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Novas diretrizes

Toda mulher, assim que engravida, passa a receber noções de puericultura. Tanto as ciências da saúde quanto a sabedoria popular contribuem para rechear esse conjunto de conhecimentos e técnicas que têm por objetivo os cuidados com as crianças pequenas e que abrangem desde a atenção com a saúde física até o desenvolvimento psíquico.

Conversei com algumas mães de bebês com menos de um ano para averiguar as orientações atuais. Fiquei surpresa com algumas que elas têm recebido porque são antigas, mas chegam agora com aparência sofisticada e com o aval do conhecimento técnico-científico.

Circula, por exemplo, um método para acalmar bebês conhecido como o "método dos cinco S". Trata-se de um conjunto de cinco dicas que ajudam os pais a aquietarem o filho quando ele chora e fica inquieto e o nome faz referência a cinco palavras da língua inglesa. Envolver o bebê firmemente em panos, carregar o bebê na posição lateral, emitir sons que lembrem o pedido de silêncio (shhhh) próximo aos ouvidos da criança (algumas mães me disseram que vale também o ruído do secador de cabelos, vejam só!) e embalar são as principais orientações do método.

Outra dica que faz o maior sucesso entre essas jovens mães é a de banhar a criança, principalmente quando ela está agitada, em um balde. É isso mesmo: a conhecida banheira de bebês está sendo trocada pelo velho balde que todo mundo usa em casa, principalmente para a limpeza doméstica. Por que a troca? Porque desse modo o bebê fica com o corpo todo imerso na água, como se fosse um ofurô, e isso é relaxante, mesmo para adultos.

O mais interessante dessas e de outras dicas que os jovens pais têm seguido é uma mudança na maneira de tratar e de cuidar das crianças. À primeira vista, pode parecer que o que os pais buscam é apenas um bebê mais calmo para que eles fiquem mais tranquilos. Entretanto, mesmo que seja essa a maior intenção, muda o estilo de viver passado ao bebê.

Até pouco tempo atrás, a orientação geral era a de deixar o bebê solto, com o corpo livre para que ele se movimentasse à vontade. Os pais deveriam suportar o choro insistente porque era o modo de o bebê se comunicar com o mundo e o ônus inicial de se ter um filho. Agora, pelo jeito, o que se pretende é transmitir a noção de que o corpo pode e deve ser controlado.

Hoje temos muitas crianças que não têm a mínima noção de seu corpo: elas correm desajeitadamente e sequer sabem evitar quedas ou desviar de obstáculos ou de pessoas que encontram pelo caminho. Quando carregam mochilas ou malas escolares, então, não conseguem pensar que precisam ampliar o espaço físico que usam. Do mesmo modo, muitas são irrequietas e agitadas a maior parte do tempo e não conseguem se acalmar.

Quem sabe essas novas -e ao mesmo tempo antigas- orientações contribuam para que as crianças cresçam mais tranquilas, mais conscientes de seu corpo e, desse modo, aprendam mais cedo a ter uma melhor percepção de si e do entorno.

Escrito por Rosely Sayão às 11h28
 
 

Juventude medicada

Eduardo é um garoto de dez anos que adora ir à escola, mas não gosta de estudar. As delícias da escola, para ele, estão na chegada, no recreio e na volta para casa. Já as aulas são um martírio. O problema é que Eduardo não consegue parar, tampouco prestar atenção. O corpo de Eduardo o controla. Ele não aprendeu que pode controlar seu corpo e que precisa se esforçar para focar a atenção e aprender. Então ele brinca, fala e pula o tempo todo.

A mãe de Eduardo não se conforma com as notas baixas e com as constantes reclamações sobre seu comportamento. "Ele é um aluno inteligente, mas é hiperativo", disse um dia sua professora. Eduardo foi levado a vários médicos que disseram à mãe que o garoto nada tinha. Mas ela não desistiu até encontrar um que dissesse que Eduardo é portador do transtorno de deficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e indicasse uma medicação. Hoje, o menino toma um remédio e isso deixa todos os adultos que convivem com ele tranquilos.

Claudia é uma adolescente de 15 anos com um tipo físico que ela chama de "cheinho": ela não é magra como se exige atualmente nem consegue ser. As amigas são bem magras e, na visão de Claudia, fazem sucesso com os garotos por causa disso. A garota sofre e está sempre triste. A mãe a colocou para fazer terapia, mas isso já faz um ano e a menina continua triste. Então, alguém disse à mãe que levasse a filha a um psiquiatra. Ela não consultou um, mas vários. No fim da jornada, conseguiu o que buscava desde o início: a indicação de um antidepressivo. Hoje Claudia toma um comprimido por dia e sua mãe está bem mais feliz.

Paula e Ricardo são amigos. No ano passado, fizeram cursinho enquanto terminavam o segundo grau para prestar vestibular em uma universidade concorrida. Apesar de a família dos dois jovens não pressionarem, eles próprios se pressionaram além da conta porque queriam entrar na faculdade neste ano a qualquer custo. Isso gerou uma ansiedade sem tamanho nos dois: palpitações, crise de choro, desânimo, irritação excessiva e insônia, entre outros, foram sintomas que se alternaram e transformaram a vida dos dois jovens em um inferno. O ginecologista da garota receitou um ansiolítico e ela indicou o remédio para o amigo. Até hoje os dois tomam o comprimido.

Rafael é um jovem com pouco mais de 20 anos, fanático por musculação e escultura do corpo. Na academia, aprendeu que podia facilitar o trabalho tomando anabolizante, que ele já indicou para vários conhecidos. Está feliz com os resultados.

Os nomes citados são fictícios, mas as histórias, reais. E, ao contrário do que possamos pensar, não são casos isolados. Tomar medicamentos na infância e na adolescência tem sido um fato muito mais corriqueiro do que deveria ser.

Pelo jeito, estamos estimulando a formação de uma geração de drogadictos -pessoas com dependência, física ou psíquica, de substâncias químicas- usuários de remédios. E nos preocupamos tanto com o uso das drogas ilícitas pelos jovens, não é verdade?

Escrito por Rosely Sayão às 11h10
 
 

Separação

A família mudou bastante e as férias escolares são uma excelente oportunidade para obter alguns retratos dessas mudanças. Podemos observar, por exemplo, mães separadas acompanhadas de seus filhos em regiões litorâneas, hotéis fazenda e outros locais propícios ao lazer de crianças mas também ver pais descasados na mesma situação, se bem que em número bem menor.

Isso é um grande avanço para uma sociedade que levou bastante tempo para reconhecer as mudanças dos papéis de mãe e de pai no mundo atual. Entretanto, mesmo com esse avanço, crianças ainda penam depois que seus pais se separam porque nem sempre conseguem conviver com ambos num clima harmonioso e equilibrado.

Vamos convir: é preciso maturidade para se casar, ter filhos e, principalmente, se separar. E muitos casais carecem dessa maturidade quando decidem dissolver a relação que gerou filhos. O problema é que são as crianças as que mais sofrem quando isso ocorre e nem sempre os adultos envolvidos se dão conta do fato.

No fim do ano passado, acompanhamos pela imprensa a triste história do garoto Sean Goldman. Filho de pais separados, ficou no meio de uma disputa jurídica travada pela família materna e o pai por um longo período. Com as dificuldades adicionais de ser filho de pais de nacionalidades diferentes e de ter perdido a mãe, foi privado do convívio familiar pleno e tranquilo pela falta de diálogo entre as partes.

Durante o período em que a disputa legal esteve em curso, muita gente tomou partido: houve quem defendesse a estada do garoto com a família materna e quem alegasse que ficar com o pai seria a melhor saída. Para mim, nenhuma das soluções mostrava-se satisfatória para o garoto depois de tudo o que aconteceu em sua vida. Na verdade, foi criado um dilema na vida de Sean e, nesses casos, qualquer das soluções que se escolhe resulta insatisfatória.

Os relatos desse drama nos permitiram notar preconceitos que insistem em permanecer em nossos pensamentos. Um deles me chamou a atenção: o pai do garoto foi insistentemente chamado de "pai biológico". Pelo jeito, ainda temos muito que superar em busca de um final menos doloroso e mais sensato para as crianças que passam pelo divórcio dos pais. Precisamos entender que não há um lado certo e um lado errado, ou um lado melhor e outro pior para as crianças em casos de separação. Em raríssimos casos, a mãe ou o pai não demonstram condições de conviver com o filho e educá-lo. Fora essas situações, mãe e pai têm o dever de garantir aos filhos a convivência com ambos, o respeito pela figura de ambos e a chance de a criança se relacionar com dois estilos diferentes de amar e de educar.

Como na atualidade a possibilidade da separação de um casal já está posta desde o ato do casamento, talvez tenhamos de garantir nesse contrato formal a situação dos filhos no caso da dissolução do casamento. Afinal, eles são frutos de um encontro entre duas pessoas e não podem pagar a conta do desencontro quando ele acontece.

Escrito por Rosely Sayão às 12h09
 
 

Filho ou aluno

Caro leitor, essa é a nossa última conversa do ano. Por isso, gostaria de propor uma reflexão importante.

Temos dado importância exagerada à vida escolar das crianças. Os pais sofrem muita pressão para acompanhar "pari passu" o aprendizado dos filhos: as tarefas de casa, as notas que vêm no boletim e as reuniões com o pessoal da escola para avaliar o desenvolvimento dos filhos e o que eles chamam de dificuldades de aprendizagem. Temos, inclusive, campanhas com depoimentos de artistas famosos para incentivar os pais a ocuparem esses papéis estreitamente ligados aos estudos dos filhos.

Quando as avaliações do filho não são as esperadas, os pais se sentem na obrigação de procurar, por iniciativa própria ou por recomendação da escola, professores particulares, psicopedagogos ou especialistas diversos para checar algum eventual problema que atrapalhe o aprendizado ou explique o baixo aproveitamento.

Essa situação tem criado outra que considero bem delicada: cada vez mais as crianças ocupam o lugar de aluno dentro da família e, consequentemente, o lugar de filho tem se esvaziado. E esse papel é muito mais importante do que o de estudante para a formação das crianças.

É como filho, por exemplo, que a criança aprende o penoso processo da convivência, chamado de socialização. Sim, é difícil para a criança aprender a conter suas reações, inclusive corporais, que manifestam desagrado, frustração ou mesmo sofrimento ao perceber que ela não é o centro do universo, que existem outras pessoas ao seu redor que merecem respeito. E isso, caro leitor, se aprende em casa, sem ligação nenhuma com os estudos, e exige trabalho árduo da parte dos pais.

É também como filho que a criança aprende o princípio da obediência, como já disse. Isso significa aprender a distinguir situações e principalmente pessoas a quem precisa, necessariamente, atender. É também a educação familiar que ensina a criança a proteger os que são menores ou mais frágeis que ela.

É com os pais que os filhos devem aprender o que é certo e o que é errado na comunidade em que vivem, a compartilhar suas coisas com os outros, a respeitar regras e princípios do grupo. É responsabilidade dos pais a formação da consciência social e moral dos filhos.

Como o destino das crianças é o de crescer, os pais precisam, amorosamente, colocar aos filhos a imperiosa necessidade de restringir suas vontades, adiar prazeres e satisfações imediatas em função de objetivos importantes para o crescimento. Cabe aos pais a tarefa de introduzir aos filhos a realidade da vida.

Tudo isso já é trabalho árduo e exige dos pais um relacionamento com os filhos baseado na autoridade e na afetividade e, para tanto, é preciso muita disponibilidade. Ao acrescentarmos a responsabilidade com a vida escolar das crianças, oneramos em demasia a função deles. E isso gera deficits nas suas responsabilidades originais e mais importantes.

Por isso, um de meus votos para o próximo ano é o de que as crianças ocupem, no interior da família, o lugar de filhos, e não de estudantes. Os professores, certamente, dão conta do papel do aluno.

Boas festas a todos e muito obrigada pela companhia em mais este ano.

Escrito por Rosely Sayão às 11h34
 
 

Violência e virtude

Uma leitora que tem filhos de oito e nove anos está preocupada, como muitos outros pais, com o impacto que a violência urbana e a falta de ética pública têm sobre a formação e o comportamento das crianças e quer saber como tratar a questão.

Ela diz que não há como escapar: mesmo acidentalmente, os filhos assistem a noticiários que mostram cenas de violência e ouvem colegas contarem histórias de assaltos sofridos pelos pais. Além disso, diz que percebe que exemplos negativos expostos pela mídia, como policiais e políticos envolvidos em corrupção, são absorvidos pelas crianças.

Ela cita exemplos para mostrar que sua preocupação faz sentido. Um dos filhos fez uma redação na escola em que o desfecho da história é a polícia ser dominada por ladrões; o outro contou que uma das brincadeiras prediletas no recreio é a busca de um tesouro imaginário, e os colegas que atrapalham a descoberta são amarrados -imaginariamente, é claro. E tem mais: os filhos brincam de pegar dinheiro e esconder nas meias, por exemplo.

Isso me lembrou uma conversa que tive com um pai. Ele me disse que considerava até salutar que brincadeiras infantis colocassem o bem contra o mal, mesmo que dramatizassem a violência. O maior problema, para ele, era que percebia ser cada vez mais comum o mal vencer o bem no fim.

Uma constatação que já fiz é a de que muitas crianças se orgulham de serem maus alunos ou de terem comportamentos agressivos mesmo quando penalizados por isso, e de que outros se constrangem pela dedicação ao estudo porque são tachados de "nerds".

Não é de hoje que as crianças têm maus exemplos dos adultos. Aliás, é no mundo adulto que se localizam as mazelas do mundo. Neste, a violência sempre esteve presente, tanto quanto a corrupção. Hoje, talvez sejam mais expostas publicamente, e, como as crianças estão mais expostas ao mundo adulto, de fato estão mais vulneráveis a esses eventos. A questão de nossa leitora é como tratar isso com as crianças.

Em primeiro lugar, é importante que, sempre que os filhos se refiram ou tenham contato com fatos desse tipo, os pais manifestem sua opinião sobre eles. Para muitos, parece óbvio que as crianças entenderão como fato negativo. Pode ser, mas, para que não o absorvam, precisam das palavras orientadoras de seus pais.

Os pais também podem apontar as pessoas envolvidas em situações de violência e corrupção como exemplos a não serem seguidos porque, afinal, a vida deve ser vivida com ética e respeito.

Mas o mais importante é que os pais ensinem e cultivem em seus filhos as virtudes. Num mundo individualista, competitivo e de grande anseio de consumo, qualidades como compromisso, justiça, generosidade, compaixão, gratidão, humildade, simplicidade, tolerância e doçura, entre outras, parece que perderam sentido. Não: são as virtudes que possibilitam uma vida boa com os outros e isso é essencial para uma boa vida pessoal.

Escrito por Rosely Sayão às 11h22
 
 

Intolerância e exclusão

A diretora de uma escola me contou um fato interessante. No segundo semestre do ano, muitos pais visitam escolas porque terão de matricular ou transferir o filho no próximo ano. Ela disse que ouviu uma pergunta inédita de vários deles: "Qual o perfil dos pais que matriculam seus filhos aqui?"

Qual o intuito desses pais? Pensei que, talvez, eles buscassem identificação, ou seja, procuravam saber se fariam parte do grupo, se as outras famílias seriam parecidas pelo menos em alguns pontos com eles.

Essa tem sido uma característica de nosso tempo: com tanta diversidade, buscamos o parecido, o semelhante, o quase igual para nos juntarmos. Vemos isso pelas vestimentas, pelos modelos de carros e celulares, pelo uso da linguagem de grupos que têm afinidades entre si, seja pela condição econômica, seja pelo bairro ou cidade em que moram, seja pelos locais que frequentam etc. Ora, a escola dos filhos não iria escapar desse modo de se agrupar.

Quando ouvi o relato dessa diretora, lembrei-me de outro fato contado por uma mãe. Sua filha, de 12 anos, tivera de trocar de escola e enfrentava dificuldades para fazer parte do grupo de meninas de sua sala. Sabe como é, leitor: as crianças rejeitam e excluem seus pares com facilidade, já que ainda se relacionam de acordo com seus interesses sempre temporários e por temer a diferença.

Um dia, a filha dessa leitora chegou em casa com alguns pedidos bem diferentes: queria trocar de relógio, cortar o cabelo, comprar pulseiras e, inclusive, trocar os óculos de grau que usava por lentes de contato. Depois de conversar com a filha, a mãe descobriu que ela havia recebido das colegas de classe essas e outras instruções, que vieram, inclusive, por escrito, que ela teria de seguir para ser aceita pelo grupo. Para sorte dessa garota, a sua família não levou a sério o fato e até brincou com ele, de modo que ela teve a chance de não se sentir pressionada pelo evento.

Os dois fatos, e outros que observamos ou vivemos diariamente, me fizeram pensar no filme "A Onda", que relata uma experiência escolar em que um professor de história implanta em sua sala um clima inspirado no nazismo para demonstrar que ainda seria possível isso acontecer. O problema é que ele perde o controle da situação porque os alunos ficam absolutamente fascinados com a disciplina, com a homogeneização e com o sentido de fraternidade que se constrói no grupo. Com isso, os diferentes são excluídos e ignorados. Por sinal, vale a pena assistir ao filme. Ele nos alerta principalmente a respeito do autoritarismo dos grupos em detrimento do pensamento crítico pessoal, dos comportamentos e atitudes diferentes da maioria e, portanto, das liberdades individuais. Já vivemos isso na atualidade, não?

A filha de nossa leitora sentiu isso na pele com apenas 12 anos. A protagonista daquele lamentável evento ocasionado por um vestido curto e vermelho ocorrido em uma universidade também. Hoje, os gordos -e não me refiro à obesidade mórbida-, os que fumam, os que não praticam exercícios físicos e que gostam de comer bem sem se preocupar com calorias e gorduras nem com a saúde perfeita, os que não competem, os chamados "perdedores", são excluídos dos grupos -muitas vezes, de maneira humilhante. A intolerância ganha cada vez mais terreno.

Precisamos pensar se queremos manter esse clima de servidão voluntária ao grupo entre os mais novos ou se vamos intervir para evitá-lo.

Escrito por Rosely Sayão às 11h00
Início precoce não garante vida escolar exitosa

Muitos pais de crianças que estão com cinco anos agora, principalmente se completados no segundo semestre, estão mergulhados em uma missão: convencer a escola de que o filho está apto a iniciar o Ensino Fundamental em 2010.

O maior problema é que o ano tem 12 meses e as crianças nascem em todos eles. Para resolver tal questão, talvez pudéssemos decretar o nascimento de crianças até 30 de junho, apenas. Pelo menos no Estado de São Paulo.

É essa a data de corte para a matrícula no primeiro ano do Ensino Fundamental por aqui. Isso faz com que pais de crianças que nasceram em meados de julho ou nos meses subsequentes contestem a medida.

Pais advogados ou de outras profissões têm mil argumentos dos mais lógicos e legais aos mais apaixonados e grosseiros na busca de tentar garantir ao filho o domínio da leitura, da escrita e da aritmética o mais cedo possível.

Quais as razões que os pais têm para essa atitude? Sem dúvida, o clima altamente competitivo em que vivemos. O raciocínio é o de que quanto mais cedo a criança começar o aprendizado formal, maiores seriam suas chances de se dar bem na vida futuramente.

Pesa também a quase certeza da precocidade das crianças: elas se viram muito bem com as mais variadas facetas do mundo adulto e muitas demonstram gosto pelas letras, números e tarefas escolares. Entretanto, estudos e pesquisas têm apontado que não há relação entre uma vida escolar exitosa com início precoce dela.

Talvez fosse mais interessante pensar no presente das crianças e não em seu futuro. Na Educação Infantil, a criança goza ou deveria gozar de liberdade para aprender. Explora o mundo à sua volta de preferência em um ambiente amigável, confiável e seguro -ao seu modo, em seu tempo e sempre por meio de brincadeiras, sem ser dirigida por adultos, apenas acompanhada por estes. O grande aprendizado nessa época da vida é o que chamamos de socialização: aprender a conviver consigo mesma, com o grupo de pares e com adultos por eles responsáveis.

Para bem começar o Ensino Fundamental e o primeiro ano dele ainda deve ser de mais tempo dedicado ao brincar do que ao ensino formal a criança deve estar preparada para estar com os outros em um espaço comum, saber compartilhar, seguir sem grandes dramas as instruções dadas, acatar as orientações dos adultos e estar pronta para crescer. Tudo isso é muito mais importante que suas habilidades com letras e números.

Colocar a criança antes dos seis anos nesse clima é queimar uma etapa em sua vida, é colocá-la sob pressão. Em nome dos anseios dos adultos? Não vale a pena já que sabemos que toda etapa queimada, um dia volta. Só não sabemos como.

Escrito por Rosely Sayão às 00h14
 
 

Dificuldades para aprender

Neste fim de ano letivo, muitos pais se preocupam com o rendimento passado do filho. Há os que ficam bravos com baixas notas, recuperação ou mesmo reprovação. Mas há os que ficam apreensivos porque ouvem dos professores que seu filho apresenta dificuldades de aprendizagem.

Deveríamos abolir essa expressão quando nos referimos à vida escolar das crianças -e temos motivos para tanto. O principal deles é que, por trás dessa frase, há uma multiplicidade de sentidos sem muita coerência entre si. Alunos com ritmos de aprendizagem diferentes dos de seus colegas, alunos dispersos, alunos com estilos específicos de aprendizagem, entre outros, costumam receber o diagnóstico de "dificuldade de aprendizagem" para justificar o baixo rendimento escolar.

Como entender essa expressão maldita? Vamos nos aventurar na missão possível de desconstruir essa frase tão usada.

O primeiro passo é aceitar a ideia de que todos temos dificuldades de aprendizagem. Por quê? Ora, porque aprender é trabalhoso e difícil e exige um reconhecimento fundamental: o de que não se sabe. Só pode começar a aprender quem admite que não sabe. E talvez um dos grandes problemas que crianças e jovens do mundo atual enfrentam seja esse.


Tem sido cada vez mais difícil para eles admitir que não sabem, que não conhecem, porque isso angustia e incomoda. E, em tempos de aparências, precisamos mostrar que sabemos muito, não é? Os mais novos logo percebem esse clima e o incorporam em suas vidas.

A questão é que lidar com a angústia de não saber não é fácil, então a melhor saída tem sido rejeitar tal estado. E isso gera dificuldade de aprendizagem, já que essa angústia é o que dispara o aprendizado. Quem tem filhos pode constatar esse fenômeno da recusa do desconhecimento ao observar quantas vezes as crianças repetem a frase "Eu sei, mãe" ou "Eu já conheço, pai".

O segundo passo para desconstruir a frase "dificuldades de aprendizagem" é o de reconhecermos também que o mundo nos leva a sermos hiperativos e dispersos. Ora, isso gera dificuldades para aprender, já que esta é uma atividade que exige concentração, esforço e dedicação -mesmo que temporária- a uma única coisa. Além disso, os obstáculos que surgem têm sido vistos como impedimentos, e não como desafios, por isso preferimos contorná-los a enfrentá-los. Isso, sim, é um problema para muitas crianças do mundo atual: parar, aquietar-se, lidar com a angústia de não saber, se concentrar, perseverar para, então, aprender.

Por isso e por muito mais, em vez de pensar nas "dificuldades de aprendizagem", seria mais produtivo lhes oferecer meios para que se desenvolvam e ponham em prática seu potencial.

Escrito por Rosely Sayão às 11h07
Cena Urbana do Feriado

Saí de casa para fazer uma pequena compra e, na volta, testemunhei uma cena na rua que eu precisava compartilhar com vocês.

Uma jovem mulher passeava tranquilamente segurando a coleira de seu cão de raça. Ao seu lado, uma babá – identifiquei assim a mulher porque ela estava vestida de branco – acompanhava os passos de sua patroa segurando a mão de uma criança pequena, com menos de três anos.

Depois de uma semana com fatos muito tristes envolvendo crianças, pensei que essa cena talvez seja um retrato em branco e preto do lugar que destinamos às crianças no mundo atual.

Lembram-se do filme feito em 1990 chamado “Esqueceram de Mim”? Cada vez o considero mais profético...


Bom feriado a todos

Escrito por Rosely Sayão às 12h03
 
 

Tempo presente

Já começou a temporada de consumo do fim de ano. Os meios de comunicação informam as novidades em eletrodomésticos e eletrônicos que serão transformados em objetos de desejo e anunciam ofertas "imperdíveis" e prazos de pagamento tentadores para uma diversidade enorme de produtos.

Nesse período, quase todo mundo passa a pensar no que gostaria de ganhar ou comprar para finalizar o ano com satisfação. A frase "eu mereço" passou a ser a máxima que nos guia nessa onda de comprar, ter, querer ter. Incrível como o merecimento passou a ser usado para justificar a posse de bens, não é verdade?

As crianças costumam ser as grandes vítimas do consumo exagerado. Não são elas que querem ter mais e mais, já que os adultos entraram nessa parada pra valer, mas são elas que estão mais sujeitas ao imperativo do ter, já que ainda não conseguem avaliar criticamente as demandas nelas introduzidas.

Perguntei a algumas delas, com idades entre seis e dez anos, qual o último presente que ganharam. A maioria não soube responder. Algumas citaram vários brinquedos e eletrônicos, outras se esforçaram para lembrar, muitas ficaram na dúvida ou não se importaram com a resposta a dar porque qualquer uma valia.

Esse fato me fez pensar que a noção original de presente perdeu totalmente o valor para grande parte das crianças de classe média. Elas ganham tantas coisas sem motivo que passaram a considerar o presente algo trivial. Quase uma obrigação dos adultos para com elas. O que não pensamos ao dar tantos "presentes" às crianças é que, assim, lhes negamos o objetivo primordial do mimo, que é provocar a surpresa, a expectativa e a alegria de recebê-los.

Perguntei às mesmas crianças o que elas já tinham e o que ainda não tinham em matéria de brinquedos e aparelhos -seus novos objetos lúdicos. Muito mais fácil para elas foi listar o que queriam ter do que nomear o que já tinham e que gostavam de usar. Mais uma vez, é possível interpretar que a quantidade enorme de objetos que ganham não permite que elas desfrutem do uso deles.

Não é simples, para os pais, remar contra a maré do consumismo dos filhos, já que estes sabem argumentar quando querem algo: basta dizer que quase todos os colegas já têm o que pedem. E os pais, sem perceber que se trata de pura competição, atendem aos pedidos dos filhos porque creem que isso coloca seus rebentos dentro do grupo. Não é verdade.

Para os pais que querem realizar o esforço, é bom saber que, pelo mundo todo, há movimentos sociais organizados contra a publicidade infantil para refrear o consumismo na infância, já que está comprovado que isso não faz bem ao desenvolvimento das crianças.

Por isso, caro leitor, antes de sair para comprar presentes para os filhos nesse fim de ano, lembre-se que seu tempo usado no convívio com eles é mais precioso que o dinheiro gasto para comprar coisas que eles pensam querer.

Escrito por Rosely Sayão às 10h23
 
 

Pedir ou mandar

Recentemente, em uma reunião de pais, uma mãe fez uma intervenção bem-humorada, mas igualmente desanimada. Seus dois filhos -um de cinco anos e o outro de nove- não atendiam às suas ordens de jeito nenhum. Ela contou que precisava repetir a mesma coisa muitas vezes, subir o tom de voz, às vezes até gritar, parar de fazer o que estava fazendo, colocá-los de castigo e discutir com eles até que eles fizessem o que precisavam. E eles ainda respondiam de modo pouco respeitoso ou fugiam dela.

Para essa mãe, fazer os filhos obedecerem era uma mágica que ela não conhecia e, por isso, assistia ao programa "Super Nanny" para tentar apreender o segredo da protagonista. Mas, até então, não tivera êxito.

Essa mãe representou um bom número de pessoas que agem como ela com os filhos e sentem a mesma impotência perante a falta de resultados. Por isso, vamos conversar sobre obediência.

Os pais, em geral, colocam na criança a responsabilidade pela desobediência, mas é quase sempre neles que está a questão. Para ilustrar essa tese, uma história que um pai me contou.

Ele instituíra com sua filha de seis anos um ritual para dormir que terminava com uma história. O problema é que a menina nunca ficava satisfeita com uma só história: pedia outra e mais outra. O pai atendia aos pedidos da garota até o limite de perder a paciência e, então, dizia, bravo: "Agora chega!". Só aí a filha se aquietava e se despedia para dormir.

Aí está: os filhos logo aprendem quando precisam obedecer aos pais e quando há espaço para jogar. Quando uma criança ouve sua mãe pedir que é hora do banho, ela distingue pelo tom de voz, pelas palavras, pelo olhar ou por outro sinal qualquer se é uma ordem ou apenas um pedido. Ela sabe que um pedido pode ser negado e uma ordem deve ser obedecida.

Os pais desenvolvem com cada um dos filhos as pistas para a obediência, já que as crianças são diferentes umas das outras e se relacionam diferentemente com seus pais também. E elas aprendem rapidamente a distinguir o modo como cada um de seus pais dá as pistas.

Mas, para que a criança aprenda a entender e a acatar a pista, é preciso que seus pais lhe ensinem desde cedo o princípio da obediência -e, para tanto, é preciso mandar. Sim, senhores pais: os filhos não obedecerão nunca se os pais não mandarem, e hoje muitos pais querem que seus filhos obedeçam sem terem de impor. Impossível.

Aprender a obedecer é pura prática, por isso é desde cedo que os pais precisam dar oportunidades para que seus filhos aprendam. Nos primeiros anos de vida, a tarefa é simples, mas árdua: os pais precisam dar a ordem e fazer com que os filhos a atendam. Isso significa saber a hora de agir. Ao dizer ao filho "não faça isso", por exemplo, é preciso impedir que a criança faça porque é dessa maneira que ela aprenderá o sentido do impedimento e da obediência.

Criança que sabe a quem e quando obedecer é mais tranquila, estabelece boa convivência e, por isso, cresce melhor, mas depende totalmente dos pais para esse aprendizado.

Escrito por Rosely Sayão às 08h34
 
 

Avaliação de pais

Conversei com um jovem universitário que queria abandonar a faculdade. Ele está no segundo ano de um dos cursos mais procurados de uma universidade pública reconhecida.Sua vida escolar até então havia sido plena de êxitos: dedicado, cumpria todas as obrigações escolares sem dificuldade.

Por que queria desistir agora? Seus pais estavam chocados. Ele não tinha resposta para tal questão. Pela conversa que tivemos, percebi que seus estudos não faziam parte de sua vida, ou seja, ele não se apropriara deles, tampouco desfrutara de suas conquistas. Estudar não fazia sentido para ele.

Esse jovem me fez pensar em muitas coisas, entre elas nessa ânsia dos pais para que seus filhos tenham êxito escolar. E é nesta época do ano que as consequências desse anseio explodem. As crianças que terão de fazer a recuperação no final do ano estão em maus lençóis.

Muitas já estão com a agenda ocupada com aulas particulares. Nas férias, lá vão elas para estudos dirigidos e aulas de variadas disciplinas. E sob intensa pressão, já que professores regulares, particulares e pais afirmam que elas têm pouco tempo para aprender muito conteúdo. E todos trabalham em conjunto para que essas crianças encham a cabeça de informações em pouco tempo.

Outras estão em situação pior ainda: já receberam dos pais a ameaça ou o aviso da perda de viagens de férias, presentes de fim de ano e outras gostosuras porque não se dedicaram aos estudos durante o ano.

E há também aquelas cujos pais quase se conformaram com o resultado escolar do filho porque conseguiram dar um nome a isso. Hoje temos uma infinidade de crianças com diagnósticos como dislexia, discalculia, transtorno de deficit de atenção etc. As crianças padecem com o excesso de diagnósticos e de tratamentos.

Por que decidimos exigir tanto de crianças e de adolescentes na escola? Por que achamos que eles devem se interessar mais pelo estudo do que pelas brincadeiras, festas, namoros e tudo o mais que realmente importa nessas fases da vida? Talvez porque a vida escolar deles sirva atualmente de índice de avaliação da paternidade.

O filho recebe ajuda em casa com os estudos? Tem bons pais. A criança tem bom rendimento escolar? Tem pais dedicados. Os pais dos alunos comparecem sempre às reuniões? São presentes na vida dos filhos. O adolescente tem bons resultados no Enem ou boa classificação no vestibular? Seus pais são bem avaliados.

É por isso, provavelmente, que os estudos e a escola se transformaram, hoje, em assuntos que dizem mais respeito aos pais do que aos estudantes. Não é de se estranhar, portanto, que tantas crianças e jovens aprendam bem menos do que poderiam na escola: porque não são exigidos nem cobrados por eles mesmos, e sim para atender às expectativas de pais e professores. Poderia ser bem diferente, não poderia?

Escrito por Rosely Sayão às 11h07
 
 

O turista e o peregrino

O mundo em que vivemos afeta profundamente a maneira de ser e de viver de cada um de nós e nem sempre nos damos conta disso. As decisões que tomamos diariamente, as escolhas que fazemos, as interpretações que damos aos acontecimentos são influenciadas pelo contexto social e cultural.

Isso quer dizer que os estilos de vida que adotamos também estão marcados pela maneira como o mundo se constitui.
As metáforas ajudam a compreender melhor as transformações que ocorreram e que estão em curso no nosso modo de viver. Zygmunt Bauman, pensador contemporâneo, construiu uma que ajuda a dar sentido e a interpretar a diferença entre o modo de estar no mundo décadas atrás e agora. Para isso, ele contrapõe as imagens do peregrino e do turista.

O peregrino, figura característica de um mundo em extinção, é quem escolhe viajar em busca de algo para melhorar ou dar sentido à sua vida. Em sua árdua e longa jornada, que não tem prazo para terminar, ele não tem pressa e seu trajeto importa mais do que sua chegada, que ele não sabe quando nem onde ocorrerá.

Já o turista -figura marcante dos tempos atuais- viaja por diversão e com data marcada para voltar, escolhe seu destino por curiosidade ou influência do mercado de consumo do lazer e seu trajeto é apenas o modo de chegar a seu destino. Qualquer contratempo nos planos do turista é vivido de forma dramática. Vou usar essa metáfora para compreender um pouco as mudanças dos papéis de mãe e de pai na atualidade.

Hoje, mal um filho nasce e os pais já se preocupam com o fim de sua jornada, que equivale a entregar o filho ao mundo para que ele viva por conta própria e com autonomia. Desse modo, pais de crianças muito pequenas procuram escolas que as preparem para o vestibular e o Enem, enchem seus filhos de atividades que os ajudem a enfrentar o futuro mercado de trabalho, programam com antecedência e em pormenores sua vida para realizar tudo o que planejaram para o filho.

Pais de crianças que resistem -por seu modo de ser- a tais planos frustram-se, sentem-se fracassados, usam de muitos artifícios para tentar resgatar o caminho originalmente traçado ou desistem precocemente de sua viagem. Preparar o filho para o futuro tornou-se, por força das pressões externas, missão mais importante do que conhecer e ouvir o filho, estar com ele, construir um vínculo afetivo. Essa imagem é muito parecida com a do turista, não?

Há pais que não pensam no fim de sua jornada a não ser quando constatam que ela terminou. Sabem que seu trajeto será longo e árduo, não têm pressa, encaram as vicissitudes como parte da caminhada, ligam-se mais ao filho que têm do que àquele que ele será. Esse modo de se relacionar com a paternidade tem mais relação com a imagem do peregrino, portanto.

É possível escolher ser mais peregrino na vida com os filhos do que turista, mesmo com as influências que sofremos. Para isso, entretanto, é preciso refletir e resistir a muitas pressões do mundo em que vivemos.

Escrito por Rosely Sayão às 13h38
 
 

Caso de polícia

Na semana passada, soubemos, por meio da imprensa, que uma garota de sete anos acabou na delegacia por causa de uma briga na escola que começou, parece, por causa de um doce. As notícias divulgadas afirmam que a garota agrediu educadores e até policiais que foram chamados pela própria escola para ajudar (?) a resolver a situação.

A mãe da menina disse que ela faz tratamento e que a escola está ciente da situação, mas não vou considerar essa informação porque muitas crianças dessa idade ainda podem se descontrolar fisicamente mesmo sem ter problema nenhum. E é bom lembrar que a criança, quando perde o controle ainda escasso e em desenvolvimento que tem sobre seu corpo, dificilmente consegue parar a crise de birra sem ajuda.

Não estamos sozinhos nessa atitude de colocar a criança como inteiramente responsável por suas atitudes. Na Inglaterra, uma garota de dois anos está sendo acusada por um vizinho de ter cometido atos de vandalismo. A polícia também foi chamada nesse caso e está investigando o fato de a menina ter batido com uma varinha no carro de propriedade do vizinho que a acusou.

Imagine, caro leitor, a cena: uma criança que vive num mundo habitado por fadas, bruxas e crianças com poderes mágicos -vale lembrar que Harry Potter tem origem britânica- decide usar uma varinha para transformar um carro em carruagem, veículo voador, abóbora ou coisa que o valha. E tudo o que consegue é ser empurrada violentamente para o mundo adulto: vai parar na polícia. No caso brasileiro, tudo o que a menina queria era um doce pelo qual resolveu batalhar com os recursos de que dispunha, mas o que conseguiu foi o mesmo que sua companheira britânica de infância: polícia.

Os adultos estão totalmente impotentes perante as travessuras, estratégias usadas para atender a impulsos e comportamentos desgovernados das crianças. Aliás, não só impotentes como também ausentes. Não havia um adulto por perto disposto a tirar a "varinha de condão" da mão da menina de dois anos ao perceber que, em vez de mágica, ela estava provocando estrago no carro do vizinho. Não havia, na escola que a garota de sete anos frequenta em Campinas (cidade em que ocorreu a história citada), um adulto capaz de conter fisicamente o descontrole corporal da garota de sete anos.

Muitos dizem que o Estatuto da Criança e do Adolescente é responsável pela omissão dos adultos perante comportamentos inadequados dos mais novos. Será que não sabemos mais intervir para conter uma criança sem usar violência, sem humilhar, sem desrespeitar sua dignidade? Será que não sabemos mais a diferença entre ação firme e ação violenta?

Vamos lembrar que a criança e o velho são os que precisam, em nosso país, da existência de estatutos que os defendam e garantam os seus direitos, o que não é bom sinal. Mas agora parece que, além de não defendermos nem respeitarmos por vontade própria nossas crianças, passamos a sentir medo delas. O que há de vir depois?

Escrito por Rosely Sayão às 10h18
 
 

Apressando a vida

O avião em que viajo finalmente pousa. Cautelosa, espero que a aeronave pare totalmente para relaxar por saber que cheguei sã e salva. Estou sentada numa poltrona do corredor e prefiro esperar as portas se abrirem para levantar. Não consigo: sou atropelada por um senhor, com terno de corte fino, que estava sentado ao lado da janela e tem pressa.

Ele nem sequer pede licença para passar ou espera que eu me levante: simplesmente passa por cima de minhas pernas. Aguardo um pouco e, quando a fila caminha em direção à saída, tento sair. Dura empreitada essa: ninguém está disposto a dar passagem porque isso significa chegar atrás, mais tarde. Segundos apenas, mas mais tarde. Encontro-me com quase todos os companheiros de viagem no ônibus que nos leva até o saguão do aeroporto e enfrento a mesma dificuldade para dele descer e chegar à esteira onde pegarei minha bagagem. Estão lá, os apressados, e vão esperar comigo a mala chegar.

A pressa tomou conta de nossas vidas. Corremos desde que acordamos. O banho é rápido -além de tudo, é preciso economizar água e energia-, o café da manhã é tomado com a leitura do jornal ou outra atividade qualquer, os filhos são empurrados para o carro e, com toda a velocidade, enfrentamos o trânsito emperrado para chegar ao nosso destino. É no trânsito, principalmente, que constatamos a pressa de quase todos: é difícil sair da garagem, já que poucos se dispõem a esperar alguns segundos para dar passagem. Passar de uma pista para outra é tarefa para piloto de Fórmula 1: poucos deixam ser ultrapassados.

As crianças percebem desde cedo a nossa correria e a adotam. Quando bebês, os primeiros passos são dados apressadamente para garantir um equilíbrio ainda em desenvolvimento. Daí em diante, é difícil ver crianças andando: correm sem motivo nenhum. E nós, em nossa pressa, achamos natural que corram dentro de casa, na escola, onde as levamos.

Incentivamos a corrida sem fim dos mais novos: queremos que aprendam tudo rapidamente e cedo, de preferência sem exigir muito de nossa parte para que não atrapalhem a nossa própria corrida. É no futuro deles que pensamos? A justificativa que assumimos foi essa. Mas, pensando bem, ela pode ser uma desculpa que construímos para adequar o papel educativo ao estilo de vida corrido que adotamos. Afinal, estimulando e empurrando os mais novos para essa corrida, tantas vezes desrespeitamos etapas de suas vidas, ritmos pessoais etc.

Aonde precisamos chegar com tanta pressa? Ao pensar nessas questões, ocorre-me o personagem do filme "Forrest Gump", que, em determinado momento de sua vida, decide correr. Ele simplesmente corre: sem motivo, sem destino.

Para que não façamos o mesmo, precisamos nos perguntar diariamente: "Por que estou correndo? Será que poderia realizar a mesma coisa com mais calma e melhor?". Desse modo, certamente poderíamos diminuir nosso alto grau de estresse, dedicar mais tempo aos filhos e, assim, ter uma vida melhor com e para eles.

Escrito por Rosely Sayão às 10h47