Parece que as únicas a lucrar são as escolas, pois acabam por ganhar publicidade e espaço na mídia sem nenhum ônus. Fica a impressão de que acaba mesmo é nas mãos dos pais a responsabilidade de oferecer um bom estudo para os filhos: depende da escolha que fizerem, como pesou nossa leitora. Mas tal responsabilidade é das escolas, inclusive das públicas. Será que podemos considerar uma boa escola aquela que cobra em demasia dos alunos, que acabam tendo de recorrer a aulas particulares para acompanhar o exigido? Podemos considerar uma boa escola a que elege só alunos que prometem êxito para frequentar seu espaço e exclui os que considera "problemáticos" ou com dificuldades em alguns conteúdos? Pois várias escolas com os primeiros lugares nas classificações organizam dessa maneira seu trabalho. Boa escola é a que ensina com rigor e exige o máximo de seus alunos, a que ensina a eles a construção da disciplina necessária para estudar, a que trabalha com qualquer aluno e convoca todos eles a terem compromisso com o ato de aprender, a que ensina a conviver com coleguismo, a que respeita diferenças de ritmo e de aprendizagem de seus alunos, entre outras coisas. E tudo isso no horário das aulas, sem repassar tais responsabilidades aos pais. Pelo jeito, carecemos de boas escolas tanto no âmbito privado quanto no público, não é?
Escrito por Rosely Sayão às 15h52

Refeição em família
Os meios de comunicação, devidamente apoiados por informações científicas, dizem que alimentação é uma questão de saúde. Programas de TV ensinam a comer bem para manter o corpo magro e saudável, livros oferecem cardápios de populações com alto índice de longevidade, alimentos ganham adjetivos como "funcionais". Temos dietas para cardíacos, para hipertensos, para gestantes, para idosos. Cada vez menos a família se reúne em torno da mesa para compartilhar a refeição e se encontrar, trocar ideias, saber uns dos outros. Será falta de tempo? Talvez as pessoas tenham escolhido outras prioridades: numa pesquisa recente sobre as refeições, 69% dos entrevistados no Brasil relataram o hábito de assistir à TV enquanto se alimentam. Uma criança de nove anos disse uma coisa interessante: para ela, o horário do recreio deveria ser maior porque tomar o lanche demora e, com isso, há menos tempo para brincar. Aí está: lanchar com os colegas não tem, para essa e muitas outras crianças, o caráter de prazer; parece ter uma ligação mais estreita com outras obrigações escolares. Aliás, tenho observado a dificuldade que muitas crianças têm de falar com adultos e pares olhando para seu interlocutor. Elas falam e olham para o lado, para baixo e até para além da pessoa com quem conversam, mas o olho no olho parece ser desagradável, difícil para elas. Talvez seja porque estão acostumadas a olhar para a TV ou para o jogo enquanto conversam com os pais. O horário das refeições é o melhor pretexto para reunir a família porque ocorre com regularidade e de modo informal. E, nessa hora, os pais podem expressar e atualizar seus afetos pelos filhos de modo mais natural, além de construir o ambiente acolhedor que permite aos mais novos perceber com clareza que aquele é seu grupo de referência e de pertencimento. Numa época em que os rituais estão em desuso, as refeições em família são um excelente momento para transmitir tradições familiares aos filhos: quais alimentos aquela família prefere e quais são os seus modos usuais de preparação, como se comporta à mesa, quais assuntos costuma abordar durante a refeição, o tom de voz usado, como os membros se tratam. Tudo isso é apreendido pelos mais novos, que podem encontrar seu modelo de identificação familiar e ter contato com o conhecimento construído pelas gerações anteriores da família. O horário das refeições também pode servir para que contradições, diferenças e conflitos entre pais e filhos surjam de modo polido, para que os filhos saibam mais sobre a rotina profissional dos pais e para que estes ouçam sobre a vida escolar e social dos filhos sem cobranças. Por que estamos nos tornando comedores solitários? Por que aceitamos a ideia de que o alimento é mais importante em seu aspecto nutricional do que social? Por que a TV e o computador são nossas companhias preferidas no horário das refeições? Pelo jeito, temos muito a refletir sobre esse assunto.
Escrito por Rosely Sayão às 11h01
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